O ex-deputado federal Eduardo Cunha finalmente foi preso pela Polícia Federal nesta quarta-feira, dia 19, e teve sua casa revirada por agentes em busca de provas que liguem o então homem forte com o esquema de propinas na Caixa Econômica Federal. Levando em consideração a notícia de que a Justiça Federal bloqueou mais de R$ 220 MILHÕES dos seus bens, parece inegável que o montante de acusações justifiquem sua prisão. A dúvida é se essa ação representa justiça sendo feita ou uma ovelha sendo oferecida em sacrifício para as massas. Para quem carrega as bandeiras de “Fora Cunha” e “Fora Temer”, parece um momento mais adequado à vigilância que à celebração.
O desprezo a Cunha por grande parte da população atingiu níveis estratosféricos com seu papel chave na articulação da expulsão de Dilma Rousseff. O ódio e desespero sobre tudo o que tramitou injustamente em Brasília ficou focado nas figuras de Eduardo Cunha e Michel Temer. (São farinha do mesmo saco, afinal. “Michel é Cunha”, assegurou o aliado Jucá.)
Além da imagem de usurpador escorregadio que Temer representa na consciência coletiva da oposição, não existe uma figura que melhor desminta a promessa de “impeachment para livrar o país de corrupção” do que um líder do partido-parceiro mais próximo ao PT nos esquemas de corrupção: ele mesmo é acusado de embolsar dezenas de milhões de reais através de contratos corruptos. Já a palavra “Cunha” virou quase um xingamento para milhões de brasileiros. Ele é tão odiado que nem consegue andar em aeroportos sem apanhar de tiazinhas sob uma trilha sonora de vaias.
Os caciques do PMDB não são iniciantes na política e entenderam que Cunha parou de ser o instrumento incisivo de antes e virou uma pesada cruz para seus aliados carregarem. Deixaram-no para os lobos. O juiz Sérgio Moro, que abertamente articula uma estratégia midiática, também consegue reconhecer o valor de pegar um peixe peemedebista deste tamanho — especialmente neste momento, com seu poder e respeito em declínio por ter ultrapassado limites constitucionais e ignorado o mandato de imparcialidade. Apoiadores de outrora, como Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly, reconhecem a politização do Lava Jato:
A prisão de Cunha serve a muitos interesses, ainda que deixe várias sanguessugas de Brasília estendendo a mão para a garrafa de uísque. Cunha preso, como no caso de Marcelo Odebrecht, é pão e circo para o povo. A ideia de vê-lo encarcerado desencadeia uma catarse coletiva. Pegaram o ladrão. Mas esse alívio pode até ser um fator desmobilizante da oposição, com o “Fora Cunha” cumprido. Ao mesmo tempo, Moro consegue usá-lo como um exemplo de sua imparcialidade sem cuspir diretamente no olho dos novos donos de Brasília, que estão salivando para fechar sua investigação interminável (quase todos são implicados) e voltar para o negócio de sempre. Sem dúvida, será uma potente ferramenta retórica no esperado dia em que Moro pedir que a PF volte com a cabeça de Lula.“Diria que a politização do caso é exatamente o que permitiu que ele progredisse até onde foi sem ser interrompida por seus inimigos. Perversamente, também é o que vai começar a levar a investigação a seu fim, provavelmente nos próximos meses.”
Rapidamente, oponentes do impeachment esqueceram suas críticas a Moro e estão saboreando o momento:
AO VIVO no #Periscope: Cunha em cana! https://t.co/2SMed9n3DQ
— Chico Alencar (@depChicoAlencar) October 19, 2016
E, previsivelmente, alguns porta-vozes da direita usaram a prisão de Cunha como uma oportunidade para demonstrar quão simplista é seu pensamento e ridicularizar a ideia de que Moro possa pedir a prisão de um peemedebista e, ao mesmo tempo, ser parcial.
Enquanto os treteiros tretam, todos os danos infligidos pelo ex-deputado durante seu reinado ficam de lado, por exemplo:
A prisão é a última de uma longa sequência de más notícias para o peemdebista. Em maio, o ministro Teori Zavascki do Supremo Tribunal Federal o afastou de seu mandato de presidente da Câmara. Em junho, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu sua prisão. Em julho, sob pressão insuperável, renunciou à presidência da Câmara às lágrimas de crocodilo. Em setembro, a Câmara o expulsou de suas fileiras, o que fez com que perdesse o sagrado direito do político brasileiro: o foro privilegiado. Foi um longo caminho até o inevitável: a prisão. Ainda está em jogo se o mestre das artes políticas conseguirá se livrar por alguma lacuna da lei ou se a ficha realmente caiu.
Vale lembrar que Cunha é acusado de ter seu dedo em quase todos os potes e responde a muitas acusações de crimes milionários. Ele é a definição de rabo preso e já ameaçou publicamente que vai queimar o filme de todos seus ex-colegas: “vou contar tudo que aconteceu, diálogo com todos os personagens que participaram de diálogos comigo. Eles serão tornados públicos, na sua integralidade. Todo mundo que conversou comigo, todos, todos.”
O fato de que uma possível delação premiada sua ainda esteja preocupando a Brasília é prova suficiente de que mesmo que Eduardo Cunha deixe a cena política, seu legado, sua essência e seus aliados de pensamento permanecem. Cunha sai, mas centenas de Cunhas ficam.
Foto de topo: Brasília — O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, embarca para Curitiba após ser preso pela Polícia Federal.
O meliante é apenas um golpista radical. A onda conservadora é bem maior do que ele, devemos saber lutar contra ela
http://novoexilio.blogspot.com.br/2016/11/o-gol-da-alemanha-e-revanche-dos-vira.html
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O meliante teve o prazo requerido atendido, para limpar as contas bilionárias, limpar os computadores todos, gavetas. Separou as tralhas que poderiam ser entregues para a “apreensão” de provas. Malinhas (com escova de dente, pijama, cuecas, toaletes, etc) prontas, ligou para o juizeco e mandou: “Pode vir. Mas, já sabe, nada de japonês, nem de farda camuflada. E, por favor, uísque a bordo”.
A Lava Jato está se transformando no mais vergonhoso evento midiático do Brasil comandado claro pela Rede Globo. Seus principais protagonistas que deveriam ficar longe dos holofotes, cumprirem a lei com imparcialidade e discrição preservando o direito a amplo de defesa aqueles que acusam, preferem se expor de uma forma vergonhosa à procura da fama a qualquer preço.
Se ele não era importante, pq tantos memes, fotos falando que ele estava solto ha x meses, dizer que ele era o pior crápula e tudo o que sempre foi falado sobre ele quando ele aceitou o pedido de impeachment, não é um pouco incoerente?
A mim, sacando o fato como vc disse, parece birra de quem das pessoas que estão perdendo cada vez mais base para suas retóricas. Mas essa é só a minha visão.
PS: Adoro esses textos que tem um ar de verdades supremas embasados em clara ideologia e completamente descolados com a realidade. São ótimos para retração e entretenimento.
Foi preso de forma educada agora por que? Sacou a malandragem?
Parabéns, Andrew Fishman, por mostrar quão toscos são os argumentos da direita em relação a essa tão tardia prisão de Cunha.
Qual foi o fato novo que levou a essa prisão? O artigo de Cerqueira Leite “desvendando Moro” como o novo Savonarola? A repercussão negativa à cartinha que ele, Moro, enviou à Folha de São Paulo mandando evitar artigos como aquele e reclamando do fato do cientista estar no conselho editorial do jornal? O fato de dois atores famosos terem recusado o papel de Moro no filme do famigerado José Padilha, diretor daquele filmeco fascista de 5ª categoria, Tropa de Elite?
O fato é que pegaria muito mal prender Lula sem provas cabais, só na base da convicção, e preservar Cunha livre apesar de toda a prova robusta ofertada pelas autoridades suíças. E Cunha, afinal, já deu o que tinha que dar. Ninguém melhor pra bancar o boi de piranha do golpe. Sua prisão veio a fim de limpar o terreno pra prisão POLÍTICA de Lula. E deve ter sido negociada com ele, Cunha, porque foi muito civilizada: sem algema, sem japonês, sem coletes nem armas nem uniformes camuflados como nos acostumamos a ver com os petistas, seus marqueteiros, suas mulheres, suas cunhadas, seus cachorros e seus papagaios.
Delação premiada? Duvido muito, a não ser que a jogada seja pra tirar Temer e seu círculo íntimo daqui a dois meses a fim de eleger indiretamente alguém do PSDB (a partir de janeiro, se a presidência vagar, o Congresso elege um novo presidente, diz a Constituição). Mas quem precisa disso quando tem Gilmar Mendes na presidência do TSE?
Não. O negócio é pavimentar a estrada pra prisão de Lula. Se os sôfregos direitistas não tivesses inundado a internet pra berrar sobre a “prova de isenção” da Lava Jato, mais incautos seriam engabelados (nem todo mundo é tão burro ou tão cínico quanto Luciana Genro, que tuitou bradando a favor da Lava Jato).O pessoal da direita foi com muita sede ao pote. Mostraram que estão percebendo o lento e gradual descrédito da Lava Jato.
Moro, espertamente, move Cunha para a cadeia para anestesiar o impacto da futura prisão de Lula. Essa é a retórica de “imparcialidade” que reverberou imediatamente na mídia que Moro usa como relações públicas. Cunha preso, tem mais utilidade e mete mais medo do que se imagina.
O texto está ótimo, inclusive compartilhei em meu perfil no facebook. Sugiro apenas que troque “quinta” por “quarta”, logo no início do primeiro parágrafo do texto.
Abraço!
Parabéns pelo trabalho!
Formada pela tríade mercado+mídia+operadores político-jurídicos, nossa plutocracia tem ainda um problema para resolver e uma série de riscos para administrar até 2018. O problema tem nome próprio: Lula. A possível solução para esse problema passa é claro pela operação Lava Jato: só ela poderia criar as condições para inabilitar politicamente Lula ainda este ano ou ano que vem no máximo. Isto permitiria simultaneamente aplainar o cenário eleitoral para 2018 e reduzir os danos colaterais produzidos pela operação, e pouco a pouco ir se desligando os holofotes sobre ela. No curto prazo precisa administrar a fragilidade e a impopularidade política de um governo como o de Temer, mas salvo alguma surpresa, esses custos são bastante razoáveis e tem prazo de validade: 01/01/2017. Se a inabilitação de Lula não sair as probabilidades de sacar Temer em 2017 e propor alguma solução “criativa” (um parlamentarismo ou outra idéia qualquer) aumentam bastante. Essa possibilidade se a primeira vista parece ousada, possui uma vantagem já que pode permitir criar uma outra solução diferente para o problema da eleição de 2018. O difícil cenário econômico não parece ajudar no encaminhamento de nenhuma dessas e aparamente parece uma via que corre paralela a essas perigosas vias políticas, mas não nos enganemos. Existe muito espaço para a redução das taxas de juros e ela pode dar algum respiro para as lutas no front político. Boa parte para o sucesso dessas estratégias da plutocracia não depende só de suas armas e de seus movimentos, dependem antes de mais da capacidade política de Lula e o PT de reagir e contra-atacar politicamente.
Minha opiniao sobre a jogada:
Fato: Cláudia Cruz não foi presa, embora existam muitos fatores que a incriminam. Isso pode vir de Algum acordo de setores conservadores, onde a Cláudia Cruz é poupada e o Cunha detona os parceiros do PMDB e companhia. Então Temer é deposto com novo impeachment. Os setores tradicionais que controlam o Brasil vão começar a aventar a ideia que o presidencialismo esta morto e que é hora do Brasil abraçar o PARLAMENTARISMO. Porque no jogo limpo todas as pesquisas mostram que eles não tem chance na próxima eleição presidencial. Mas a câmara eles conseguem maioria. Reforça a minha ideia o fato de que Rodrigo Maia propôs (ou cogitou) a ideia de fazer reforma politica com voto em legenda de lista fechada (onde se vota no partido e não no politico). Dai a câmara vira de uma vez o conselho dos coronéis e o Brasil pode continuar na sua vocação de colonia. Abraxx
Como a imprensa internacional repercutiu a prisão de Eduardo Cunha.
http://www.tijolaco.com.br/blog/aqui-nao-mas-la-fora-cunha-e-chamado-pelo-que-e-lider-do-impeachment/
Abraços a todos da equipe do Intercept
Too little, too late.
Prender agora é fácil, né, Moro? Qual a serventia que esse escroque ainda tinha para o golpe?
E a direita brasileira é tão burra que já está arrotando “superioridade” intelectual com esse argumento tosco do “equilíbrio” da lava-jato.
O circo tá montado e prontinho para prender Lula por qualquer argumento idiota que resolverem que é suficiente. E com o manto da “isenção” e do “equilíbrio”. E depois disso, tenho dois palpites: ou o titio Gilmar Dantas dá aquele habeas corpus maroto pro “malvado favorito” da direita, ou este último resolve jogar a m* no ventilador para estremecer o governo golpista.
Naturalmente, se esta segunda hipótese vingar, é óbvio que irá balançar, mas só irá cair depois de 01/01/2017.
A impressão que tenho é que estão chutando cachorro morto.
Valerá a pena se ele fizer uma mega delação.