Fotos e um vídeo da polícia francesa emitindo multas a mulheres muçulmanas por violação da nova regulamentação local de mais de dez cidades da Riviera francesa espalharam-se pelas redes sociais na quarta-feira (24), gerando indignação e piadas por parte dos críticos à lei – que impede o uso de roupas mais comedidas por considerá-lo uma ofensa aos “bons costumes e ao secularismo”.

O tribunal administrativo mais poderoso da França, o Conseil d’Etat, determinou, na sexta-feira (26), que as proibições eram ilegais, mas o dano à reputação da nação já estava feito.

“Vamos parar de fingir que a França é a terra da “liberdade” e da “igualdade” quando permite que algo assim aconteça”

Liberdade, igualdade, fraternidade”

“Uma ilustração do sudanês Khalid Albaih sobre a polêmica francesa”

“No meu mundo, quando homens armados fazem uma mulher se despir, isso é uma agressão seríssima, e não um valor secular.”

“Parem com o antiburquini: nova foto de mulher com véu sendo multada em Nice”

“Senhora, preciso pedir que retire suas rou…” “Ah, não têm problema, eu a confundi com outra pessoa”

“É como as 95 teses de Martinho Lutero. Tão corajoso. Postado em todas as praias.”

Mas as mesmas imagens foram recebidas com satisfação pelos extremistas que defendem que muçulmanos praticantes não têm lugar nos países europeus. Uma série de fotos publicadas pelo Daily Mail — mostrando policiais armados abordando uma mulher vestida com um véu, calça leggings e camisa de manga comprida em uma praia em Nice na terça-feira (23) — foram elogiadas pelo político holandês anti-islamismo Geert Wilders.

“Fantástico. Policiais armados forçam mulher a remover burquíni em praia cheia em Nice.”

David Thomson, um jornalista francês que acompanha a atividade jihadista on-line, disse à Radio France que simpatizantes do Estado Islâmico nas redes sociais pareciam surpresos com policiais em Nice “criando propaganda em nome deles” e, dessa forma, criando o exemplo perfeito para o argumento de que a França humilha muçulmanos.

“Para eles, isso foi um presente divino”, disse Thompson. “A narrativa jihadista insiste há anos que é impossível ser muçulmano e praticar sua religião com dignidade na França;” O analista contou que minutos depois da publicação, as fotos se tornaram um dos assuntos mais debatidos na “jihadosfera” on-line.

“Essas fotos de Nice”, acrescentou, “vão alimentar anos de propaganda jihadista”.

A ironia, observou Thompson na semana passada, é que a vestimenta que foi banida, o traje de banho que cobre todo o corpo, conhecido como “burquíni”, é considerado indecente por teóricos islâmicos. Essas vestimentas, explicou, são o tipo de adaptação à cultura ocidental que mulheres muçulmanas nas colônias francesas no norte da África foram estimuladas a adotar.

“O corpo da mulher muçulmana sempre foi uma forma do governo francês controlar uma população inteira.”

Na quinta-feira (25), ativistas de um partido francês anticapitalista, o NPA, realizaram uma manifestação contra a proibição em uma praia em Leucate, cantando: “C’est aux femmes de décider: trop couvertes ou pas assez!” (“São as mulheres que decidem: cobertas ou nem tanto!”)

Em Londres, manifestantes trouxeram areia para a Embaixada da França, em um protesto contra a proibição chamado “Vista o que quiser”.

“AGORA: Praia #VistaOQueQuiser na embaixada francesa (em Londres) para dizer NÃO ao controle dos corpos femininos”

Na sexta-feira (26), o Conselho de Estado explicou a sentença em que suspende a ordem emitida pelo prefeito de Villeneuve-Loubet, uma cidade próxima à Nice, alegando que os policiais excederam os limites de suas autoridades. A restrição do acesso de certas pessoas à praia, disse o conselho, ameaça liberdades fundamentais garantidas pela lei francesa, como a livre circulação e a liberdade de consciência, algo que só poderia ser justificado por uma ameaça grave à ordem pública. “Na ausência de tais riscos”, determinou a corte, “emoções e preocupações em função de ataques terroristas, incluindo os cometidos em 14 de julho em Nice, não são suficientes para justificar em lei a proibição contestada”.

Embora as autoridades de Nice tenham confirmado o incidente relatado pelo Daily Mail — e que pelo menos 23 outras mulheres foram multadas em 38 euros (R$ 138) esta semana — defensores da proibição do “burquíni” acusaram a mulher não identificada de participar de uma “provocação” armada.

Jérémie Boulet, membro do partido xenofóbo Front National, declarou que a mulher poderia estar tentando atrair as autoridades francesas para abordá-la por usar a vestimenta em um dia tão quente. Ele também sugeriu, de forma incorreta, que ela estava sentada em uma toalha quando foi abordada pelos policiais.

Christian Estrosi, ex-prefeito de Nice e agora presidente regional de Côte d’Azur, publicou uma nota na quarta-feira (24) em que qualifica o comportamento de mais de vinte mulheres multadas por suas vestimentas como “provocações inaceitáveis” com o objetivo de “prejudicar os policiais da cidade”. Entrosi também alertou que as pessoas compartilhando as imagens da polícia emitindo multas às mulheres nas redes sociais poderiam ser processadas por colocar em risco a segurança dos policiais.

O vice-prefeito de Nice, Rudy Salles, declarou em uma entrevista polêmica com Razi Iqbal da BBC que as mulheres usando os trajes em questão para ir à praia devem ter sido coagidas a fazê-lo por radicais islâmicos.

“Entrevista com vice-prefeito de Nice”

“Vice-prefeito de Nice defende a proibição do burquíni devido ao extremismo. Amigo, se você coloca homens armados para despir mulher, você é o extremista.”

Uma agência de fotografias da França que adquiriu os direitos sobre as imagens contou ao jornal Libération que as fotos “definitivamente não tinham sido armadas, como alegado”, e que foram tiradas por um fotógrafo independente “que estava na praia por acaso” em busca de imagens da proibição sendo aplicada. Ele estava a aproximadamente 100 metros da mulher, quando observou a abordagem dos policiais e fotografou o encontro com uma lente teleobjetiva.

“O freelancer testemunhou a cena, que ocorreu às 11hs da terça-feira (23) e durou aproximadamente 10 minutos”, declarou em nota a agência Best Image. “A mulher recebeu uma multa e deixou a praia poucos minutos depois” Isso foi tudo que o fotógrafo presenciou”.

A especulação de que a situação poderia ter sido armada foi alimentada pelo fato do nome do fotógrafo não ter sido divulgado, mas o incidente ocorreu no mesmo dia que uma jornalista francesa, Mathilde Cusin, testemunhou algo ainda pior: uma mulher em Cannes sendo multada por policiais e hostilizada por curiosos. A mãe de 34 anos, identificada como Siam, contou à Agence France-Presse que recebeu a multa por sentar na praia com sua família usando um véu e calça leggings. “Eu não pretendia nadar”, contou.

Em uma entrevista para a revista semanal Le Nouvel Observateur, a mulher contou que ficou perplexa quando os policiais disseram que os frequentadores da praia eram obrigados a “vestir-se adequadamente”, de acordo com a nova regulamentação. Ao perguntar aos oficiais o que isso significava, foi comunicada que somente poderia permanecer na praia se concordasse em amarrar o hijab como uma bandana.

“Meus filhos estavam chorando por conta da humilhação”, contou Siam à revista. “Nem eu conseguia parar de chorar. Eles nos humilharam”.

Durante o impasse com a polícia, uma multidão de curiosos se aproximou. Alguns deles a defenderam, alegando que ela não estava fazendo mal a ninguém e não estava usando um “burquíni”. Outros, porém, dirigiram insultos racistas a mulher. “Eu fiquei chocada”, admitiu. “Ouvi insultos que nunca tinha ouvido antes, como “Vai para casa””. Siam, que nasceu em Toulouse e tem pais franceses, contou que alguém acrescentou: “Somos católicos aqui”.

“As pessoas exigiram que ela fosse embora ou removesse o véu. Foi muito violento”, Cusin contou à revista. “Tive a impressão de assistir a um bando perseguindo uma mulher sentado no chão às lágrimas com sua filha pequena.”

“O que mais me chocou foi que as pessoas, em sua maioria, tinham em torno de 30 anos, não eram mais velhos como se poderia imaginar”, acrescentou Cusin.

“No país dos direitos humanos, não vejo vestígios dos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade”, disse Siam. “Estou indignada que isso pôde acontecer na França.”

Na quinta-feira, em entrevista em inglês à BBC, Siam disse sentir-se “uma estranha em seu próprio país”.

“Hoje, fomos banidas das praias,” contou em entrevista ao programa AJ+ da Al Jazeera. “Amanhã seremos banidos das ruas.”

“Esta muçulmana foi forçada a se despir por policiais franceses armados.”

“Somos mulheres. Somos adultas,” acrescentou. “E se o véu for uma opção pessoal, e as mulheres quiserem usá-lo, por que impedi-las?”

Foto principal: O texto de uma regulamentação que proíbe mulheres de usar trajes de banho que cobrem todo o corpo em uma praia de Nice, França.
Tradução por Inacio Vieira