As ruelas estreitas são calmas e tortuosas, cercadas por campos esverdeados e com raros sinais de vida, exceto os eventuais rebanhos de ovelhas. Mas, no horizonte, destacam-se estruturas que se assemelham a bolas de golfe gigantes, protegidas por uma grade perimetral coberta por arame farpado. Aqui, no coração da tranquila região campestre da Inglaterra, fica a maior base de espionagem no exterior da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA.

Anteriormente conhecida apenas pelo codinome Estação de campo 8613, a base secreta — agora conhecida como Estação Menwith Hill — fica localizada a nove quilômetros aos leste da pequena vila de Harrogate, no norte de Yorkshire. Originalmente destinada a monitorar as comunicações dos soviéticos durante a Guerra Fria, a estação teve seu foco drasticamente alterado e, hoje, é parte fundamental da rede de vigilância global em expansão da NSA.

Por muitos anos, jornalistas e pesquisadores especularam a respeito do que realmente se passaria dentro de Menwith Hill. Alguns políticos e grupos defensores dos direitos humanos fazem campanha por maior transparência nas atividades da estação. Contudo, o governo britânico sempre foi enfático ao se recusar a discutir as atividades da base, alegando a velha política de não comentar assuntos de segurança nacional.

Porém, os documentos confidenciais recentemente obtidos pelo The Intercept fornecem informações exclusivas sobre o que acontece por trás das grades de arame farpado de Menwith Hill. Os arquivos revelam pela primeira vez como a NSA usou a base britânica para auxiliar “um número considerável de operações de captura e extermínio” por todo o Oriente Médio e pelo norte da África, equipada com poderosas tecnologias de grampo que podem coletar dados na ordem de mais de 300 milhões de e-mails e chamadas telefônicas por dia.

Na última década, mostram os documentos, a NSA foi pioneira em programas de espionagem inovadores em Menwith Hill para identificar com precisão a localização de suspeitos de terrorismo acessando a internet nos cantos mais obscuros do planeta. Um dos programas, chamado Ghosthunter, apoiou operações militares convencionais britânicas e americanas no Iraque e no Afeganistão. Além disso, contribuiu para missões secretas em países aos quais os EUA não declararam guerra, incluindo um caso onde o programa ajudou uma equipe de operações especiais secretas a caçar um membro da Al Qaeda no Líbano. Os funcionários da NSA de Menwith Hill também colaboraram em um projeto que visava “eliminar” alvos terroristas no Iêmen, onde os EUA conduzem uma campanha de bombardeio por drone que resultou em dezenas de civis mortos.

As revelações sobre Menwith Hill levantam novas dúvidas a respeito da extensão da colaboração britânica nos ataques americanos através de drones e outras missões conhecidas como assassinatos seletivos, que podem ter violado leis internacionais e configurado crimes de guerra em alguns casos. Sucessivos governos britânicos declararam publicamente que todas as atividades na base foram realizadas com o “conhecimento e consentimento completo” dos oficiais britânicos.

As revelações representam “mais um exemplo do inaceitável nível de sigilo em torno da participação do Reino Unido no programa de “assassinatos seletivos” dos EUA”, contou Kat Craig, diretora jurídica do grupo de direitos humanos londrino Reprieve, ao The Intercept.

“Agora, é imperativo que o primeiro ministro seja franco a respeito do envolvimento do Reino Unido nos assassinatos seletivos”, disse Craig, “para garantir que funcionários e recursos britânicos não sejam afetados por atividades imorais e ilegais”.

O Ministro da Defesa do governo britânico, que lida com a assessoria de imprensa de Menwith Hill, se recusou a responder à reportagem.

A NSA enviou uma solicitação de declaração para o gabinete do Diretor de Inteligência Nacional.

Richard Kolko, porta-voz do DNI, disse em nota: “Os homens e mulheres que servem à comunidade de inteligência asseguram a segurança nacional dos EUA coletando informações, conduzindo análises e fornecendo inteligência para que decisões sejam tomadas com embasamento, de acordo com um conjunto de leis, políticas e diretrizes rigorosas”.

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Estação Menwith Hill em 11 março de 2014.

Foto: Trevor Paglen

O equipamento em Menwith Hill encontra-se distribuído por 2,5 km2 de terras, vigiado 24 horas por dia pela Polícia Militar britânica e monitorado por câmeras de instaladas em postes que observam quase todas as seções da grade perimetral de 3m de altura.

O detalhe que mais salta aos olhos é o aglomerado de aproximadamente 30 domos brancos gigantes. Além disso, as instalações também abrigam uma pequena comunidade completamente independente, acessível apenas àqueles com passes de segurança. Dentre os edifícios de operação onde os analistas escutam conversas monitoradas, há uma pista de boliche, uma sala de bilhar, um bar, um restaurante fastfood e uma loja de conveniências.

Grande parte das chamadas internacionais, do tráfego de internet, e-mails e outras formas de comunicação do mundo inteiro são enviados através de uma rede de cabos submarinos que conectam países como artérias gigantes. Em postos de espionagem por todo o mundo, a NSA e seus parceiros usam esses cabos para monitorar o fluxo de informações que passam por eles. Mas a base Menwith Hill se especializou em um tipo diferente de vigilância: interceptação de comunicações transmitidas pelo ar.

De acordo com os documentos confidenciais cedidos ao The Intercept por Edward Snowden, Menwith Hill tem dois recursos de espionagem de destaque. O primeiro é conhecido como Fornsat e usa uma antena poderosa, dentro de um dos domos em forma de bola de golfe, para interceptar comunicações enquanto estão sendo transmitidas por satélites estrangeiros. O segundo se chama Overhead e usa satélites do governo americano que orbitam o globo e sobrevoam países específicos para monitorar as comunicações sem fio, como chamadas de celular realizadas em chão firme, e para tirar fotos aéreas de áreas de interesse.

O satélite de espionagem M8501 foi lançado em 2009 e é operado em Menwith Hill. Seu papel é interceptar as comunicações sendo transmitidas através de “links de satélites comerciais”, de acordo com os documentos da NSA.

No final dos anos 80, as redes de comunicação internacionais foram revolucionadas por cabos submarinos de fibra ótica. A nova tecnologia era mais barata do que o uso de satélites e podia transmitir dados pelo globo muito mais rapidamente que antes, em velocidades próximas à velocidade da luz. Por esse motivo, de acordo com os documentos da NSA, na metade dos anos 90, a comunidade de inteligência dos EUA estava convencida de que as comunicações via satélite se tornariam obsoletas em pouco tempo e que deveriam ser substituídas por redes de cabo de fibra ótica.

Mas tais previsões estavam erradas. E milhões de chamadas de telefone ainda são transmitidas via satélite, bem como grandes volumes de dados de internet, que a NSA tem explorado constantemente em Menwith Hill.

“O setor comercial de comunicações via satélite continua vivo e rentável, e transbordando de tráfego DNI (Digital Network Intelligence – Informações de redes digitais) em massa, cada vez mais sofisticado, em sua grande maioria sem criptografia”, conforme descreveu um documento de 2006 da NSA. “Essa única fonte de informações oferece mais dados a serem examinados pelos analistas de Menwith Hill do que encontrava-se disponível para toda a organização há muito pouco tempo.”

Os governos do Reino Unido e dos EUA enganaram seus cidadãos deliberadamente por anos usando uma “desculpa”.

Até 2009, a missão de vigilância de satélites estrangeiros de Menwith Hill, Moonpenny, monitorava 163 links de dados de satélite. As comunicações interceptadas eram canalizadas para uma grande variedade de repositórios que armazenavam chamadas telefônicas, mensagens de texto, e-mails, históricos de busca na internet e outros dados.

Não se sabe exatamente o volume de comunicações que Menwith Hill pode acessar por vez, mas os documentos da NSA indicam que o número é extremamente alto. Em um único período de 12 horas, em maio de 2011, por exemplo, os sistemas de vigilância registraram mais de 355 milhões de registros de metadados que revelam informações sobre tais comunicações — como remetente e destinatário de um e-mail ou  números de telefone discados e horário da chamada realizada por alguém.

Com o objetivo de manter sob sigilo as informações sobre o papel de vigilância de Menwith Hill, os governos do Reino Unido e dos EUA enganaram seus cidadãos por anos usando uma “desculpa”, retratando a base como uma instalação destinada a fornecer “relés de rádio rápidos e conduzir pesquisas na área de comunicação”. Um documento confidencial do governo americano, datado de 2005, alertou funcionários de agências espiãs a respeito de deixarem escapar a verdade sobre a base. “É importante conhecer a desculpa adotada para a existência da MHS [Menwith Hill Station (Estação)] e esconder o fato de que a MHS é uma instalação de coleta de inteligência”, informava o documento. “Qualquer referência a satélites sendo operados ou relacionados a coleta de inteligência é estritamente proibida”.

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Estação Menwith Hill em 11 março de 2014.

Foto: Trevor Paglen

O posto militar foi construído nos anos 50, como parte de um acordo entre os governos britânico e americano, com o intuito de abrigar funcionários americanos e equipamentos de vigilância para interceptar chamadas telefônicas. Em seus primeiros anos, a tecnologia existente em Menwith Hill era muito mais primitiva. De acordo com Kenneth Bird, que trabalhou na base nos 60, durante a Guerra Fria, a base se concentrava em monitorar as comunicações da Europa Ocidental. As conversas interceptadas eram gravadas em fitas Ampex, de acordo com o testemunho de Bird publicado em 1997, com algumas chamadas transcritas em tempo real por analistas em máquinas de escrever.

A base de Menwith Hill é um lugar muito diferente nos dias de hoje. Seus sistemas de espionagem são capazes de ingerir muito mais dados de comunicação, bem como tem um alcance geográfico muito mais amplo. Além disso, os objetos de vigilância mudaram drasticamente, assim como a finalidade dos grampos realizados.

Os documentos obtidos por The Intercept revelam que os satélites de espionagem usados em Menwith Hill atualmente podem interceptar comunicações na China e na América Latina, além de possibilitar uma “cobertura contínua da maioria do território da Eurásia”, onde interceptam “sinais estratégicos de comunicação militar, científica, política, técnica e econômica”. Mas talvez a função mais importante desempenhada pela base nos últimos anos tenha sido no Oriente Médio e no Norte da África.

Especialmente em partes remotas do planeta, onde não há links de cabos de fibra ótica, é comum que as conexões de internet e chamadas de telefone se deem via satélite. Por consequência, Menwith Hill se tornou uma base vital para a campanha antiterrorismo do governo dos EUA depois dos ataques de 11 de setembro. Desde então, a base tem sido usada de forma intensa para interceptar as comunicações de áreas menos acessíveis, onde sabe-se que grupos extremistas islâmicos, como al Qaeda e al Shabaab, operam — por exemplo, na região da fronteira entre Afeganistão e Paquistão, na Somália e no Iêmen.

Imagem aérea capturada pelo satélite dos EUA em apoio a uma operação secreta GHOSTHUNTER.

Mais importante ainda é o fato de Menwith Hill ter sido usada para outras atividades, que não a coleta de inteligência de pessoas e governos de países do Oriente Médio e do Norte da África. Tais ferramentas de vigilância, como o sistema Ghosthunter, foram desenvolvidas com o objetivo único de auxiliar operações militares, precisando as localizações de pessoas ou grupos específicos para que fossem capturados ou assassinados.

Os documentos revelados descrevem o Ghosthunter como meio de “localizar alvos quando entram na internet”. O sistema foi desenvolvido em 2006 como o “único recurso de seu tipo” e permitiu “um número representativo de operações de captura e extermínio” contra supostos terroristas. Apenas alguns exemplos específicos são oferecidos, mas esses casos dão exemplos notáveis do poder extraordinário da tecnologia.

Em um caso ocorrido em 2007, analistas de Menwith Hill usaram o Ghosthunter para localizar um “intermediário” no Líbano que era descrito como “altamente ativo” – ou seja, considerado um alvo legítimo para assassinato ou captura. A localização do alvo — que era conhecido por diversos nomes, inclusive Abu Sumayah — foi realizada com uma margem de erro de poucas centenas de metros, de acordo com as interceptações de suas comunicações. Em seguida, um satélite espacial tirou fotografias aéreas do bairro de Sidon, no sul do Líbano, onde acreditava-se que o indivíduo residia, mapeando as ruas e casas no entorno. Um documento altamente secreto com mais informações sobre a vigilância indica que a informação foi passada para uma unidade secreta de operações especiais, conhecida como Task Force 11-9, preparada para conduzir uma operação secreta para assassinar ou capturar Sumayah. No entanto, o resultado da operação é incerto, já que não foi revelado no documento.

Em outro caso, em 2007, o Ghosthunter foi usado para identificar um suposto “comprador de armas” da al Qaeda no Iraque, chamado Abu Sayf. Os sistemas de vigilância da NSA localizaram Sayf quando entrava em contas de e-mail e bate-papo do Yahoo em um café próximo a uma mesquita em Anah, uma cidade à beira do Rio Euphrates, que fica 320 quilômetros ao noroeste de Bagdá. Os analistas em Menwith Hill usaram o Ghosthunter para precisar sua localização e satélites de espionagem operados na base britânica para capturar imagens aéreas. Essas informações foram repassadas às tropas americanas em Fallujah para serem incluídas em um “plano de ataque”.

Alguns dias depois, uma unidade de operações especiais, a Task Force-16, invadiu duas propriedades, onde detiveram Sayf, seu pai, dois irmãos e cinco companheiros.

Em 2008, a popularidade aparente do Ghosthunter na comunidade de inteligência resultou em sua implementação em outras bases de vigilância com presença da NSA, incluindo Ayios Nikolaos, no Chipre, e Misawa, no Japão. A distribuição da ferramenta para outras bases representou um alcance “praticamente global”. Mas Menwith Hill permaneceu sendo sua base mais representativa. “[Menwith Hill] ainda fornece aproximadamente 99% dos dados Fornsat usados em localizações geográficas do Ghosthunter”, confirmou um documento de janeiro de 2008 sobre o programa.

Um documento de 2009 acrescentou que o objetivo principal do Ghosthunter, à época, envolvia “a localização geográfica de cibercafés na região do Oriente Médio/África do Norte em apoio às operações militares dos EUA” e dizia que tinha, até o momento, “localizado geograficamente mais de 5 mil terminais VSAT no Iraque, Afeganistão, Síria, Líbano e Irã. VSAT, Very Small Aperture Terminal (Terminal de Abertura Muito Pequena), é um sistema de satélites usado comumente por cibercafés e governos estrangeiros para enviar e receber comunicações e dados. O Ghosthunter também podia atacar VSATs no Paquistão, Somália, Argélia, Filipinas, Mali, Quênia e Sudão de acordo com os documentos.

A capacidade exclusiva a Menwith Hill de rastrear satélites em qualquer lugar do planeta, por vezes, colocou-o na linha de frente de conflito a milhares de quilômetros de distância. No Afeganistão, por exemplo, analistas da base usaram a vigilância VSAT para rastrear membros suspeitos do Talibã, resultando em “aproximadamente 30 inimigos assassinados” durante uma série de ataques mencionados em um relatório top-secret de julho de 2011. No começo de 2012, analistas da base foram solicitados a rastrear um VSAT: desta vez, para auxiliar as forças especiais na província de Helmand, no Afeganistão. A localização do terminal foi rápida e, em menos de uma hora, um drone MQ-9 Reaper foi enviado para a área para iniciar um ataque aéreo, ao que tudo indica.

Mas o uso letal de dados de vigilância não parece ter sido restrito a áreas de guerra convencionais, como o Afeganistão ou o Iraque. A NSA desenvolveu métodos semelhantes em Menwith Hill para rastrear suspeitos de terrorismo no Iêmen, onde os EUA haviam iniciado ataques secretos com drones contra militantes associados a al Qaeda na península norte.

No começo de 2010, a agência revelou em um relatório interno que tinha inaugurado uma técnica nova na base britânica para identificar diversos alvos “em quase 40 cibercafés localizados em pontos geográficos distintos” na província de Shabwah, no Iêmen, e na capital do país. A técnica, de acordo com o documento, era vinculada a uma iniciativa secreta mais ampla, chamada Ghostwolf, descrita como um projeto para “capturar ou eliminar nós cruciais em redes terroristas”, concentrando-se primordialmente em “fornecer dados de localização geográfica obtidos através de [vigilância] de clientes e de seus componentes operacionais”.

A descrição do Ghostwolf vincula Menwith Hill a operações letais no Iêmen, fornecendo as primeiras provas documentais que implicam o Reino Unido diretamente em relação às operações secretas no país.

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Estação Menwith Hill, em 11 de março de 2014.

Foto: Trevor Paglen

A dimensão da evidente cumplicidade do governo britânico em controversos ataques dos EUA foi realçada pelo papel anteriormente desconhecido da base militar de Menwith Hill no assassinato seletivo de suspeitos de terrorismo, suscitando dúvidas sobre a legalidade das operações secretas realizadas a partir da base.

Há cerca de 1.800 funcionários em Menwith Hill, a maioria americanos. Além dos funcionários da NSA no complexo, o National Reconnaissance Office (NRO – Departamento de Reconhecimento Nacional) também tem uma presença importante no local, operando sua própria “estação terrestre”, a partir da qual controla diversos satélites de espionagem.

No entanto, foi apenas em 2014 que o governo britânico assumiu publicamente que as operações na base “sempre foram, e continuam sendo” executadas com seu “conhecimento e consentimento”. Além disso, aproximadamente 500 dos funcionários nas instalações pertencem a agências do Reino Unido, incluindo funcionários do organismo britânico homólogo da NSA, o Government Communications Headquarters (GCHQ – Quartel-general de Comunicação do Governo britânico).

Há vários anos que ativistas e legisladores na área dos direitos humanos pressionam o governo no sentido de fornecer informações sobre seu envolvimento nas operações americanas de assassinato seletivo, contudo, a única resposta até agora foi o silêncio. Mais especificamente, houve uma tentativa de determinar se o Reino Unido teria ajudado nos bombardeios com drones dos EUA fora de zonas de guerra declaradas, incluindo em países como Iêmen, Paquistão e Somália, que resultaram na morte de centenas de civis e foram, em alguns casos, considerados por funcionários das Nações Unidas como possíveis crimes de guerra e violações da lei internacional.

Apesar de indicarem que Menwith Hill ajudou “em um número considerável” de operações de “captura e assassinato”, os documentos de Snowden analisados pelo The Intercept não revelam detalhes específicos sobre todos os incidentes que resultaram em vítimas mortais. No entanto, ficou claro que a base teve como alvos países como o Iêmen, Paquistão e Somália, incluídos em programas de rastreamento de localização como o Ghosthunter e Ghostwolf, criados para ajudar a identificar indivíduos a serem capturados ou assassinados, sugerindo uma participação nos ataques com drones nesses países.

“Um indivíduo envolvido com a passagem dessas informações pode ser considerado cúmplice de um homicídio.”

Craig, diretora jurídica da Reprieve, analisou os documentos de Menwith Hill, concluindo que indicavam a cumplicidade britânica nos ataques com drones secretos dos EUA. “Há anos que a Reprieve e outras entidades procuram obter explicações do governo britânico sobre o papel das bases britânicas no programa secreto de drones dos EUA, responsável pela morte de elevados números de civis em países com os quais não estamos em guerra”, ela contou ao The Intercept. “Nos enganaram com truísmos e nos asseguraram que todas as atividades dos EUA em bases britânicas, ou com o envolvimento das mesmas, estavam em total conformidade com as disposições jurídicas nacionais e internacionais. Agora, parece que nada disso era verdade”.

Jemima Stratford, advogada britânica de direitos humanos, disse ao The Intercept que existem “perguntas sérias a serem feitas e argumentos sérios a estabelecer” sobre a legalidade das operações letais conduzidas com a assistência de Menwith Hill. As operações, afirmou Stratford, podem ter violado a Convenção Europeia dos Direitos Humanos, um tratado internacional ao qual o Reino Unido continua vinculado, apesar do voto recente pela saída da União Europeia. O Artigo 2 da Convenção protege o “direito à vida” e declara que “ninguém pode ser privado da vida intencionalmente”, exceto se tal for ordenado por um tribunal, como pena a ser aplicada por um crime.

Stratford havia alertado anteriormente que funcionários britânicos podem ser implicados em homicídio caso tenham facilitado ataques com drones dos EUA fora de zonas de guerra declaradas. Em 2014, ela aconselhou os membros do parlamento britânico para o fato dos EUA não estarem em guerra com países como o Iêmen ou Paquistão e, portanto, no âmbito da lei inglesa e internacional, os indivíduos assassinados por drones nesses países não constituíam “combatentes”, nem seus assassinos eram beneficiados pela “imunidade de combatente”.

“Se o governo britânico tiver conhecimento da transferência de dados que podem ser usados em ataques por drones contra não combatentes (…) essa transferência provavelmente é ilegal”, disse Stratford aos membros do parlamento. “Um indivíduo envolvido na transmissão dessas informações é, provavelmente, cúmplice de homicídio.”

O GCHQ se recusou a responder perguntas da reportagem, citando uma “velha política da agência que define que não comentamos a respeito de questões de inteligência”. Um porta-voz da agência publicou uma nota genérica declarando que “todo o trabalho do GCHQ é realizado de acordo com fundamentos jurídicos e de política rigorosos, que garantem que nossas atividades são autorizadas, necessárias e proporcionais, e que seguem uma supervisão rigorosa”. O porta-voz insistiu que o “regime de interceptação do Reino Unido é inteiramente compatível com a Convenção Europeia de Direitos Humanos”.

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Um portão na Estação de Menwith Hill proibindo a entrada em 12 de março de 2014.

Foto: Trevor Paglen

Em fevereiro de 2014, o departamento de Defesa dos EUA, depois de uma revisão de procedimento, anunciou que planejava reduzir o número de funcionários em Menwith Hill em 2016, com cortes estimados em 500 militares e civis. Um porta-voz da Força Aérea dos EUA contou ao jornal militar Stars and Strips que a decisão foi baseada em avanços tecnológicos, dos quais se recusou falar, apesar de mencionar expansão na “capacidade dos servidores que estamos usando; estamos fazendo mais com menos hardware”.

Os documentos fornecidos por Snowden esclarecem algumas das alterações tecnológicas específicas. Mais especificamente, mostram que houve um investimento considerável em introduzir sistemas de vigilância em massa mais sofisticados em Menwith Hill nos últimos anos. Em 2008, o então Diretor da NSA, Keith Alexander, introduziu uma mudança de direção nas políticas da agência. Em uma visita a Menwith Hill em junho daquele ano, Alexander desafiou os funcionários da base. “Por que não podemos coletar todos os sinais, o tempo inteiro?” disse o diretor, de acordo com os documentos da NSA. “Soa como um belo trabalho de casa para Menwith”.

Em decorrência disso, uma nova “postura de coleta” foi introduzida na base com o objetivo de “coletar tudo, processar tudo e explorar tudo”. Em outras palavras, a base deveria ingerir o máximo de comunicações que sua capacidade tecnológica permitisse.

Entre 2009 e 2012, mais de US$ 40 milhões foram gastos em Menwith Hill para construir um novo prédio de operações com 9.000 m2 — uma área equivalente a dois campos de futebol americano. Grande parte desse espaço — aproximadamente 1.000 m2 — foram reservados para um centro de dados que contava com a capacidade de armazenar quantidades enormes de comunicações interceptadas. Durante a reforma, a NSA enviou nossos sistemas de computadores e instalou 300 km de cabos, extensão suficiente para conectar Nova York a Boston. A agência também construiu um auditório com capacidade para 200 pessoas destinado a realização de reuniões sobre operações secretas e outros eventos.

“Como podemos autorizar operações em Menwith sobre as quais não podemos prestar contas ao público?”

Parte do enorme trabalho de expansão podia ser notado da rua no entorno do complexo de segurança, resultando em protestos de um grupo de ativistas locais chamado Campanha de Responsabilização das Bases Americanas. Desde o começo dos anos 90, o grupo monitora de perto as atividades em Menwith Hill. Há 12 anos, seus membros realizam um pequeno protesto toda terça-feira na entrada principal da base militar, saudando funcionários da NSA com bandeiras e banners com inscrições críticas à política internacional e os ataques por drones realizados pelos EUA.

Fabian Hamilton, representante da cidade de Leeds no parlamento britânico, se tornou um apoiador da campanha, ocasionalmente participando de eventos organizados pelo grupo e defendendo mais transparência em Menwith Hill. Hamilton, que representa o Partido Trabalhista, tem sido insistente em obter mais informações e, desde 2010, dirigiu mais de 40 perguntas formais ao governo no parlamento britânico sobre as atividades realizadas na base. O parlamentar buscou esclarecimento em diversas questões, como por exemplo, quantos funcionários encontram-se registrados nas instalações, se a base está envolvida na condução de ataques por drones e se os membros do comitê parlamentar de supervisão recebeu acesso completo à base para analisar suas operações. Mas seus esforços foram continuamente frustrados por agentes britânicos que se recusam a oferecer mais detalhes alegando motivos de segurança nacional.

Hamilton disse ao The Intercept que considerava “ofensivo” o sigilo em torno de Menwith Hill. As revelações sobre o papel desempenhado pela base nas operações de assassinato e captura dos EUA, contou, provou que uma reavaliação completa de suas operações se faz necessária. “Qualquer nação que usa suas forças militares para atacar um inimigo, seja um terrorista ou não, seja legítima ou não, tem de prestar contas a seus eleitores”, contou Hamilton. “Esse é um princípio fundamental de nosso parlamento, é a base de todo nosso sistema democrático. Como podemos autorizar operações em Menwith sobre as quais não podemos prestar contas ao público? Eu não compro essa ideia de que você diz a palavra “segurança” e ninguém pode saber de nada. Precisamos saber o que está sendo feito em nosso nome.

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