Como vocês já devem estar carecas de saber, há uma lorota sendo contada por aí de que “as instituições no Brasil estão funcionando normalmente”. Os três poderes estariam atuando de forma separada, independente, equilibrada, como manda o script democrático. Nada mais duvidoso. Basta uma breve checada na agenda de Gilmar Mendes, ministro do STF e presidente do TSE, para atestar a promiscuidade com que os poderes estão se relacionando.
A sobriedade, a discrição e o decoro que se esperam de um juiz da mais alta corte do país são características que passam longe da figura de Gilmar. Nem neste momento em que o país vive a sua maior crise política, Vossa Excelência se recusa a abandonar o seu jeitão especial de ser. Há 14 anos, ele vem descumprindo requisitos básicos para um magistrado dessa envergadura: fala fora dos autos, protagoniza bate-bocas públicos e confraterniza com amigos que serão julgados por ele. Essa afronta ao Estado Democrático de Direito tem sido tão recorrente, que já foi naturalizada pelo noticiário e nem causa mais espanto.
Convido vocês para darmos uma olhada na recente e agitada agenda político-partidária daquele que devia ser apenas um juiz:
O então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o ministro do STF, Gilmar Mendes, o presidente do Senado, Renan Calheiros e o ministro Joaquim Levy, durante o 1º Encontro Diálogos Estratégicos.
Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
Em março de 2015, o responsável pela maioria dos inquéritos da Lava Jato resolveu fazer uma visitinha fora da agenda a um dos investigados pela operação. Oficialmente, o objetivo era pedir “prioridade na votação de alguns projetos” ao então presidente da Câmara. Uma visita republicana, claro. Tão republicana que, depois que Gilmar saiu do gabinete, Renan Calheiros e Fernando Collor – também investigados na Lava Jato – entraram imediatamente. Coincidentemente, nos meses seguintes ao encontro, Mendes e Cunha atuaram em favor do financiamento privado de campanha num entrosamento sem igual. Em julho de 2015, ele voltou. Dessa vez, Paulinho da Força participou da reunião. Segundo a Folha apurou:
“O agravamento da crise foi discutido em detalhes. Os presentes fizeram uma primeira avaliação do cenário no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), onde a chapa de Dilma é investigada por suposto abuso de poder e financiamento irregular de campanha.”
Em março deste ano, às vésperas da votação do impeachment, Gilmar foi visto almoçando com dois nomes cotadíssimos para se tornarem ministros do governo Temer. O juiz defendeu a lisura do encontro:
“Eu não estou proibido de conversar com Serra, nem com Aécio, nem com pessoas do governo. Eu estava com meu filho e o professor Armínio Fraga tratando de assuntos acadêmicos, projetos de mestrado e coisas do tipo”.
No mesmo dia, logo após essa conversa informal sobre assuntos acadêmicos, Gilmar participaria do julgamento dos embargos do rito do impeachment. Esse encontro é quase um atestado da normalidade com que as instituições estão funcionando, não é mesmo?
Ministro Gilmar Mendes cumprimenta Senador Aécio Neves durante conferência em Lisboa, em 31 de março de 2016.
Foto: Armando Franca/AP
Ainda em março, Gilmar Mendes foi o organizador do evento, patrocinado pela FIESP – entidade que atuou fortemente em defesa do impeachment – , a CNI, o Sistema “S” do Rio de Janeiro e a estatal Itaipu Binacional. Quem participou do evento? Os amigos do peito de sempre, a tropa de elite do impeachment: Temer, Aécio, Serra, o presidente do TCU e Dias Toffoli.
Em 28 de maio, a visita, que não foi registrada nas agendas oficiais, aconteceu na semana da divulgação do diálogo entre Jucá e Machado, em que o STF é citado como possível participante de uma trama para tirar Dilma do poder e delimitar as investigações da Lava Jato. Mesmo diante de evidências tão escancaradas, Gilmar declarou não ver no diálogo uma tentativa de obstruir as investigações. Oficialmente, a visita foi para “discutir o orçamento do TSE”. Não temos dúvidas que sim. Ainda mais numa noite de sábado, quando bate aquela vontade louca de discutir orçamento.
Em junho, o presidente do STJ ofereceu um jantar em sua casa para o alto escalão dos três poderes. Participaram juízes e políticos que apoiaram o impeachment – inclusive alguns acusados de receber propinas em delações da Lava Jato, como Serra e Aécio Neves. Segundo a jornalista da Globo, Andreia Sadi, além de Gilmar e a dupla tucana, também foram convidados o ministro do STF Dias Tofolli, Zezé Perrella (o senador que é pai do dono do helicóptero da cocaína sem dono), Pedro Parente (presidente da Petrobrás), Alexandre de Moraes (ministro da Justiça) e Michel Temer.
No dia seguinte, aliados de Cunha começam a cogitar sua renúncia da presidência da Câmara. O objetivo seria evitar o plenário do STF e ser julgado pela 2ª casa, uma turma menor, composta por dois convidados do jantar: Gilmar e Toffoli. O cardápio não foi divulgado, mas o cheiro é de pizza.
Em 1º de agosto, foi a vez de Mendes abrir as portas do seu palacete para Blairo Maggi, bancada ruralista e Michel Temer. Oficialmente, o churrasco foi para comemorar a abertura do comércio de carne brasileira para o mercado americano, articulado entre os governos Dilma e Obama. Em declaração a O Globo, um dos senadores presentes deixou escapar um dos assuntos que rolaram na churrascada:
“O Michel (Temer) disse que iria falar com Renan e que ele tentasse com o Lewandowski antecipar a data (do julgamento final do impeachment). Achamos que os prazos terminariam dia 22 ou 23, e não 25. Ele acha que dá para votar dia 24”.
O a época senador José Sarney recebe o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, que entregou o plano de gestão para o funcionamento de varas criminais e de execução penal.
Foto: Jose Cruz/Agência Brasil
Curiosamente, a mesmíssima operação executada por partidos como PMDB, PSDB e DEM. Será que Gilmar irá tratar com isonomia os partidos dos seus companheiros? Se analisarmos suas declarações, o histórico de suas decisões e sua agenda recente, podemos ter certeza que não.
Em bate-boca histórico no STF, o ex-ministro Joaquim Barbosa fez uma afirmação com a qual muitos brasileiros devem concordar:
“Vossa Excelência está destruindo a Justiça desse país (…) Vossa Excelência está na mídia destruindo a credibilidade do judiciário brasileiro”.
Mas parece que se trata apenas de uma questão de opinião. Há quem acredite que as instituições estão funcionando maravilhosamente bem.
Parabéns ao jornalista João Filho, autor da matéria. Fico tão orgulhoso ao ver que ainda há, no nosso país tão castigado, jornalistas sérios. A matéria é esclarecedora e quem acompanha com atenção os fatos que ocorrem no país sabe que as instituições estão sendo usadas para legitimar o assalto ao poder.
Então me respondam uma coisa: Por que este cidadão ainda continua sendo “juíz”?
E Joaquim Barbosa não parou por aí, disse também ao Coroné Gilmar: “Vc não está falando com seus capangas”.
Precisa falar (e ver) mais??
https://www.youtube.com/watch?v=Z1yOqrD1BTs
Artigo irretocável! As instituições brasileiras estão podres, isso sim! O Legislativo avança sobre o Executivo num Golpe Parlamentar e o Judiciário convenientemente se acovarda, dando um verniz de legalidade em todo descalabro. Se a normalidade é isso que vemos hoje, anseio pelo dia que colocaremos tudo abaixo!
E, permita-me acrescentar, o tal ministério público avança sobre todos, almejando se tornar uma espécie de gestapo brasileira. Estamos caminhando para o desastre econômico e social.
Esse artigo serve para mim para conhecer a opinião do autor.
E opinião é assim, basta ter uma, não precisa estar certo.
Fatos concretos ? Opinião
“power resides where man believes it resides.”
nós legitimamos esse cara. pior, nos enganamos fingindo que esquecemos disso, como se não tivéssemos nada a ver com isso. preferimos nos ater ao alienante e estúpido embate de coxinhas versus petralhas. me pergunto se viverei o suficiente para ver o “gigante acordar” de fato.
Uma vergonha!
Sinceramente, que mau mau mendes seja este lixo e que toda a pústula político-golpista de Brasília a ele se aglutine para darem ares de legalidade a seus crimes não me admira em nada. O que me espanta, dá nojo, revolta é que estes fatos estão escancarados, só não vê quem não quer, ou melhor, quem acha que joguinho de seleção de futebol, big bother e novelas – dentre outros lixos – é mais importante do que os destinos da própria vida e de seus filhos. Chegamos à hora da verdade: ou criamos vergonha na cara e exterminamos sem dó estas ratazanas ou seremos devorados por elas. Está na hora de aprendermos que direitos são uma conquista, não são dados por quem manda. Ou somos homens e mulheres de raça e vamos prá cima deles tomar o que é nosso e limpar este chiqueiro e recomeçar do zero ou nunca mais teremos moral alguma para reclamar de seja lá o que for. Até que ponto esconderemos nossa covardia como povo atrás de falsos mitos do “bom e cortês” Brasileiro? Covardia tem nome e eu me envergonho dela. Não se faz uma omelete sem quebrar os ovos.
Que tristeza! Mas não podemos desanimar. Nossas vozes já estão se levantando. O mundo civilizado está conosco. As instituições internacionais , o Pacto de San Jose do qual o Brasil é signatário e os tribunais voltados para os direitos humanos são nossos aliados. Finalmente a mobilização popular e os trabalhadores organizados são as ferramentas básicas, que estarão sendo guiados pelo Espírito da Justiça para que a VERDADE seja Triunfante e o mal seja afastado.
Figuras como Gilmar Mentes são de extrema periculosidade para um sistema que se diz democrático. Planta semente de crises futuras.
Crises futuras? A crise que vivemos hoje é a maior desde o fim da ditadura, acho que o Gilmar já é um perigo que está destruindo a democracia. Ele é a verdadeira herança maldita do FHC.
Parabens…carlos… faço de suas palavra… a minha!!!falou tudo!!!
essa matéria não é impressionante? é impressionante a maneira que estão nos tratando como massa, nos tratam como animais, e parece que aceitamos. Por que se não aceitamos é por que estamos realmente indignados e precisamos mudar! ou não?
Gil Mar de Lama aposta no golpe para se perpetuar no poder. Brasil governado por uma gangue e as coxinhas congeladas.
Ah, sim as ‘instituições’ estão funcionando ‘maravilhosamente bem'; mas para as oligarquias plutocratas e cleptocratas, herdeiras da casa grande.
Nesta excelente reportagem não foram abordadas algumas decisões de gilmar mendes, como aquela em concedeu dois HCs a Daniel Dantas e outro a Roger Abdelmassih. gilmar mendes é aquilo que bem afirmou a destemida Eliana Calmon, quando presidia o CNJ: um bandido de toga.
Com tanta conversa mole, asneiras, cinismos e absurdos com a história de impeachment e, na real, esse “juiz” aí é que é caso completo e acabado para impítiman. Por que não cassam esse contraventor?
GM não é juiz, é político. Político da direita raivosa preocupado com seus privilégios!
Essa questão da atuação dele no TSE deve ser averiguada com mais cuidado. Gilmar subverte uma questão que já transitou em julgado. Observe já transitou em julgado e ele continua batendo na mesma tecla. Até agora ninguém fez reportagem sobre isso. Seria interessante se vocês investigassem, um prato cheio.
Tá faltando coragem entre os senadores para instaurarem o processo de impeachment contra este “coronel” logo de uma vez.
Está faltando coragem entre a gente.
como pessoas tão pequenas conseguem causar tanto estrago no mundo… deprimente..
Eles fazem isso pq a gente deixa.