Como é a fronteira sul dos Estados Unidos?

Embora fale-se muito em “proteger as fronteiras” e “construir um muro”, é surpreendente como há tão pouco material mostrando a vastidão dessa faixa de terra.

No total, a fronteira entre o México e os EUA se estende por 3.144 km. De acordo com o Google Maps, o trajeto levaria 34 horas para ser completado de carro. Em algumas partes, que se estendem por mais de 1.046 km, já existe uma cerca demarcando a fronteira. Influenciadas por diferentes forças, estima-se que aproximadamente um milhão de pessoas passem pelas entradas oficiais todos os dias.

Mas como é a geografia desse território? É uma área industrial? É deserta, habitada? Ou tudo isso ao mesmo tempo?

Usando as coordenadas geográficas da linha de fronteiras internacionais em conjunção com os dados de localização da cerca existente na fronteira (mapeada por jornalistas da NPR e do Center for Investigative Reporting), programei um script de comandos simples para fazer o download das imagens de satélite de toda a fronteira.

Acumulei aproximadamente 200 mil imagens.

Através de programa em linhas de comandos chamado ffmpeg, juntei as imagens de forma automatizada e, com a colaboração de Laura Poitras e sua equipe da Field of Vision, editamos um curta de seis minutos com a sequência. Jace Clayton, artista e autor conhecido como DJ/rupture, criou uma trilha sonora original para o vídeo.

Rios de dados

Fronteiras começam como uma ficção. Elas são interpretadas. São linhas demarcadas no chão, espaços que envergam e quebram, e abrem exceções para certos tipos de corpos.

Mas fronteiras se tornam realidade por meio das políticas de Estado implementadas em função delas. O fato de fronteiras serem interpretadas não as torna menos reais. A fronteira é aquilo que dá forma a uma nação, literalmente.

Uma das formas pela qual a fronteira é interpretada — em especial, na fronteira sul dos EUA — pode ser melhor compreendida através do prisma da coleta de dados. Na região da fronteira, ao longo do Rio Grande e a oeste do deserto do sudoeste, o Serviço Aduaneiro e de Proteção das Fronteiras dos EUA (Customs and Border Protection – CBP) implementou radares aeróstatos, drones, aeronaves de asas fixas, helicópteros, sensores sísmicos, radares, software de reconhecimento facial, leitores de placas de automóvel e câmeras de vídeo infravermelho de alta definição. Cada vez mais, esses dispositivos fornecem dados para o “The Big Pipe” (O Grande Duto).

Como informou meu colega, Roger Hodge, em 2012, o Big Pipe é “uma rede de vigilância desenvolvida por Kenneth Knight, vice-diretor executivo das operações de segurança aérea nacional do Gabinete de Aeronáutica e Marinha (Office of Air and Marine – OAM), uma divisão menos conhecida do CBP responsável pela maior força aérea policial do mundo”.

E continuou:

O CBP, responsável pela Patrulha da Fronteira, por sua vez, vem implantando medidas cada vez mais avançadas para vasculhar, investigar e até tomar posse de um enorme fluxo de drogas e corpos (usando a terminologia do CBP), além de direcionar um rio de dados paralelos — manifestos eletrônicos, listas de viajantes, datas de entrada e uma quantidade incalculável de imagens em vídeo — para serem analisados, quantificados, indexados e armazenados.

Ao pensar nos rios de dados e na quantidade incalculável de imagens em vídeo, me peguei pensando no livro de Rebecca Solnit, “River of Shadows” (Rio de Sombras) — e em uma ideia introduzida por Trevor Paglen através de uma série de ensaios chamada “seeing machines” (máquinas com olhos).

Máquinas com olhos

Em seu ensaio de 2014, chamado “Geographies of Photography” (Geografias da Fotografia), Paglen descreveu o papel das máquinas com olhos na criação de geografias relacionais capazes de romper com o espaço e o tempo.

Máquinas com olhos criam geometrias espaciais e temporais distantes umas das outras. Elas dissolvem o próximo no distante, e o presente no passado e no futuro. Com o intuito de ilustrar essas geografias “relativas” das máquinas com olhos, vou usar o exemplo de um drone Reaper. O que é exatamente um drone Reaper? É basicamente uma câmera presa a um avião de controle remoto. Certas vezes, eles levam mísseis. Uma das características particulares do drone Reaper (e outros drones de sua família, incluindo o Predator e o Sentinel) é que a aeronave, o piloto, o navegador, analistas e o comandante não precisam estar no mesmo lugar. A aeronave pode estar em uma missão no Iêmen, sendo pilotada de Nevada (EUA), supervisionada da Virgínia (EUA) e recebendo apoio de oficiais de inteligência no Tampa (EUA) — o geógrafo Derek Gregory escreveu sobre o que chama de “Geografias do Drone”. O drone cria suas próprias geografias “relativas”, reunindo diversos pontos espalhados pelo planeta em apenas um “campo de batalha”. O cruzamento entre espaço e tempo que o drone Reaper proporciona é uma versão contemporânea do que Marx chamava de “aniquilação do espaço com o tempo”, ou seja, a capacidade de utilizar a velocidade de novas tecnologias de transporte e comunicação para “aproximar” espaços distantes, relativamente falando. A fotografia foi parte fundamental dessa aniquilação do espaço-tempo desde o começo.

Embora as máquinas com olhos tenham um papel importante na “aniquilação do espaço com o tempo” desde a origem da frase no século XIX, elas contribuem cada vez mais para a criação de novas geografias temporais relativas, talvez algo próximo de uma “aniquilação do tempo com espaço”. Há motivos para suspeitar que o século XIX viu a aniquilação do espaço com as novas tecnologias de comunicação e transporte. No século XXI, é possível que também observemos uma drástica reconfiguração do tempo por meio de tecnologias de monitoramento, armazenamento e análise constantes que podem “acessar o passado” de uma forma nunca antes vista.

A maioria das tecnologias usadas para impor ou interpretar a fronteira podem ser compreendidas como “máquinas com olhos”. Esse filme é uma tentativa de oferecer a oportunidade de se vivenciar essa ideia por alguns instantes e explorar formas de usar essas tecnologias — satélites, neste caso — para visualizar melhor os espaços em que atuam.

Como seria tentar “ver” toda a fronteira sudoeste de uma só vez, e viajar pelos 3.141 km em seis minutos?

Será que a simples visualização de um lugar que tem sido tão politizado — um lugar que foi resumido a uma frase feita — pode contribuir com um pouco mais de textura e significado para a frase “construir aquele muro”?

A fronteira sul é um espaço que foi quase que totalmente reduzido a uma metáfora. Ele não é nem mesmo um espaço geográfico. Parte da minha intenção com este filme é persistir na questão da geografia.

Focando no terreno em si, espero que os espectadores possam entender a dimensão da coisa e, quem sabe, imaginar o que significaria ser sujeito político deste espaço.