A única certeza possível sobre o nosso futuro é que a sucessão de recentes episódios será lembrada enquanto for contada a História do Brasil.

Se na semana passada o STF atropelou a presunção de inocência garantida pela Constituição de 1988, nesta deu-se início ao desmonte chantagista e inconstitucional de direitos sociais também assegurados por ela, numa manobra baseada na surrada narrativa do Desastre Iminente Que Só Pode Ser Evitado Por Medidas Extremas de Austeridade. As instituições funcionam apenas como uma caricatura macabra, concedendo aumentos pornográficos para elas mesmas enquanto o congresso aprova em primeiro turno a PEC 241, que congela despesas fundamentais assegurando a manutenção dos pagamentos de uma dívida pública cuja auditoria, aliás, foi vetada pela presidente Dilma em janeiro deste ano. Os acontecimentos sucedem-se num ritmo frenético: durante um mês passam anos; no espaço de um dia, semanas.

É nesse contexto alucinado que vou ao Lamas tomar um chope com o meu Amigo Liberal – segundo o próprio costuma repetir com melancolia no arco das sobrancelhas, o único brasileiro realmente liberal.

Meu solitário Amigo Liberal, pós-graduado numa Ivy League, diretor de consultoria internacional e proprietário de modesto castelo no enclave carioca do Cosme Velho, estava sentado numa mesa ao fundo do restaurante, bem ao centro, e comia torradas Petrópolis entre os reflexos dos espelhos nas paredes. Recebeu-me com o pince-nez deslizando até a ponta do nariz e me olhou de baixo para cima com o queixo afundado no pescoço. Saudou-me com o desprezo necessário:

“Cuenca! Está satisfeito agora com o buraco onde vocês, burgueses-esquerdo-dandys-stalinistas, nos colocaram?”

Ser liberal hoje está na moda no Brasil – mas meu Amigo Liberal não estava exatamente feliz com isso.

Devolvi perguntando se ele estava satisfeito com o bem sucedido trabalho de think tanks e movimentos liberais como o MBL, Vem Pra Rua et caterva, multiplicando-se como ácaros na internet, arregimentando multidões e, agora, elegendo candidatos.

Ser liberal hoje está na moda no Brasil – mas meu Amigo Liberal não estava exatamente feliz com isso. O que segue é uma transcrição parcial do que ele disse entre uma dúzia de chopes, algum destilado e o café (editei os palavrões e alusões demasiadamente ofensivas).

“Fala sério. Esses carinhas não são liberais. O argumento liberal tupiniquim hoje soa como uma linha auxiliar do conservadorismo local com umas citações aleatórias da Escola Austríaca pra dar um brilho. No fundo, esses liberais-conservadores são dogmáticos e tapados como qualquer esquerdista de centro acadêmico. E, pra piorar, são pachequistas, acreditam no “Brasil” acima de tudo. Esses patrimonialistas vão pra cama com quem deveria ser seu maior inimigo, pragas fisiológicas como Temer, Bolsonaro e Cunha, além de negligenciarem aspectos básicos do liberalismo, como a proteção às liberdades civis. É só ver como se posicionam sobre aborto, legalização das drogas e direitos das minorias. E ainda falam em meritocracia. O que é a meritocracia numa corrida se cinco pessoas saem na frente de dez mil? Não é meritocracia.”

“Pra ser liberal agora basta ser antipetista e antiestatista? Assim é fácil! A tradição liberal é extremamente rica pra se ater somente a essa visão de mundo economicista e hidrófoba. Os caras basicamente acham que a única versão de economia liberal é algum tipo de thatcherismo aplicado ao Brasil. Isso é uma maluquice e um reducionismo.”

“E agora vemos esses caras se associando ao espectro mais sujo da direita golpista. Sem pestanejar. O liberal como eu, perfeito obviamente, tem que manter um purismo. Pois é visceralmente liberal na economia e não aceita nem nacionalismo pachequista, nem patrimonialismo ibérico de cinco famílias e de João Dólar. Jamais!”

“Nessas horas, eu lembro do Merquior. A maior alegoria dessa encruzilhada é lembrar que um gigante intelectual e o maior liberal brasileiro do século XX, o José Guilherme Merquior, ficou encantado pela candidatura do Fernando Collor. Um sujeito que desde o início falava como oligarca, andava como oligarca e cheirava a oligarca…”

À medida que a coluna de bolachas do chope crescia sobre a mesa, o Amigo Liberal ficava mais assertivo – e também mais triste. Tentei arrancar dele alguma posição concreta, algo que pudesse ultrapassar o túnel que liga o Lamas ao resto do mundo.

“Olha, seria muito importante pro Brasil e até pra vocês aí dessa esquerda decadente e magoada que eu não fosse o único liberal de verdade por aqui. É uma tragédia o liberalismo ser representado por esses coxinhas 171 da Fiesp, próceres do Capitalismo de Estado, mamando em dinheiro público e defendendo investimento do BNDES em Cuba até ontem enquanto um exército de patos otários marcham a seu favor – os que pagam os impostos que eles não pagam.”

“É poder demais, concentrado em poucas mãos. Não foi pra combater isso que o liberalismo surgiu?”

“A esquerda progressista (não o PT, óbvio) que se preocupar com a agenda de liberdades civis pode até ser minha aliada pontual, mas erra ao apostar num sistema econômico clientelista e nacionalista. Todo o ufanismo beija a mão do fascismo. Por isso temos essa cafajestada do bolivarismo com seus uniformes e bandeirinhas… Aliás, esse nacionalismo brega-esquerda, aliado ao pior do patrimonialismo de nho-nhô brasileiro de extrema direita, é um retrato perfeito do governo Dilma.”

“E agora acabou-se com qualquer ilusão de modernidade. O PMDB previa a ponte para o futuro. E o futuro chegou. É esse presente horrendo que repete o pior do nosso passado. Temos essa PEC colocando um teto nos gastos públicos como única saída possível. Não tou nem aí pra esses novos socialistinhas do FMI advogando hoje em dia por maior intervenção do Estado via investimento público. Trata-se de aritmética simples, gastar o que se tem ou se arrecada. Mas como liberal, acho injustificável apoiar uma top down decision tomada por alguns poucos burocratas de um governo sem qualquer legitimidade e que vai durar pelo menos duas décadas. É tempo demais, e vai impactar gente demais. Ainda que tenha o verniz de legalidade congressual, não gosto do processo que está em curso. É poder demais, concentrado em poucas mãos. Não foi pra combater isso que o liberalismo surgiu?”

“É óbvio que o Estado brasileiro é excessivamente cartorial e sofre de um gigantismo injustificável. Claro que precisa ser reduzido. Mas precisa ser reduzido pra atender às necessidades sociais do povo com mais eficiência e agilidade, atacando os nossos tão caros clientelismo e patrimonialismo nhô-nhô brasileiros, a relação simbiótica entre nosso big business e a nossa burocracia parasitária estatal. Essa redução do Estado não pode é servir pra beneficiar o nosso capitalismo de compadrio, defendido por absolutamente todos os partidos brasileiros. Todos. E pelos MBLs da vida também.”

A partir daí, foram variações de algo que poderia ser resumido em “não temos qualquer saída” – e suprimo tais pensamentos para não transmitir ao leitor o travo amargo da desesperança. Quando disse que pensava em transcrever suas idéias, o Amigo Liberal pediu para não ser identificado: “Não quero ser incomodado por esses marxistas tardios leitores do The Intercept Brasil e tampouco pela massa ignara de liberais de araque…”

E completou: “Passamos agora pro Steinhaeger?”