No feriado municipal nesta sexta-feira (05), decretado por causa da abertura das Olimpíadas, enquanto alguns brasileiros se arrumavam para a festa, outros iam às ruas para manifestar revolta em relação à forma como o evento foi produzido. Entre diversas bandeiras e grupos, algo em comum nos discursos: a sequência de megaeventos recebidos pelo Rio, coroada pelas Olimpíadas, afetou a cidade, mas não da melhor forma. Não por acaso, várias faixas diziam “Jogos da Exclusão”, e panfletos foram distribuídos com um mapa do Rio onde se pode ver, por exemplo, onde aconteceram remoções de moradores e os pontos de alta concentração de força militar.

As manifestações aconteceram em dois pontos: a praia de Copacabana, na Zona Sul, que será palco de competições olímpicas; e na Tijuca, nas proximidades do estádio Maracanã, Zona Norte da cidade, onde foi realizada a cerimônia de abertura. Mas até mesmo outros estados tiveram casos de manifestação  popular, como um ato na Avenida Paulista, em São Paulo, que acabou em repressão policial.

The Intercept Brasil acompanhou a manifestação que se concentrou na Praça Saens Peña, na Tijuca. Entre os manifestantes, havia estudantes, famílias, representantes de Organizações Não Governamentais (ONGs) e artistas fazendo intervenções teatrais ou musicais para atrair as pessoas que passavam para o debate.

Dois eventos distintos foram marcados no Facebook para acontecer no local ao mesmo tempo, um por “Black Bloc Verdade Rj” e “Poder Do Povo” chamado “Ato contra as olimpíadas – Apagar a Tocha Saens Pena-Tijuca” e outro por “Rio 2016 – Os Jogos da Exclusão”, com uma presença confirmada combinada em torno de 3.800 pessoas. Não há estimativa oficial de quantos manifestantes estiveram presentes.

Desde o início, uma ação de intimidação policial era percebida. Pouco mais de 30 minutos após o horário marcado para a concentração (14h) cordões de agentes foram formados, circulando o perímetro e passando entre as pessoas no meio da praça. Eles escolhiam alguns manifestantes para serem revistados, faziam um círculo em torno da pessoa enquanto outros militares realizavam a abordagem sem que os demais presentes conseguissem ver o que acontecia dentro da roda formada. A chegada do alto contingente de membros das forças de segurança criou um clima de tensão.

A repressão policial é justamente uma das reclamações dos manifestantes. “O estado do Rio de Janeiro está quebrado e ao mesmo tempo tem dinheiro para gastar nas olimpíadas. Não tem dinheiro para pagar salário de professor, mas tem dinheiro para pagar a repressão olímpica” se queixa Mario Campagnani, membro do comitê organizador da manifestação “Rio 2016 – Os Jogos da Exclusão”, que realizou outros eventos nos últimos seis dias. Entre as bandeiras levantadas, Mario ressalta questões relativas ao transporte público.

“Existe a quebra financeira do estado, mas também temos de ver a forma como se gasta o dinheiro. Temos uma linha 4 do metrô que está sendo inaugurada enquanto o transporte público no geral está em colapso. Tem uma máfia dos sistemas de ônibus que controla o transporte do Rio de Janeiro. A gente tem um serviço de trem e de metrô que estão em nome de empresas privadas, que não estão interessadas em prestar um bom serviço, mas sim em lucrar em cima do trabalhador”.

Entre as denúncias de abusos nos sistemas de trem e metrô, há inclusive agressões aos passageiros.

Outras pautas apresentadas foram as remoções de mais de 70 mil pessoas e a falta de compromissos com promessas olímpicas, como a despoluição da Baía de Guanabara e a inclusão de projetos de moradia popular na região do Porto. A professora da Universidade Federal Fluminense, Rita Montezuma, de 51 anos, também lembrou que algumas pessoas não foram expulsas de suas casas por remoções diretas, mas pela supervalorização de determinadas áreas:

“Veja a Praça Mauá. O que é esse grande, hoje chamado, boulevard? É um lugar que não precisava ser revitalizado, precisava ser infraestruturado para seus moradores. E isso não foi feito. Tive a oportunidade, como professora, de conversar com vários moradores. Hoje, aquela parte da cidade está voltada para receber os turistas, sobretudo turistas externos. Então quem já estava lá, suas casas estão virando hostel, bares de rede, restaurantes… E o morador? Esse precisa ser deslocado, perder suas relações de vizinhança, suas relações pessoais, sua história, para poder sobreviver em outra área. Isso é criminoso, na minha opinião. Esse prefeito é criminoso”.

Quando a manifestação chegou à altura da Rua Carmela Dutra, pouco mais de quatro quadras depois de seu ponto de partida, helicópteros sobrevoaram o grupo e guardas montados bloquearam o caminho fechando a rua Conde de Bonfim, uma avenida larga por onde os manifestantes caminhavam. Após muita negociação, voltou-se a seguir o trajeto que havia sido combinado com os próprios agentes de segurança: seguindo pela rua Conde de Bonfim até a Praça Afonso Pena, que fica a pouco mais de 1km de distância do Maracanã.

A guarda montada abriu caminho, e um grupo pequeno disparou em corrida, se dispersando. Muitas pessoas, com medo da correria, entraram nas lojas mais próximas. Parte dos policiais correram para dentro de uma padaria, revirando, danificando o patrimônio dos comerciantes e machucando as pessoas que tinham entrado ali em busca de abrigo. Os policiais saíram do local segurando um menor de idade, que foi apreendido.

Após o incidente, os manifestantes retornaram para a rua e continuaram a caminhada até a Praça Afonso Pena. Uma parte deles se dispersou, e os organizadores comemoraram que, apesar das complicações, o evento aconteceu de forma mais pacífica que nas manifestações dos anos anteriores. “Conseguimos o que queríamos”, comemorou Campagnani.

Outros manifestantes continuaram o protesto com faixas e gritando palavras de ordem. Algumas pessoas  se dirigiram até o mastro no centro do espaço, arrancaram a bandeira do Brasil e a queimaram. Enrolaram o que sobrou na ponta de um cilindro de papelão, simulando uma tocha.

Vídeo: Thiago Dezan

Quatro manifestantes correram para fazer uma “volta olímpica” com a tocha. A polícia respondeu soltando bombas de gás e spray de pimenta. A praça, que é um local de lazer, estava cheia de famílias e crianças brincando, todos tiveram que correr para fugir do gás. Duas pessoas precisaram de atendimento dos paramédicos pelo efeito dos químicos no ar.

Uma moradora da região entrou em contato com The Intercept Brasil para denunciar os abusos policiais. “Escutamos estouros e vimos pela janela que soltaram bombas de efeito moral, com muita fumaça na praça. Pouco depois uma correria e gritaria, fui pra sacada e testemunhei três policiais de preto, capacete e cacetete espancando um indivíduo covardemente”, relatou por e-mail.

Os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos acontecerão no Rio de Janeiro até dia 18 de setembro e mais manifestações estão previstas ao longo desse período.

 

Foto acima: Mídia Ninja