Em 1948, ano em que Israel foi fundado, o Mer Group foi criado como uma simples oficina de metais.

Hoje, a empresa é completamente diferente. Ela opera dezenas de subsidiárias e emprega mil e duzentas pessoas em 40 países, vendendo infraestrutura para serviços sem fio, software para sistemas de bilhetagem em transporte público, tratamento de esgoto e outros. Porém, durante a ISDEF Expo, um evento realizado em junho deste ano visando apresentar tecnologias israelenses para possíveis compradores de forças de segurança estrangeiras, representantes do grupo promoveram apenas uma coisa: produtos de vigilância vendidos pela divisão de segurança da empresa.

A evolução do Mer Group de uma simples empresa cortadora de metal para o setor de vigilância eletrônica é reflexo de uma mudança mais ampla na economia israelense. O setor tecnológico é um dos mais importantes setores da indústria do país. E empresas de Israel envolvidas com o setor de inteligência, como o Mer Group, estão usando sua experiência para vender sua marca no exterior. O CEO da empresa, Nir Lempert é, há 22 anos, veterano de guerra da Unidade 8200, unidade de inteligência israelense frequentemente comparada com a NSA, além de ser presidente da associação de ex-membros da unidade. Esse tipo de laço entre o Mer Group e a Unidade 8200 não é exclusivo em Israel, onde o setor de segurança cibernética tornou-se parte integral da economia, exportando US$ 6 bilhões em produtos e serviços durante o ano de 2014.

Ao chegar ao exército, os jovens israelenses mais inteligentes são direcionados para a unidade de inteligência e recebem treinamento em espionagem, hackeamento e criação de armas cibernéticas de ataque. Conforme já reportado, a Unidade 8200 e a NSA desenvolveram a arma cibernética que atacou os computadores iranianos responsáveis pelo programa nuclear do país. Além disso, a Unidade está envolvida com vigilância em massa nos territórios palestinos ocupados, de acordo com veteranos da área de inteligência militar.

Cada vez menos, as habilidades desenvolvidas durante a espionagem e execução da guerra cibernética permanecem no setor militar. A Unidade 8200 funciona como uma escola de acesso ao setor industrial de Israel, que se autodenomina como “nação das startups” — e os produtos que esses veteranos da inteligência criam são vendidos para governos de todo o mundo para serem usados em espionagens. Embora as empresas controladas por veteranos da Unidade 8200 aleguem que suas tecnologias são essenciais para a segurança das pessoas, defensores da privacidade alertam que tais produtos comprometem liberdades civis.

Em agosto, o Privacy International, um órgão fiscalizador que investiga a vigilância governamental, publicou um relatório sobre a indústria internacional de vigilância. O grupo identificou 27 empresas de vigilância israelenses — o número per capita mais alto do mundo. (Os EUA lideram a lista de empresas de vigilância em números absolutos: 122.) Os veteranos da Unidade 8200 fundaram ou ocuparam posições no alto escalão de pelo menos oito empresas destas empresas, de acordo com informações publicadas pela Privacy International. E a lista não inclui empresas como a Narus, fundada por veteranos israelenses da Unidade 8200, mas de propriedade da Boeing, uma empresa americana que atua no setor de defesa. A Privacy International classificou a Narus como uma empresa americana porque seu escritório fica na Califórnia. A tecnologia desta empresa ajudou a AT&T a coletar tráfego de internet e bilhões de e-mails, além de encaminhar informações para a NSA, de acordo com uma reportagem da revista Wired e documentos do Arquivo Snowden.

“É alarmante que recursos de vigilância desenvolvidos por algumas das agências de espionagem mais avançadas do mundo estejam sendo embalados e exportados para o mundo visando o lucro”, contou Edin Omanovic, pesquisador da Privacy International. “A proliferação desses de recursos de vigilância tão invasivos é extremamente perigosa e representa uma ameaça real e fundamental aos direitos humanos e à democracia.”

A poster, calling for the destruction of CCTV cameras, is seen on a column at the Al-Aqsa Mosque compound in Jerusalem, in front of the Dome of the Rock on April 8, 2016.Jordan, who administrate the site, said it will set up security cameras around Jerusalem's flashpoint Al-Aqsa mosque compound in the coming days to monitor any Israeli "violations." / AFP / AHMAD GHARABLI (Photo credit should read AHMAD GHARABLI/AFP/Getty Images)

Um poster pedindo a destruição das câmeras de segurança em uma coluna do complexo da Mesquita de Al-Aqsa em Jerusalém, na frente do Domo da Rocha, em 8 de abril de 2016.

Foto: Ahmad Gharabli/AFP/Getty Images

No momento, Amit Meyer é jornalista, uma carreira pouco convencional para um veterano da Unidade 8200. Muitos de seus colegas usaram a experiência obtida nas forças armadas na coleta de informações e na invasão de computadores para lucrar no setor privado. Unidade 8200 é uma “marca” em Israel, uma instituição respeitada que facilita o acesso de seus membros às empresas de tecnologia após servirem à agência, disse Meyer. Por vezes, empresas de tecnologia abordam ex-membros da unidade; outras vezes ex-membros recomendam uns aos outros. Há um grupo secreto de ex-membros no Facebook repleto de ofertas de emprego em empresas do setor tecnológico, revelou Meyer. “Em muitos casos, basta colocar Unidade 8200 em seu currículo e a mágica acontece”, contou ao The Intercept.

Neve Gordon, um acadêmico israelense que estudou o setor de segurança interna do país, explicou que a posição de destaque de Israel no setor de vigilância vem das relações íntimas entre suas forças de defesa e o setor de tecnologia. Em 1960, as forças armadas israelenses estavam desenvolvendo software — nove anos antes da criação da indústria de software e dos programas de ciência da computação de Israel. As unidades militares israelenses que trabalham com computadores, inclusive a Unidade 8200, se tornaram uma verdadeira “porta de entrada” para a indústria militar e de segurança interna de Israel, contou Gordon.

Gordon disse que há dois outros motivos para Israel ter assumido um papel desproporcionalmente grande na indústria de vigilância internacional. Primeiramente, “quase não há” limites para veteranos “usarem ideias de pesquisas em que trabalharam nas forças armadas e desenvolvê-las” no setor privado. Além disso, contou Gordon, a ocupação de Israel em Gaza, Cisjordânia e leste de Jerusalém, e suas guerras periódicas, “funciona como um laboratório de testes e ajustes para diferentes produtos e tecnologias que são criados.”

Essas tecnologias são depois exportadas para todo o mundo.
Mer Security é uma das empresas que exportam produtos de espionagem. Muito conhecida no setor de segurança do país, a empresa ganhou um contrato com a polícia de Israel em 1999 para colocar em prática o projeto “Mabat 2000”, que instalou centenas de câmeras na Cidade Antiga de Jerusalém, foco de tensões na área ocupada. Em uma entrevista para a revista Israel Gateway, uma publicação do setor, Haim Mer, presidente do conselho deliberativo da empresa e veterano da Unidade 8200, explicou que “a polícia precisava de um sistema que controlasse e permitisse uma visão geral dos acontecimentos na área da Cidade Antiga”.

Na ISDEF Expo, Eyal Raz, diretor de produto da Mer Security, contou ao The Intercept o que as “grandes cabeças da segurança de Israel”, como diz um folheto da empresa, criaram. Raz estava demonstrando o Open Source Collection Analysis and Response (Coleta, análise e reposta de informação aberta), conhecido como OSCAR, que coleta informações em toda a internet e redes sociais, e promete descobrir conexões ocultas a partir dos dados que o OSCAR coleta e monitora.

Outro produto, chamado Strategic Actionable Intelligence Platform (Plataforma de Inteligência Estratégica e Acionável), ou SAIP, recebe e compila esses dados. Para identificar as “informações de inteligência relevantes”, o SAIP faz uso de uma tecnologia que realça palavras, frases e informações que podem ser do interesse de oficiais de inteligência. Esse tipo de ferramenta de análise linguística vem crescendo em popularidade com os serviços de inteligência por todo o mundo, sendo usados para encontrar ameaças futuras. Esses produtos alegam entender “o que está sendo lido”, disse Raz. Por exemplo, uma lista de componentes químicos incluída em um parágrafo pode parecer inofensiva para um leigo, mas a máquina de análise de linguagem pode identificar que a pessoa está falando sobre a confecção de um dispositivo explosivo, disse Raz.

Raz explicou outro recurso do SAIP: Usuários podem criar um perfil “para obter credenciais para fóruns fechados e coletar informações nestes ambientes. Isso também pode ser usado para fraudar suas atividades”. O Facebook não permite que pessoas criem perfis falsos, mas a tecnologia que Raz e outros vendem promete camuflagem em redes sociais para que perfis operados por agentes de segurança pareçam autênticos. Neste ano, diversos veículos de comunicação relataram que a Polícia de Israel usa táticas semelhantes criando perfis de Facebook para aproximarem-se de alvos de investigações e monitorar palestinos. Embora uma fala do porta-voz da Polícia de Israel, Micky Rosenfeld, tenha sido citada em um relatório confirmando que a polícia usa essa tática, ele negou a alegação ao ser contactado pelo The Intercept.

Os clientes do Mer Group estão em Israel e no exterior. A empresa faz um trabalho de “desenvolvimento conjunto” com a Unidade 8200, de acordo com Raz, e recrutam veteranos da unidade para trabalhar na empresa. Outros clientes estão espalhados pelo mundo, incluindo a Europa, embora Raz tenha se recusado a fornecer informações mais específicas. Mas as informações disponíveis publicamente mostram, por exemplo, que em 2011, a Mer assinou um contrato de US$ 42 milhões em Buenos Aires para instalar um sistema de “Cidade Segura” com mil e duzentas câmeras de vigilância, incluindo tecnologia de reconhecimento de placas.

Ahmed Mansoor, a Dubai-based blogger and activist, poses for a photograph in Dubai, United Arab Emirates on September 25, 2012.

Ahmed Mansoor, blogger e ativista de Dubai, posa para um retrato em 25 de setembro de 2012.

Foto: Bloomberg/Getty Images

Os laços da Unidade 8200 com a indústria de vigilância de Israel atraíram muita atenção no fim de agosto, quando pesquisadores de segurança digital do Citizen Lab, da Universidade de Toronto, publicaram um relatório detalhando a procedência de um tipo específico de malware. Os pesquisadores disseram que era provável que os Emirados Árabes tivessem atacado Ahmed Mansoor, um ativista de direitos humanos de destaque, com um spyware sofisticado que tinha a capacidade de transformar seu iPhone em um dispositivo móvel de vigilância que poderia rastrear sua localização, gravar suas chamadas telefônicas e controlar a câmera e microfone de seu telefone.

Mansoor disse ter sido alvo desde 2011, ano em que assinou uma petição pedindo reformas democráticas nos Emirados Árabes. “As autoridades de segurança do Estado estão basicamente obcecadas com o monitoramento e a espionagem de pessoas, ativistas,” contou Mansoor. “Estão completamente tomados por esse tipo de pensamento.”

O Citizen Lab analizou o spyware depois de Mansoor ter recebido uma mensagem de texto com um link prometendo “novos segredos sobre tortura nos Emirados Árabes em prisões do Estado”. Em vez de clicar no link, Mansoor enviou as mensagens para o grupo de segurança digital, que também havia analisado, em 2012, um spyware criado pela empresa de vigilância italiana Hacking Team, que infectou o computador de Mansoor.

“Nunca vimos nenhuma exploração do gênero em celulares que opere com a última versão”, contou Bill Marczak, pesquisador sênior do Citizen Lab e coautor do relatório.

O responsável pelo spyware, concluiu o relatório do Citizen Lab, era o NSO Group, uma empresa secreta de segurança israelense.

A divulgação de detalhes sobre o NSO Group é rara. Os fundadores do grupo raramente falam com a imprensa. O grupo não tem website. Tanto a mídia estrangeira quanto a mídia israelense fizeram reportagens sobre Onri Lavie e Shalev Hulio, fundadores da empresa, que são veteranos da Unidade 8200. Porém, alguns veículos israelesnses relataram que eles serviram em outras unidades. Ainda assim, ao menos três dos funcionários atuais do NSO Group serviram na unidade de inteligência, de acordo com seus perfis no LinkedIn. Além disso, veteranos da Unidade 8200 fizeram um investimento inicial de US$ 1,6 milhão para desenvolver o Pegasus, nome do spyware, de acordo com a publicação do setor, Defense News.

Zamir Dahbash, porta-voz da empresa, não respondeu a perguntas específicas sobre o NSO Group, que foi comprado em 2014 por US$ 120 milhões por um fundo de investimentos privado dos EUA. Em nota, ele contou ao The Intercept  que “a empresa vende apenas para agências governamentais autorizadas e em conformidade completa com leis e regulamentações de controle de exportação. … Os acordos assinados com os clientes da empresa exigem que os produtos da empresa só podem ser usados de forma lícita”.

À primeira vista, uma empresa de vigilância israelense vendendo spyware para uma nação árabe é surpreendente. Os Emirados Árabes Unidos e Israel não mantêm relações diplomáticas oficiais e, como em outras partes do mundo árabe, muitos emiratis detestam a antiga ocupação israelense em territórios árabes. Mas as vendas do NSO Group para os Emirados Árabes são uma indicação dos crescentes laços entre Israel e o país, que tem uma grande sede por equipamentos de vigilância.

“Esses regimes são instáveis, já que a maioria das pessoas vivendo nesses regimes não tem acesso à direitos básicos”, disse Gordon, o acadêmico israelense, “e eles precisam monitorar e vigiar populações constantemente”.

Em fevereiro de 2015, o escritor Rori Donaghy da Middle East EYE disse em reportagem que os Emirados Árabes assinaram um contrato com a Asia Global Technologies, empresa de um israelense registrada na Suíça e publicamente formada por funcionários ex-agentes da inteligência israelense, para instalar sistemas de segurança com milhares de câmeras.

Donaghy, fundador do Centro Emirates de Direitos Humanos, contou que os Emirados Árabes, que compraram de Israel produtos de segurança avaliados em centenas de milhares de dólares em sigilo, procuram as empresas israelenses por acreditar que elas são “simplesmente as melhores, mais invasivas e mais sigilosas do setor”.

 

Foto no topo: Pessoas observam câmeras de vigilância em telas dentro da unidade Mabat 2000 da polícia de Jerusalém, em 17 de novembro de 2015.