The Intercept Brasil foi criado para fazer matérias de relevância, indiferente a quem possa não gostar. Por isso, não foi uma surpresa ver que a matéria que publicamos na semana passada, analisando os cortes drásticos nos 11 principais programas sociais do governo na primeira proposta orçamentária apresentada por Michel Temer, foi criticada por grupos da direita que apoiam suas reformas em favor de grandes industriais e “economias livres”. A surpresa veio na forma da ferocidade junto com a completa falta de base das acusações, jogando contra nosso trabalho.
O editor de um site direito-libertário, o “Instituto Mercado Popular” (IMP), assinou um post na página de Facebook deles, divulgado a seus 35 mil seguidores, chamando nossa análise, que comparava a proposta de Temer com a de Dilma Rousseff no ano anterior, de “porca” e “tudo mentira”. Ele chegou a essa conclusão porque “aquele projeto de orçamento [de Rousseff] era uma ilusão, e o gasto efetivo nessas áreas foi menor”. Ou seja, que a proposta orçamentária de 2016 era irrelevante porque os gastos verdadeiros em áreas sociais eram muito inferiores, criando a “falsa conclusão” de que Temer está propondo grandes cortes nessas áreas. O IMP não cita nenhum número, fonte, cálculo ou link relevante para apoiar sua conclusão, apenas diz. (O post também foi replicado na íntegra com o titulo “Glenn engana” pelo site “O Antagonista”, liderado pelo polemista da extrema-direita e ex-colunista da Veja, Diogo Mainardi.)
A análise original foi conduzida com o mesmo profissionalismo de sempre por Breno Costa, habituado a lidar com esse tipo de material desde a época em que era repórter de política na Folha de S.Paulo, por exemplo. (Vale a pena notar a ironia com que o IMP e O Antagonista personalizaram suas acusações de falta de rigor profissional contra o editor co-fundador do The Intercept, Glenn Greenwald, que não escreveu ou editou o texto em questão – até porque não tem essa função.)
Vamos aos números.
Desde que o Orçamento de 2016 foi aprovado e implementado, de acordo com um levantamento via Siafi (conforme dados disponíveis para consulta pública no sistema Siga Brasil, gerenciado pelo Senado Federal), houve, sim, R$ 2,18 bilhões em reduções de gastos no conjunto dos 11 programas sociais destacados inicialmente pelo The Intercept Brasil. Mas R$ 953 milhões (ou 43,6%) foram cortados nos três meses da interinidade de Michel Temer. O corte total nessas áreas foi de 1,17% de tudo o que havia sido projetado, inicialmente, pelo governo Dilma Rousseff, e 1,16% do que foi aprovado pelo Congresso em números nominais.
Desta vez, não gastamos nosso tempo corrigindo esses números para considerar a taxa de inflação no período, pois é sexta-feira, e a diferença é tão esmagadora que a natureza difamatória e mal-informada do crítico do IMP fica evidente. Para quem não leu nossa matéria, o governo Temer propõe um corte de R$ 29,2 bilhões (corrigido para inflação) nos mesmos 11 programas — uma queda real de 14% e uma redução media de 30% por programa. Essa diferença de dezenas de bilhões de reais é o que qualquer observador sóbrio chamaria de “cortes marcados”.
Outro ponto que o editor do Instituto Mercado Popular traz em seu post de Facebook, com bastante destaque, é que houve variações nas previsões de crescimento do PIB em 2016 e 2017 que impactaram negativamente a economia e a arrecadação de impostos. O fato é que a reportagem verificou, com base nas duas propostas orçamentárias, que o montante total de despesas do Orçamento Fiscal e da Seguridade Social programadas para 2017 é 4,8% maior (já descontada a inflação) do que o previsto por Dilma no momento da sua proposta orçamentária ao Congresso, no ano passado.
Ou seja, a grande questão, aqui, é entender por que há uma projeção (significativa) de menos recursos para os programas sociais listados, enquanto, dentro desse mesmo bolo, a fatia de áreas como defesa, agronegócio, política espacial e política nuclear, entre outros, apresenta crescimento. A base de recursos é a mesma. Por que, afinal, houve mudança no tamanho das fatias? É uma simples e legítima questão de prioridades (embora fosse muito mais legítima se os eleitores tivessem votado por um governo que fosse seguir nessa linha).
Também é importante deixar claro para quem ainda estiver interessado no assunto que, com todo o critério jornalístico que temos por obrigação e pelo nosso prazer em trabalhar, tivemos o cuidado de:
“Toda essa numeralha envolve apenas a proposta inicial de gastos. Esses valores serão trabalhados no Congresso e podem aumentar ou, considerando o perfil da base aliada, diminuir ainda mais. Além disso, na execução do Orçamento ao longo do ano que vem, o governo poderá promover diretamente o chamado contingenciamento de recursos – ou, traduzindo, fazer ainda mais cortes naquilo que já foi cortado.”
Imaginamos que o IMP tenha parado de ler a reportagem antes do final.
Poderíamos continuar, mas parece que uma acusação tão rasa não merece mais do nosso tempo, nem o seu.
Seria interessante, entretanto, saber por que os integrantes do Instituto Mercado Popular não pegam as íntegras das propostas orçamentárias de 2016 e 2017 e produzem um texto para o seu público a respeito dos números, indicando onde, exatamente, existe uma perspectiva de melhoria nos recursos que estarão disponíveis para os principais programas sociais. Talvez já se consiga deduzir a resposta.
Agora, vale a pena analisar quem é que acusou o The Intercept Brasil de publicar “mentiras ideologicamente motivadas”.
O escritor, Pedro Menezes, é editor do blog do Instituto Mercado Popular (IMP) e estudante do curso de graduação de economia no Insper, de acordo com sua biografia no site. O IMP, um grupo com oito integrantes listado no seu site, acredita que o liberalismo econômico é o caminho mais adequado para garantir bem-estar aos mais pobres e cita Adam Smith na abertura de seu manifesto ao público. É uma de várias novas organizações e “think tanks” no Brasil com nomes pomposos, fundado por integrantes de um movimento da extrema direita criado e orientado nos EUA.
Geralmente, entre esses grupos, existem uma a abundância de coligações para que um grupo pequeno possa estrategicamente criar a ilusão de um amplo movimento “grassroots”, torcendo exatamente para os tipos de reformas que o governo Temer e seus apoiadores estão tentando implementar (com o bônus de quase todo mundo envolvido poder botar no currículo ser “co-fundador” de X e “diretor” de Y e talvez ganhar uma bolsa para fazer um treinamento nos EUA). O IMP foi fundado em 2013 exclusivamente por membros do grupo Estudantes pela Liberdade, que é o berço, entre outros, do líder do Movimento Brasil Livre, Kim Kataguiri.
O “Estudantes pela Liberdade”, por sua vez, é descendente direto do americano “Students for Liberty”, uma organização surgida em 2008 com o apoio de entidades conservadoras dos EUA, entre eles os irmãos Charles e David Koch, apoiadores de várias causas neoliberais, libertárias, anti-regulação e pro-industria e que estão, ambos, entre os dez homens mais ricos do mundo. O conglomerado deles, a Koch Industries, é a segunda maior empresa de capital fechado nos Estados Unidos.
Agradecemos ao IMB a oportunidade de esclarecer e reforçar nosso trabalho e elucidar a falta de rigor no seu. The Intercept Brasil foi fundado porque acreditamos que existe uma carência de debate e análise bem informada sobre os assuntos mais importantes no Brasil atualmente e que esse vácuo serve aos interesses dos mais ricos e poderosos do país (parecido com os que se alinham com grupos como o IMP), que estrangulam os tradicionais meios de comunicação no país.
Pretendemos corrigir nossos erros rápida e transparentemente, sempre que necessário, e defender nosso trabalho quando atacado de forma espúria, como foi o caso desta vez. Novos adversários, sejam bem-vindos ao debate.
Quem quiser, pode ler a crítica do IMP na íntegra aqui:
É a guerra de classe. A classe média nacional quer direitos sim prévilegios.
Prezados jornalistas Breno Costa e Andrew Fishman, prezados leitores.
Tenho postado comentários sobre reportagens do Intercept Brasil, algumas vezes elogiando, outras vezes criticando. Mesmo quando critiquei duas reportagens de Breno Costa, eu deixei claro que tenho respeito pelo trabalho dele, um jornalista competente, com experiência. Eu havia lido a reportagem que deu lugar às críticas e acusações infundadas do “antagonista’ e IMB. Embora com pequenos erros e incompletudes, a reportagem é bem feita e digna de credibilidade, mostrando que o repórter se preocupou em apurar os fatos noticiados, antes de publicá-los, um princípio básico do jornalismo, mas cada vez mais raro nestes tempos em que os jornais se tornaram panfletos de uma direita golpista, reacionária e nazifascistóide. No que diz respeito à Fraude a Jato, os veículos do PIG recebem pronto o material dos vazamentos, não tendo nada o que apurar; qualquer ‘foca’ pé-rapado ou estagiário é capaz de editar e publicar o que já recebe mastigado dos integrantes daquela ORCRIM institucional. Nestes dias, o jornal O Globo publica uma entrevista do traidor-golpista-usurpador-corrupto profissional, michel temer, em que o ‘mordomo de filme de terror’ confunde Carlos Magno com o lendário Rei Arthur. Por incompetência ou sabujice ao governo golpista e àquele verme que ocupa a presidência após o golpe, NENHUM dos mais de cinco que entrevistaram o mordomo fizera alguma observação sobre o ‘engano’ cometido. Pior: por ignorância, despreparo ou a mais abjeta sabujice, a gafe foi publicada como se o ‘erudito’ poetastro que concebeu ‘Anônima intimidade’ estivesse absolutamente correto e não tivesse dito uma enorme bobagem. E o que dizer das perguntas tolas feitas pela equipe de entrevistadores?
Mas o melhor que tenho observado nos jornalistas colaboradores do Intercept é que eles interagem com os leitores e tratam de defender o trabalho deles, como é o caso desta reportagem-resposta, desmascarando os ‘antagonistas’ e filiais dos irmãos Koch, espalhadas pelo Brasil. E a costura feita por Breno Costa, citando MBL e Kataguiri foi uma jogada de mestre, um xeque-mate, que derrubou três instituições fraudulentas.
Isso, critique os “think tanks” de “extrema-direita (HAHAHA)” financiados pelos irmãos Koch e ignore os 3748937 portais de mídia esquerdista atuando no Brasil financiados por George Soros, inclusive o site do Sakamoto citado neste artigo.
“Que bom” que temos o Intercept e seu “compromisso com a verdade” agora no Brasil…
Quem fez ataque gratuito e mal fundamentado a The Intercept mesmo? Sakamoto? Brasil 247? Não: O Antagonista e Instituto Mercado Popular. Por que os trocentos “portais de mídia esquerdista” deveriam ser citado nessa réplica?
Mercado Popular <3
Apesar do pouco tempo atuando no Brasil, é perceptível o compromisso que o The Intercept tem com a verdade e com a informação de qualidade. Sou fã do excelente trabalho que eles estão desenvolvendo e me irrito ao ver criticas infundadas e não construtivas a seu jornalismo. Finalizo afirmando que eu, e muitas outros leitores, acreditamos firmemente no jornal e damos os parabéns pelo artigo sincero e auto consciente.
Epa, mas se a comparação foi com a proposta de orçamento a presentada pela Dilma, não com o orçamento aprovado ou os gastos efetivados, então eles têm razão que o título da matéria original foi falso. Não é 30% de cortes, pois só é um “corte” se diminui os gastos reais e efetivos, o que não é o caso dos 30% averiguados.
Falharam nessa Intercept! Alias, a minha impressão é que há de fato uma tendência geral na publicação de sacrificar a precisão dos fatos em favor de objetivos políticos que as matérias visam defender. Isso compromete a qualidade do jornalismo. Eu me vejo frequentemente pensando: “vi tal e tal afirmação no Intercept, mas preciso averiguar se foi isso mesmo, pois o Intercept é meio tendencioso e muitas vezes distorce os fatos”.
Volta ao texto, pois parece que você não conseguiu ler atentamente.
Voltei a ler a matéria original e de fato vejo que fez afirmações falsas:
“Temer acaba de propor ao Congresso a redução média de 30% nos valores para os 11 principais programas da área social do governo”
Não é “redução” de 30%, mas sim valores 30% menores do que os valores propostos por Dilma, mas que representam uma redução bem menor do que 30% nos gastos sociais.
Não façam isso por favor!
Porque não informaram quais são os 11 programas? E qual o % real de redução proposto pelo governo? Isso sim seria uma reportagem informativa!
“Não é “redução” de 30%, mas sim valores 30% menores”
uauuuuuuuuuu
bateu fundo cara…
Me chamou a atenção na mensagem do pró-mercado Mercado Popular a frase
” Não tem novidade aí, como sabe qualquer estudante de Universidade Federal”.
Sem dúvida, uma clara manifestação de racismo por parte dos que não aceitam e tem ojeriza às conquistas dos afro-brasileiros.
Meus calorosos parábens ao Intercept Brasil por sua iniciativa e por suas matérias. Assisto regularmente ”Democracy Now!” (lançado em 1996, pela Pacifica Radio – USA) e assim já assisti várias entrevistas com membros do The Intercept. Adquiri e assisti o documentário ”Dirty Wars”, do destemido e bem informado editor Jeremy Scahill, e no momento estou lendo o livro ”Democracy Now|” por Amy Goodman e outros.
Entre todas as qualidades do The Intercept Brasil, peço mais matérias sobre o apartheid brasileiro e o movimento negro brasileiro e espaço para jornalistas e/ou colaboradores identificados com a temática.
Os principais jornais e revistas brasileiros pouco representam a população brasileira. Por exemplo, o jornal Folha de São Paulo tem uns 500 jornalistas e, se não me engano, nem 5 são afro-brasileiros.
Vida longa ao The Intercept Brasil!
Obrigado por entrarem no jogo. Estávamos precisando disso.
Parabéns pelo trabalho!
Força à equipe de jornalistas do The Intercept_Brasil!!
Realmente, o país estava precisando de um meio de informações comprometido com a verdade, praticando o verdadeiro jornalismo.
Parabéns!!
Pessoalmente, este é mais um dentre tantos exemplos de que tenho contato de que a direita quando propõe ou defende tópicos, não é capaz de se basear em argumentação sólida. São sempre falácias, repetidas aos 4 ventos, até que se torne um senso-comum superficial.
O Intercept, fazendo jus ao seu cacife jornalístico, matou a cobra e mostrou o pau, como é dever de todos nós, progressistas que lutamos pela justiça nesse país.
Parabéns a todos.
Almir, vejo inúmeros argumentos e contra-argumentos desse pessoal que mais parecem baseados em uma religião, não importa a quantidade de fatos e estudos que você traga à discussão. Um dos exemplos que cansei de ver é a questão da Lei Rouanet, mesmo depois de divulgado que quem mais se beneficiam são os meios de comunicação tradicionais, continuam criticando atores e outros com participação bem menor.
Verdade Leandro.
Os exemplos são diversos. O comportamento é exatamente esse. “Dane-se a verdade, se a versão me agrada mais do que o fato”.
O pior é que grande parte do país entrou nessa onda de irracionalidade.
A Anta Agonia querendo criticar kkkkkkkkkk
Eu não espero outra postura do The Intercept Brasil, preciso e preparado para o bom combate. Parabéns.
Ainda bem que temos o The Intercept Brazil para nos informar e analisar com imparcialidade o que acontece aqui.
Espero que o seu sucesso mostre aos meios de comunicação brasileiros o quanto estão errados.
Obrigado Glenn !
PERFEITO.
Voces chegaram para fazer a diferença.
estamos mal acostumados com informações falsas e tendenciosas e a verdade dói.
Continuem com o verdadeiro trabalho jornalístico.
Olá
Achei algumas partes estranhas dessa tréplica — algumas me deixaram incomodado.
Mas citarei apenas uma: a acusação que o Mercado Popular é abastecido ideologicamente e financeiramente por liberais estrangeiros.
Isso não se aplicaria ao próprio The Intercept Brasil?
Esperem a tréplica comentando sobre Soros, Ford Foundation e etc.
Abraços
Só temos a agradecer o excelente trabalho que vocês tem feito. Um alento em meio ao esvaziamento da opinião crítica e séria em nosso país. Todo apoio ao Intercept Brasil!
Excelente e detalhada resposta ao IMP.
Parabéns pelo vosso trabalho! A preocupação nos detalhes da análise, lhes dão base concreta para defender o artigo de ataques qualificados e deixa fácil a defesa sobre sofismas baratos tão costumaz entre os religiosos da “mão invisível”. Continuem, pois o país precisa de informação de qualidade como The Intercept Brasil tem demonstrado desde seu início. Vocês são uma verdadeira oxigenação na nossa triste cultura da informação vilipendiada.
Obrigado, Gileno! Continua lendo, por favor.
Todo apoio ao The intercept Brasil. Não se preocupem essa Mídia comprada sempre tentará esconder a verdade com sofismas baratos, mas nós sempre estaremos aqui para revelar suas mentiras. Abraços.
Curioso que “criam” um Instituto Mercado Popular, que adotando o termo “Popular” em sua denominação, para propor decisões anti-populares.
Acho que a estupidez chegou a níveis tais que deveria passar a ser tratada como questão de saúde pública.
Marcelo, também percebi isso. Concordo com você.
A par da importância dos números apresentados por The Intercept Brasil, o que conta mesmo é o seguinte: Como Acreditar num governo onde o presidente é acusado por recebimento de propinas sem falar no núcleo duro que é acusado por vários crimes de corrupção? Isso é inadmissível. O resto é café pequeno.