Nos anos FHC, a Polícia Federal era mais conhecida pelo afinco em queimar plantações de maconha do que pelas operações contra a corrupção. Quando vi o ministro da Justiça de Temer destruindo plantas de maconha no Paraguai com um portentoso facão, como se fosse McGyver, tive a certeza que a Ponte (de volta) para o Futuro terminava mesmo nos anos 90.
Esta foi apenas uma das trapalhadas que Alexandre Moraes vem colecionando ao longo de sua carreira política. A última delas, quando antecipou uma ação da Lava Jato durante comício de um colega tucano, derrubaria qualquer ministro no mundo, mas não no governo não-eleito de Michel Temer. Agora, as informações sigilosas da PF não são vazadas apenas para jornalistas da Globo, mas para amigos em comícios do PSDB e em saunas de São Paulo. O fato, que merecia ser encarado como um escândalo de enormes proporções, foi tratado por grande parte da imprensa como uma mera “gafe”, uma “falha”, um deslize de um ministro trapalhão.
Apesar de ser um advogado bastante renomado e reunir as condições técnicas exigidas pelo cargo, o ministro tem se destacado muito mais pela atuação cinematográfica, pirotécnica e repleta de presepadas. O estardalhaço feito na prisão dos terroristas de mentirinha foi um exemplo, mas essa é só a ponta de um longo novelo.
Geraldo Alckmin foi o responsável por trazer a figura para o mundo da política. Em 2002, Moraes saiu do Ministério Público para ser Secretário da Justiça do Estado de São Paulo, onde ficou até 2005. Durante parte desse período, acumulou o cargo de presidente da Febem (hoje Fundação Casa). Foi lá que o atual ministro começou a mostrar do que seria capaz. Com a mesma voracidade que demonstrou ao cortar plantas de maconha, Moraes passou o facão na Febem e, de uma só vez, cortou 1.600 funcionários concursados — a maior demissão em massa da história da instituição.
Mas nem o mais fanático neoliberal aplaudiu, já que o suposto enxugamento da máquina pública foi considerado arbitrário e ilegal pela Justiça. A briga judicial foi longa, chegou até o STF e, ao final, todos os funcionários tiveram que ser readmitidos, ocasionando um rombo de R$ 32 milhões aos cofres públicos paulistas — um verdadeiro eletrochoque de gestão. A Câmara dos Deputados parece não ter visto grandes problemas na presepada da Febem, já que, em 2005, indicou o nome de Moraes para o Conselho Nacional de Justiça.
Entre 2007 e 2010, ficou conhecido como o supersecretário do então prefeito Kassab em São Paulo, quando comandou simultaneamente a Secretaria dos Transportes, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a SPTrans e o Serviço Funerário. Mesmo com todo esse prestígio, as polêmicas colecionadas por Moraes levaram o prefeito a demitir o seu braço-direito, que resolveu abrir um escritório de advocacia. Mas ele não se distanciou da política, muito pelo contrário. Em seu escritório, passou a defender políticos acusados de corrupção como Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Rodrigo Garcia (DEM-SP) e Gabriel Chalita (PDT-SP).
Cunha, que posteriormente indicaria Moraes para Temer, foi defendido numa acusação de uso de documento falso para suspender um processo contra ele no Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. Garcia recebeu assistência do tucano numa acusação de recebimento propina no escândalo do Trensalão, após ser delatado por um ex-diretor da Siemens. Chalita foi defendido num caso em que foi acusado de receber propinas entre 2002 e 2006, quando era secretário de Educação de Alckmin e filiado ao PSDB. O promotor que investigava o caso disse estar sendo pressionado a encerrar as investigações e afirmou ter sido procurado pelo atual ministro da Justiça, que lhe avisou que tentaria arquivar os inquéritos com recursos ao Conselho Superior do Ministério Público.
Pausa para uma curiosidade: logo que assumiu o Ministério da Justiça, Moraes se sentiu à vontade para declarar que “a única diferença em relação ao governo federal (PT) é que o governo de SP (PSDB) é honesto. E um governo honesto é menos investigado porque não tem escândalos“.
Além desses serviços jurídicos de excelência prestados ao ninho tucano, a cooperativa Transcooper, suspeita de lavar dinheiro do PCC, também foi defendida por Moraes em 123 ações.
Foi com esse belo histórico que ele foi escolhido pelo governador Alckmin para ser Secretário de Segurança de São Paulo. Em 2015, mesmo ano em que Moraes se filiou ao PSDB, a PM foi responsável por 1 entre 4 pessoas assassinadas na capital paulista — um recorde histórico. Durante sua gestão, as mortes registradas em confronto com PM cresceram 61%.
Quando uma funcionária foi estuprada dentro de uma cabine de recarga do Bilhete Único no metrô, Alexandre Moraes nos presenteou com essa malufada:
“Não se consumou o roubo do cofre. É importante que isso seja colocado para mostrar que há segurança onde se guarda os valores no Metrô”.
Diante do crime hediondo, ele considerou importante ressaltar que o patrimônio permaneceu intacto. Uma mulher foi estuprada, mas o dinheiro permaneceu protegido. Certamente a população paulista foi dormir mais tranquila naquele dia.
Mesmo sabendo desse vasto currículo no ramo da vacilação, Michel Temer alçou o amigão de mais de 20 anos à nobre condição de ministro da Justiça. E, pelo que lemos no noticiário, Moraes continua firme e forte no cargo. Não por sua competência, mas pela sua aparência, e isso não é uma piada. Segundo Kleber Sales do Estadão, Michel Temer considera importante a imagem que Moraes empresta ao governo:
“Além da dificuldade em encontrar um nome para substituí-lo, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, será mantido no cargo por questões estéticas. O Palácio do Planalto avalia que a aparência dele confere à pasta maior credibilidade. Ele é comparado ao policial Kojac, personagem de série de TV.”
Difícil acrescentar alguma coisa à nota. Numa época em que ministros do STF participam abertamente do jogo político-partidário, juízes defendem que os fins justificam os meios e desembargadores consideram roubo de salame um crime pior que o assassinato de 111 pessoas desarmadas, parece-me bastante adequado que a aparência de Sargento Pincel mantenha esse Trapalhão no cargo de Ministro da Justiça. É natural que um governo de fachada, que derrubou o anterior através de uma pantomima, tenha essa essa preocupação estética.
Sem dúvidas Alexandre de Moraes é um presepeiro, é um jurista fraco (a produção doutrinária dele parece mais um almanaque Abril para estudantes de Direito), sua conduta é anti ética à frente do Ministério do governo golpista e ilegítimo, mas só discordo do tom de criminalização do exercício da advocacia pelo fato dele defender acusados de corrupção. Os Bolsonaro nos brindam com esse discurso, só que à direita, beirando o fascismo, ao tentar criminalizar a Luciana Boiteuax no Rio por defender o traficante Uê (na verdade não era o Uê que era seu cliente no processo em questão, mas ainda que fosse, não haveria problema algum) e da mesma forma os coxinhas do Direito, como o juiz Moro, o fazem ao grampear todo o escritório do advogado de Lula. É preciso tomar cuidado com esse tipo de discurso que criminaliza o exercício da advocacia, ou vamos criminalizar médicos que salvaram a vida do Sarney ou de notórios homicidas, vamos criminalizar jornalistas que trabalham para os veículos da Rede Globo, da Tv Record, vamos criminalizar professores que dão aulas em instituições privadas de ensino que visam o lucro o não o bem comum. Fica o toque.
O que esperar do ‘presidente’ Temer? Nada que venha de um governo ilegítimo me surpreende. Ótimo texto!
De um governo golpista e que é uma verdadeira farsa, só nos resta esperar que seus “ministros” sejam exatamente a mesma coisa. E assim caminha a mediocridade!!@
Infelizmente o brasileiro apoia esse tipo de iniciativa…
Eu não sabia que um país podia retroceder tanto em tão pouco tempo.
Simplesmente todos os principais cargos de nossas instituições estão ocupados por pessoas com um currículo que provavelmente garantiria cadeia em um país sério.
A população se tornou um fantoche que repete todos os mantras da mídia sem contestar. A mídia é só mais um dos tentáculos do partidos políticos. Os partidos não tem nenhuma ideologia ou diferença… simplesmente um monte de gente orquestrando esquemas às margens da lei.
Cada dia parece que descemos um novo degrau politicamente.
Acho que em 2018 teremos 3 opções de candidato à presidente… as 3 do PSDB. Todos os concorrente serão presos pela Polícia Federal ao vivo durante os debates. Se você tentar votar em outro candidato a urna vai dar choque e algum repórter da Globo vai na sua casa te acusar de crime.
Pra falar a verdade tá dando medo morar no Brasil. Agora que tudo está dominado resta-nos rezar para não sermos mais uma vítima desses golpistas.
Belo curriculo para um Governo bandido como esse!
Kojac?! Alguém precisa avisar o Temer que os menores de 40 anos não fazem ideia de quem ele seja.
Semblante do Golpe, que busca determinar uma aceitação do abuso cometido pelo estado.
O naziministro é mais uma pérola do governicho golpista. Espero que Stanislaw Ponte Preta, em alguma sessão espírita, se manifeste sobre ” permanece no cargo pois o visual lembra Kojac “….A cada dia uma besteira supera a anterior !
Ótima reportagem, como tem sido o padrão no Intercept Brasil. Mas o jornalista pegou leve ao chamara o alexandre nazimoraes de trapalhão; o ocupante do MJ é um nazifascista e assim deve ser chamado. Não se pode dar tratamento cerimonioso a um sujeito grosseiro, que comandou e coonestou atos criminosos de uma polícia – a PM paulista – e agora faz o mesmo em relação à PF, hierárquica e administrativamente subordinada a ele, quando à frente do ministério da “justiça”.
realmente deprimente ver esse tipo de lixo humano com tanto poder
Muito preocupante nossa realidade atual. O país trocou a justiça pelo justiçamento. É o que acontece quando impostores assumem o comando, com o aval de parte da população, aquela mais “indignada” com a corrupção.
Faço minhas as suas palavras.
Infelizmente o nosso povo não tem certas informações é só pensa que a culpa de tudo que acontece e do presidente. Acorda povo!!!
Tempos difíceis! A frase “o Brasil n foi feito para amadores” nunca fez tanto sentido como agora. Triste momento. Ótimo texto, parabéns!