Ignorando contribuições que ainda seriam dadas por dezenas de acadêmicos, economistas, representantes de trabalhadores e da sociedade civil, o Congresso Nacional começará a votar em toque de caixa, nesta segunda-feira, dia 10, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241. Se aprovada, será a maior mudança já feita desde a década de 1980 na forma com que o governo federal banca o desenvolvimento de setores como educação, saúde e assistência social, mas também outros menos citados, como segurança pública, direitos humanos, agricultura, habitação, saneamento, meio ambiente e obras públicas em geral. E a mudança é para pior.
A proposta é quase como uma nota de rodapé à Constituição Federal, aprovada há 28 anos. São apenas nove artigos a serem acrescidos ao final da Carta Magna, mas que mudam bastante coisa. Ela prevê que somente em 2037 o governo federal poderá voltar a aumentar os gastos nas áreas citadas acima da inflação.
Para ser aprovada na Câmara, a PEC precisa de 308 favoráveis (3/5), em duas votações separadas, antes de seguir para o Senado, onde também precisará receber apoio de 3/5 dos senadores. Não se trata, portanto, de uma votação simples. Mudar a Constituição é sempre algo que exige bastante apoio político ou consenso na sociedade. Consenso, certamente não existe. Mas apoio político, o governo diz possuir.
O governo tem pressa. Muita. Será o maior sinal dado até aqui pelo Palácio do Planalto aos já ansiosos investidores internacionais e empresários e industriais que apoiaram a queda de Dilma Rousseff de que a gestão Michel Temer veio para garantir que o caminho para os interesses desses setores estará devidamente pavimentado ao longo dos próximos anos, sem buracos na pista.
A PEC 241 foi mandada pelo governo interino de Michel Temer ao Congresso exatamente um mês depois de ele ter sentado, ainda de maneira provisória, na cadeira até então ocupada por Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. A tese já estava construída pelo menos desde o ano anterior, na chamada “Ponte para o Futuro”, o documento-base do pensamento dos novos líderes do país. Em discurso público em Nova Iorque no mês passado, Temer declarou que a derrubada de Dilma foi provocada justamente porque ela rejeitou a implantação desse projeto.
No campo da saúde e educação, a PEC traz regras ainda mais específicas. Hoje, a Constituição obriga que o governo aplique pelo menos 18% de sua receita no desenvolvimento da educação e 13,2% (chegando a 15% a partir de 2020) na saúde. Pelas regras agora propostas, esses pisos deixariam de existir, na prática, pelos próximos 20 anos. Os recursos para essas duas áreas passam a ser definidos exclusivamente pela inflação registrada nos 12 meses anteriores à definição do orçamento de um determinado ano, valendo já a partir de 2018 (tomando por base o volume gasto em 2017).
É uma espécie de “golpe futuro”.
Em fevereiro de 2011, o deputado federal Darcísio Perondi (PMDB-RS) falou em plenário sobre as prioridades do governo e as escolhas que a então presidente Rousseff poderia fazer para garantir mais recursos para a Saúde, apesar das restrições orçamentárias que já naquele momento começavam a brotar de maneira mais clara. Ele dizia que dinheiro o governo já tinha, o que faltava era escolher melhor as prioridades de política pública ou aumentar taxas em itens que sobrecarregam o custo do sistema de saúde, permitindo, assim, um aumento no volume de dinheiro disponível para a área:
“No Brasil também é uma questão de escolha. Não é preciso um novo imposto, mas reduzir a intensidade de algumas prioridades do atual governo, do governo do meu PMDB e do PT. Se assim não quiserem, fazer taxar áreas que carregam a despesa do SUS, como fumo, bebida e DPVAT, e redução em outras áreas, inclusive acabando com a dedução do Imposto de Renda na área da saúde, que leva muito dinheiro. É o governo tomar atitude.”
Em julho de 2012, esse mesmo deputado disse que o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, era um “algoz da Saúde” e que ele não conseguia enxergar que “saúde gera emprego também, põe dinheiro na economia até para aumentar o PIB”. Alguns meses antes, o parlamentar havia dito que o PMDB não podia aceitar “a linha orçamentária proposta pela área econômica e aprovada pelo Palácio, pois ela sufoca o Ministério da Saúde e aumenta o sofrimento dos brasileiros”.
Agora, alguns anos depois, Perondi foi encarregado pelo governo Temer de apresentar aos seus colegas na Câmara um relatório com uma defesa enfática da emenda constitucional proposta pelo seu PMDB – em contradição ao que ele defendia no passado recente. E ele tinha a missão de fazer isso com rapidez. Tanto que apresentou seu relatório, na última quarta-feira, antes que 71 pessoas pudessem ter falado aos deputados. Os convites oficiais a elas já tinham sido aprovados.
Na breve tramitação da proposta antes de seguir para plenário, apenas 11 acabaram sendo ouvidas – e somente três com posições críticas à PEC. Outras quatro eram representantes do governo Temer. Os demais, intelectuais afinados com o pensamento do governo. Um deles, o economista Raul Velloso, chegou a propor que os valores de Saúde e Educação passassem a ser reajustados não pela variação da inflação do período — mas por um terço desse índice.
Quanto mais o país crescer, menor será a participação das ações de governo dentro do PIB.
Em seu parecer, Perondi encontrou espaço para elogios capazes de provocar ciúmes na primeira-dama, apontando Michel Temer como “líder convicto, esperançoso e destemido desta nova etapa da vida econômica e social do nosso país” e reforçando que “toda transformação importante se inicia com a convicção do líder, sua paixão, coragem e lucidez”.
No documento, Perondi usou como exemplo de ajuste fiscal a Holanda, que controla o limite de gastos de seu orçamento. A comparação é verdadeira, mas ele esqueceu de mencionar que, lá, o limite de gastos vale por quatro anos – o período de permanência de um primeiro-ministro no cargo. Esse limite é definido por sua equipe assim que ele assume o poder, e é livremente revisto pelo mandatário seguinte. A proposta defendida por Perondi prevê 20 anos de uma mesma regra, impedindo que os próximos quatro presidentes do Brasil mudem essa norma. É uma espécie de “golpe futuro”.
Embora tudo isso possa ser revogado por um próximo presidente, ele teria de, além de ter uma base bastante ampla capaz de aprovar alterações constitucionais, conseguir vencer a enorme resistência que enfrentaria dos mesmos setores que agora defendem a mudança, mais notadamente o mercado financeiro e os grandes empresários e industriais. O único ajuste efetivamente previsto na PEC é na forma de correção anual dos valores destinados à saúde e à educação, mas somente a partir de 2026.
É como se o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em seu segundo ano de mandato, em 1996, tivesse adotado uma regra de definição do orçamento que, somente agora, sob Michel Temer, pudesse ser modificada. Não teria importado se no meio do caminho o mundo passou por guerras, a maior crise econômica desde 1929 e até mesmo tenha experimentado um boom inédito de crescimento econômico. A lei estaria congelada por 20 anos. É exatamente isso que está sendo proposto agora.
“A PEC 241 não sobreviverá sem a Reforma da Previdência, dentro de uma simbiose vital como aquela existente entre pulmões e coração no corpo humano”.
Para evitar surpresas desagradáveis, como as novas regras virarem letra morta, caso os limites não sejam respeitados pelo Poder Executivo, o presidente Michel Temer e seus aliados dentro e fora do governo pensaram em punições. Engana-se quem pensa que a punição seja afastar o gestor responsável pelo estouro dos gastos. A proposta é que, se um governante ultrapassar a linha agora definida, os servidores públicos do Executivo (ou de outro Poder, caso o estouro tenha se dado por lá) não receberão nenhum centavo de reajuste salarial (nem reposição de inflação) no ano seguinte. Também fica vetada, pelo ano seguinte, a criação de qualquer novo cargo, mudança em planos de carreira ou a realização de concursos públicos. Não interessa se o estouro se deu em obras de rodovias ou em repasses a mais para a Educação. Quem pagará o pato são servidores e órgãos de todas as áreas do Executivo.
Essa era a proposta do governo. Mas Darcísio Perondi tornou-a ainda mais dura. Todas essas vedações ficam valendo até que o Poder responsável pelo estouro consiga voltar suas despesas para dentro do limite. Ou seja, não bastaria apenas um ano de punição, mas tantos quanto forem necessários para que o trem volte a andar no trilho previsto pelo governo Temer.
Ele conseguiu 23 votos favoráveis ao parecer na Comissão Especial de discussão da PEC, uma maioria folgada diante dos sete votos contrários, levando o texto para votação em plenário. Alguns deputados decidiram apresentar voto em separado, para deixarem registrado de maneira mais consistente sua oposição à proposta. Um desses parlamentares foi Patrus Ananias, do PT de Minas Gerais. Ex-ministro do Desenvolvimento Social no início do governo Lula, Patrus lembra que a proposta simplesmente impede os próximos governantes do país de fazerem política fiscal.
“A PEC institui uma política fiscal sempre recessiva, acíclica, que impossibilita os governos vindouros fazerem política fiscal anticíclica – aquela que eleva os gastos públicos nos momentos de retração econômica e os reduz nos momentos de crescimento para manter a estabilidade e o nível de atividade econômica”, escreveu o petista.
Um outro dado, também verificado pela consultoria orçamentária de Patrus Ananias e que mostra um pouco do caráter surreal da proposta é que, durante os 20 anos de congelamento nos gastos, quanto mais o país crescer, menor será a participação das ações de governo dentro do PIB. Pela previsão da equipe econômica, que conta com uma redução anual da despesa primária entre 0,5% e 0,6% do PIB, a proporção do PIB usado pelo governo para bancar políticas públicas cairia para apenas 10% em 2036 (ante os 20% de hoje em dia).
O voto em separado de Patrus Ananias também traz dados de sua assessoria técnica mostrando uma queda de R$ 311 bilhões no valor mínimo a ser aplicado em Saúde com as novas regras entre 2016 e 2025. Em relação à Educação, essa projeção envolve uma queda de R$ 45,2 bilhões — chegando a 15,2% da receita em 2025, bem abaixo do piso constitucional de 18%, em vigor atualmente.
Vem mais por aí. Como deixou cristalino Darcísio Perondi em seu relatório, “a PEC 241 não sobreviverá sem a Reforma da Previdência, dentro de uma simbiose vital como aquela existente entre pulmões e coração no corpo humano”.
Como também deixou explícito o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, em entrevista ao Valor Econômico na última sexta-feira, a PEC 241 já é “tema vencido”. Agora, a negociação prioritária do governo é a reforma da Previdência. “É isso, ou quebramos”.
Esse artigo está errado quanto a fatos centrais. Não é verdade, por exemplo, que a PEC “prevê que somente em 2037 o governo federal poderá voltar a aumentar os gastos nas áreas citadas acima da inflação.”
Isso é falso, porque a PEC autoriza que em 10 anos, portanto 2027, faça-se mudança do índice de correção do teto, podendo ser adotado índice distinto da inflação.
Além disso, os limites não são setoriais, mas totais. Vai ser possível aumentar “os gastos nas áreas citadas”, desde que acompanhadas de reduções na mesma medida em outras áreas.
O ministro da secretaria geral está corretíssimo. Ou fazem a reforma da PEC e da previdência ou eles quebram. Não o país ou a economia quebram, mas a classe política que está agindo contra o interesse da maioria populacional que eles deveriam representar.
Até a população da direita alienada se tocar que essas medidas são contra seus interesses, essa classe de políticos já vão ter feito seu pé de meia e vão poder sair do governo sem grandes consequências para si.
O Brasil vive hoje com certeza um dos piores períodos desde o seu descobrimento. Hoje o Brasil mais se assemelha a um bordel. Simplesmente não se sabe mais em quem confiar a começar pelas suas instituições que estão literalmente avacalhadas pelo corporativismo e a corrupção. O triste é que seu povo na sua imensa maioria acha que está tudo normal.
Sou portador de um doença cronica a 20 anos ( Esclerose Multipla ) O que esta PEC vai me afetar ; estou muito preocupado , por favor !!
Não é necessário ser economista para verificar que a PEC 241/2016 se acompanhada de outras medidas ao longo de vinte anos, será excelente, vejamos que o Estado será obrigado a caminhar para o estado mínimo. Pois vai ter que encolher com redução de gastos obrigatória, e por consequência veremos que quanto menor é o estado, quanto mais ficar restrito, mais produtivo torna-se o mercado.
Quanto mais produtivo é o mercado, mais rápido a economia cresce e mais riqueza ela gera. E o livre mercado sendo produtivo é capaz de aguentar por muito tempo a enorme tributação imposta ao mercado no Brasil, e veremos o grande agigantamento do poder estatal, em receita.
Portanto, o que acontece é que quando você minimiza o governo, paradoxalmente, ele irá privatizar rodovias, portos, aeroportos, prestação de serviços, empresas e vai se retirar-se de outras, enfim, você faz com que a lucratividade de tributar o que não era tributado, receber de onde não recebia, e por óbvio, no decorrer do estado mínimo liberal, tende a se aumentar posteriormente o tamanho do governo, mas em receita, que será muito maior do que a atual, pois haverá muito mais riqueza para tributar e mais recursos para se controlar .
E como o governo adquire muito mais dinheiro e poder quando ele tributa uma economia que se desenvolveu e enriqueceu com um livre mercado, ele ganha a capacidade de fazer coisas, maravilhosas, como investimentos em mobilidade, ciência, tecnologia e desenvolvimento humano, ou terrível, como desenvolver armas de destruição em massa, construindo ou mantendo um grandioso estado belicista e assistencialista e a comprar grandes seções da população, tornando-as permanentemente dependentes do estado.
Peguemos como exemplo a Inglaterra. O governo que surgiu como resultado da separação entre Igreja e estado, bem como do subjugo da aristocracia no final do século XVIII e início do século XIX, era de longe o menor governo da Europa. O que ele produziu? Ora, produziu o Império Britânico. Os países escandinavos vivenciaram o mesmo processo. Mais recente talvez seja o da Irlanda.
Sempre que você minimiza o governo, você aumenta o valor de toda a economia – o que significa que o governo terá alimento para aumentar seu tamanho e poder para dimensões ainda maiores do que as atuais.
O que irá acontecer é que todo o processo de agigantamento irá inevitavelmente recomeçar após algum tempo. Sim, você irá desfrutar alguns anos de liberdade, mas sem dúvida seus filhos e netos poderão ser submetidos a um governo mais totalitário do que aquele sob o qual você viveu.
O brasileiro mais pobre não lutou contra o golpe de 64, principalmente por dificuldade de trânsito de informação que inviabilizava a formação de liderança.
Hoje o mesmo brasileiro não quer lutar, é realizado com o acesso ao facebook associado com a regulação da comunicação que o pt não fez. Nessa situação,
Bom Artigo.
Sugiro também o artigo abaixo. As taxas de juros precisa ser diminuída. Isso liberará mais dinheiro do que o PEC 241!
“É o tal de juros sobre juros. Isso cria uma bola de neve que gera uma despesa em uma escala exponencial, sem contrapartida, e o Estado não pode fazer isso”
“O banco, o dealer, que compra o título da dívida é quem estabelece os juros. Ele estabelece os juros que ele quer porque o governo lança o título e faz uma proposta de juros.”
“Nós sabemos quem compra e, muito provavelmente, eles são os credores porque não tem nenhuma aplicação do mundo que pague mais do que os títulos da dívida brasileira. É a aplicação mais rentável do mundo. E só eles compram diretamente. Então, muito provavelmente, eles são os credores.”
http://www.cartacapital.com.br/economia/201ca-divida-publica-e-um-mega-esquema-de-corrupcao-institucionalizado201d-9552.html
eles = bancos estrangeiros…provavelemente ;)
É inaceitável realizar uma mudança dessas na Constituição por 20 anos. Um tema tão polêmico desses e com uma duração tão longa, precisaria ser amplamente discutido por especialistas e ouvido a voz do povo através de um plebiscito. Afinal a Constituição é para melhorar a situação da população e não para atender empresários.
Lamentável porque é uma guinada ideológica abrupta ao liberalismo de mercado do governo interino cortando gastos em saúde e educação para agradar investidores internacionais.
Os privilégios trabalhistas dos brasileiros agora deixariam de ser garantidos pelo governo para ser deixados a critério dos próprios investidores internacionais.
Não acho que o melhor seja aumentar impostos. Isso sim seria um golpe, principalmente para os mais pobres. Mas enfim, não sou especialista.
Excelente texto.
Não tinha essa visão sobre esse tema tão controverso.
De fato essa PEC precisa ser melhor discutida. Mas não abandanda. Pois o tema é urgente.
O governo Obama preparou o caminho para o golpe Parlamentar no Brasil em 2016 ajudando a golpear a jovem democracia brasileira , que se estava tornando independente demais e agora os golpistas parlamentares querem instituir a tortura coletiva POR 20 ANOS com a PEC 241
percebi que não era o único neste pais de macacos nus à sacar a realidade bestial que nos cerca.É como entender Nietzsche. É preciso estômago
E as pessoas engolem Deus sem pensar, engolem o pais sem pensar, engolem a política sem pensar e deixam os outros pensarem por elas. Num guento esse povo,parece que estão todos presos num filme. Sabem suas falas, onde caminhar, como atuar..E é um filme ruim de gente estúpida, misturada com gente estúpida , que se estupidificam entre eles