UM MERO EQUÍVOCO. Foi assim que o governo federal classificou a retirada dos institutos federais dos resultados do Enem, divulgados pelo Ministro da Educação (MEC) no último dia 4. O tal “equívoco” retirou da lista muitas das melhores escolas públicas do país e criou uma distorção sobre o quadro geral do sistema público de ensino médio. Na lista divulgada pelo governo, entre as 100 melhores escolas do país, figuravam apenas três públicas. Nos últimos anos, porém, o desempenho delas vinha aumentando e, entre as 100 melhores escolas de 2014, sete eram públicas. Em 2015, apenas três entraram na lista.
Ficou debaixo do tapete todo o investimento feito nos últimos anos, inclusive na própria realização da prova, para os milhares de alunos dos 275 Institutos Federais que oferecem ensino médio e técnico ao mesmo tempo. Não por acaso, o ensino técnico integrado foi uma das principais bandeiras do governo de Dilma Rousseff. Com a exclusão de seus resultados, no entanto, apresenta-se uma realidade piorada, que fortalece o discurso de que o ensino público não tem qualidade e necessita de um choque de gestão.
O ministro da educação, Mendonça Filho, ao lado de Temer durante encontro com empresários em Brasília
Foto: EVARISTO SA/AFP/Getty Images
Logo após a divulgação dos resultados, no dia 4, o ministro da educação Mendonça Filho, disse à rádio Jovem Pan que os resultados do Enem pediam uma “ação urgente”, e essa ação seria a reforma do Ensino Médio. A presidente do Inep, Maria Inês Fini, também defendeu a reforma durante a reunião de apresentação dos dados: “Os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2015 por escola reforçam a imperiosa necessidade de se reformar o ensino médio brasileiro”. Nenhum dos dois se manifestou após o Inep admitir o erro.
A primeira vez que Fini ocupou cadeira no Inep foi entre 1996 e 2002, no governo de Fernando Henrique Cardoso. Participou da criação e implementação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), quando ele era usado apenas para avaliar o desempenho dos estudantes de ensino público. Foi em 2009 que o exame tomou as dimensões que tem hoje, tornando-se a principal porta de entrada para o ensino superior, além de certificação do ensino médio público.A publicação do ranking gerou uma onda de críticas no setor. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pela divulgação das notas, explicou que a ausência dos institutos federais foi resultado de uma interpretação errada da equipe técnica e que os resultados obtidos pelos Institutos Federais será processado e divulgado “tão logo seja possível”. O Inep respondeu às perguntas do The Intercept Brasil por email:
“A definição das escolas cujos resultados no Enem 2015 seriam calculados e divulgados pelo Inep foi realizada de acordo com a portaria nº 501, de 27 de setembro de 2016. Houve, contudo, um equívoco na interpretação da legislação por parte da equipe técnica que fez os cálculos para a divulgação dos resultados do Enem 2015 por Escola e por isso os Institutos Federais não foram incluídos. Sendo assim, a administração atual do Inep decidiu processar os resultados dos Institutos Federais no Enem 2015 e divulgar tão logo seja possível.”
Não foi a primeira vez que a equipe técnica ligada ao Ministério da Educação, sob o comando do ministro Mendonça Filho (DEM-PE), cometeu “equívocos” em relação ao ensino médio público e, após manifestações da sociedade, precisou voltar atrás, minimizando os impactos, num tom de “não é bem assim”. Em setembro deste ano, afirmou ter divulgado a “versão errada” da Medida Provisória 746, que reestrutura o currículo do ensino médio do país. A versão corrigida foi publicada em edição extra do Diário Oficial da União, devolvendo a obrigatoriedade de artes, educação física, filosofia e sociologia até que seja concluída outra etapa da reforma.
A retirada maciça dos campi de institutos federais causa uma distorção no retrato, “fica aquela ideia de que as instituições públicas são todas ruins”.
O erro técnico não tinha sido a primeira resposta do instituto. Denio Rebello Arantes buscou explicações quando notou a ausência da escola que ele dirige, o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), a então melhor escola pública do país. Sua instituição tinha sido a 22ª colocada no ranking geral (que inclui públicas e particulares), segundo o Enem 2014.
“Primeiro eles disseram que era isso mesmo, que a portaria mandava isso. Depois teve uma segunda resposta, dizendo que iriam liberar os resultados”, afirma Arantes em entrevista ao The Intercept Brasil. Em sua primeira resposta aos questionamentos do Ifes, o Inep respondeu que “os Institutos Federais faziam parte do público alvo na edição de 2014, mas não na de 2015”. O edital do Enem 2015, no entanto, dedica um anexo inteiro à lista de institutos federais participantes.O Inep voltou atrás depois da repercussão no Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif) se manifestar pedindo uma reunião com o instituto.
“As instituições da rede vêm crescendo positivamente no ranking. Portanto, tínhamos uma expectativa diferente para a divulgação do resultado. Cabe-nos, agora, dialogar e tentar reverter esta situação”, protestou o presidente da confederação Marcelo Bender Machado em nota divulgada pela organização.
O Conif já pediu ao Inep o número de alunos afetados pelo “equívoco” – estima-se que existam 250 mil estudantes matriculados na rede federal de ensino técnico integrado.
Dos 275 institutos e centros de educação tecnológica federais que haviam sido incluídas na divulgação do ano passado, apenas 12, ou 4% do total, estão presentes na lista de divulgação deste ano. E isso não significa que seus alunos não fizeram a prova, pelo contrário: eles estão impossibilitados de ver os resultados no exame e, por consequência, de atestarem a conclusão do ensino médio, já que a prova serve como certificado de conclusão de curso.
“Se certificamos os alunos, como não temos o resultado? Chega a ser um desperdício de dinheiro público avaliar esse monte de gente e depois não dar o resultado”, questiona Arantes. Para ele, a retirada maciça dos campi de institutos federais causa uma distorção no retrato, “fica aquela ideia de que as instituições públicas são todas ruins”. Mas ele diz preferir “acreditar que foi um erro”.
Lendo a matéria em um trecho, penso que mais uma vez percebi que “os golpista” estão tentando desconstruir um trabalho do governo Dilma com PEC’s.
Sem verbas e sem disciplina,as escolas estaduais e municipais tem oferecido o pior da educação,um circo dos horrores com a tal progressão continuada.Por isto mandaram excluir os cefets,mundo a parte.
Estou chocado com essa decisão do MEC, excluindo as notas dos IF’s. Sou aluno graduando do IFPA Campus Bragança e nossa nota mínima é 7,0. Caso contrário, recuperação. Temos um aproveitamento no rendimento de 70%. Muito estranho esse “EQUÌVOCO” senhor ministro. Não dá pra enfiar goela a baixo, na marra. Com certeza os seus filhos e netos não precisam de escolas públicas mas nós, precisamos e muito, com mais qualidade ainda. O que está faltando é o governo investir um pouco mais na área mais importante do nosso país e do mundo. Nós brasileiros não merecemos apenas anúncio de cortes na educação. Precisamos é de mais investimento. Daí teremos aproveitamentos melhores ainda. Estamos de olho. O povo coloca, mas o povo tira. Lembrem-se.
Sou aluno graduando do IFPA, campus Bragança e estou chocado com esse tipo de atitude do MEC, querendo retirar as notas dos IF’s. Se não atingirmos uma média de 7,0 pontos, estamos reprovados, ou seja, teremos que garantir 70% de aproveitamento. Não dá para aceitar um “EQUÌVOCO” desses, como fala o senhor ministro da Educação. Com certeza os filhos e netos dele não precisam de escolas públicas
Não há nada que esse governo Temer faça ou diga hoje que não tencione trazer como consequencia e/ou reflexo algo ainda pior no futuro , ligado ao mesmo tema. Não será diferente com a educação
Parabéns Helena e equipe do Intercept. Nestes tempos de lavagem cerebral exercida pela grande mídia o jornalismo crítico e independente de vocês é uma luz de esperança e resistência em tempos sombrios.
A afirmação da matéria: “Com a exclusão de seus resultados, no entanto, apresenta-se uma realidade piorada, que fortalece o discurso de que o ensino público não tem qualidade e necessita de um choque de gestão.” fica bem ilustrada e evidente em editorial completamente desonesto do Estado de São Paulo de hoje (09/10/16), intitulado “As notas do Enen”:
http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,as-notas-do-enem,10000080952
Para vocês terem uma idéia do nível o subtítulo do editorial é: ” Das 100 escolas com as médias mais altas, 97 são privadas, têm alunos de nível socioeconômico alto e funcionam com turmas pequenas ”
Assim atua a máquina de propaganda/braço midiático do governo golpista, a grande mídia. Lembra-me o caso da manipulação da Folha de S, Paulo em relação à continuidade do governo Temer até 2018, escondendo o desejo de eleições diretas da maior parte da população. Lamentavelmente o verdadeiro jornalismo na grande mídia brasileira se encontra moribundo e suas ações resultam em deserviço e violéncia psíquica contra significativas parcelas da população.
A cara do Mendonçinha: resposta cínica.
O que esperar de um governo formado por uma quadrilha política, por gângsters?
Mais do que “oportuno”, o “equívoco” é uma malandragem da turma dos privatistas, combinada com o PIG/PPV e com os empresários do ramo educação. A quadrilha do PMDB leva a fama, mas esse governo golpista tem o DNA tucano, bico de tucano e penas de tucano, como mostrado nesta reportagem. O mesmo tipo de malandragem foi usado para impor por decreto (hoje medida provisória) uma reforma do ensino médio, retirando do currículum disciplinas como filosofia, sociologia e educação física.
“Erro técnico”, em linguagem golpista, significa “conveniência”.
Intercept obrigado pelo jornalismo sério e compromissado
Excelente. “The Intercept Brasil” aos poucos começa a se firmar como farol-condutor nas tormentosas águas midiáticas.
Excelente matéria. Simplesmente esclarecedora. PARABÉNS!
Parabéns pela reportagem. É raro ver um jornalismo sério e competente. Vocês conseguiram mostrar um outro lado desta história, fugindo do senso comum superficial da maioria da mídia nacional. Obrigada.
A exclusão se deu no ano passado, 2015, e não agora. Agora apenas se repetiu a sistemática de 2015.
Se a exclusão das escolas federais tem o objetivo de privatizá-las, então o governo Dilma é que tinha essa pretensão, pois foi ele que ordenou a exclusão.
Na matéria tem uma citação do próprio Inep que mostra que você está errado:
“A definição das escolas cujos resultados no Enem 2015 seriam calculados e divulgados pelo Inep foi realizada de acordo com a portaria nº 501, de 27 de setembro de 2016. Houve, contudo, um equívoco na interpretação da legislação por parte da equipe técnica que fez os cálculos para a divulgação dos resultados do Enem 2015 por Escola e por isso os Institutos Federais não foram incluídos. Sendo assim, a administração atual do Inep decidiu processar os resultados dos Institutos Federais no Enem 2015 e divulgar tão logo seja possível.”
Antes de sair defendendo as cagadas de um governo incompetente e corrupto, recomenda-se ler a matéria.
Kkkkk cadê o coxa? Sumiu.
Erva daninha só serve pra destruir a vida.
Ler e interpretar! Não basta somente ler meu caro Marcus. Tem muita gente que, infelizmente, não sabe interpretar um texto.
O analfabetismo funcional se faz presente e para piorar o analfabeto político também.
Pô cara, assunto muito sério para ser tratado com essa leviandade. A matéria te desmente como posto pelo colega de cima. Precisamos nos unir enquanto cidadãos pq os as atuais governantes tão governo pra empresário e não pra gente.
Além do que Rei destacou, ainda há outro trecho que te desmente:
“O edital do Enem 2015, no entanto, dedica um anexo inteiro à lista de institutos federais participantes.”
Permita-me discordar. Em 2015, os institutos estavam incluídos e 70% das 100 melhores escolas eram públicas.