O governo de Michel Temer começou de fato nessa quarta-feira. Não apenas porque Dilma Rousseff foi destituída do cargo, mas especialmente porque, naquela mesma tarde, chegou ao Congresso Nacional a proposta confeccionada com cuidado pela nova equipe econômica para a distribuição do dinheiro federal para o ano de 2017 – o chamado Orçamento da União.
A análise da lista de programas de governo, em comparação à proposta apresentada no ano passado para o ano de 2016 pela ex-presidente Dilma, desmonta a tese defendida publicamente pelos peemedebistas e pelos apoiadores do impeachment de Dilma de que o novo governo não iria deixar o lado social em segundo plano.
Sinais nesse sentido já tinham sido dados, com extinção de pastas da área, e gerado reação em setores progressistas da sociedade. Mas o que se vê na análise do Orçamento vai além. Temer acaba de propor ao Congresso a redução média de 30% nos valores para os 11 principais programas da área social do governo, já considerando a inflação do período (variação do IGP-M dos últimos 12 meses).
São R$ 29,2 bilhões a menos para esse conjunto de programas (depois de aplicada a taxa de inflação no período), comparado ao que Dilma, já sob efeito da crise econômica, apresentou ao Congresso no ano passado. Trata-se de uma queda real de 14%. Muitos podem argumentar que, neste momento, essa redução é natural, já que o Brasil precisa apertar seus gastos. No entanto, as despesas previstas pelo governo para este ano são da ordem de R$ 3,4 trilhões – cerca de R$ 158 bilhões a mais (crescimento de 4,8%) que o previsto por Dilma um ano atrás.
Se olharmos mais de perto, o argumento perde ainda mais força. Enquanto optou por reduzir as verbas sociais, o governo aumentou, por exemplo (e sempre já considerando o efeito da inflação no período), em R$ 1,47 bilhão as verbas programadas para ações relacionadas ao desenvolvimento do agronegócio (R$ 1,3 bilhão), a investimentos militares (R$ 175 milhões), a obras em aeroportos (R$ 186 milhões), além de ações de política nuclear e espacial, e de política externa – agora sob comando de José Serra (PSDB).
O governo tem a liberdade para fazer escolhas. E começou mostrando bem quais são as suas. Esses dados não estão presentes em pronunciamentos ou entrevistas das figuras chave do governo, mas em meio às 3.691 páginas da proposta orçamentária do ano que vem. Eles consideram, também, apenas os gastos com ações concretas, e não com a gestão e manutenção das áreas relacionadas, como pagamento de pessoal e despesas do dia a dia dos funcionários públicos.
A desvalorização das mulheres no governo Michel Temer não fica evidenciada apenas no fato de somente uma compor o primeiro escalão de seu governo (e mesmo assim após forte reação da opinião pública). Sua equipe econômica está propondo um forte retroceso para o suporte dessa área. O programa “Políticas para as mulheres: promoção da igualdade e enfrentamento à violência ” perdeu exatos 40% da verba planejada pelo governo anterior há um ano. Percentual muito próximo ao que foi também retirado de outra área relegada na composição de seu governo: 42,2% menos dinheiro para a “Promoção da igualdade racial e superação do racismo”.
Só para essas duas áreas, o corte (R$ 72,2 milhões) poderia ser evitado com folga caso o governo decidisse não aumentar em R$ 85,7 milhões as verbas programadas para o programa nuclear brasileiro e as ações para lançamento de foguetes e satélites. Bastava que Michel Temer adiasse por um ano o sonho de chegar às estrelas.
Mas não para por aí. Os indígenas também terão menos verba para programas de seu interesse no ano que vem, conforme planeja o governo. A “Proteção e Promoção dos Direitos dos Povos Indígenas ” perdeu 14,4% dos recursos no comparativo feito pelo The Intercept Brasil. Mesmo o programa de “Promoção e Defesa dos Direitos Humanos”, embora tenha recebido um aumento absoluto de R$ 3,4 milhões na verba programada, experimentará um recuo de 6,3% no comparativo com a proposta de 2016, considerando o efeito da inflação no período.
Um dos eixos que mais chama a atenção na análise realizada é o absoluto desprestígio das ações sociais no campo. O programa de Reforma Agrária e Governança Fundiária foi reduzido a mais da metade (queda de 52,6%). Esse é o programa que garante a distribuição de terras e que é desenvolvido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário – extinto e colocado sob o guarda-chuva da Casa Civil, com as chaves entregues para o sindicalista urbano e acusado de corrupção Paulinho da Força. O governo programa R$ 1,2 bilhão a menos para o setor. Algumas ações dentro desse programa chamam especialmente a atenção, como a redução de R$ 412 milhões para a compra de terras a serem destinadas à reforma agrária e o corte de 63,7% na ação “Promoção da Educação do Campo”.
No entanto, não dá para dizer que é por falta de dinheiro. Os números indicam que é simplesmente questão de prioridade. Afinal, as ações de desenvolvimento do agronegócio vão de vento em popa, com crescimento programado de 7% acima da inflação. Entre as áreas específicas beneficiadas estão, por exemplo, as subvenções dadas pelo governo para viabilizar investimentos de grandes produtores rurais e agroindústrias, que subirá R$ 2,1 bilhões em relação ao proposto por Dilma no ano passado.
O tópico educação também merece destaque. O amplo orçamento do setor, que abrange repasses para universidades federais em todo o país, além de repasses para educação infantil, entre outras ações (lembrando que aqui não entra pagamento de salários), passará, pelos planos do novo governo, por uma redução de 10,8% (R$ 5,48 bilhões a menos em valores constantes).
Em seu pronunciamento, horas depois de confirmado oficialmente como presidente efetivo, Michel Temer citou os programas Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida. Disse ele que “aumentamos o valor do Bolsa Família” e que “o Minha Casa, Minha Vida foi revitalizado”. No entanto, o que os números apresentados ao Congresso pelo governo mostram é que haverá uma redução real de 7,4% no programa “Inclusão social por meio do Bolsa Família, do Cadastro Único e da articulação de políticas sociais” – com a diferença seria possível, por exemplo, pagar o benefício básico mensal do programa para 2,3 milhões de pessoas ao longo de todo o ano que vem. Em relação ao MCMV, a previsão é ainda mais sombria. A queda, considerando a inflação do período, é de 56,7%. No ano passado, o governo propunha a integralização de cotas para o Fundo de Arrendamento Residencial no valor de R$ 12,6 bilhões. Agora, a proposta do governo para essa integralização é de R$ 4,9 bilhões.
Toda essa numeralha envolve apenas a proposta inicial de gastos. Esses valores serão trabalhados no Congresso e podem aumentar ou, considerando o perfil da base aliada, diminuir ainda mais. Além disso, na execução do Orçamento ao longo do ano que vem, o governo poderá promover diretamente o chamado contingenciamento de recursos – ou, traduzindo, fazer ainda mais cortes naquilo que já foi cortado.
Olá, Breno, parabéns pela matéria. Estou com uma dúvida: você comparou os docs da LOA 2016 da presid Dilma com a de 2017 (Temer) né? Não consegui chegar à redução prevista para o programa 2019 “Inclusão social por meio do Bolsa Família, do Cadastro Único e da articulação de políticas sociais”
http://www.camara.leg.br/internet/comissao/index/mista/orca/orcamento/OR2017/proposta/3_VolumeII.pdf
Você pode explicar? Grata!
Saúde
2017 – R$ 107.3 bi
2016 – R$ 100,4 bi
Educação
2017 – R$ 110,7 bi
2016 – R$ 103 bi
Usaram uma calculadora meio esquerdista hein.
Mas isso desconsiderando a inflação no período, não?
Os números comparativos todos já com ajuste para inflação.
O comparativo é com o que o governo Dilma tinha previsto para 2017, nao 2016, pelo que entendi.
Não adianta o valor aumentar se for menor que a inflação do período é o básico do básico de economia.
“Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel”
“estancar a sangria”
“O primeiro a ser comido vai ser o Aécio”
“Quem não conhece o esquema do Aécio”
“Fui do PSDB 10 anos, não sobra ninguém”
“Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem ‘ó, só tem condições sem ela. Enquanto ela estiver lá essa porra não vai parar nunca”
“Michel é Eduardo Cunha”
“É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional. Com o Supremo, com tudo. Aí parava tudo!!!
essa janaina merecia um oscar, boa atriz ate envolveu Deus no meio dessa trama kkk rindo pra nao chorar
Matéria interessante mas um pouco superficial.
Seria preciso detalhar melhor os programas específicos que sofrerão cortes ou aumentos, não só areas gerais. Quando se diz “agronegócio”, isso pode envolver muita coisa, desde programas do Embrapa, estímulos à agricultura familiar ou sustentável, a subsídios agrícolas.
Também os programas para mulheres e combate ao racismo – grande parte é totalmente ineficaz, pra inglês ver mesmo, sem qualquer resultado concreto.
Tem que fiscalizar, ficar em cima, mas sem politicagem hipócrita, que não é papel de journalista, mas sim dos grupelhos e partidos.
Oi, Diogo, tudo bem? Fomos bastante criteriosos no levantamento. Consideramos os programas definidos no plano plurianual. No quadro, houve uma necessidade de abreviar os nomes, apenas isso. No caso do agronegócio, é agronegócio mesmo. Dinheiro para viabilizar grandes projetos agroindustriais e subvenções pesadas para grandes produtores. Agricultura familiar está contemplada em outro programa, assim como a área de pesquisas (Embrapa). Os programas para as mulheres envolve também ações do Ministério da Saúde, por exemplo. Enfim, se tiver interesse, vale dar uma conferida com calma na íntegra da proposta, cujo link está no texto. Um abraço!
Muito boa materia,descreve muito bem o que este Presidente ILEGÍTIMO pretende fazer: Trabalhar para os RICOS e grandes Empresários do agronegocio,inclusive o seu MINISTRO Ilegítimo Blairo Maggi maior produtor de soja no Brasil. Povo menos abastados vão ficar mais pobres ainda,vai voltar a FOME no BRASIL
Obrigado por responder e esclarecer.
Eu espero que vocês continuem dando cobertura a esse assunto, ao orçamento do governo federal cada vez com maioria
*cada vez com maior profundidade.
Obrigado!
Diminuição da verba para educação e saúde e aumento para o agronegócio. Mostra bem a quem serve.
Os pacotes de maldades serão todos feitos na surdina, com a proteção necessária da mídia golpista brasileira, voltamos ao passado, onde políticos fingiam que estavam fazendo ao pelo país e os pobres sentiam na pele que não havia qualquer melhora
Pena que o Autor não tenha discorrido sobre o corte brutal de 81,7% nas verbas destinadas ao Desenvolvimento Regional, que afetam o Norte e o Nordeste, o maior de todos os cortes. Pois isto indica claramente que se instalou um governo golpista de segregação, que intenciona punir os nordestinos e nortistas pelo apoio a Lula, Dilma e o PT, e que, já deixou isto claro com o que fez com o DNOCS, pretende que aquelas regiões retornem a um passado tenebroso. Algo que as populações devem cobrar dos senadores e deputados golpistas do Norte e Nordeste.
fora temer, bandido golpista.
Esse homem vai acabar com país
Li a um tempo atrás um artigo no UOL que o programa dos golpistas leva ao enfrentamento. Lendo essa matéria, que é bem mais detalhada, penso: se tal programa for realmente levado a cabo levará o país a guerra civil.
Nossa mídia irresponsável com o seu jornalismo de guerra vendeu a ideia de que Temer seria aquele que iria “unir e pacificar” a nação. Mas seu programa de desgoverno leva a segregação e exclusão, lamentável.
Lutar e resistir!! Golpe saia deste país que não te pertence. Sarava meu pai!!!
“Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel”
“estancar a sangria”
“O primeiro a ser comido vai ser o Aécio”
“Quem não conhece o esquema do Aécio”
“Fui do PSDB 10 anos, não sobra ninguém”
“Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem ‘ó, só tem condições sem ela. Enquanto ela estiver lá essa porra não vai parar nunca”
“Michel é Eduardo Cunha”
“É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional. Com o Supremo, com tudo. Aí parava tudo!!!