(atualizado abaixo, com a colaboração de leitores)

A população voltou às ruas neste domingo, dia 4, quatro dias depois de Michel Temer tomar posse em consequência ao impeachment de Dilma Rousseff. Em viagem à China, Temer menosprezou o tamanho das manifestações: “são 40, 50, 100 pessoas, nada mais do que isso”. Para os organizadores, eram 100 mil pessoas. É difícil dar uma conta exata de quantas foram para as ruas na capital de São Paulo para gritar “Fora, Temer”. Mas basta uma foto para constatar que Temer errou por umas dezenas de milhares:

Era só o começo. Primeiro a Dilma, depois o resto. Esse não era o discurso dos movimentos que levaram milhares de brasileiros às ruas? Pois o depois se tornou o presente. Chegou a hora do “resto”.

Seguindo a lógica das campanhas políticas brasileiras, algumas coisas ficaram apenas na promessa, e “o resto” tentou ser esquecido. Em vez de “primeiro, a gente tira a Dilma e, depois, o resto”, primeiro, afastou-se a ex-presidente Dilma Rousseff, por ter alterado os gastos do governo sem consultar o Congresso. E, depois —dois dias depois— , o Senado alterou a lei, de forma a não se precisar mais da permissão do Congresso.

“Fora, Dilma.” E depois…?

Fora, Dilma. E depois...?

Esquecer o que se promete ou que se fala é prática comum na classe política. O mesmo Michel Temer que hoje demonstra algum problema de visão — ou de matemática — ao estimar o tamanho das manifestações, há pouco mais de um ano classificava o impeachment como “impensável”.

Já o presidente em exercício, Rodrigo Maia (DEM-RJ), foi certeiro e previu a repressão policial nas manifestações que viriam, ainda no início de 2015.

Mas isso não o impediu de votar a favor e, inclusive, dedicar o voto a seu pai, Cesar Maia. Ironicamente, Maia, o pai, teve o mandato cassado na semana final do julgamento do impeachment de Rousseff. Ele contratou seu cunhado, o advogado Paulo Eduardo de Araújo Saboya, 27 vezes sem licitação. Os contratos somam R$ 220 mil.

Outro que teve visão foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em 2012, durante uma entrevista para o jornal Folha de S. Paulo, o sociólogo cantou a pedra, em pleno período de elogiada “faxina ética”:

“Quando Jango caiu, era claro que ele havia perdido a capacidade de governar porque o Congresso não seguia mais as determinações. O Congresso bloqueia. Jânio caiu porque se chocou com o Congresso também. Tinha a maioria do povo, mas não tinha o Congresso. O Collor, também. O Lula entendeu [o papel do Congresso], talvez, não no sentido que eu acharia melhor. Ele cedeu no que não deveria ceder. Não sei se a Dilma percebe os riscos.” [ênfase adicionado]

Três anos depois, no entanto, em março de 2015 durante outra entrevista à imprensa, desta vez ao jornal Estado de São Paulo, ele afirmou que “o caminho” era o impeachment. Disse também que “as ruas gritaram renúncia, fim, impeachment”.

Agora as ruas gritam “Fora, Temer”. Será que ele está ouvindo?

Já o ex-presidente e hoje senador Fernando Collor (PTC-AL) disse ao jornal gaúcho Zero Hora, em 2014, que era partidário do “Fica, Dilma”.

REPÓRTER – O senhor vai votar na presidente Dilma?

COLLOR – Vou votar na Dilma.

REPÓRTER – Não é daqueles que engrossam o coro do “Volta, Lula”?

COLLOR – Não! Eu sou dos que engrossam o de “Fica, Dilma” (risos).

Aparentemente, ele mudou de ideia ao longo dos anos. Em 2016, disse sim ao impeachment, lembrando em seu voto o impeachment que ele mesmo sofreu, em 1992. Disse que “o rito é o mesmo, mas o ritmo e o vigor, não”, indicando que seu processo foi muito mais rápido do que o que levou ao afastamento de Rousseff.

Collor só esqueceu de citar em seu voto que os dois processos de impeachment são bem diferentes. No seu caso, envolveu alegações de crimes como corrupção passiva e formação de quadrilha, enquanto Rousseff respondia por suposta crime de responsabilidade fiscal.

Brazilian presidential candidate for the Socialism and Freedom Party (PSOL) Luciana Genro attends their last TV debate in Rio de Janeiro, Brazil, on October 2, 2014. The general election will be held on October 5, 2014.  AFP PHOTO / YASUYOSHI CHIBA        (Photo credit should read YASUYOSHI CHIBA/AFP/Getty Images)

Luciana Genro revisou sua posição sobre o impeachment ser ou não ser um golpe.

Foto: Yasuyhoshi Chiba/AFP/Getty Images

Essa aparente confusão mental não é exclusiva da direita, tampouco do atual governo. A ex-candidata à presidência Luciana Genro (PSOL-RS) discordava totalmente da hipótese de um golpe, em março de 2016, quando diz, “os líderes do PT estão brincando com as palavras, dizendo que há golpe.” Mas apenas cinco meses depois classificou de “golpe palaciano” o que estava acontecendo no país:

“Eu, que não votei em Temer nem para vice-presidente, é claro que não o aceito como presidente. Ainda mais quando sua presidência definitiva é produto de um golpe palaciano desferido no seu antigo aliado, o PT, que com ele compartilhou o poder por anos.”

E como esquecer a ainda candidata Dilma Rousseff exaltando seu então candidato a vice-presidente, Michel Temer, dizendo que ele saberia “honrar e me substituir à altura”? O que, depois, lamentou profundamente.

Essa aparente mudança de posição não pega desprevenido quem acompanha o noticiário de Brasília. Quem ouviu os áudios dos grampos de Sérgio Machado divulgados em maio de 2016 já sabia que o “Fora, Dilma” não seria seguido do “depois o resto”. O ex-presidente da Transpetro gravou suas negociações com o ex-ministro do planejamento Romero Jucá (PMDB-RR) sobre uma forma de afastar Rousseff para, assim, estancar o avanço da operação Lava Jato. Apenas para refrescar a memória:

MACHADO – Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].

JUCÁ – Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha’. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.

MACHADO – É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.

JUCÁ – Com o Supremo, com tudo.

MACHADO – Com tudo, aí parava tudo.

JUCÁ – É. Delimitava onde está, pronto.

Quem quiser lembrar da gravação completa, aqui vai.

Assim se monta a realidade em que o governo fala que não vai mexer nos programas sociais, mas pede um corte médio de 30% nos mesmos; ou que fala em corte de gastos, mas adota medidas que não trazem corte efetivo de despesas.

Enquanto isso, o povo volta às ruas. Porque, por mais que se diga que tem ele memória curta, ele se lembra.

 

ATUALIZAÇÃO:

The Intercept Brasil solicitou via Twitter que os leitores enviassem mais casos como os relatados acima. Abaixo, os melhores exemplos apontados por leitores até agora:

Durante a campanha de 2014 Rousseff já sabia que “sem apoio no Congresso Nacional não é possível assegurar um governo estável, como ela mesma disse durante um dos debates daquele ano. Inclusive, a então candidata chegou a mencionar em seu programa eleitoral que Marina Silva (Rede) poderia sofrer impeachment por ter uma base restrita no parlamento.

O senador Telmário Mota (PDT-RR) pediu a suspensão e o arquivamento do impeachment ao Supremo Tribunal Federal (STF) em abril de 2016, mas votou a favor do afastamento de Dilma no julgamento, dia 31 de agosto. Dois dias antes, ele havia defendido a então presidente e dito que não havia crime de responsabilidade.

Entre outros nomes, Eduardo Cunha também mudou de opinião sobre o impeachment. Fomos atrás da dica e encontramos uma entrevista do então presidente da Câmara no programa Roda Viva em março de 2015. Entre as muitas coisas que ele disse durante mais de uma hora de gravação, destaca-se o trecho abaixo:

“Nós não podemos transformar a discussão sobre o impedimento de um presidente da república numa forma de discussão política, porque ele não é. O impedimento tem as suas previsões constitucionais para os casos específicos aos quais, no meu entender, não está se aplicando. Então, consequentemente, eu não posso querer dar curso para resolver uma crise política. Achar que a gente virou uma republiqueta que vai arrancar o presidente fora, que foi legitimamente eleito. Nós não concordamos com essa forma.” [ênfase adicionado]

Como se bem sabe, Cunha ficou conhecido como aquele que entregou o impeachment em troca de “anistia”.

Encontramos mudanças de posição de Telmário Mota e Eduardo Cunha, mas não encontramos opiniões anteriores de Renan Calheiros, que preferiu guardar para si a decisão até o último minuto. Uma semana antes da votação final, Calheiros sequer dava certeza se iria votar ou não no julgamento.

Com os agradecimentos aos leitores @MCeceCT, @carolisoms e @belisards.