A derrota de Marcelo Freixo por 19 pontos percentuais na disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro para o extremista evangélico Marcelo Crivella, no último domingo (30), levanta perguntas importantes e evidencia os principais desafios da esquerda brasileira. É de extrema urgência encontrar respostas e soluções frente à instabilidade política do país e à ascensão nacional de facções de extrema direita que, se não forem impedidas, poderão se estabelecer no poder por uma geração inteira.
O grande fracasso do PSOL em seu reduto político frente a um candidato fraco, radical e sectário não se deu por conta de candidatos inferiores. Muito pelo contrário. Freixo é um político dedicado, talentoso e perspicaz, com um longo e inspirador histórico de dedicação às causas social. A feminista escolhida para ser sua vice, Luciana Boiteux, é uma advogada e professora de direito inteligente e sofisticada que melhorou como oradora e liderança política durante a curta campanha.
Seus principais apoiadores também não são a problema do PSOL. A vitória de Freixo no primeiro turno foi extraordinária dadas as condições estabelecidas pela lei eleitoral que foi criada especificamente para paralisar partidos pequenos e novos e relegá-los à margem da política. A vitória do PSOL sobre o PMDB e o PSDB, embora tivesse apenas 11 segundos em programas de TV e sem contar com o apoio financeiro das oligarquias do país, foi uma conquista monumental. Outra grande conquista foi alcançar o maior número de vereadores da história do partido: foram conquistadas seis cadeiras na câmara municipal. Isso só foi possível graças à militância mais entusiasmada, dedicada e trabalhadora dentre todos os partidos. E esse é o maior patrimônio de um movimento político.
O problema enfrentado pelo PSOL é estrutural, institucional e cultural: como expandir-se além de sua base eleitoral dedicada, porém limitada, composta primordialmente por intelectuais bem educados, com estabilidade financeira e, em sua maioria, brancos da Zona Sul, e por jovens? Ou seja, como o PSOL pode persuadir pobres, trabalhadores e moradores de favelas de que suas condições de vidas seriam melhoradas por um governo de esquerda e como convencê-los de que os líderes do PSOL compreendem e, portanto, podem lidar com os problemas graves e sistêmicos que eles enfrentam?
Não se pode subestimar o alcance e a dimensão do fracasso do PSOL neste caso. Todos os dados disponíveis mostram a mesma história. Aqueles com os menores níveis de renda e de escolaridade rejeitaram fortemente o PSOL – um partido formado para combater as desigualdades sociais – em prol do conservador evangélico e pró-empresários. Freixo perdeu esmagadoramente na Zona Oeste. Eleitores da classe trabalhadora e residentes de favelas fora da Zona Sul simplesmente deram as costas para a esquerda. Em outras palavras, os próprios eleitores a quem o programa político do PSOL tenta atender são aqueles que se sentem mais distantes do partido – e são muitas vezes hostis a ele.
Esse problema não é, de maneira nenhuma, exclusivo da esquerda brasileira. É a mesma crise enfrentada por partidos de esquerda por todo o mundo democrático. Nos Estados Unidos, a disputa liderada pelo socialista Bernie Sanders este ano, por mais surpreendente que seu sucesso tenha sido, fracassou em última análise porque ele não tinha apelo fora de sua base de liberais brancos, intelectuais e eleitores jovens. As minorias e os trabalhadores brancos permaneceram firmes nos campos da centrista de situação, Hillary Clinton, e do populista de direita, Donald Trump, respectivamente.
Na Europa Ocidental, cidadãos cuja segurança econômica foi devastada pelo globalismo não estão se voltando para os progressistas – a quem veem como elites cosmopolitas condescendentes e distantes de sua vida cotidiana – mas a demagogos populistas de direita que canalizam suas angústias mirando as minorias, e que prometem respeitar e proteger (ao invés de desprezar) seus valores culturais. Essas tendências ameaçam produzir uma geração de eleitores pobres que se identificam irreversivelmente com partidos de direita, enquanto tornam a esquerda num artigo de boutique, um movimento marginal para as elites nas cidades e para os estudantes universitários.
Mas a universalidade deste problema não diminui a urgência com que a esquerda brasileira – especificamente o PSOL – precisa resolver isso. Cinco anos atrás, quando era apenas uma alternativa ideologicamente mais pura ao PT, o PSOL ainda podia se dar ao luxo de alimentar apenas sua base principal. A paixão de seus militantes e os candidatos carismáticos que atraiu asseguraram que o partido elegesse alguns deputados federais, estaduais e vereadores.
Mas, por conta da mudança no cenário político e do amplo desprezo que a sociedade tem pela classe política, isso não é mais suficiente. O impeachment de Dilma, por mais corrompido e ilegítimo que tenha sido, conseguiu incapacitar o PT; levará um longo tempo para que o partido retorne a um patamar que se assemelhe ao poder que detinha, se algum dia isso acontecer. A Rede desapareceu misteriosamente como força eleitoral este ano. E o PCdoB, identificado por sua longa aliança com os governos do PT, ainda precisa demonstrar que pode protagonizar a liderança da esquerda.
Isso significa que, se a “nova esquerda” pretende competir com a muitas vezes alarmante “nova direita”, é necessário que o PSOL evolua para o próximo nível do poder político. Ganhar algumas cadeiras na Câmara, e promover comícios grandes e vibrantes não é suficiente. O partido precisa encontrar maneiras de ganhar eleições municipais e estaduais para que possa eleger prefeitos, governadores e senadores, e, finalmente, competir nacionalmente na disputa presidencial. Como ficou claro ontem à noite, esse objetivo continuará sendo um sonho se o PSOL não encontrar rapidamente uma maneira de expandir e diversificar seu apelo.
O que faz deste fracasso tão alarmante é que as novas facções de direita do Brasil já estão logrando alcançar essas populações. O milionário de direita João Dória venceu no primeiro turno porque os eleitores pobres de São Paulo abandonaram, em grande número, o talentoso prefeito do PT para votar no tucano. Crivella provou que, não importa quão extremas e regressivas são suas crenças políticas e religiosas, os líderes evangélicos sabem como dialogar com os eleitores pobres e a classe trabalhadora. E, enquanto o movimento Bolsonaro encontra apoio entre alguns setores ricos e bem educados, ele está fazendo cada vez mais incursões entre as áreas dos mais pobres e menos educados.
Tudo isso significa que, se a esquerda – especificamente o PSOL – não encontrar rapidamente uma maneira de chegar a estes eleitores, essas populações se identificarão, talvez irreversivelmente, com facções de extrema-direita, como eram, há pouco tempo, irremediavelmente identificados com o PT. Se isso não mudar, a competição pelo poder no Brasil não será entre a direita e a esquerda, ou entre o PSOL e o PMDB. Ao invés disso, a competição real se dará apenas entre a própria extrema-direita: evangélicos, Bolsonaristas, e oligarcas dos negócios do PSDB. O centro de poder no Brasil será composto exatamente pelas pessoas que, na noite de ontem, estiveram triunfalmente no palco atrás de Crivella e que agora exercem o poder na segunda maior cidade do país. Esse é o caminho de direita no qual o Brasil está agora inegavelmente situado.
Não existe uma resposta simples para isso. Porém, o ponto mais preocupante é que esse problema já era extremamente óbvio em 2008 e 2012, quando Fernando Gabeira e depois Freixo perderam as eleições para prefeitura do Rio para Eduardo Paes, e, nos anos que se seguiram, houve muito pouco avanço para solucioná-lo.
Mesmo não havendo respostas fáceis para esses desafios, há lições a serem aprendidas de outros grupos de esquerda que foram bem-sucedidos nesse sentido. Lula foi capaz de criar e transformar o PT em uma grande força política de esquerda porque a base de apoio do partido era composta pela classe pobre e trabalhadora, e a partir daí seu apelo se estendeu a outros grupos. Isso foi possível porque as lideranças do partido, começando pelo próprio Lula, foram capazes de entender instintivamente seus eleitores e tinham credibilidade para dialogar com eles porque pertenciam a esses grupos. Não foi necessário inventar estratégias de comunicação ou teorias abstratas sobre como conquistar essa parcela do eleitorado; a liderança e os candidatos do PT cresceram nas comunidades que serviram de base eleitoral do partido.
Um partido não tem o apoio de segmentos mais pobres da população e de minorias, a menos que esses grupos se vejam representados na liderança e nas candidaturas do partido. O PSOL avançou nesse sentido: um de seus mais renomados deputados, Jean Wyllys, foi criado em condições de extrema pobreza, e dois de seus novos vereadores, Marielle Franco, a quinta vereadora mais votada, e David Miranda (meu marido), fotos abaixo, são cariocas negros que cresceram em favelas da Zona Norte da cidade. É fundamental para a expansão do apelo do partido que suas lideranças e candidaturas sejam compostas pelos grupos de eleitores que o partido deseja conquistar.
Photos: Thiago Dezan/The Intercept Brasil
Partidos liberais de esquerda apenas obtiveram sucesso em outros países após convencer o eleitorado pobre, conservador e religioso de que as questões sociais que são exploradas de forma cínica por conservadores para conquistar seus votos – igualdade para LGBTs, direitos reprodutivos, criminalização de drogas – não são as questões que nega oportunidades e prosperidade a esse eleitorado. Muito pelo contrário, as políticas econômicas da direita e seu compromisso com as classes ricas são os verdadeiros responsáveis pelas carências da classe pobre. Partidos de esquerda não podem abrir mão de suas crenças fundamentais no aspecto social e negociar o direito à igualdade absoluto para todos os cidadãos em troca de vantagens políticas.
Mas persuadir eleitores a colocar estas questões em perspectiva e se concentrar em quem poderá atender às suas necessidades mais urgentes tem sido um pré-requisito para atrair eleitores, apesar de suas diferenças nestas questões sociais e religiosas. A esmagadora maioria das discussões travadas com eleitores de Crivella nos últimos dois meses não se focou em política econômica e de saúde, mas no sucesso de sua campanha de medo sobre drogas, prostituição, homossexualidade e aborto.
Talvez ainda mais vital seja o reconhecimento de que nenhum partido de esquerda “tem direito” ao voto de ninguém. A esquerda não tem “direito” de receber apoio dos pobres ou das minorias. É terrível – como às vezes se observa na esquerda depois de uma derrota – desprezar eleitores pobres ou trata-los como manipuláveis ou ignorantes se eles não votam da forma esperada pela esquerda. Essa mentalidade apenas exacerba a divisão e torna o sucesso ainda mais difícil.
Se um partido falha em atrair os eleitores que ele pensa que deveria atingir, parte da culpa pode ser atribuída a uma mídia injusta e parcial, ou a táticas sujas dos oponentes, ou a condições econômicas além do controle. A impopularidade do PT também foi uma barreira óbvia para PSOL. A recusa do PSOL em formar alianças com partidos corruptos, nobre do ponto de vista político, torna o sucesso eleitoral ainda mais difícil.
Mas um partido derrotado deve aceitar sua parcela de culpa e responsabilidade. Sua tarefa é convencer os eleitores mais marginalizados de que o partido está comprometido com a melhoria de suas vidas e é capaz de fazê-lo, e, caso não seja bem-sucedido, a culpa é primeiramente do próprio partido. Apenas a admissão honesta dessa responsabilidade pode estimular a busca por soluções na comunicação, estratégia e recrutamento de militantes.
Há muitas razões pelas quais os apoiadores do PSOL deveriam estar otimistas em relação ao futuro de seu movimento. O partido evitou os escândalos de corrupção que engoliram quase todos os outros partidos. Tem liderado a luta por ética no governo: junto com a Rede, iniciou e dirigiu o processo para remover Eduardo Cunha da Câmara, além de liderar a luta para bloquear a anistia ao Caixa Dois que Michel Temer e Rodrigo Maia tentaram inserir na lei. A paixão de seus jovens apoiadores, e a maneira com que recebem e empoderam a diversidade na população brasileira, são inspiradoras. A postura intransigente e de princípios de seus candidatos, embora muitas vezes dificulte o sucesso eleitoral, é um oásis raro e importante num cenário sujo de cinismo e oportunismo político.
Mas o partido, e portanto a esquerda brasileira, ainda precisa encontrar uma maneira de contornar seus sérios obstáculos sistêmicos. Enquanto a extrema-direita rapidamente se consolida no poder no Brasil pós-impeachment, alcançar isso – encontrar uma maneira de se comunicar e de persuadir os eleitores que deveriam ser seus mais ferrenhos apoiadores – é essencial não só para o PSOL, mas para o Brasil e para a esquerda internacional.
Obrigado Glenn por chamar Temer de “quase escravo do governo dos Estados Unidos.”
Sou um Brasileiro naturalizado mas nasci nos EUA. Cheguei aqui em 2014 antes da Copa do Mundo. Em menos de três anos, Brasil tem se transformado de uma potência política global para um ‘quase escravo.’
Isto tem sido um pesadelo. E agora sob Trump, o pesadelo será transformado em uma piada. Temer já enterrou o Brasil sob Trump.
A melhor opção agora é novas eleições presidenciais com Dilma contra qualquer candidato dos outros partidos. Temer, Aecio, Marina, etc. Dilma nunca perdeu. Nunca. Acredito que minha querida vai ganhar pela terceira vez.
Dilma pode restaurar nossa energia diplomática Brasileira e unificar América Latina com Cristina. Argentina agora também é um ‘quase escravo do governo dos Estados Unidos’ sob Macri. Novas eleições em Brasil e Argentina.
Dilma + Cristina contra Temer e Macri. Essa é minha esperança.
http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/265087/Greenwald-“Brasil-está-submisso-aos-americanos”.htm
A Nova Esquerda
Presidenta Dilma Rousseff + Vice Marcelo Freixo
Uma chance para unificar Brasil. Marcelo Freixo perdeu a cidade do Rio, mas ele ganhou o coração do Brasil! Sua campanha trouxe inspiração contra essa nova onda de neoliberalismo negativo.
Obviamente, Dilma vai precisar de um novo Vice nas novas eleições. Se ele desejar, Temer pode juntar-se com Aécio. Se Temer pode ganhar eleições nacionais, eu vou parar de chamar ele um golpista e chamar ele de Presidente.
Exceto suas boas relações com a Rússia, eu não gosto quase nada de Donald Trump. No entanto, The Donald ganhou eleições, mas The Temer ganhou nada.
Os conservadores não ganharam a Presidência Brasileira no Século XXI! Eles roubaram a Presidência Brasileira. O mundo tem pouco respeito para The Temer. Com The Temer em frente sem eleições, o Brasil está perdido no vagão da história.
Concordo inteiramente com sua análise. Líderes têm sustentado a esquerda no Brasil e quando faltam a derrota é automática. Brizola tinha enorme liderança; faleceu e seu partido acabou. Lula sustenta enorme lideranca mas nesse momento, sob fortissimo ataque, não pôde salvar o PT nas eleições. Sem dúvida as esquerdas, como destacado em seu artigo, precisam conhecer sistemicamente o eleitorado para não depender de líderes que têm esse conhecimento nato porém pessoal, instintivo e intransferível.
Riquíssimo e instigante seu texto. Tenho discutido muito essa dificuldade do pensamento de esquerda (que chamo de uma mistura de teorias sociais), de se reconstituir e produzir narrativas mais consistentes sobre a formação e desenvolvimento da sociedade brasileira. Ainda mais agora: com ocupações de escolas de ensino médio e de ensino superior por uma juventude poderosa com desejos imensos de entender tudo e de AVANÇARAVANÇARAVANÇAR… Tanta energia, entrega, esperança… Mas divididos entre diferentes gurus de suas organizacinhas! Suas formações políticas viciadas com leituras “clássicas”, eurocêntricas, de outro tempo (onde e quando, por sinal, foram demais úteis, mas aqui e agora não dão conta). Compartilho sua inquietações e incertezas, também não sei como, por onde, caminhar. Mas tenho certeza de que é preciso criar novos caminhos. A questão racial, sem dúvida, para mim é um dos “mistérios” que assolam a “teoria social” no Brasil. Como não vêm que comandos partidários, “teóricos”, personalidades políticas-institucionais, além de classe média, são, quase-tod@s brancos, e que isso também é complicado de explicar e sequer admitir discutir? Obrigado por essas reflexões e AXÉ por aí, Glenn Greenwald!!!
Muito bem sintetizada a situação política atual do Brasil. Faltam soluções: perder para um poste, vazio, como o Crivella, é dose.
Interessante como o Brasil é conduzido por poucos. Entenda como a mídia acionou a chave conservadora do país:
http://novoexilio.blogspot.com.br/2016/11/o-gol-da-alemanha-e-revanche-dos-vira.html
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Olha, até tentei ler seu texto mas parei no 2º parágrafo qdo vc faz um elogio ao tal Freixo …putz…me deu ânsia de vômito…. antes de ser censurado, quero dizer q concordo com vc qdo se refere ao Lobo Crivella….sim..os predicativos mais adequados q dei para os candidatos do Rio foram: O Lobo x O Lixo… O lobo pertence a uma Igreja cujo o dono é o maior e mais nefasto Lobo de todos, tenho até medo de olhar pra cara dessa figura….o Lixo é o tal q defende bandidos, e tudo de repulsivo q o tal marxismo promove….e o tal Jean Willis q vc citou….hummm …sem palavras pra descrever esse ser tão asqueroso… Bom, mas quero dizer q nos US, sou Hillary…sim, sou mais Hillarry…pq??? Pq não consigo comparar a esquerda americana, q tem seus defeitos sim, com essa imundice moral e bandida da esquerda latino americana …só pelo fato da esquerda americana não ser corrupta e não adorar bandidos assassinos como Fidel e Che Guevara, e não querer transformar o país numa Venezuela, pra mim, já me diz tudo. E pra finalizar, o Lobo Crivela é horrível, mas o Lixo Freixo é muuito pior.
caramba, tratar a Clinton como “esquerda americana não corrupta” é dose…
sugiro um pouco mais de leitura pro andré, especialmente uma apresentação ao Bernie Sanders ou mesmo aos partidos independentes dos EUA.
Muito interessante a leitura da transição política, sob a qual vivemos!
Congratulation for you.
Intelligence bright, little natives understand.
I thank you
“Aqueles com os menores níveis de renda e de escolaridade rejeitaram fortemente o PSOL ” é uma afirmação bastante categórica, porém não corresponde à realidade, simplesmente porque 40% da população não vive tal qual. Fica aqui a minha contribuição para o debate: http://www.esquerdadiario.com.br/1milhao-de-votos-da-Zona-Sul-Ou-escondem-a-forca-que-pode-lutar-contra-Temer
Pobre de direita tem que tomar na cabeça. Só assim aprende.
Pode ser. Mas, se você quer ganhar eleição majoritária no Brasil, bem, acho que o voto dos mais pobres é importante. E, em questões morais, a maior parte é de direita. Digo isso sem fazer juízo de valor.
Pela sua afirmação, você é a massa que está bem descrita no texto como o que afasta as classes alvo da esquerda da própria esquerda. Parabéns.
Ótima exercício de crítica sobre o futuro da esquerda.
Lamento que o texto tenha sido plagiado por Maria Fernanda Arruda, que o publicou em seu Facebook como se fosse de sua autoria. E ainda inseriu trechos que empobreceram e descontextualizaram a análise.
O plágio também foi reproduzido pelo blog O Cafezinho, certamente de forma inadvertida.
Parabéns pela versão brasileira do Intercept.
Meu caro Greenwald!
Seu artigo – veja que não digo análise – é interessante, mesmo com suas lacunas e simplificações. A maior falha – na minha visão desde a distante Joinville – é partir de um diagnóstico e listar argumentos para validá-lo.
Nas lacunas, duas chamam a atenção: a não percepção das especificidades de eleições majoritárias em seus vários níveis e mais que isto, as intercorrências da eleição do prefeito juntamente com a eleição dos vereadores; e a outra, o silêncio sobre o discurso do candidato e a imagem que o candidato passou com o discurso/postura.
Quanto ao(s) diagnóstico(s) parece-me que se confundem sintomas com causas. Quando o PT empolgou amplos setores da sociedade do campo e da cidade, dos marginalizados até capas significativas da classe média, ele expressava um projeto de mudança. Sua força estava na sua sintonia com os anseios daqueles amplos setores, sem demérito algum ao perfil de sua principal liderança.
Este projeto de mudança foi abandonado antes do Lula tomar posse, com a “carta aos banqueiros” e independente dos argumentos que queiram justificar o novo rumo tomado, suas consequências ao processo social foram altamente deletérias.
Some-se a esta ampla desagregação um quadro de crise estrutural profunda e teremos a dimensão do desafio que se apresenta para sua superação. É a resposta a esta complexidade de fatores, através de um projeto político, que permitirá disputar a adesão de amplos setores da sociedade, muito mais do que táticas, perfis de lideranças e mágicas de marqueteiros.
Certamente o primeiro passo será a organização de uma ampla frente dos setores progressistas para resistir ao projeto golpista que está sendo implementado.
Perfeito!
O Primeiro Passo
O Primeiro Passo poderia ser novas eleições presidenciais.
Você quer resistir ao projeto de golpistas, mas eu quero resistir aos golpistas. Sem golpistas, sem projetos de golpistas.
Se PMDB e Temer querem Poder Presidencial, eles podem ganhar o Poder Presidencial com votos do povo, não com um grupo do politicos que está 50%+ sob investigação em uma sistema presidencial. Dilma de PT ganhou com 54 milhões de votos. PMDB e Temer (e os homens brancos) não ganharam a Presidência.
Todos os partidos podem participar com duas turmas, como sempre. Se o povo quer um governo parlamentarista, o povo pode ter um novo plebiscito e escolher o parlamentarismo também.
Há muito tempo não lia um artigo tão bom. Mesmo que tivesse mil páginas, eu teria lido todas. Aplausos!
Chamar o PSOL de Luciana Genro – tiete de Moro e da lava jato – de “esquerda” é realmente surreal de sua parte.
Prezado Glenn,
Confesso que não sou um leitor regular deste site. Tenho divergências com algumas das bandeiras que ele defende, embora respeite seu esforço e nobreza ao defendê-las. Por isso, pode ignorar meu comentário, caso você venha a lê-lo.
Meu ponto é bem simples. Não sei qual a real preocupação do PSOL com o sucesso eleitoral. No Brasil, há partidos que existem para tentar ganhar eleições majoritárias. Há outros, porém, que existem apenas para eleger alguns representantes em eleições proporcionais e, com isso, defender certas bandeiras, a despeito de elas serem impopulares em termos de opinião pública nacional.
O PSOL me parece o 2o caso. E acho isso totalmente válido. Porém, assumindo por um momento que ele queira disputar (e ganhar) eleições majoritárias, acho que ele precisa mudar bastante de estratégia. Talvez isso pareça um absurdo para você, mas acredito que o PSOL, se quer ganhar eleições majoritárias, deve diminuir (e muito) a ênfase na defesa de liberdades de costumes e comportamento (o que eu chamaria de defesa do “laissez faire moral”) e investir na defesa real dos pobres e trabalhadores. A meu ver, causas como os “direitos LGBT”, “direitos reprodutivos”, legalização das drogas, etc., não apenas têm impacto muito limitado na vida dos brasileiros mais socialmente vulneráveis, como também são causas que os afastam. Falando de modo grosseiro: o pobre, no Brasil, não apenas não está preocupado com os “direitos dos transgêneros”, como acha isso — corretamente ou não — meio absurdo. Na visão do brasileiro pobre mediano, isso é discurso de rico. Sei que, para muitas pessoas, a defesa dessas bandeiras é fundamental e, portanto, o PSOL deve fazê-las. Mas, veja: não estou dizendo que o partido deve fazer uma “Marcha pela Família Tradicional” ou nada parecido. Não estou dizendo que o PSOL deva negar suas bandeiras. Apenas que ele deveria retirar a ênfase delas e buscar se aproximar do brasileiro pobre REAL — que, embora moralmente conservador, quer políticas sociais, quer saúde, educação, etc.
Lamento dizer isso, mas é exatamente este o ponto. As vezes para alcançar o poder devemos nos expor menos. A sociedade precisa de doses homeopáticas de cidadania e direitos humanos.
O Brasil ainda é um país Ultra-conservador que só deverá aprender sobre este temas após a chegada ao poder e não durante a campanha.
Excelente análise.
Análise muito pertinente. A esquerda precisa se ressignificar . O trabalho de base realizado pelo PT durante décadas precisa ser ouvido por aqueles/as da “nova” esquerda que vem se empenhando com os/as direita em demonizá-lo.
As forças neoliberais que estão atacando a Esquerda Latina e Caribe têm a mesma fonte. América Latina e Caribe também sofrem do mesmo machismo que está conectado a violência de gênero e criminalização do aborto.
Helen entende esse espaço-oportunidade porque seu artigo+video ‘Ni una menos’ que conecta o espírito latino, o qual supera as eleições. Brasileiras perderam sua presidenta e têm 25 de 26 dos estados e capitais sem mulher no Executivo.
Os lideres latinos neoliberais estão tentando destruir Mercosul. Mercosul é o melhor exemplo da aliança esquerdista da América do Sul e Noam Chomsky disse que o melhor exemplo mundial de sucesso na última década contra o neoliberalismo. Por que nós não continuaríamos por este caminho?
Se as nações da América Latina tentam lutar entre essas forças neoliberais e machistas separadamente, provavelmente perder?o mais e mais. Proponho uma moeda, plano econômico, e plano segurança pública para CELAC (America Latina + Caribe) que pode substituir Mercosul mas mantém sua sede em Montevideo. CELAC funcionaria como União Européia, mas sem apoio dos três países mais importantes do Mercosul, esse plano não tem nenhuma chance. Por isso, proponho:
Eleições Presidenciais: Brasil, Argentina, Venezuela
os neoliberais latinos contra as mulheres socialistas
Temer, Macri, Capriles contra Dilma, Cristina, Delcy
Já disse Joãozinho Trinta: “O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”
Concordo com ele quando diz que a derrota de Freixo evidencia o desafio da esquerda ( de toda a esquerda ) não somente aqui, mas no mundo todo e sem culpa específica de qualquer partido, como aqui tentam colar a culpa de qualquer coisa única e exclusivamente ao PT. Discordo quando diz que Freixo e a esquerda teve uma tremenda vitória no primeiro turno no Rio, pois o número total de votos e o percentual do eleitorado alcançado no primeiro turno desta eleição, foi menor que na eleição de 2012 onde Freixo obteve 28,15% dos votos válidos (914.082 eleitores), na deste ano 18,15% dos votos válidos (553.424 eleitores)
Seu marido <3
Ótimo texto, concordo uns 88% aí :)
Glenn, aquilo que você considera as “qualidades” do PSOL, são justamente o que o impede de crescer: ninguém aprecia donos da verdade… Fazer alianças não é ser corrupto. Você é muito capaz e inteligente, mas não conhece o Brasil. Não é capaz de avaliar o peso de mais de 350 anos de escravidão, entre outras coisas.
Não há muito o que acrescentar depois dessa brilhante e completa análise da situação da esquerda no Brasil.
Só gostaria de dizer que moro na zona oeste do Rio, e aqui a tarefa do PSOL para penetrar nessa região será hercúlea. Aqui, partidos como o PMDB transformam os bairros em feudos, cada um com seu quinhão, e ainda repassam um pouco, em suseranato, para os partidos menores explorarem em troca de apoio e coligação.
Além disso, como ficou claro, a região é tomada por igrejas evangélicas, e estas não se furtam a inclulcar no eleitor menos escolarizado boatos sobre as esquerdas, pois são todas conservadoras e reacionárias.
Não sei se tem mais jeito.
Gostei muito do seu texto Glenn, contudo persuadir ou convencer os eleitores talvez não seja o caminho. Eu não voto a mais de 20 anos. Ajudei na campanha de um amigo aqui em BH para vereador, O EdMarte, artista importante daqui, engajado em questões humanitárias e de gênero a muito tempo. Figura atuante e um grande amigo pessoal a mais de 20 anos. Infelizmente não foi eleito, contudo tivemos duas mulheres eleitas pelo PSOL, sendo que uma delas foi a vereadora mais votada do pleito. Áurea Carolina obteve 17.420 votos, uma grande surpresa pra todos envolvidos e um grande avanço pra política local como um todo. Talvez o papel do PSOL agora pra se aproximar dos eleitores pobres seja realmente ir de encontro a eles. Promover ações diretas nas favelas, vilas e periferias como as igrejas evangélicas fazem instalando suas igrejas por todos os cantos. Uma vez entre amigos brincamos: tem mais igreja nas favelas hoje do que botecos. E é isso que talvez esteja faltando pra esquerda: uma aproximação direta, efetiva e diária nos morros. Outra questão importante e que a esquerda tem o dever e o direito de propor é uma profunda reforma política, começando pela reforma no pleito eleitoral. Portanto, ninguém deve ser obrigado a votar em uma verdadeira democracia e muito menos ter que justificar seu ato pra quem quer que seja. O grande vencedor nas eleições esse ano não foi a direita foram os votos brancos e nulos e as abstenções. Eu me incluo nessa parcela. E não sou um alienado político ou um otário, imbecil que não quer saber de falar de política. Atuo, ocupo, escrevo e estou em qualquer diálogo ou disussão sobre politica, seja partidária ou não. E como eu existem muitos que conheço e que se identificam com a ideia de precisamos de um novo modelo político. O sistema partidário faliu como um todo. Isso inclui todos os partidos de esquerda ou direita. O recado foi dado nas urnas. Nulos, brancos e abstenções venceram a maioria dos candidatos no primeiro e segundo turno em todo o Brasil. Precisamos entender isso e procurar uma mudança e ela certamente começará por uma reforma política séria. Grande abraço e muito obrigado por tudo que tem feito pelos brasileiros. Vc é um grande brasileiro. Admiração.
Que texto!
Não é por acaso que está sendo atacado pelos setores mais conservadores do país, e com essa postura será também atacado pelos setores mais sectários da esquerda purista.
Glenn, só posso dizer que é um privilégio ter alguém como você produzindo em nosso país e contribuindo para melhorá-lo. Muito obrigado!
Toda solidariedade e toda força para continuar nessa batalha por um mundo livre e democrático.
Acho esta análise numérica dos votos mais próxima da realidade. A reportagem de O globo é um pouco tendenciosa ao fazer um corte linear de porcentagem de votos.
http://www.esquerdadiario.com.br/1milhao-de-votos-da-Zona-Sul-Ou-escondem-a-forca-que-pode-lutar-contra-Temer
Caro Glenn,
bem alertado, é sintomático. A humanidade ainda patina (slide) em superar o paradigma tribalista (clãs) onde a “comunidade” é gerida pelo “pai” e não conseguem superar suas proprias limitações de auto-governarem. Os “pobres” precisam de llideres e os lideres se embriagam com este poder.
Escrevi a respeito no link:
http://freituk.blogspot.com.br/2016/04/clas-selvagens.html
Acabou com o “tiquinho” de credibilidade que o TIn poderia gozar perante alguns extratos sociais que consomem informação. Admitir ser casado com alguem ligado à esquerda era só o que precisavam para deslegitimar o TIn.
O artigo trata também de honestidade política. Seria incongruente ele esconder informação.
Você não sabia? Sempre esteve em todos os jornais desde que o furor sobre o Edward Snowden aconteceu. Quando vi que David Miranda foi eleito, até sorri. É muito melhor deixar claro qualquer conflito de interesse. Isso se chama transparência. Melhor ainda Glenn ter escrito um artigo desse, do que conversar sobre isso privadamente no quarto do novo vereador eleito.
Sugiro não usar o termo “liberal” para designar esquerda. É como se faz nos EUA, mas, no Brasil, liberal refere-se tradicionalmente a liberal econômico.
Ao publicar uma reportagem deve – se manter neutro, evangélico extremista não, ao contrário do psol , não e capaz de xingar e nem denegrir as pessoas pelo poder, o PSOL rege um movimento de agressão como seu candidato foi anti democrático e mal educado, parece criança mimada, quando resolverem entender que povo gosta de ser tratado com igualdade, pode ser que consiga mudar o pensamento dos pobres e favelados como fomos chamados por militantes que não sabem perder, e a pergunta, ganhar pra quê? Governar o próprio umbigo!!! Egoísmo leva ao fracasso!!!
A “postura intransigente e de princípios de seus candidatos” nada mais é que prova da indiferença narcisista dos candidatos do PSOL frente à fome e à morte e explica o porquê de ter sido o PT quem salvou milhões da extrema pobreza e não o PSOL. Nunca será o PSOL enquanto este estiver se admirando no espelho.
Ótima análise Glenn. Seu foco é o partido PSOL e a eleição municipal do Rio de Janeiro. Contudo entendo que o PSOL está longe de representar “A Esquerda”, mas sim uma fração dela. E de acordo com um colega seu blogueiro, Eduardo Guimarães, o maior problema da esquerda do Brasil é sua desunião.
A postura psolista, de campeões da ideologia e purista nas alianças com partidos, não é novidade para quem tem mais de 30 anos de idade, pois era a mesma postura do PT em seus primeiros 20 anos de existência, quando perdeu com Lula três eleições seguidas para presidente. A vitória somente foi possível precisamente quando o PT mudou de postura e passou a dialogar com esses partidos centristas, cheios de oligarcas corruptos.
O PSOL nasceu precisamente a partir de setores mais radicais do PT, dissidentes dessas alianças impuras. Neste momento é fácil apontar os erros do PT, como se misturar com essa gentalha em troca de cargos e ter alguns de seus políticos filiados envolvidos em casos de corrupção.
Ocorre que qualquer partido que cresça o bastante para vencer eleições majoritárias chamará a atenção de políticos corruptos, que buscarão se afiliar. E sem tais alianças o PT jamais teria chegado ao poder, tanto que no ano que venceu pela primeira vez, a população estava furiosa com o PSDB e determinada a não votar em Serra, mas relutou bastante em aceitar Lula como alternativa. Serra ainda teve que destruir as campanhas de dois adversários, Roseana Sarney (DEM) e Ciro Gomes (PPS) e Lula ainda teve que publicar uma “Carta aos brasileiros”, na qual anunciava o novo projeto do PT, como esquerda mais moderada, para finalmente vencer.
O grande erro do PT foi se acomodar no poder, não levando adiante projetos como a lei de democratização das mídias, quando Lula batia recordes de popularidade e a bancada do PT e de aliados mais leais era maior no Congresso.
E se voltarmos a junho de 2013, quando até então a aprovação de Dilma era de mais de 60%, veremos que sua derrocada começou por atos da própria esquerda psolista e outros mais radicais, como PSTU e PCO. Manifestações contrárias ao aumento do preço de passagens de ônibus ganharam multidões, passando a impressão que as coisas não iam bem no país. Em três semanas a popularidade da presidenta caiu de 60 para 30%. A direita, até então adormecida, viu aí uma janela se abrir para retomar seus discursos virulentos e se infiltrar nessas manifestações.
A seguir tivemos o movimento Não Vai Ter Copa, encabeçado pelo mesmo PSOL que não via diferença entre PT, PMDB e PSDB. Bem, os tucanos também não viam os petistas como seus iguais e trataram de recrudescer seu discurso hipócrita de que o PT inventou a corrupção.
Antes de 2013 eu conseguia observar sete possíveis posturas na política: extrema direita, direita, centro-direita, centro, centro-esquerda, esquerda e extrema esquerda. Este ano se resumiu aos dois pólos extremos: ou se era coxinha ou se era mortadela.
Importante atentar aos números de abstenções, nulos e brancos. Esses números manifestam a falha no sistema democrático representativo.
Martelados todos os dias de que políticos não prestam e empiricamente que o Estado não entrega saúde, educação, transporte dignos, o povo não vê, cada vez mais, motivos para sair de casa, já que nem o conceito de cidadão eles sabem, pois são desapropriados do mesmo a cada batida policial.
Entramos em uma lógica perversa que sem mobilização de base a alienação se tornara cada vez maior, como dito, será a disputa da extrema direita ao poder. Ou a esquerda continua em seu projeto de poder falido, que é a conquista do Estado (pacto de classe, morde e assopra) e conquista dos espaços de micropoderes, ou abandona-o e busca uma outra via, a de mobilização das massas, com sindicatos dos trabalhadores com propostas reais de mudança na qualidade de vida e não só aumento salarial. A busca dessa retomada da unidade e consciência de classe deve ser o objetivo primeiro da esquerda, pois ao meu ver, estamos todos perdidos, sem direção (vide Bolsonaro).
Há outros comentários aqui mesmo e em outros blogs que vão na mesma direção: o PSOL entra no antipetismo por achar que vai crescer em cima disto. Além de ser letal para um projeto de esquerda não creio ser muito ético.
Achei muito boa a sua análise, ela e a de Rogério Bitencourt da Silva no GGN se complementam .
Excelente análise. A verdade é que os mais pobres sempre votaram
com a direita. Dai a célebre frase do Tim Maia de que o Brasil é o único país do mundo onde “cafetão se apaixona, puta goza, traficante é viciado e pobre é de direita.” O discurso das esquerdas – e sobretudo do PSOL – não têm penetração nas camadas mais populares. A “nova esquerda” precisa, por exemplo, aprender a lidar com o fenômeno religioso.
O PT, como projeto político, foi a arma mais eficiente que criamos para desafiar o poder de nossas oligarquias. Esse é um fato que a esquerda brasileira parece ainda não ter percebido em todo seu alcance.
Estamos em meio de uma guerra mas a esquerda continua a olhar para o lado e pior diante dos maus resultados eleitorais começa a se autoflagelar.
As oligarquias, e a direita, que nada mais é do que seu instrumento político, respiram aliviadas, salvas no último momento por um lance de ousadia e risco (o golpe). Atentas aos ensinamentos do realismo político entenderam que “as necessidades podem ser muitas, mas a mais forte é aquela que te obriga a vencer ou morrer”.
Será que finalmente aprenderemos?
Parabéns, Glenn. É muito instigante para mim, membro da Direção Nacional do Partido, receber avaliação tão bem articulada e elaborada por parte de um jornalista da sua expressão internacional. Você mostra um conhecimento profundo do Rio de Janeiro e, embora com alguns eixos referenciais de análise distintos dos seus, vou considerar muitos aspectos outros, para os quais você me despertou a atenção. Grato, e Luta que Segue!!
Saber avaliar análises é sempre útil…
Uma interessante análise,visto que você é um estrangeiro.Muito boa. Não consigo imaginar sem uma união das esquerdas. A esquerda errou principalmente o PT quando uniu-se a partidos que eram duramente criticados(com razão). Mas como aceitar essas alianças para governar? Essa sempre foi minha pergunta , e as respostas não me convenceram. Temos o resultado disso com este golpe. Agora é reconhecer os erros e partir para a luta.com uma união.Se fizermos isso acredito na volta da esquerda no poder. O PSOL talvez seja o protagonista,mas para isso terá que ser humilde em relação aos outros partidos de esquerda. Sempre é bom lembrar que existe pessoas certas e erradas em qualquer lugar.
Não há saída à esquerda dentro do sistema político brasileiro, dentro do sistema capitalista, esse campo de batalha não é o da esquerda. Essa “democracia representativa” tem sido o travamento da esquerda. Não basta tentar se aproximar de uma comunidade, da periferia, do povo pobre enxergando neles “um eleitorado”, isso é cair no mesmo erro que a esquerda já caiu. Aliás, será correto chamar esses partidos de “esquerda”? Uma esquerda que se foca em eleições está fadada a se transformar em direita. Uma alternativa que tem se mostrado principalmente a partir de 2013 é a política autônoma, autogestionada, de força e emancipação popular, não de empoderamento, porque isso é apenas mais do mesmo dentro do sistema social que temos hoje. Esse bandeirantismo hipster tem ocupado todos os espaços, sejam geográficos, sejam políticos, a esquerda está em outros “lugares”, cada vez menos se encontra ela nos partidos.
Ao contrário da análise vivemos um tempo em que o pobre se identifica muito com candidatos da classe alta e é fácil isso acontecer, pois a figura de grande empresário pode ser facilmente confundida com a de um bom político, o que pode ser ajudado devido que além das prefeituras, a direita levou também grande porção das cadeiras de vereadores. Não tem como negarmos o dia que o PT estivesse envolvido com corrupção ele iria ser comido pelo monstro que ele fazia cafuné, o mercado. Com grande apoio da mídia, pois sejamos francos, nós que acompanhamos esse como outros sites progressistas somos minorias da população que as TVs como a rede Globo entre outras invadem com maior facilidade as casas das pessoas, pois devido a oportunidade que temos no mundo digital podemos muito bem seguir sites progressistas, mas e quem não tem ou não sabe desses sites, ou que sabe mas utiliza a internet com outra finalidade, a grande mídia impera em seus televisores, fácil obter o que eles querem não acham?
É bem simples. A população brasileira é cristã, é conservadora, é trabalhadora, é capitalista. O PSOL nunca vai conseguir mudar isso. Um ideologia baseada na mentira precisa de infinitas novas mentiras para se sustentar. A verdade fala por si só. O próximo confronto na sociedade brasileira será entre conservadores e liberais. A esquerda, toda ela, será nada mais que um PCO, um PSTU, um PC do B: irrelevantes.
Sei lá. Historicamente, nas situações de poder, o pobre não se identifica com um igual. Em qualquer lugar do mundo. Na hora de votar, o pobre não atua por representação, e sim por projeção de identidade. Ele precisa de um candidato que se acredita melhor do que ele como promessa de sucesso, uma espécie de espelho do futuro. Um igual não poderia ajudar por estar condenado às mesmas limitações. A percepção do tempo político eleitoral nunca está no presente. E o futuro, para o pobre, ou pode ser representado por uma pessoa bem sucedida ou por alguém que pregue a vinda de um messias. Ninguém no Brasil jamais poderá concorrer com as igrejas evangélicas, que elegeram, nas camadas populares, Collor contra Lula, Fernando Henrique contra Lula e Lula contra Serra. Eles desconhecem alianças políticas, a opção será eleita pela igreja. Lula jamais dialogou com os pobres de forma eficiente até se eleger. O PT, a despeito da militância proletária, sempre foi o partido de algumas elites intelectuais. Precisou da igreja evangélica para se eleger entre os pobres, e depois dialogou com eles a partir de resultados práticos. O ponto é que o pobre é a última parcela a ser atraída por um partido e isso acontece sempre indiretamente. Primeiro, é preciso atrair a elite econômica, que não é, necessariamente, a elite intelectual e que, ao contrario do pobre, atua por identificação. Assim como fizeram Collor, Fernando Henrique e Lula, nos anos em que se elegeram, uns com mais, outros com menos esforço. Uma vez que a elite econômica determina o seu candidato, a classe média, grande responsável por qualquer eleição, terá o mesmo candidato. A classe média, assim como a pobre, também atua por projeção. E como é uma classe intermediária, de conexão, encarrega-se de difundir e definir o candidato eleito entre os pobres. O modelo nunca foi diferente. Nem mesmo para Crivella, que se uniu à elite carioca, arrastou a classe média onde temas como aborto e drogas são tabus e contou com o apoio da igreja. A grande e devastadora diferença é que, desta vez a igreja apoiou um candidato-membro para a ocupação de um cargo relevante, e não mais o candidato de coligações. A igreja, que já era poderosa, provou que também tem o poder de eleger os seus. E deve apoiar cada vez menos candidatos não religiosos, conforme for ganhando representatividade. Não depende do pobre. Depende da igreja e da elite econômica. E a única maneira de o PSOL ampliar a sua base é trilhando o mesmo caminho que o PT trilhou. E aí a historia, de final conhecido, recomeça.
Eu acredito que a direita e o extremismo consigam conquistar a massa por simples motivos: discursos simplificados, reducionistas, maniqueístas, fáceis de assimilar… A esquerda é complexa, diversificada, aprofunda e problematiza… Por isso é próxima dos intelectuais e universitários. A direita “simplifica” o mundo para o povão, a esquerda “complica”.
Prezado Glenn, sua análise é muito inspiradora. Concordo com quase tudo. Porém, no sistema político brasileiro há variáveis perversas que distorcem completamente a vontade popular. Por exemplo, há fortíssima incidência discricionária da mídia e do judiciário na política. A criminalização das esquerdas e, especialmente do PT, não são necessariamente resultado da vontade espontânea do eleitor. A avaliação do partido, em boa medida, foi fruto das informações eivadas de vícios produzidas pela mídia oligopolizada e pelas ações nada republicanas de parcela do judiciário (da Casa Grande). A campanha milimetricamente orquestrada para criminalizar a política e desmoralizar as esquerdas, como você pode observar nas várias narrativas do processo de impeachment, produz imensa assimetria no processo político e no jogo democrático. Portanto, sem uma profunda reforma do sistema político e eleitoral não é possível competir em parâmetros minimamente equilibrados nas eleições.
Em 1989 Collor foi eleito pelos pobres contra Lula. Voltamos aquele tempo. Falta totalmente liderança, tanto que o grande vencedor é um picolé de xuxu.
Boa análise Glenn. Realmente a questão da ampliação da base de apoio é a questão mais importante para um partido como o PSOL, assim como foi no caso do PT. O problema é como promover uma ampliação da base política, sem incorrer em alianças que comprometam os princípios mais importantes do partido. Mesmo que conseguíssemos o milagre de fazer uma grande frente de esquerda, ainda sim, pelo menos por enquanto, ela não seria suficiente para garantir governabilidade na maioria esmagadora das cidades e estados (sem mencionar a União).
Espere: “talentoso prefeito do PT”, é piada né?
Em 4 anos o pilantra só criou radar de velocidade, ciclovia (muitas sem a menor segurança) e…. o resto? E as escolas Municipais? E o plano de ensino do qual ele falou? E a geração de empregos? E as creches e UBS????
O que o asno fez? Roubou bastante e pagou de “socialista educado e evoluído”…aham… senta lá Claudia…
O povo está de saco cheio de pilantra metido a esquerdinha socialista evoluido.
O Crivela, no RJ, foi o menor dos males.
O Doria, em SP, é o menor dos males… o cinturão vermelho dos Petralhas (ABC Paulista) foi destruído.
Culpa dos próprios “socialistas” que quando chegam no poder só fazem M.
Tenho asco de Socialistas/Comunistas e metidos a evoluidos que nunca tiveram que pagar pelas M que fizeram.
Desemprego, fome e despejo nunca foi um problema para estes “socialistas” e ainda assim, são hipócritas o suficiente para se julgar superiores e dignos de decidir o futuro de um povo, seja na prefeitura, no governo estadual ou no federal.
Só queria que acabassem com o Fundo partidário, aí gostaria de ver até onde esse “socialismo de sofá” iria adiante.
Excelente análise! Ajudou-me a pensar, e é isto que estou buscando nas coisas que leio.
Hoje eu li + ou – isso em algum lugar, não me lembro onde: a esquerda tem de parar de olhar para trás e olhar para a frente, se juntar em nome das convergências, fazer uma frente. É isso ou entregar de vez o país pra direita radical sem a menor de reação.
Mas o que a gente viu? Aqui na minha cidade, o Recife, o PT foi pro 2º turno com um excelente candidato, João Paulo, que foi prefeito de 2001 a 2008, tendo sido reeleito em 1º turno, feito sucessor também no 1º turno e deixado a prefeitura com alta popularidade. Ele perdeu para o rolo compressor do PSB local, feudo de Eduardo Campos. E pro anti-petismo de que o PSOL se imagina beneficiário. Como agiu o PSOL no Recife? Pregou voto nulo porque, na prática, o PSOL tem no PT, e não na direita, seu maior inimigo.
Aí, no Rio, teve um monte de gente do PT, como “Stanley Burburinho”, que votou nulo porque o PSOL (1) apoiou as “jornadas de junho” de 2013, (2) estava pregando voto nulo em diversas cidades em que o PT disputava o 2º turno e (3) recusou o apoio de Lula e a denúncia do golpe na campanha de Freixo . Mas e daí? A meu ver, o PSOL estava errado – erradíssimo! – nesses 3 casos. Mas se eu fosse carioca, teria votado em Freixo. Que sentido faz praticar o mesmo erro de que acuso os psolistas , ajudando a eleger Crivella, o mal maior? Onde está a grandeza, que Jandira Feghali teve, de apoiar a candidatura de esquerda sem pedir nada em troca?
Quanto ao artigo de Greenwald, creio que padece de certa tendenciosidade psolista, como se o PSOL fosse “A” esquerda brasileira. Menos, GG, bem menos mesmo. Pra esquerda, dentro e fora dos partidos, a única saída agora é se unir numa frente. A alternativa é anulação total.
ana s.
boa.
é isso aí: ficarmos juntos, como diria o personagem de Russel Crowe em ‘O Gladiador’. falange compacta.
dispersos seremos, um de cada vez, alvo fácil.
diferenças a gente acerta depois.
primeiro há um adversário terrível a ser enfrentado.
Excelente análise.
Prevejo, contudo, hostilidade de grande parte das fileiras do PSOL, avessa a críticas e à necessidade de se repensar.
No dia seguinte ao primeiro turno escrevi um artigo no meu blog no GGN (http://jornalggn.com.br/blogs/romulus) com críticas na mesma linha:
“PSOL em crise de identidade – na pior hora!, por Romulus”
Link:
http://jornalggn.com.br/blog/romulus/psol-em-crise-de-identidade-%E2%80%93-na-pior-hora-por-romulus
Ok… o texto é bastante mordaz. Culpa minha. É meu jeito…
Mas foi DE LONGE o artigo que mais dor de cabeça me deu de todos que já publiquei no meu blog. E olha que lá já critiquei, com a mesma acidez, FHC, Dilma, PSDB, PMDB, PT, Lava a Jato, Ministros do STF, PGR, etc.
Vou publicar um artigo de follow up. Vamos ver se a derrota por 20 pontos para alguém que carregava a marca da IURD na testa vai tornar algumas pessoas mais propensas a ouvir.
Morava Esperança (semente transformadora) que o pt conseguiu fazer desaparecer.
As primeiras manifestações contra o pt foram ações da direita?
Não, esquerda
Quem defende (maioria) a Constituição diante do Novo Golpe?
Esquerda que questiona o pt
Hoje o MST não tem corpo e a UNE não tem cérebro. A culpa é da esquerda?
Não, falta de ação do pt
A realidade da esquerda europeia já é outra.
Esquecer o guarda-chuva, Brizola…
Max, vc esqueceu do aquecimento global, outra culpa do PT.
Criou uma bomba atômica e ofereceu aos piores.
Esquerda é uma visão de mundo, não é partido.
Concordo com a análise, Glenn. Mas, também vejo um quadro muito particular no Brasil. A Igreja Universal tem um projeto de poder político se fortalecendo a cada eleição. E especificamente no Rio, encontrou o terreno fértil para eleger o Crivella. Ódio ao PT – estendido para outros partidos de esquerda – , radicalismo em relação aos temas morais, crise econômica, Estado falido pós olimpíada, desânimo generalizado com a figura do político etc. Com discurso do “vamos cuidar de você”, o bispo da voz mansa com doutorado em persuasão dos mais vulneráveis, encontrou a maré totalmente favorável para lançar sua isca. É sempre nos momentos de maior fraqueza que esse tipo de liderança prospera. Encontrou desesperança e desespero, que são os elementos que melhor dialogam com a Universal. Acho que o PSOL até conseguiu um grande feito: ir para o segundo turno e endurecer a disputa, deixando o bispo bem incomodado com o Freixo. Mas, encarar todo o poder econômico, as alianças sujas, as milícias e ainda por cima o clima de ódio que estamos vivendo, ficou muito difícil. Acredito que o PSOL, o Freixo/Luciana fizeram um grande trabalho e vão ter nos próximos anos a chance de amadurecer e dialogar com boa parte das pessoas que não conseguiram alcançar dessa vez. Vamos torcer para que a sociedade amadureça e esse momento de radicalismo que obscurece a razão e o discernimento fiquem para trás.
Artigo muito interessante, para quem tem pouco mais de 60 anos, mesmo que haja alguns pontos para verificar com relação a história das esquerdas brasileiras. No comentário de Diogo também apareceu um aspecto a ser revisado: identidade, interesses e representação política, como se entrelaçam nas diferentes regiões do Brasil? Como as esquerdas encaram isso? Mas o artigo foi significativo para mim, neste momento, por acenar com esperanças de melhores reflexões e práticas políticas, obviamente, por parte das esquerdas. Marx escreveu uma página e meia sobre “luta de classes” n’O capital, essa noção popularizou-se, mas raramente entrou nas pautas estratégicas das esquerdas; foi ideologicamente desvalorizada (por esquerdas e direitas) e ficou, portanto, muito mal conhecida, mal pesquisada, jamais atualizada (posta em ato em espaço e tempo). Há poucos estudos “didáticos” (ou nenhum?) sobre como ela se reduplica nas ideologias dos partidos. Não é a única base de reflexão, mas é um dos caminhos para equacionar problemas que sempre retornam.
Parabéns Gleen pelo excelente artigo. Realmente, a luta de muitos do PSOL e os seus princípios são cativantes e empolgantes, mas concordo que é necessária uma auto-crítica para entender porque a população que seria a mais ajudada por Freixo não votou nele. Um mundo sem preconceitos, menos desigual e com menos violência é um sonho possível. E vamos continuar acreditando nesse sonho. Quem participou dessa campanha com o Freixo não vai desistir de um mundo mais justo!
Greenwald não sou sociólogo ou algo que o valha, porém, tenho o seguinte pensamento: As Igrejas Evangélicas estão para as classes C e D assim como a Globo está para as classes B e A. Ou seja, o brasileiro é manipulado dependendo de sua classe social. De outra parte, os não manipulados na sua imensa maioria votaram nulo, em branco ou se abstiveram. Se essa tendencia se concretizar e nada acontecer num curto espaço de tempo, teremos nós os não manipulados que ficar perdidos entre Deus e o Diabo.
O Brasil tem hoje duas novas classes de eleitores. Os manipulados pela Globo chamados vulgarmente de COXINHAS e agora os manipulados pela Record chamados de TROUXINHAS. Göebles deve estar se revirando no túmulo. Isso é um caso único na história da humanidade.
Embora concorde com várias análises deste artigo, vejo alguns aspectos de um outro ângulo. Não entendo o resultado da eleição como um grande fracasso do PSOL. Afinal foram mais de um milhão de votos. Considerando o momento pós impeachment, com uma campanha levada adiante por voluntários e o compromisso com uma postura ética, o resultado me parece um êxito espetacular.
Outra questão se trata da urgência na busca de formas para contornar obstáculos a que você se referiu. A direita manda no Brasil há mais de quinhentos anos, com brevíssimos intervalos durante governos de centro com alguma inclinação à esquerda. A extrema direita é um poder mais que consolidado. Sem dúvida, a esquerda precisa tentar ir além de suas zonas de conforto. Os eleitores precisam se informar mais e melhor. Mas as condições atuais são fruto de uma história e infelizmente isso não pode ser mudado em curto espaço de tempo. Algumas mudanças talvez dependam da vivência de experiências amargas. Especialmente o atual descrédito com a política, e consequentemente com a lei, pode nos custar caro. Um preço que possivelmente terá que ser pago.
Bem, se o Lula sempre tivesse tido esse apoio da classe pobre, ele teria sido eleito logo na primeira eleição. Não se perde eleição nenhuma nacional ou carioca com apoio da classe pobre. O que a gente poderia analisar é a clara ascensão do PSOL carioca entre 2012 e 2016. Olha quantas zonas ele ganhou dessa vez.
Aracaju ~ Surpresa Sergipana
Aracaju é Nova Capital da Resistência
Sim, somos a capital do estado mais pequeno do Brasil, mas temos o coração mais grande.
‘Volta Dilma’ ou ‘Nova Eleição para Presidente’ precisa ser nossa primeira responsabilidade agora.
#ViceEliane (PT) pode retornar a Democracia Brasilia.
#VoltaDilma
Acho que na análise da derrota, faltou ver um componente que poucos tem considerado: as milícias no rio de janeiro. Essa reportagem do El Pais mostra qual é a principal dificuldade da campanha de Freixo em “entrar” em determinadas zonas eleitorais.
http://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/17/opinion/1476731603_956670.html
Se a esquerda quer entender por que está sendo massacrada, poderia começar vendo seus resultados econômicos absolutamente fracassados. Sobretudo no caso do Brasil.
A simples verdade é que a esquerda não estaria sendo destruída no Brasil se o povo tivesse dinheiro no bolso, preços estáveis, etc.
Mesmo a esquerda de EUA e Europa sempre foram economicamente liberais e de direita para os padrões brasileiros. Eles jogaram para a esquerda em questões sociais, mas sempre souberam como gerenciar uma economia mais ou menos bem. Tanto que o crescimento da direita nestes países não é tanto pela economia quanto pela questão do globalismo e identidade nacional.
Qual o legado da esquerda para o Brasil? O melhor momento brasileiro com o PT foi o primeiro mandato com equipe econômica ortodoxa do governo Lula. Depois disto, apenas crescimento artificial e insustentável com expansão de crédito e endividamento. Como resultado, no agregado os crescimentos de salário real foram patéticos, a cotação estrangeira da moeda nacional foi destruída, a inflação de preços assusta no supermercado toda semana, empregos qualificados pagando bem somem e dão lugar ou a desemprego ou a empregos péssimos. Enfim.
Devemos lembrar que os governos de esquerda brasileiros foram extremamente corporativistas. Os que se deram melhor foram grandes empreiteiras, grandes empresários de setores estratégicos aliados ao governo, e sabemos que no Brasil o setor público concentra boa parte das riquezas do país.
Em suma, se a esquerda quer se reinventar, poderia começar vendo onde errou na destruição da economia e no elitismo que concentrou mais dinheiro nas elites e tirou do povo (não é contra tudo isto que a esquerda se diz ser?).
Suponhamos que a economia estivesse indo bem, os preços estivessem estáveis, os empregos fossem abundantes e oferecessem possibilidade de crescimento, a concentração de riqueza caísse das elites e se distribuísse mais para o povo.
A esquerda não teria dificuldades de se reeleger. Infelizmente, fracassaram. Com políticas que se provaram economicamente destrutivas, fracassaram.
Em um ambiente onde a nação alienada por religião e uma mídia que faz de tudo paramanter o status quo não se pode esperar que os partidos de esquerda tenham alguma chance. Estamos falando de eleitores que não foram ensinados a pensar. Pessoas que receberam instrução em um dos piores sistemas educacionais existentes. Para elas é inaceitavel que alguém queira questionar, por exemplo, que o aborto seja tratado como uma questão de saúde pública. Independente da opinião de cada um, a qual todos nós temos direito, eles não conseguem nem usar argumentos mais sofisticados como “aborto é pecado”. Num contexto social onde até aqueles que receberam uma educação privada acham que votar no Trump é a melhor coisa para o Brasil e o mundo, não se pode esperar nada de melhor mesmo.
Concordo também com o que foi dito no comentário anterior sobre a questão da segurança. A esquerda sempre foi aquela que justifica a violência e impunidade como coisas intocáveis até que não seja feita uma revolução social. Entendo que haja uma necessidade de uma revolução social no país mas achar que devemos passar décadas sendo roubados, assassinados porque temos um pouco mais que o outro também produz o resultados que tivemos hoje. O partido que conseguir lidar com a violência urbana vai definitivamente ganhar muitos adeptos.
Eu acredito que as comparações entre Brasil, EUA e Europa não são tão úteis. Os contextos são muito diferentes.
O Bernie Sanders perdeu mas foi um grande sucesso, colocou a social-democracia em ampla ascendência. Além disso, em termos ideológicos, Sanders representa a “velha” esquerda, não a nova esquerda que se organiza em torno de questões culturais e de identidade. No Brasil, ao contrário, a esquerda passa por um período de profunda decadência, o que afetou o PSOL. Mas isso é uma fase, pode mudar rapidamente. O que é novidade aqui é o apelo eleitotal da direita assumida, justamente o oposto dos Estados Unidos. Já na Europa há a questão da crise da integração européia que alimenta o fogo do nacionalismo, que já estava quase apagado. Isso não ocorre no Brasil e nos Estados Unidos. Na Europa, em questões econômicas a nova direita é quase indistinguível da esquerda: protecionista, populista, etc.
Se há algo em comum em todos esses casos é a nova importância das questões culturais e de identidade. Algo que as novas esquerdas (i.e. PSOL sim, mas Bernie Sanders não) têm grande responsabilidade por difundir, criando um terreno fértil pra nova direita, que não se acanha em representar culturalmente as maiorias.
Escrevi algo similar meses atrás. Resumidamente, a esquerda precisa melhorar sua propaganda.
https://desarrazoado.wordpress.com/2016/08/23/manufacturing-consent/
Concordo em grande parte.
Mas um documentário recente de Adam Curtis chama a atenção para uma infantilização mundial.
No Brasil, prevalece uma racionalização da má fé que retira “culpa” pela passividade.
No geral, com Deus morto e percepção geral de que a política é um teatro, as estratégias de auto engano que elevam a elasticidade moral se cristalizam.
Ficou inviável informar. Povo ignorante ou isolado em bolhas.
Conclusão: grupos organizados se elevam, como no Egito, a partir de extremistas religiosos.
PS: Isso é Brasil. Os religiosos não são religiosos. São carentes. De afeto mesmo.
Excelente análise.
Acho que o problema é de falta de EDUCAÇÃO, tanto aqui quanto nos States. Ambos os países oferecem educação básica de péssima qualidade! Enquanto as pessoas não aprenderem a pensar, a ignorância triunfará!
Acho que o Glenn Greewald está usando um ponto de vista tipicamente liberal americano pra analisar o contexto social e político brasileiro e isso não funciona.
No cerne do argumento está a ideia de representatividade oriunda da política de identidades:
“Um partido não tem apelo em segmentos mais pobres da população e minorias a menos que esses grupos se vejam representados na liderança e nas candidaturas do partido.”
Só que isso não se verifica na prática. Basta ver João Doria, Trump e tantos outros exemplos. (E minorias? Quais minorias que fazem diferença eleitoral no Brasil? Negros e mestiços não são minorias.)
Aliás, diria que essa visão é expressão do mesmo problema que o artigo busca tratar: ideologias da elite que se projetam como se fossem da classe trabalhadora.
O que falta ao PSOL não é representatividade nesse sentido, mas sim uma plataforma política que de fato represente os interesses da classe trbalhadora. Um exemplo óbvio é a questão da segurança pública: o PSOL ignora a necessidade de medidas mais eficazes de combate ao crime, apoiada amplamente pela maioria da população, em nome de princípios éticos desconectados da realidade das pessoas.
O problema do PSOL não é só de fachada, é de substância.
A diferença é que a única opção da esquerda é ser um movimento popular para se representar nas classes pobres. Já a direita tem a seu serviço a mídia e as igrejas extremistas e hegemônicas. Aliás nos EUA não foi a toa que o partido republicano se aliou ao ultraconservadorismo religioso. Se por um lado isso tem custado as eleições executivas nacionais, eles movem cada vez mais o Democrata para a direita em questões econômicas, e conseguem manter maioria no legislativo.
O problema não é de substância, até porque adotar o discurso contra corrupção da forma que é pautada atualmente no Brasil é um convite ao autoritarismo, que em última análise acaba tendo os piores efeitos na população pobre, vide nossa população carcerária.
Concordo em parte com vc, Diogo, quando diz que a representatividade não parece ser tão relevante nesses resultados, na medida em que o eleito é mais distante ainda da realidade da maioria do povo em aparência, posição social e em ideologia. Contudo o discurso da nova direita cola no desejo social. Desejo que não tem a intelectualidade acadêmica, porem a paixão da urgência. O cara diz: Vou cuidar de vc. E é isso que pega. O ser humano, de uma maneira geral (não estou falando só da classe trabalhadora) tende a buscar a solução rápida para as suas faltas e essa solução está sempre no outro. O “fazer junto” proposto pelas candidaturas do PSOL não tem interessado na medida em que coloca o sujeito no centro da solução do seu problema. Se distancia nesse sentido do “populismo” do qual a esquerda é muitas vezes acusada.
Contudo, a urgência do desejo e da necessidade não pode dispor do tempo e do “fazer junto”, que implica em um nível de organização social que a classe trabalhadora em sua maioria não tem. E
Não acredito em falta de substancia no PSOL. Acredito no oposto.. talvez um excesso de substancia e intelectualismo do qual eu não posso aceitar abrirmos mão. A politica apaixonada e urgente não pode ser leiga. Mas o intelectual não pode ser o único porta-voz das necessidades do povo? Como tornar as queixas sociais em demandas de trabalho para o próprio povo, que sim, é o único agente transformador de si próprio e de sua condição e por isso, precisa governar junto?
Tenho pensado sobre essas questões, mas elas ainda estão em construção na minha cabeça. Argumentos contrários são benvindos. Abraços.
Diogo, o que seriam essas medidas mais eficazes para combater o crime. Pq vc usa de um expediente cômodo de apresentar o problema – sem um diagnóstico profundo, que crime? o tráfico de drogas responsável pelo grosso da violência e do encarceramento e que nos últimos 14 anos triplicou a população carcerária brasileira sem que houvesse qualquer avanço na diminuição da violência ou a corrupção sistêmica que além de desviar dinheiro pro bolso de um ou de outro, negocia direitos e investimentos sociais em nome de privilégios das elites industriais e financeiras, direitos e investimentos esses que são a principal forma de emancipar a população e retirar a juventude do crime organizado? Como se combate o crime prá você?
– Armando mais a polícia e forças armadas e por conseguinte fazendo com que mais armas sejam desviadas para as mãos de traficantes, como aponta o relatório do CPI das Armas, e ao mesmo tempo fortalecendo as milícias?
– Armando a guarda municipal e consolidando o seu caráter de instrumento de repressão de trabalhador marginalizado como ambulantes, flanelinhas, artistas de rua?
– Aumentando penas e criando novos tipos penais que só vão levar mais pessoas pobres às cadeias, sem mexer na profunda desigualdade social brasileira? Instituindo pena de morte, prisão perpétua que são instrumentos que nada modificam e só geram mais injustiças? Diminuindo o direito de defesa como apregoa a elite cínica que é a principal beneficiada pelos recursos da lei penal, pois o preso pobre não acessa todos os instrumentos de defesa do CPP nem todas as instâncias da jurisdição brasileira.
O crime do colarinho branco no Brasil encarcera menos de 1000 pessoas, ao passo que os crimes frutos da desigualdade, tráfico e roubo – alimentada pelo colarinho branco encarceram mais de 500 mil pessoas. Dos mil criminosos do colarinho branco presos no Brasil, somente uma, uma mulher negra (o que mais uma vez revela o caráter racista e seletivista do sistena penal) cumpriu uma pesada pena integralmente que foi a Jorgina do INSS que ficou quase 12 anos na cadeia (além inclusive da pena a que foi condenada), ao passo que os maiores ladrões (Nicolau dos Santos Neto, Luiz Estevão, Cacciola, PC Farias entre tantos outros, fora os que nunca foram condenados ou foram inocentados de forma bem suspeita como Calheiros, Barbalho, Daniel Dantas, Sarney e tantos outros) quando ficam muito é dois anos e logo progridem prá prisão domiciliar ou tem penas perdoadas… Ao mesmo tempo nem 10% do que essas pessoas roubam é recuperado (novamente a única grande criminosa que roubou e perdeu praticamente tudo que roubou, e perdeu além, pois perdeu bens de família que nada tinham a ver com seus roubos, mas de herança, foi a Jorgina do INSS).
Prá finalizar, concordo com você que defendemos princípios éticos que estão desconectados da realidade das pessoas. Ou melhor, não estão desconectados da realidade das pessoas, pois por conta desses princípios éticos não serem universais e de massas que essas pessoas são as que mais sofrem, são encarceradas, mortas pela polícia, exploradas em seus trabalhos, vivem em territórios de menor IDH… a questão não é abandonar esses princípios éticos como vc parece sugerir e sim fazer com que esses princípios éticos sejam e melhor divulgados e apropriados por essa população, que adota os princípios éticos dos seus (nossos) opressores por uma condição profundamente desigual de formação e publicidade. É incomparável medir a capacidade do PSOL difundir a legalização das drogas dentro desses segmentos, por exemplo, como instrumento do fim da criminalização da pobreza, do desperdício massivo de recursos públicos, da diminuição da violência e da corrupção policial com a capacidade do jornalismo mundo cão de Datenas e da TV Record de “bandido bom é bandido morto”, de a polícia tem mais é que matar e prender muito e de que quem usa droga é tudo vagabundo – só que só o drogado de esquerda ou o favelado é vagabundo, porque os cheiradores de cocaína da elite política e econômica brasileira são exemplos de sucesso e dignidade a serem enaltecidos…
Seria uma boa o PSol correr atrás dessa galera das ocupações
Muito bom Greenwald! É um privilégio para nós brasileiros, que você esteja por perto e possa nos ajudar com sua capacidade e inteligência! Espero sinceramente que suas sugestões sejam acatadas pelo PSOL!