Imediatamente depois do ataque de 11 de setembro, enquanto os cadáveres ainda se encontravam sob os escombros, George W. Bush exigiu autorização do Congresso para utilizar força militar contra os responsáveis pelo ataque, que evidentemente seria utilizada para justificar a invasão do Afeganistão. A resolução que foi criada por consequência era vaga, abrangente e estipulava:

“O presidente está autorizado a usar todo o tipo de força necessária e adequada contra as nações, organizações ou pessoas que ele constatar terem planejado, autorizado, cometido ou auxiliado os ataques terroristas ocorridos em 11 de setembro de 2001, ou que tenham abrigado tais organizações ou pessoas.”

Apesar de sua abrangência, ou por conta dela, a Câmara dos Deputados aprovou a resolução em 14 de setembro, por 420 a 1. A resolução foi aprovada pelo Senado no mesmo dia, por 98 votos a 0. O único voto de dissidência veio da deputada democrata pela Califórnia, Barbara Lee, que, apenas três dias depois do ataque de 11 de setembro, em um ambiente de unanimidade praticamente absoluta, votou contra a resolução e, além disso, subiu ao púlpito da Câmara para proferir uma justificativa aos seus opositores de forma eloquente, resoluta e, conforme ficou comprovado, extremamente presciente:

Em um editorial publicado nove dias depois no San Francisco Chronicle, a deputada explicou seu voto, salientando que a resolução “era um cheque em branco para que o presidente pudesse atacar qualquer envolvido nos acontecimentos de 11 de setembro — em qualquer lugar, em qualquer país, independente de nossos interesses econômicos, da segurança nacional e de nossa política externa a longo prazo, além de não ter um limite de tempo”. Ela acrescentou: “A pressa em iniciar contra-ataques militares precipitados gera um risco considerável de que mais homens, mulheres e crianças inocentes percam suas vidas.”

Manchete: “Quem é Barbara Lee? E seu voto de “não” era motivado por pacifismo ou anti-Americanismo?”

Por sua abordagem solitária, Lee recebeu tamanha avalanche de insultos vulgares e ameaças de morte que precisou contratar guarda-costas presentes 24 horas por dia. A deputada foi acusada de ser “antiamericana” por diversos meios de comunicação, inclusive pelo Wall Street Journal. Em um editorial em 18 de setembro, o Washington Times descreveu Lee como sendo uma “antiga apoiadora dos inimigos dos EUA — até mesmo de Fidel Castro” e que, “enquanto a maioria dos democratas de esquerda passaram o dia elogiando o Presidente Bush e tentando aparentar moderação, Barbara Lee continuou a mostrar sua verdadeira face”. Desde então, a deputada foi rejeitada inúmeras vezes para a liderança democrata da casa, geralmente perdendo para candidatos militaristas e aliados a Wall Street. Documentei inúmeros ataques ofensivos quando escrevi sobre ela no The Guardian, em 2013.

“Vamos parar por apenas um minuto e pensar nas consequências de nossas ações de hoje, para que não percamos o controle.”

Mas, além do reconhecimento pela coragem evidentemente necessária para tomar a posição que tomou, a história fez jus ao seu posicionamento com base no mérito. Quase metade dos americanos crê que a primeira guerra (Afeganistão) que se valeu da Autorização para Uso de Força Militar (Authorization for Use of Military Force – AUMF) foi um erro. Quinze anos depois, a mesma AUMF continua a ser usada pelo Governo de Obama para justificar diversos tipos de guerras que não têm nada a ver com os ataques de 11 de setembro — incluindo sua parceria recentemente revelada com a Rússia na Síria. Valendo-se dessa resolução, Obama bombardeou sete países predominantemente muçulmanos em sete anos; um memorando de 2013 do Serviço de Pesquisa do Congresso (CRS), solicitado por Lee, listou todas as ações e abusos militares supostamente realizados sob a autoridade da resolução:

AUMF

Tradução. Ações tomadas sob a autoridade da AUMF.

Não se pode subestimar o nível de precisão do posicionamento de Lee ao alertar que essa resolução representaria um “cheque em branco” para declarar guerras “em qualquer lugar, em qualquer país”, “sem limite de tempo”. Quinze anos depois, essa “guerra” continua sendo mais destrutiva do que nunca, sem um fim à vista. Certamente, conforme meu colega do The Intercept, Alex Emmons, documentou neste domingo, “15 anos depois dos ataques de 11 de setembro, parece que a guerra ao terror ainda de encontra em seu primeiro ato”. É certo que qualquer um dos dois candidatos à presidência usará a resolução para as novas ramificações dessa mesma guerra.

Lee não desistiu de sua causa, tentando inúmeras vezes liderar uma revogação da AUMF, mas, devido à oposição de dois governos consecutivos (um de cada partido), não conseguiu obter o apoio de seus colegas. Ainda que seu alerta a respeito do “cheque em branco” tenha sido extremamente presciente, o outro alerta que deu, em 14 de setembro, no púlpito da Câmara, foi ainda mais profundo: “Não nos tornemos o mal que deploramos.”

Os ataques de 11 de setembro mataram quase 3 mil pessoas, mas os 15 anos de guerras bombardeios, invasões, ocupações e outros abusos — em sua grande maioria, ainda em curso — fizeram muito mais vítimas do que isso. Os americanos adoram homenagear as vítimas dos ataques de 11 de setembro, mas o abundante número de vítimas resultante das ações de seu próprio governo (tanto antes quanto depois de 11 de setembro) geralmente é ignorado. Independente do que é comemorado em 11 de setembro, os alertas visionários e a coragem solitária de Barbara Lee devem sempre se encontrar entre os primeiros da lista.