Desde que Michel Temer assumiu a presidência interinamente, a grande mídia vem especulando em torno da possibilidade do presidente em exercício se candidatar à reeleição em 2018. Conforme nossa reportagem em junho, Temer foi condenado em maio por violar a lei eleitoral e está impedido de se candidatar a qualquer cargo (incluindo a presidência da República) por oito anos.
O Presidente interino foi condenado pelo tribunal ontem e se tornou inelegível por 8 anos. Não é estranho que a mídia n?o reporte isso?
— Glenn Greenwald (@ggreenwald) June 3, 2016
Já em sua primeira grande entrevista no exercício do cargo, o programa Fantástico, da Rede Globo, não deixou o assunto da candidatura passar em branco e Temer, que parecia inicialmente deixar em aberto a possibilidade da candidatura, logo concluiu de forma assertiva. “Não é a minha intenção [ser candidato]. Aliás, não é a minha intenção, e é a minha negativa. Eu estou negando a possibilidade de uma eventual reeleição”.
Nos dois meses que se seguiram, em diversas menções à possível candidatura de Temer, a grande mídia negligenciou um dado crucial: a condenação na Justiça Eleitoral que decretou a inelegibilidade do interino por oito anos bastaria para que as especulações em torno da candidatura fossem consideradas impróprias, não fosse o profundo desejo da grande mídia de ver a reeleição concretizada.
A Lei Ficha Limpa, que hoje impede Temer de concorrer à reeleição, faz parte da trajetória do então presidente da Câmara desde 2009, quando apoiou e encaminhou para votação na casa o projeto que alterou a legislação anteriormente conhecida como Lei da Inelegibilidade. Em seu canal no YouTube, Temer falou em 2010 da “felicidade em fazer tramitar e aprovar o Projeto Lei do Ficha Limpa”, do qual se diz o “grande patrocinador”:
No último fim de semana, a possibilidade da candidatura de Temer foi ressuscitada, desta vez pelo novo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, em entrevista ao Estado de S.P. De acordo com o jornal, Maia haveria lançado Temer como candidato.
Em um artigo de linguagem predominantemente positiva e esperançosa com relação ao futuro de Temer, o jornal contou a “previsão ou premonição de Maia” que “Lula e Temer podem disputar segundo turno”, mas “Temer vencerá”. Maia também advertiu que “Temer será o candidato do nosso campo quer queira quer não”. Restou ao leitor determinar se “quer queira Temer” ou “quer queira o leitor”.
A Folha de S.P. ecoou a narrativa de esperança sem questionar a viabilidade do projeto.
Os colunistas do Jornal O Globo não se conformaram com a negativa do presidente interino e continuaram a ignorar a decisão da Justiça Eleitoral pela impossibilidade da candidatura.
Por três dias inteiros, após a sugestiva entrevista de Rodrigo Maia, seguiram-se as especulações a respeito das intenções do interino, sem nenhuma menção à condenação por doações acima do limite legal na campanha eleitoral de 2014 que o tornaram inelegível até 2024.
Depois de dezenas de machetes e capas especulativas, o promotor do Ministério Público de São Paulo, José Carlos Bonilha, chamou a atenção para a inelegibilidade de Temer na quarta-feira. A jornalista Mônica Bergamo da Folha de S.P. informou na sexta que o Ministério Público pretende impugnar a candidatura caso venha a se concretizar. Ao contrário do que alegaram blogs de direita, Temer não se tornaria elegível após pagamento da multa pela condenação, esclareceu o promotor em entrevista para o Jornal O Globo essa semana:
“É necessário esclarecer que o pagamento da multa não afasta a inelegibilidade. E também é preciso ser dito que não depende da vontade dele ser ou não candidato. A inelegibilidade dele é uma consequência legal e não cabe a ele ou qualquer aliado decidir sobre isso. Esta é uma decisão que foi tomada pela Justiça Eleitoral.”
É difícil imaginar uma prova mais contundente da parcialidade da mídia dominante do que a promoção da candidatura de Temer por meses sem mencionar tamanho impedimento legal.
Obrigado, amigos, pelo exemplo de jornalismo desassombrado, fidedigno e independente. No Brasil, como vocês bem têm constatado, o dogma da “imprensa livre” é mitológico. Não há possibilidade de imprensa livre ou democrática quando apenas cinco ou seis famílias abastadas, profundamente comprometidas com os interesses mais anacrônicos, mais reacionários, detêm o controle oligopolizado do grandes veículos de comunicação.
Obrigada pelo primoroso trabalho jornalístico! A situação de oligopólio midiático do país estraga qualquer chance de debate político democrático, são, produtivo e socialmente transformador. Parabéns pela iniciativa!
Parabéns, Greenwald e toda a equipe do The Intercept!
Um trabalho excelente e muito importante num país onde a maioria das pessoas não percebem que estão sendo massa de manobra da grande mídia. Precisamos de Jornalistas com compromisso com a verdade. Os Jornalistas são os Olhos da Sociedade. Eles não podem estar comprometidos com o sistema político.
Um país decente não pode ficar com a mídia concentada nas mãos de 11 famílias…só midiota e PT para acreditar que seus veículos são imparciais e não são compromissados com a plutocracia.
Midiota porque é analfa político e bota camisa da CBF para protestar contra a corrupção e o PT que injetou milhões em publicidade no PIG(medo ou burrice?)e não teve coragem de lutar pela democratização da mídia.
O PIG manda e desmanda por aqui…o judiciário megalomaníaco brasileiro que o diga! De golpe em golpe…vivemos o BraZil!
Parabéns ao intercept em português!
Diante o país do surrealismo jornalístico, eis uma notícia realmente boa!
O protagonismo da Mídia Golpista, encabeçada pela Globo, no Golpe é uma coisa ostensiva, eles não se preocupam, conduzem a manada de alienados criticando e induzindo culpa aos governos progressistas, criando um clima de guerra na população, fazendo com que pessoas despolitizadas adotem posturas fascistas.
A estrategia para o grande publico e simples: algumas pinceladas sobre o assunto ignorando o que supostamente deve ser ignorado leva a duvida por parte do grande publico. A reiteracao da suposta informacao faz esquecer a duvida e naturaliza uma entao nova e conveniente verdade. Como dizia o magnata Roberto Marinho, dono do imperio midiatico da Globo: a Globo e o que e mais pelo que nao diz do que pelo que diz. Ele esqueceu de dizer o que e a Globo: por mais de 50 anos a maior fonte educadora do povo brasileiro, tendo conseguido atingir o objetivo de formar uma populacao totalmente desinformada, com valores consumistas e moral duvidosa, e absolutamente analfabeta em historia, geopolitica e arte. So isso! (desculpe-me que este computador tenha engolido os acentos)
Ótima matéria.
Mas não é “grande imprensa”. É “imprensa privada”.
O autor do post deve levar em conta que aqui a lei é um mero instrumento de exercer o poder. Se há um empecilho, cria-se uma lei que o retire. Se a lei é o empecilho, ela é revogada. A mídia local sabe disso. Por isso, não se refere a ela como obstáculo a uma possível candidatura de Temer. O autor do post deve se lembrar que FHC mudou a constituição para poder de recandidatar. Muito obrigado por lançar The Intercept em português. Bom jornalismo é artigo em falta no Brasil.
Eu confesso que fiquei bem confuso quando vi diversos veículos noticiando isso, ficava pensando comigo mesmo “gente, mas ele não está inelegível?”
Está.
Mas estará?????
Seria como eu postar na timeline de alguma rede social minha: “não pretendo ser piloto da Mclaren na F1 na temporada 2017.” Sendo que no meu caso, embora eu não pilote um bólido como os da categoria, não há nenhuma decisão jurídica me impedindo.
A única parte boa, se é que se pode escrever essa palavra e o nome do interino e golpista numa mesma frase, é a escolha das fotos que estampam as matérias com o Temer. São, realmente, temerosas.
Não seria de se duvidar a possibilidade de ser revogada a lei, permitindo assim a candidatura do Temer à reeleição, se não fosse o fato de o PSDB já ter dado o recado de que ele não deve sequer pensar no assunto.
Talvez uma jantinha com um ministro do STF resolva o caso…
Chega a ser assustador o filtro que a grande mídia passa por determinados assuntos e ignorando completamente uma decisão judicial. Ou mesmo dando todos os detalhes da condenação do atual presidente. Triste a parcialidade que toma conta da imprensa brasileira. Muito feliz e apoiando a chegada do The intercept ao cenário brasileiro. Já se tornou meu veículo de imrensa favorito.
Sinto-me representada por esse digno Jornal. Obrigada por nos trazer a esperança por informações transparentes!