Ontem, o Senador dos Estados Unidos, Bernie Sanders, denunciou duramente o impeachment da presidente do Brasil democraticamente eleita. Com a aproximação da votação final no Senado Federal no fim deste mês, Sanders explicou sua posição em uma nota publicada em sua página no site do Senado americano (versão na íntegra em português) “fazendo um apelo para que Estados Unidos tomem uma posição definitiva contra os esforços pela remoção da presidente do Brasil, Dilma Rousseff, de seu cargo”. Ele acrescentou: “Para muitos brasileiros e observadores, o controverso processo de impeachment se assemelha a um golpe de estado.”

Manchete: Sanders condena tentativa de remover a Presidente democraticamente eleita do Brasil

Sanders também criticou a coalizão não eleita de centro-direita que, sob o comando de Michel Temer, tomou o poder depois do afastamento de Dilma, e que agora tenta se consolidar no governo até 2018. “Após suspender a primeira mulher presidente do Brasil por motivos duvidosos, sem mandato para governar, o novo governo interino extinguiu o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos” e “substituiu uma administração diversa e representativa por um gabinete constituído apenas por homens brancos”. Agora, a coalizão tenta implementar políticas radicais que podem nunca chegar a ser democraticamente ratificadas, como “impor medidas de austeridade, aumentar a privatização e implementar uma agenda social de extrema direita”.

A declaração de Sanders chega em um momento em que as elites do país, praticamente unificadas em favor do impeachment de Dilma, tomaram medidas extraordinárias (além de fúteis e risíveis) para omitir a impopularidade de Temer. No mês passado, a Folha de São Paulo foi pega fabricando dados de pesquisa alegando que 50% dos brasileiros eram favoráveis a permanência de Temer, quando, na verdade, a pesquisa mostrava que uma ampla maioria (62%) queria a saída do interino e a realização de novas eleições. A Ombudsman da Folha criticou o jornal duramente. A mídia brasileira se empenhou por meses na promoção da candidatura de Temer em 2018 sem mencionar um fato fundamental: Temer havia sido condenado por um tribunal eleitoral e impedido de se candidatar por oito anos por ter violado a lei eleitoral. Porém, se viram forçados a mencionar o fato quando um promotor do Ministério Público de São Paulo chamou atenção para a inelegibilidade do interino em resposta a uma nova empreitada da mídia visando a candidatura de Temer.

O próprio Temer, temendo vaias, exigiu a quebra do protocolo para que não tivesse seu nome anunciado na cerimônia de abertura das Olimpíadas. Mas foi em vão: o interino foi vaiado intensamente quando o público se deu conta de sua presença. Portadores de ingresso pacíficos foram sistematicamente, e por vezes à força, removidos dos estádios olímpicos por soldados brasileiros por portarem cartazes com a inscrição “Fora Temer”, criando uma controvérsia internacional. Assistir ao uso de força militar para silenciar cidadãos criticando um presidente não eleito é uma imagem chocante, visto que o país sofreu por 21 anos uma ditadura militar durou até 1985. (Ontem à noite, um juiz determinou que as remoções violam a garantia constitucional de liberdade de expressão.)

Manchete: Temeroso: a covarde omissão na cerimônia de abertura das Olimpíadas no Brasil. Com medo de ser vaiado na frente de todo o mundo, o presidente interino do Brasil – que formou um governo formado por homens brancos – se esquivou de ser anunciado.
A denúncia de Sanders sobre Temer não poderia vir em pior momento para o aspirante à presidente. Executivos da empreiteira Odebrecht, no centro do escândalo da Petrobras, informaram a investigadores nesta semana que o Ministro das Relações Exteriores de Temer, José Serra, recebeu R$ 23 milhões em doações ilegais para sua campanha presidencial em 2010. Em apenas dois meses na presidência, três ministros de Temer foram forçados a pedir demissão devido a escândalos de corrupção. E como se não bastasse, conforme contou o New York Times ontem, os executivos da Odebrecht também “disseram aos investigadores que o [próprio] Sr. Temer pediu mais de US$ 3 milhões para seu partido de centro, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro. Os executivos da Odebrecht disseram em seu acordo de delação premiada que o pagamento havia sido efetuado em dinheiro vivo através de um intermediário usado para repassar propinas, de acordo com a revista Veja”.

Fica um pouco difícil usar corrupção como justificativa para o afastamento de uma presidente democraticamente eleita quando escândalos de corrupção muito mais graves assolam a pessoa que pretende substituí-la, e seus associados mais próximos. Mas esse sempre foi o aspecto mais absurdo desse processo antidemocrático. Conforme escreveu ontem Franklin Foer na Slate em um longo artigo sobre o Brasil: “O impeachment de Dilma foi uma farsa, tão somente porque os que a acusaram se beneficiaram de um incentivo em uma escala inimaginável, criando um espetáculo capaz de desviar as atenções de seus próprios delitos”.


A denúncia de Sanders sobre o ataque à democracia brasileira é parte de um crescente reconhecimento internacional da ilegitimidade do governo Temer. Há apenas duas semanas, “40 membros democratas do Congresso dos Estados Unidos publicaram uma carta expressando uma “profunda preocupação” sobre a ameaça à democracia brasileira”. Também foram publicadas denúncias semelhantes ao impeachment de Dilma por Jeremy Corbyn, líder do partido dos trabalhadores britânicos, por membros do parlamento e líderes sindicais britânicos, pela Organização dos Estados Americanos (OAS), por dezenas de membros do Parlamento Europeu, e pelo primeiro brasileiro a vencer o Pulitzer Prize.  A reputação de Temer está tão desgastada que, de acordo com reportagem da Associated Press no mês passado, muitos chefes de Estado estão evitando as Olimpíadas do Rio para evitar o dilema sobre dever ou não apertar a mão do interino.

A pergunta levantada em resposta à nota de Sanders diz respeito à escolha da data de publicação: por que, depois de meses de silêncio sobre a crise política no Brasil, o democrata finalmente se manifestou sobre o assunto? Uma das falhas mais graves de sua candidatura foi quase não ter tratado de política internacional, apesar de sua principal oponente ser uma defensora de guerras e uma militarista que (muito antes do surgimento de Trump) atraía o apoio de neoconservadores. Era um candidato insistente em sua mensagem. Foram feitas solicitações para que Sanders falasse sobre o Brasil durante as primárias, mas foram rejeitadas ou ignoradas.

Quando Sanders acabou por falar sobre política externa, foi para fazer críticas brandas, enquanto endossava muitos dos argumentos da guerra bipartidária contra o terror. Com respeitáveis exceções: algumas de suas declarações sobre Israel e Palestina estiveram entre as melhores vindas de qualquer dos candidatos de grandes partidos em décadas; e sua recusa em alterar algumas de suas posições mais controversas dos anos 80, quando confrontado com tentativas de acusações de comunismo. Mas de forma geral, Sanders evitou dar opiniões sobre política externa que pudessem ser taxadas de esquerdistas ou alternativas.

Com o fim de sua campanha presidencial, o Senador pode falar livremente de uma forma que não seria necessariamente bem vista politicamente pela base do Partido Democrata. Alguns de seus mais importantes apoiadores têm sido firmes na oposição ao  impeachment de Dilma. Independentemente da explicação a respeito do momento da declaração, a nota de Sanders é firme e inequívoca. Talvez o aspecto mais importante de sua declaração seja seu pedido que o Governo dos EUA “exija que a disputa seja resolvida com eleições democráticas”, a solução apoiada pela grande maioria dos brasileiros como resolução para a crise política, mas que as elites antidemocráticas do país, temerosas de quem seria eleito, rejeitam vigorosamente.

Tradução por Inacio Vieira