Jamais esquecerei quando câmaras da TV Amapá registraram, sem querer, o voto de Sarney nas últimas eleições. Com o adesivo de campanha de Dilma colado no peito, esse dinossauro brasileiro não teve dúvidas na hora de votar: apertou 4, 5 e confirma. O peemedebista fez campanha para Dilma, mas votou em Aécio no escurinho da urna. Uma cena que é praticamente um resumo da política partidária brasileira, em que se prega uma coisa em público, mas se faz diametralmente o oposto nas sombras.
O ex-deputado federal Eduardo Cunha é um grande expoente dessa tradição. Seu discurso de defesa na votação pela sua cassação foi um exemplo magnífico. Apreciemos este trecho:
“Estamos aqui vivendo um processo de natureza política, dentro de um conceito de denúncias do chamado petrolão, que é um esquema criminoso montado pelo governo do PT para financiar as campanhas eleitorais e para o seu enriquecimento próprio.”
Não é maravilhoso? Este homem de Deus, que recebeu propinas no esquema do Petrolão, se mostrou indignado com…as propinas no esquema do Petrolão!
Contrariando expectativas, Cunha foi massacrado na votação. O processo de cassação durou quase 11 meses e se tornou o mais longo da história da Câmara dos Deputados. Cumprida a missão do impeachment, praticamente todos os aliados abandonaram seu líder ferido na estrada. O senhor Jair Messias Bolsonaro, por exemplo, chegou a fazer uma efusiva homenagem ao proprietário da Jesus.com durante votação do impeachment na Câmara:
”Nesse dia de glória para o povo brasileiro, tem um nome que entrará para a história nessa data, pela forma como conduziu os trabalhos nessa Casa. Parabéns, presidente Eduardo Cunha!”
Qual fato novo aconteceu nesse ínterim para Jair votar a favor da cassação de Cunha? Absolutamente nenhum. Durante todo o processo de impeachment, quando Cunha liderou boa parte dos deputados, a acusação pela qual foi cassado (e muitas outras) já existia.
E onde estão os movimentos apartidários que lutavam contra a corrupção de todos os partidos? Não foram às ruas para comemorar a cassação de Cunha, mas demonstraram felicidade nas redes sociais. Uma felicidade pra inglês ver, pra Bolsonaro nenhum botar defeito.
Em sua coluna na Folha, o líder do MBL, Kim Kataguiri, disse que nunca teve ligação com o ex-deputado. Reclamou da insistência na divulgação da já clássica foto em que aparece sorridente ao lado de Cunha, levantando o dedinho. Segundo ele, a imagem registrou apenas uma relação institucional. Cunha era o presidente da Câmara, e só ele poderia aceitar o pedido de impeachment. Ele tem razão, a foto não prova nada. O que prova a ligação do MBL com Cunha e seu grupo político são outros fatos muito mais comprometedores.
Tirando uma declaração ou outra contra Cunha para tentar manter um verniz de coerência no movimento, nunca vimos uma campanha massiva contra ele. Pelo contrário, o que se viu foi uma ligação bastante amistosa com o ex-deputado e seu partido.
Em julho do ano passado, o MBL acampou na casa de Eduardo Cunha, mas não foi para protestar contra suas contas na Suíça, mas para pedir o impeachment de Dilma e tirar selfies com o nobre deputado. Destaco esse trecho da reportagem do Estadão:
“Os ativistas chegaram ao local por volta das 20h da quarta-feira, 30. Quando Cunha chegou à residência, cumprimentou os ativistas e fez selfies com eles. ‘Ele está bastante popular. Já que o governo está impopular, e ele rachou com o governo, ele está popular’, disse o estudante de economia Maurício Bento, 23, coordenador do MBL Brasília.”
Em áudio vazado em fevereiro deste ano, Renan dos Santos, líder do grupo, afirmou:
“O MBL acabou de fechar com PMDB, PSDB, DEM uma articulação para eles ajudarem…ah, e também com a Força Sindical do Paulinho…pra divulgar o dia 13 (manifestação) usando as máquinas deles também. Enfim, usar uma força que a gente nunca teve. E foi o MBL que montou isso. A gente costurou agora com todos eles.”
O MBL estava ligado a PMDB, PSDB, DEM e a Paulinho da Força, do Solidariedade. Haja apartidarismo! Paulinho da Força era nada mais, nada menos que o principal aliado de Cunha na Câmara, um dos poucos fiéis que restaram. O sindicalista preferido dos patrões é o autor da célebre frase “Cunha é a pessoa mais correta que eu já encontrei na vida”.
Um ex-integrante do MBL se desligou do grupo após questionar “a falta de transparência e o apoio repentino do MBL ao PMDB e ao governo Temer”. Em entrevista ao DCM, Braulio Fazolo confirma o apartidarismo peemedebista do grupo:
“O movimento recebeu dinheiro do PMDB. Não só do PMDB mas de alguns outros partidos (…) É um assunto que nunca foi tratado muito bem, mas a gente sabia que existia o dinheiro que vinha do PMDB, a gente não sabia quanto, da mão de quem ele vinha e como esse dinheiro estava sendo aplicado. Para onde ele estava indo? Como ele estava sendo movimentado, na conta de quem? Ficavam sempre perguntas sem resposta.”
Entretanto, em entrevista ao The Guardian ano passado, seus líderes disseram: “Infelizmente, nós não temos nenhum grande patrocinador”.
Mas a coisa não fica só nisso. Nossos coleguinhas apartidários fizeram diversos outros brothers na política. Kim foi até a Bahia e fechou aliança com José Carlos Aleluia do DEM, famoso pelo envolvimento nos escândalos das Ambulâncias e dos Anões do Orçamento. A amizade é tão grande que eles já até se encontraram em Nova Iorque pra protestar juntinhos contra Dilma.
Outro líder do grupo, Fernando Holiday, entrou para o DEM – partido partido que lidera o ranking da corrupção – apadrinhado por Pauderney Avelino que, segundo Sérgio Machado, é o “homem mais corrupto que existe”. Não sei se é possível ser mais corrupto que Cunha, mas ele chegou a ser condenado a devolver R$ 4,6 milhões de reais aos cofres públicos por desvios da Educação quando era secretário em Manaus. Foi Pauderney também que forneceu de forma irregular crachás para os líderes do MBL circularem pela Câmara nas vésperas da votação do impeachment – com autorização de Eduardo Cunha, claro.
Além de apoiarem as principais ações do governo não-eleito, o MBL já anunciou que nas próximas eleições irá apoiar 42 candidatos dos seguintes partidos: PMDB, DEM, PSDB, PP, PTB. Parece que o dinheiro repassado para os meninos apartidários protestarem foi um excelente investimento.
O MBL escolhe bem os amigos e já se adequou perfeitamente aos modos da política brasileira que finge combater. Diferente do que pregam, usufruíram das “máquinas” dos partidos para alavancar seus interesses. É essa juventude que vai renovar a política?
O grupo parece seguir com afinco a mais tradicional característica da política brasileira: a dissimulação, o peemedebismo. Se dizem apartidários, mas são financiados por partidos e irão lançar e apoiar vários candidatos nas próximas eleições. Posam de liberais modernos, avessos à politicagem tradicional, mas lançarão candidatos pelo DEM, ex-PFL e ex-Arena – o partido que sustentou a ditadura militar e hoje abriga um conservadorismo tacanho.
A verdadeira intenção do grupo não é renovar ou moralizar a política, mas contribuir para a implantação de uma agenda neoliberal no país. Nem que pra isso seja preciso se aliar a políticos corruptos que estejam alinhados à sua ideologia.
Não é difícil compreender a lógica do movimento. Ele é apartidário na fachada, mas por dentro é um PMDB de terno e tênis. O MBL é a versão yuppie do Sarney.
http://apublica.org/2015/06/a-nova-roupa-da-direita/#.V-ysL0e-7qM.facebook
Excelente texto e análise de conjuntura!
Este site é dos poucos que leio com prazer e sempre encontro informações confiáveis e corretas.
Parabéns!
quem se deixa influenciar por esse grupo no fundo não são meros inocentes.
Impressionantes seus últimos artigos. Este site é simplesmente inacreditável, talvez a melhor coisa que já aconteceu em todo o cenário da mídia e imprensa brasileira. Merece uma rede de TV nacional para solapar todas as outras concessões traidoras da democracia e do povo, e que não seja detonado antes. Parabéns pela coragem e pela decência tão rara hoje em dia e pelos brasileiros que colaboram de forma tão consistente, clara e abrangente. De um brasileiro que mora no exterior.
Adorei seu texto.
Adoraria trocar idéias sobre esses pseudo-movimentos.
Kataguiri é um menino frustrado, dissemina ódio e tem conhecimento nulo sobre Neoliberalismo.
Sou bacharel em Relações Internacionais, muito do que ele fala, ofende, e muito quem escreve.
MBL inimigos da pátria brasileira
Um site responsável e confiável. “Kataguiri” nada mais é do que um bobo com força de manipular o momento na internet.
Um alento esse site. É a única fonte que leio sem medo de ser enganada.
Estou fazendo uma pesquisa sobre o MBL. Será que há coerência nas afirmações do Movimento receber recursos de think tanks norte-americanas para fomentar ideários ligados ao neoliberalismo? Quer dizer, há relação entre MBL e EPL?
Com relacao a sua primeira pergunta.
Sim, com certeza temos provas disso. Pesquise, inocentemente, quais viagens ele fez e quais institutos que ele visitou. Minta ser do MBL e fale direto com essas instituicoes que vc recebera por email a informacao desejada.
Ha varios partidos, corporacoes e institutos fomentando o golpe no Brasil. Na Alemanha a fundacao Adenauer que financia partidos falidos de direita no pais (tipo fdp) andou ajundando a financiar tour pra gente da direita ir falar bem do golpe em “think thanks” e eventos “brasil-alemanha”.
Ai chegou aqui e ele tomou ferro.
Em Berlim:
http://link.blog.br/comentarios/berlim-foi-palco-de-escracho-contra-o-deputado-federal-onyx-lorenzoni-demrs-100332
E em Hamburgo:
https://vimeo.com/171602616
ps. Desculpa a fundacao eh que bancou os eventos na alemanha eh a Friedrich-Naumann
Eles são contra a corrupção….que não os beneficia
Diga-me com quem andas e te direi quem és!
João,
O intercept e os seus textos foram uma das melhoras descobertas minhas aqui pela web. Parabéns pelo texto!
Muito obrigado, Alex. Um abraço.
Excelente reportagem, estilo combativo de ser. O The Intercept é uma inspiração para mim enquanto estudante de comunicação e jornalista que sou! A imbecilidade desses “rebeldes” com causa – a corrupção, não tem limites. Eles se aliam ao DEM e se dizem apartidários… Entendi tudo.
;)
Perfeito!
Parabéns pela reportagem!!!
Parabéns a João Filho e á equipe do Intercept pela boa reportagem. O DCM já havia produzido e publicado reportagens, desmascarando o MBL, Vem Pra Rua e outros movimentos de direita, que se intitulavam ‘apartidários’, mas que sempre foram alinhadíssimos com partidos políticos da direita e centro- direita (DEM, PSDB, PMDB e outros); depois ficamos sabendo que além de alinhados, esses movimentos foram financiados pelos partidos de direita e por ONGs estadunidenses, que os treinaram, notadamente algumas bancadas pelos irmãos Koch.
Aos que têm dificuldade em compreender como e por que jovens adotam o discurso conservador, preconceituoso e até nazifascista de uma direita oligárquica, plutocrática, exploradora, entreguista, com um discurso falso-moralista, eivado de preconceitos, cheio de ódio, mas com pretensas superioridade e cientificidade, sugiro prestar atenção às conversas que se ouvem em consultórios médicos e odontológicos ou mesmo entre funcionários públicos, de empresas estatais ou privadas – em que haja pelo menos duas pessoas com mais de 50 anos. Os filhos, colegas ou outros jovens que são submetidos ao convívio diário com essa classe média e média-alta, preconceituosa, reacionária e conservadora, repetirá o mesmo discurso dos pais, chefes ou colegas mais velhos. Falo e escrevo isso porque o observo e constato diàriamente.
O cientista e professor Jessé Souza possui várias obras publicadas, que permitem entender o reacionarismo da classe média, manipulada pela elite do dinheiro e por esta usada como massa de manobra, para dar ares de massivo apoio às manobras golpistas que depuseram um governo legítimo, substituindo-o pelas oligarquias plutocráticas e cleptocráticas, herdeiras da Casa Grande e fiéis vassalas dos interesses econômicos e geopolíticos dos EUA, onde fica o alto comando do golpe.
Ótimo artigo, parabéns. É mais uma amostra da superficialidade desse grupo, que induziu o ódio com um discurso de falso moralista. Agora para pagar as contas precisam se aliar com aqueles que disseram combater, mas que na verdade sempre estiveram juntos. Como hipocrisia não dura muito, uma hora é a vez deles estarem na berlinda e ser abandonados por seus “aliados”.
Obrigado, Diego.
Excelente artigo, João e equipe do site.
So um comentario: nao acho justo dizer que apenas o DEM e ex-PFL, ex-Arena. Afinal, o Calheiros e Sarney sao PMDB hoje em dia.
Não há aberração maior do que jovens de direita.
Jovens são (ou deveriam ser) incomodados com tudo que é atrasado, são propensos a mudanças, são eles os revolucionários por natureza.
Quando vejo um jovem defendendo ideias da época do seu avô, me dá uma grande tristeza.
Verdade, concordo…porém, tem aqueles q são calhordinhas, e querem ingressar na política, porq sabem o quanto vão lucrar no futuro…infelizmente!
A política nacional é feita de distorção da verdade para a adequação aos fatos.
Foi dito na reportagem que no texto publicado na folha informou-se que “a imagem registrou apenas uma relação institucional. Cunha era o presidente da Câmara, e só ele poderia aceitar o pedido de impeachment”.
Sim, institucionalmente, somente o presidente da Câmara pode exercer o juízo de admissibilidade do processo de impeachment, mas o protocolo pode ser feito no setor de protocolo da câmara que encaminhará o pedido ao presidente.
Veja que a OAB também protocolou um pedido de impechment que seria entregue no protocolo, mas pelo tumulto entre os advogados que apoiavam e que eram contra o impeachment teve de ser protocolado na secretária da mesa.
A foto demonstra sim uma relação íntima entre Cunha e o MBL e não se pode confundir o juízo primário de admissibilidade (que sim, incumbe ao presidente da câmara por disposição constitucional), com a simples recepção de documentos, ato que pode ser realizado no protocolo da câmara.
Consumidos consumidores, que buscam os que são consumidos. O MBL também é adestrado a dar robustez a um modelo econômico que limita.
Excelente reportagem.
Há um documentário no youtube com mais de 500 mil visualizações e, segundo os próprios realizadores, foi muito visto no Brasil. Trata-se da atuação dos Irmãos Koch (com legendas em português). Um assunto que ainda precisa ser investigado em profundidade.Link para o vídeo
https://www.youtube.com/watch?v=2N8y2SVerW8
Excelente artigo, João Filho. Saudações a Glenn Greenwald e equipe.
Esse Kim nunca me enganou. Pobres dos acéfalos que seguem esse grupinho golpista.
MBL so querem ganhar dinheiro daqueles gringos babacas millonarios Koch brothers que fica financiando gente como esses achando ele que eles sao serious.
Parabéns.
O MBL traz características políticas e de marketing que lembram o nazismo.
Esse novo sanguessuga brasileiro não pode influenciar tanto jovens bem intencionados Brasil afora.
Fernando Holiday me causa asco.
Por fim, a reportagem está sensacional, com costuras perfeitas. Parabéns João Filho.
O tal mbl não passa de um bando de mentirosos fascistas. Eles são espertos, ganham dinheiro de todos os lados, de contribuições dos otários que os seguem, e dos bandidos da Congresso.
MBL é composto por oportunistas de direita treinados nos EUA para exercerem liderança em uma espécie de Tea Party no Brasil. Entreguistas e mentirosos!
Apesar de achar que o João Filho fez apontamentos importantes e interessantes, a minha opinião sobre o tal “mbl” é bem essa que você materializou. Por ser ótima, repito:
“MBL é composto por oportunistas de direita treinados nos EUA para exercerem liderança em uma espécie de Tea Party no Brasil. Entreguistas e mentirosos!”
Acrescentaria apenas que, além de treinados por governos e empresas estrangeiras, quase com certeza, são também financiados por eles.