A profunda impopularidade do Presidente Michel Temer, aliada à sua avidez por escondê-la, tem sido objeto de chacota internacional. Para evitar ser visto pelo mundo sendo vaiado por sua própria população, Temer violou um antigo protocolo olímpico e reivindicou que seu nome não fosse anunciado na cerimônia de abertura dos jogos. Foi em vão: assim que o público notou sua presença e o começo de seu discurso, o interino foi intensamente vaiado diante das câmeras de todo o mundo. Com medo de outra humilhação, Temer decidiu evitar completamente a cerimônia de encerramento, algo inédito para o chefe de uma nação-sede dos Jogos Olímpicos.
O presidente interino Michel Temer, antes de ser vaiado, assistindo à cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2016 no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, no último dia 5.
Foto: Kirill Kudryavtsev/AFP/Getty Images
A grande antipatia a Temer, que acabou de completar 100 dias à frente do governo, tem confirmação não apenas por conta da vergonha olímpica, mas também em face a provas empíricas. Durante todo o debate do impeachment, as pesquisas mostraram constantemente que uma grande maioria da população o rejeita e deseja, inclusive, seu impeachment. O escândalo ocorrido no mês passado, envolvendo o uso indevido dos dados do Datafolha pela Folha de S. Paulo, terminou com o jornal admitindo que 62% da população apoia a saída de Dilma e Temer, em favor de novas eleições. A impopularidade do mandato de Temer está fora de discussão.
Os motivos por trás das dificuldades políticas de Temer vão muito além da ideia de que falta legitimidade à sua presidência porque ele nunca foi (e nunca seria) eleito presidente de forma democrática. Os inúmeros escândalos éticos que o cercam — acusações de doações de campanha ilegais, a perda de três ministros envolvidos em corrupção, ser impedido de concorrer a eleições por oito anos por ser “ficha suja” — certamente são fatores importantes, mas não explicam a história toda.
Observadores da mídia e da política brasileira sugerem que Temer poderia superar os desafios de legitimidade (e os problemas de corrupção) que enfrenta se implementasse políticas de apelo popular amplo. Essa teoria tem base na crença de que a população, atormentada pelo caos político e o sofrimento econômico, aceitaria qualquer um que oferecesse um mínimo de prosperidade e estabilidade. Mas, acima de tudo, isso foi exatamente o que Temer não conseguiu fazer.
Em vez de buscar políticas e apoiar medidas que receberiam o respaldo popular, Temer se envolveu em uma série de deslizes constrangedores que levantaram dúvidas sobre seus atributos mais enaltecidos: o discernimento e a competência. Mas foi além: defendeu e começou a implementar políticas que a grande maioria da população não apoia, muitas vezes se opondo veementemente com base no mérito.
Temer não comparecerá à cerimônia de encerramento porque sabe que seria intensamente vaiado mais uma vez. As motivações dessas vaias são heterogêneas e incluem uma insatisfação generalizada com o momento econômico e a classe política desde o nível municipal. Essa repulsa popular antecede Temer – como demonstrado pelas vaias recebidas pela presidente afastada Dilma Rousseff na Copa das Confederações de 2013 e na Copa do Mundo de 2014. (Vale notar que muitos atletas Olímpicos também foram vaiados pela torcida este mês). Mas, sem dúvida, um fator influente é a população ter uma percepção extremamente negativa por conta das inúmeras medidas e políticas escolhidas por Temer. Para entender por que ele é tão impopular em todo o país — a ponto de quase não aparecer em público — é fundamental entender as políticas e escolhas responsáveis por isso:
Maratonista queniana Jemima Jelagat Sumgong corre em frente de manifestantes com cartazes de “Fora Temer” no Rio de Janeiro, dia 14 de agosto de 2016.
Foto: Johannes Eisele-Pool/Getty Images
A reforma é considerada um dos quatro pilares do governo interino. Temer já indicou que quer que os acordos negociados entre empregados e patrões tenham mais força do que a legislação. Outro ponto central envolve a liberação das terceirizações, defendidas pela Confederação Nacional das Industrias-CNI. Segundo o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, o projeto será enviado ao Congresso ainda em 2016. Em entrevista ao Brasil Econômico, ele explica que “não é reforma, é readequação à realidade”.
A medida proposta pelo governo envolve um congelamento de 20 anos no crescimento real das despesas da União. Até mesmo as obrigatórias, como aposentadoria, saúde e educação, que possuem investimento garantido pela Constituição, passam a ser menores com o ritmo de crescimento lento. Para colocar mais dinheiro em uma área, será preciso tirar de outra. A medida já foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara e deve ser votada até o fim do ano.
Um dos principais palanques de Temer, a reforma propõe aposentadoria com idade mínima de 70 anos para a futura geração, com regra única para todos os beneficiários. A reforma caminha para 2017. O governo, porém, já tornou mais rígida as regras para aposentadoria por invalidez e do auxílio doença. A ideia é cancelar pelo menos 30% dos benefícios.
A previsão orçamentária para 2017 apresenta um panorama desanimador para as universidades federais: os cortes em investimentos chegam a 45%, e os custos foram reduzidos em 18% em comparação a 2016. As bolsas de iniciação cientíifica também serão afetadas, e o CNPq reduziu 20% das bolsas de iniciação científica para o próximo biênio. As inscrições para novas bolsas do programa Ciências Sem Fronteiras, programa de intercâmbio para estudantes brasileiros em instituições de ensino no exterior, também foram interrompidas.
Extinta no primeiro dia de governo Temer, a Controladoria-Geral da União foi incorporada ao recém-criado Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle. Funcionários da CGU afirmam que a mudança aprofunda uma tendência de perda de autonomia para investigar casos de corrupção dentro do governo e têm feito campanha para que o órgão volte a se chamar CGU.
Temer extinguiu o Ministério do Desenvolvimento Agrário, responsável pelas ações relativas à agricultura familiar e ao processo de reforma agrária. Transferiu as atribuições da pasta para a Casa Civil, e os cargos foram entregues para o controle do deputado Paulinho da Força. Mais recentemente, diante de reclamações do próprio Paulinho, que quer mais visibilidade para a pasta, Temer decidiu que irá recriar o ministério após a conclusão do processo de impeachment.
Uma das ideias mais polêmicas do governo interino é abrir os campos do pré-sal para serem operados por empresas estrangeiras, quebrando o monopólio da Petrobras sobre as operações. A proposta, que é do agora ministro José Serra, já foi aprovada no Senado e está em vias de ser votada na Câmara. Além disso, também existe a ideia da liberação da venda de terras para empresas controladas por capital estrangeiro. A medida tem amplo apoio entre os ruralistas e faz parte do pacote de estímulos econômicos do presidente interino. O projeto nesse sentido está pronto para ser votado no plenário da Câmara.
Complexo habitacional da programa Minha Casa, Minha Vida no Rio de Janeiro, dia 28 de junho de 2014.
Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP/Getty Images
Uma das primeiras medidas do novo ministro das Cidades, Bruno Araújo (PSDB-PE), foi revogar portarias que previam a construção de novas unidades habitacionais pelo programa MCMV , considerada prioritária por movimentos pró-moradia. Com a pressão dos movimentos sociais, o ministro voltou atrás. No entanto, o programa sofre alguma alterações com a não necessidade de cadastro no Ministério da Cidade e a restrição de subsídio.
Com José Serra no comando do Itamaraty, o tom e o viés da política externa brasileira mudaram, passando a ter uma postura agressiva e constrangedora. O alvo central da ojeriza de Serra até aqui tem sido a Venezuela. Nesta semana, veio a público a tentativa de ‘comprar’ o apoio do Uruguai para impedir que os venezuelanos assumam a presidência rotativa do Mercosul, abrindo a potencial primeira crise diplomática do Brasil sob Michel Temer. Serra ainda tem a intenção de fechar diversas embaixadas brasileiras, especialmente na África e no Caribe.
(Da direita para a esquerda) Presidentes Evo Morales, da Bolívia; Jose Mujica, do Uruguai; Dilma Rousseff, do Brasil; Cristina Kirchner, da Argentina, e Rafael Correa, do Equador, posam para a foto oficial dos chefes de Estado do Mercosul no Palácio do Itamaraty em Brasília, em dezembro de 2012.
Foto: Pedro Ladeira/AFP/Getty Images
A equipe de Temer avalia que as concessões de infraestrutura durante o governo Dilma Rousseff não decolaram porque o retorno oferecido aos investidores era baixo. Um retorno de pelo menos 10,6% já é garantido em certas áreas, mas os ministros agora já falam em aumento da taxa de retorno que os vencedores de leilões terão com a operação dos empreendimentos.
Como bem observou o Kleber, o atalho para a primeira notícia (a chacota internacional) está quebrado – falta um “l” no final da URL. Favor corrigir.
Obrigado. Corrigi.
Caros autores, parabéns pelo artigo! Só faltou escrever sobre a desestruturação do programa Mais Médicos. O governo e o congresso não têm demonstrado nenhum interesse em transformar a medida provisória que trata da matéria em lei.
Onde anda a Lava Jato que não manda prender o Lula pelo lobby da olimpíada? Não fora ele, jamais o Brasil teria realizado os jogos no Rio. Lula fez lobby pesado em cima de chefes de estado, do COI de vários importantes atletas e de empresas para que os jogos viessem para o Brasil, Lula conseguiu o impensável, tirar os Estados Unidos da disputa. Agora que os jogos foram um sucesso aqueles que deveriam lembrar o nome de Lula e Dilma simplesmente os esquecem. Não é mesmo Nuzman safado?
Ministro Abe do Japão fez propaganda ou lobby explicito (como queiram) da Nintendo. Lá os japoneses agradecem. Aqui, Lula faz lobby pró Odebrecht e os caras querem prende-lo.
Abutres no poder.
Falta uma letra “l” ao final do primeiro link, de forma que ele se torne “http://…ceremony-whitewash.html” ao invés do jeito que está agora (“http://…ceremony-whitewash.htm”), quebrado.
Estas são políticas que o povo brasileiro vem derrotando nas urnas desde 2002. Mas o poder econômico que políticos do DEM, do PMDB e do PSDB representam, junto com uma grande mídia vendida e um judiciário ideologicamente alinhado com o mercado derrotaram a democracia para impô-las goela abaixo do país.
Não temos a quem recorrer pacificamente.
Concordo plenamente com o artigo, mas também concordo em gênero, número e grau com o que diz o comentarista João de Paiva. Esperamos que o Intercept divulgue mais informações a respeito do que acontece no Brasil, pois as razões são ainda muito mais profundas que o exposto neste artigo. Boa sorte!
A Russia today está especulando se houve um atentado contra Assange.
https://www.rt.com/news/356697-man-climbs-ecuadorian-embassy-assange/
Ué.. não tiraram a Dilma que era o monstro, a coisa ruim e coisa e tal.. pra colocar esse ai?? Tão reclamando de que cambada? Agora aguenta! Bando de jegue!!
FORA TEMER GOLPISTA!!!
Muitos líderes iria tirar proveito dos Jogos Olímpicos para se dar mais publicidade. Mas a modéstia do Sr. Temer faz-lhe crédito. Os Jogos Olímpicos devem ser de cerca de atletas, não políticos.
Sim, o motivo pode ser para evitar ser vaiado. Mas ele ainda merece ser julgado por suas ações, e não seus motivos.
Não se está falando dos Jogos em si, mas da Cerimônia de Encerramento, um evento que tem sim, a participação de políticos e dirigentes, desde que estes não sejam frouxos e temam a vaia de seu próprio povo.
Galera, percebam a fina ironia do comentário. O cara não escolheu o nome “Benito Mussolini” para seu perfil à toa.
Ótimo artigo. Resume bem o estrago que esse traída está causando ao Brasil.
O Intercept Brasil precisa fazer uma reportagem aprofundada sobre a entrega do pré-sal (ainda por cima a preço de banana). Muita gente acha que o motivo primeiro do golpe foi justamente esse: tirar da Petrobras, ou seja, do povo brasileiro, essa imensa riqueza não renovável, a maior jazida de petróleo descoberta neste século.
Uma mensagem de Força, de Esperança, de Ânimo a todos àqueles que estão abatidos nesse momento de trevas pelo qual passa o Brasil. Compartilho esse vídeo de Bemvindo Sequeira, com gratidão e solidariedade.
“Não Desanime, a História Começa dia 29″
https://www.youtube.com/watch?v=HAZM7Nvic8I
Obrigado, Glenn Greenwald e toda sua equipe. Magnífico trabalho !!
Como pode um país com a grandeza do Brasil ter sob seu comendo um cara traidor, acusado por vários delitos, que não pode sequer colocar o nariz na rua.
Acabou a olimpíada vai começara pra valer o FOOOOOORA TEMER!
As quadrilhas oligárquicas, plutocráticas, cleptocratas e escravocratas no poder é o que vemos desde o dia 12 de maio de 2016. Essas quadrilhas políticas e empresariais já são bem conhecidas, tanto por parte da população brasileira como dos jornalistas. O que poucos têm a coragem de denunciar pùblicamente são as quadrilhas institucionais, compostas pelas instituições burocráticas brasileiras (PF, MP e PJ), cooptadas pela plutocracia nacional, mas sobretudo pelo alto comando internacional do golpe de Estado, que fica nos EUA.
O Intercept dispõe de mais informações e provas sobre esse alto comando do golpe do que outros veículos de comunicação. Basta explorar as espionagens feitas por agências estadunidenses, como a NSA, CIA e outras, sobretudo depois que a Petrobrás anunciou a descoberta do Pré-Sal. Fica a sugestão ao jornalista Glenn Greenwald e equipe de colaboradores: trazer ao conhecimento dos brasileiros toda a trama golpista engendrada por agências e departamentos de governo e de Estado dos EUA, para derrubar governos populares na América Latina. Não é coincidência que em Honduras e Paraguai tenham ocorrido golpes semelhantes ao que está em curso no Brasil. A crise na Venezuela não se deve apenas à incompetência de Hugo Chávez e seu sucessor. Glenn Greenwald e colaboradores estão desafiados a trazer à tona toda a verdade a esse submundo dos golpes e do alto comando.
Concordo plenamente. Como se diz na gíria, “o buraco é muito mais embaixo”.
De certo modo, o Nassif tem abordado esse assunto.
O problema dos opositores do governo PT, (que se opõem contra qualquer governo vá contra os interesses da plutocracia brasileira) é justamente esse, a incapacidade de apresentar candidatos elegíveis, mesmo com todo o aparato midiático a seu serviço.
Eles criam o inferno, mas não oferecem um caminho convincente para a saída dele.