Estreiam neste fim de semana no Netflix os seis primeiros novos episódios de “Black Mirror”. A brilhante e profundamente perturbadora série apresenta uma distopia tecnológica para o deleite do espectador. Ainda perturbadora e brilhante, pela primeira vez, o tema do programa, que parece combinar Rod Serling (The Twilight Zone) e Evgeny Morozov (estudioso das implicações sociais da tecnologia), é tão próximo de nossa realidade que a experiência pode acabar por não ser tão agradável assim.
Mas isso não é ruim. Uma das maiores conquistas de Black Mirror é fazer com que sintamos um tremendo pavor sobre o rumo que as coisas mundanas da vida podem tomar nos próximos dez anos — seu smartphone, seu perfil no Facebook, sua TV — tudo isso pode levar a um grande pesadelo coletivo. E a série acerta na mosca: isso provavelmente acontecerá! Ou já está acontecendo. Mas em vez de abordar essas questões em um Sci-Fi reductio ad absurdum, como o programa fez no passado, (E se as curtidas de Facebook fossem a única moeda do mundo? E se seu ex pudesse ser ressuscitado em forma de robô e morar no seu sótão?) os melhores momentos dessa temporada são extremamente 2016.
Mackenzie Davis no episódio “San Junipero” da terceira temporada de Black Mirror.
Foto: Laurie Sparham/Netflix
O mini-filme mais inquietante da terceira temporada é “Hatred in the Nation”, que poderia se passar nos dias de hoje se você ignorar a presença de abelhas-robô. A primeira cena abre com uma jornalista metido em uma confusão infernal por conta de um artigo controverso. Em poucos minutos, depois de uma enchurrada de assédio no Twitter, o escritor acaba morto da forma mais macabra possível — quando a protagonista do programa, uma detetive, chega à cena do crime e não se surpreende com o fato do morto criar apenas manchetes sensacionalistas, uma cena tirada do pior pesadelo de qualquer escritor com bloqueio às 4 da manhã (pelo menos para mim). A investigação sobre a morte do escritor é a introdução para o resto do episódio de uma hora e meia (!), que conta com uma grande variedade de palavras-chave no melhor estilo zeitgeist: drones, reconhecimento facial, hashtags, vazamento de fotos comprometedoras, GCHQ, backdoors, criptografia de ponta a ponta, impressão 3D, hackers e até mesmo um carro automático sem motorista. De algum jeito, nada disso soa amador, mas sem deixar de ser violento.
A experiência de assistir a uma hora e meia de ameaças de morte a jornalistas, trolls de Twitter maníacos com sede de sangue passando de uma vítima para a outra e regimes antiprivacidade complexos não se encaixa mais no gênero da ficção científica. Nem mesmo as abelhas-robô me deixaram incrédulo — muito do que se passa em “Hatred in the Nation” está acontecendo por todos os cantos nessas eleições americanas, então você tem a impressão de estar sendo levado para um mundo paralelo estranho em Black Mirror. Mesmo quando o programa passa por seus momentos mais mundanos, seu estômago vai embrulhar de angústia, sua timeline nas redes sociais será sua pior inimiga e você só pensará em fechar as cortinas. É eletrizante, e até um pouco repugnante, assistir ao episódio “Shut up and dance” em meu laptop. O laptop de um adolescente é infestado por malwares que, sob o controle de um desconhecido, registram seus momentos mais íntimos. Durante esse episódio, tive vontade de fechar o computador e me esconder embaixo da cama. É possível que você tenha a mesma sensação, mas não faça isso, tem muita poeira lá embaixo, e Black Mirror é simplesmente sensacional.
Esta temporada não tem aquele tom manjado de dor e perdição. Alguns episódios ainda mantém um clima de que diabos estou assistindo, em vez de o Twitter virou uma arma e vai me matar. O episódio “San Junipero”, em que duas mulheres se conhecem em uma cidade-resort de outro mundo deslocada no tempo e no espaço, tem um clima onírico, sutil e visualmente deslumbrante. Diferente de “Hated in the Nation”, que deixa claro a que veio desde o princípio, “San Junipero” tem seu mistério conservado até o fim — e, ao contrário do resto da terceira temporada de Black Mirror, repleta de angústia e perspicácia, dá até para assistir uma segunda vez.
Foto principal: Da esquerda, Faye Marsay, Jonas Karlsson, Esther Hall e Kelly Macdonald no episódio “Hated in the Nation” da terceira temporada de Black Mirror.
Abelha-robô = drone
Enxurrada.
Ia dizer o mesmo…
O seriado era brilhante, mas o estragaram com essa terceira temporada… Apenas “mais do mesmo” de qualquer filme mediano de SciFi.
Historia, roteiro, direção… nada lembra as duas excelentes temporadas de Black Mirror.
Assistirei novamente a S01 e S02 que foram excelentes, ao contrario dessa que desde o inicio do S03E01 foi difícil de conseguir terminar de assistir, apenas o fiz na expectativa de ter algum diferente e similar as anteriores.
Decepcionante!
Vc ta falando bosta filho, melhor temporada até agora.
Realmente concordo com o João, a S03 esta maravilhosa
Só o Ep01 mostrando a distopica de cor nude, onde o mundo tem aquela cara de boneca de porcelana e que a vida é baseada conforme sua pontuação na rede social é um tapa forte na cara da sociedade
Vemos hoje exemplos no Youtube, onde pessoas banais fazem de tudo pra obter like, fama e $$, outro exemplo é as Kardashian ( não sei como se escreve), que baseam a vida em likes e visualizações em redes sociais, e pasmem, as pessoas adoram ver esse tipo de entretenimento futil
Concordo com você. Tudo muito explicadinho, alguns episódios com um viés muito moralista. A sensação de desconforto das duas temporadas anteriores foi bastante minimizada nesta 3ª temporada. Ao ser comprada pela Netflix, a série ganhou em qualidade técnica e de produção, mas as histórias perderam em impacto.
Não considero a melhor temporada, nem sei dizer qual é…
Mas é uma ótima temporada. No terceiro episódio eu já estava assistindo em posição fetal de tamanho incõmodo que a série causa.
MUNDO DOS LOUCOS?
Desde 1990, o mundo envereda por um caminho de insanidade, fantasias e ilusões. Mas, se não representamos uma comédia nem vivemos um filme de terror, convém perguntar a que se deve esta situação.
O assessor da Casa Branca, ex vice-diretor geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), o novaiorquino de invejável currículo Mohamed El-Erian escreve que os bancos centrais, extrapolando suas competências monetárias, para a econômica, política e mesmo ações sociais, empoderados desde a “crise” de 2008, têm a maior responsabilidade.
Afirma em seu mais recente livro (A Única Solução, Dom Quixote, 2016) que “uma verdadeira sensação de insegurança”, “a polarização política”, “as tensões geopolíticas”, “as desigualdades e a alienação” afetam a confiança do setor privado em empreender a recuperação econômica. E o protagonismo destes bancos centrais acabará “provavelmente nos próximos três anos”, deixando um mundo ainda pior.
Hoje, El-Erian vê um “entroncamento” com uma via “altamente inclusiva”, que cria postos de trabalho e combate a desigualdade “excessiva” e ameaças geopolíticas mundiais. Outra via com crescimento ainda menor, alimentando extremismos políticos e a quebra da coesão social.
Sendo o autor um homem do atual sistema de poder, longe de qualquer arroubo esquerdista, pensaríamos que a via inclusiva estaria sendo construída em todo lugar onde o capitalismo-colonial-patriarcal-racista (conforme Luisa Valle, Para Pensar a Ecologia dos Saberes, tese apresentada em 2016 na Universidade Internacional de Andaluzía), ou seja, o Ocidente Financista ocupe o Poder.
Ledo engano.
De início os bancos centrais tem adotado, desde 2008, medidas concentradoras, como se observa nestas estatísticas do banco Credit Suisse e transcritas em artigo de Antonio Luiz M.C. Costa, postado na Carta Capital em 05/01/2016.
Em 2010, os 50% mais pobres detinham menos de 2% dos ativos mundiais, estimados em 184,5 trilhões de dólares. Em 2015, estes possuíam menos de 1%, de uma riqueza de 250,1 trilhões de dólares. E observe-se que houve aumento do número de pobres. Na outra ponta, os 10% mais ricos com 83% da riqueza mundial, passam a deter 87,7%, em 2015. E passam também a se concentrar geograficamente: os Estados Unidos da América (EUA) é a residência de 46% dos magnatas, contra 41%, em 2010, o Reino Unido (RU) de 7%, antes 5%, Suíça e Suécia dobram de 1 para 2%, enquanto encolhem no Japão (de 10 para 6%), na França (9 para 5%) e Itália (6 para 3%).
Em toda parte a resposta às “crises” têm sido o rigor fiscal, o retraimento ou mesmo a eliminação das ações do poder público e as manipulações cambiais. Os resultados são conhecidos não só nas áreas coloniais, dependentes, mas nos próprios centros do Império: EUA e Comunidade Europeia.
E, o que seria um paradoxo, os capitais internacionais, a banca, insuflam e financiam atentados, guerras regionais e rivalidades ideológicas. Já não são apenas as divulgações devidas a Julian Assange (WikiLeaks) e Edward Snowden, mas analistas e jornalistas dão-nos conta, frequentemente, das ações e movimentações financeiras mantenedoras deste “terrorismo”.
No recente debate dos candidatos principais à presidência dos EUA, a democrata e belicosa Hillary Clinton, como já saira em blogs, procura mover seu país para um novo confronto com a Federação Russa, que já não é um país comunista, mas um opositor da banca, o sistema financeiro internacional que ela representa.
Estas são as loucuras internacionais. Mas temos as nossas, a irracionalidade e a hipocrisia com que o Governo anuncia e exige a aprovação da PEC 241 é a mais recente e um exemplo do que o economista Mohamed El-Erian escreve que deve ser evitado.
O que está nesta PEC é a restrição ao investimento e à ação pública, a alienação do patrimônio público, e, nem mesmo o financiamento à atividade privada produtiva. Tudo nesta proposta tem como fim a transferência de recursos para a banca. Vejamos o que diz Ben Bernanke, personagem importantíssimo da “crise” de 2008, citado por El-Erian: “as políticas experimentais dos bancos centrais envolvem uma mistura de benefícios, custos e riscos que acarretam uma perspectiva invulgarmente incerta”. Em outras palavras, você, meu caro leitor, pagará caro para ter a oportunidade de saltar num abismo onde não vê o fundo.
E, agora o ensandecer explode, tudo sob aplauso dos veículos de comunicação de massa, dos comentários irresponsáveis de pretensos analistas e da intimidação dos órgãos de repressão.
E você verá o povo, aquele que Alexandre Herculano dizia açular o mártir que está no patíbulo por defender aquele mesmo povo que o agride, enquanto aplaude o tirano que o humilha e explora, votar nos candidatos cujos partidos dão golpes, aprovam arrocho salarial e eliminam os recursos fundamentais para educação e saúde da população.
Se esta loucura não é nova, pois nem bem completa um século que a Europa levou toda a humanidade ao mais demente ato: a guerra, a possibilidade de informação hoje é muitas vezes maior do que a de 1914 ou 1939. Ou seja, é possível ter informação mais perto da realidade factual, entender que o mundo quântico e nuclear de hoje não comporta ideologias dos séculos passados, exceto nas questões de fé, e que uma conflagração pode ser o último passo da humanidade.
Cada ato tem sua consequência, cada omissão seu pesadelo.
E como avaliar que a Presidenta do Supremo Tribunal Federal (STF), a Ministra Carmen Lúcia, considere que a opção pessoal de gostar, compartilhar ou se opor e, ainda, não se interessar por um veículo de comunicação de massa é um ato de “censura”, que ser “politicamente correto” é incorreto?
Mundo dos loucos onde a sanidade paga o preço.
Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado