Desde que Michel Temer assumiu a presidência interinamente, a grande mídia vem especulando em torno da possibilidade do presidente em exercício se candidatar à reeleição em 2018. Conforme nossa reportagem em junho, Temer foi condenado em maio por violar a lei eleitoral e está impedido de se candidatar a qualquer cargo (incluindo a presidência da República) por oito anos.

Já em sua primeira grande entrevista no exercício do cargo, o programa Fantástico, da Rede Globo, não deixou o assunto da candidatura passar em branco e Temer, que parecia inicialmente deixar em aberto a possibilidade da candidatura, logo concluiu de forma assertiva. “Não é a minha intenção [ser candidato]. Aliás, não é a minha intenção, e é a minha negativa. Eu estou negando a possibilidade de uma eventual reeleição”.

Nos dois meses que se seguiram, em diversas menções à possível candidatura de Temer, a grande mídia negligenciou um dado crucial: a condenação na Justiça Eleitoral que decretou a inelegibilidade do interino por oito anos bastaria para que as especulações em torno da candidatura fossem consideradas impróprias, não fosse o profundo desejo da grande mídia de ver a reeleição concretizada.

A Lei Ficha Limpa, que hoje impede Temer de concorrer à reeleição, faz parte da trajetória do então presidente da Câmara desde 2009, quando apoiou e encaminhou para votação na casa o projeto que alterou a legislação anteriormente conhecida como Lei da Inelegibilidade. Em seu canal no YouTube, Temer falou em 2010 da “felicidade em fazer tramitar e aprovar o Projeto Lei do Ficha Limpa”, do qual se diz o “grande patrocinador”:

No último fim de semana, a possibilidade da candidatura de Temer foi ressuscitada, desta vez pelo novo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, em entrevista ao Estado de S.P. De acordo com o jornal, Maia haveria lançado Temer como candidato.

Em um artigo de linguagem predominantemente positiva e esperançosa com relação ao futuro de Temer, o jornal contou a “previsão ou premonição de Maia” que “Lula e Temer podem disputar segundo turno”, mas “Temer vencerá”. Maia também advertiu que “Temer será o candidato do nosso campo quer queira quer não”. Restou ao leitor determinar se “quer queira Temer” ou “quer queira o leitor”.

A Folha de S.P. ecoou a narrativa de esperança sem questionar a viabilidade do projeto.

O coro da grande imprensa continuou mesmo após o interino se mostrar humildemente “honrado com a lembrança” de Maia em nota oficial. Mas deixou claro: “Não cogito disputar a reeleição”. Os grandes jornais do país seguiram a deixa e refletiram em suas reportagens a “escolha” do presidente em exercício por não concorrer ao Planalto em 2018.

Os colunistas do Jornal O Globo não se conformaram com a negativa do presidente interino e continuaram a ignorar a decisão da Justiça Eleitoral pela impossibilidade da candidatura.

Inacio Vieira

Por três dias inteiros, após a sugestiva entrevista de Rodrigo Maia, seguiram-se as especulações a respeito das intenções do interino, sem nenhuma menção à condenação por doações acima do limite legal na campanha eleitoral de 2014 que o tornaram inelegível até 2024.

Depois de dezenas de machetes e capas especulativas, o promotor do Ministério Público de São Paulo, José Carlos Bonilha, chamou a atenção para a inelegibilidade de Temer na quarta-feira. A jornalista Mônica Bergamo da Folha de S.P. informou na sexta que o Ministério Público pretende impugnar a candidatura caso venha a se concretizar. Ao contrário do que alegaram blogs de direita, Temer não se tornaria elegível após pagamento da multa pela condenação, esclareceu o promotor em entrevista para o Jornal O Globo essa semana:

“É necessário esclarecer que o pagamento da multa não afasta a inelegibilidade. E também é preciso ser dito que não depende da vontade dele ser ou não candidato. A inelegibilidade dele é uma consequência legal e não cabe a ele ou qualquer aliado decidir sobre isso. Esta é uma decisão que foi tomada pela Justiça Eleitoral.”

É difícil imaginar uma prova mais contundente da parcialidade da mídia dominante do que a promoção da candidatura de Temer por meses sem mencionar tamanho impedimento legal.