Segundo o Urban Dictionary, quando o comportamento de alguém torna-se tão insano a ponto de que nada vindo da pessoa possa chocar ou surpreender você, ela entra na “Tyson Zone”. O termo foi cunhado pelo jornalista esportivo norte-americano Bill Simmons na fase em que o campeão mundial de boxe começou a fazer coisas como espancar a mulher, mastigar a orelha de um oponente, tatuar o rosto e torrar milhões de dólares em cocaína, prostitutas e numa enorme coleção de pombos, uma obsessão do lutador.
A Tyson Zone não é exclusividade do boxeador. Outros personagens célebres também tiveram seu momento de Zona Tyson e, recentemente, articulistas começaram a defender que Donald Trump fez o mesmo. Há quem tenha rebatizado a Tyson Zone de “Trump Zone”.
“O mundo inteiro parece ter entrado no modo a
lém da imaginação.”
Ainda assim, nenhum dos absurdos de Trump parece reduzir suas intenções de voto – ao contrário, a uma semana das eleições, vemos uma virada nas pesquisas que parece premiar sua “honestidade”.
Infelizmente, não é só a política americana que parece ter entrado na Tyson Zone, onde absurdos são hipernormalizados. O mundo inteiro parece ter entrado no modo “Além da Imaginação”, em que a realidade contradiz nossas bolhas cognitivas – ou, para outros, “epistemic closures”. São tempos em que o resultado de consultas democráticas contradizem expectativas, analistas políticos, pesquisas e mesmo o senso comum – para começar, pense nos exemplos óbvios do “Brexit” e do referendo sobre o acordo de paz na Colômbia.
Aqui no Brasil, apenas na última semana, elegemos um prefeito que “rouba, mas não pede propina”, outro que “vomitou ao sentir cheiro de pobre” e outro pastor-coronel que acredita que “gays são fruto de abortos mal-feitos”, entre outros absurdos.
A sensação de que o pior chegou e de que o país foi substituído por uma versão bizarra dele mesmo é alimentada por notícias como a da PM algemando adolescentes que protestavam pela educação ou de um juiz autorizando métodos de tortura para desocupar uma escola.
Há um ano, isso tudo seria inimaginável e hoje é normal: estamos na Tyson Zone.
No entanto, o que parece confirmar de uma vez por todas a entrada do globo terrestre na Tyson Zone em 2016 é o folhetim político-místico que tomou conta da Coréia do Sul nas últimas semanas, uma trama que envolve lavagem cerebral, uma seita chamada “oito fadas” e o provável sacrifício de centenas de crianças. Parece uma bad trip de bala ruim, um romance cyber-punk ou um anime sinistro, mas é simplesmente o noticiário.
Quando a realidade parece mentir, a mudança passa pela refutação da verdade – o que às vezes começa com uma simples mudança de ponto de vista, o que também pode ajudar a enxergar os próprios erros. Com sorte, tal inconformismo se traduzirá em ação política. Com menos sorte, continuaremos como estamos – assustados, inertes, em posição fetal debaixo da cama.
O problema é que essa sorte está sendo jogada nas nossas ações no mundo concreto – e não na timeline das suas redes sociais. Pode não parecer, mas o mundo está lá fora.
Cuenca colocando em palavras a realidade. Parabéns! Vamos compartir nas redes sociais essas perolas do jornalismo galera! Quem sabe plantando hoje uma semente dde discernimento nessa matrix surreal não acordamos amanhã com uma linda ideia florescendo.
Não há surpresa. O capitalismo está entrando em colapso – não dá mais lucro e produz exclusão crescente. As pessoas são consumistas mas não têm dinheiro para ir ao shopping satisfazer o vício do consumo. Estão frustradas, amarguradas.
A alternativa racional seria sair fora do capitalismo, pois temos meios técnicos para satisfazer as necessidades de todos no planeta, desde que necessidade não seja sinônimo de consumismo.
Mas sair do capitalismo e, em consequência abandonar nosso narcisismo consumista, é considerado loucura, impensável, “insonhável”. Então as pessoas, frustradas, enlouquecem dentro do capitalismo. Esta loucura já se chamou facismo. Estamos na era do neofacismo.
Há indicações de que o projeto HAARP de emissão de ondas de alta frequencia possa provocar revolta e disturbios nas populaçoes assim como bovinização de massas populares e aceitação pacifica de aberrações politicas
Excelente artigo!
Só para zoar o Intercept, aqui no Brasil chamamos de “Samba do Crioulo doido”
Cuenca… Você é um escritor; portanto, vale a pena criticar metáforas ruins.
Tudo isso – “Parece bad trip de bala ruim, mas é apenas o noticiário”; “assustados, inertes, em posição fetal debaixo da cama.”; ” o país foi substituído por uma versão bizarra” (país? Se o tema nacional é equivalente ao mundial, seria melhor um termo como “tudo foi substituído…”) – parece mais digno de um autor menor do que de um Thomas Pynchon ou William Gibson… Não são apenas clichês manjados: eles, sobretudo, não reforçam o tema “Tyson Zone”.
E ainda temos dois Papas vivos, para aumentar o caldo da bizarrice.
Ainda o fato bizarro que temos dois Papas vivos. Tudo muito louco.
O dedo em riste de Trump é a antena pela qual ele captura o sinal da Matrix. O beicinho que ele faz depois é o código para todos os imbecis do mundo operarem na frequência ” Tyson zone “, incluindo aí a senhora Hilária Clinton e seu servidor privado de e-mails….
É so mais uma onda politica. Confio na administração competente da mãe natureza.
John Oliver, ao se referir a situação americana, com a disputa Clinton/Trump, pediu q olhassem para o céu, bem para o céu, lá no alto, para além das nuvens, e disse: lá é o fundo do poço, nós estamos aqui embaixo. Ele não sabe nada de Brasil. Somos o resultado da Tyson zone com um poço sem fundo.
Não entendi porque o Brexit era falta de bom senso. Acho que o autor precisa se documentar sobre o funcionamento da UE.
Foi jogado no meio de monte de coisas objectivamente absurdas, sem explicação. Isso não é jornalismo.
Nós, brasileiros estamos muito à frente do nosso tempo. A nossa Tyson Zone começou há 500 anos. Mas, sim… vejo uma caminhada da humanidade a 300km por hora em direção à um paredão.
Achei que só eu estava achando tudo muito louco!
São tantos absurdos diários que vejo a apatia tomar conta de todos. Quero sacudir a todos, bater em seus rostos para ver se acordam.
O que nos fará despertar deste pesadelo?
nesse cenário distópico, sobra-nos tão pouco, quase nada… talvez, dos novos movimentos secundaristas e do movimento feminista surja algo que rompa, provoque uma fissura na verdade factual que encarcera o mundo numa única e fugaz narrativa: o ultraneoliberalismo gerador de indivíduos ultracentrados, estáticos e infantilizados: avessos ao diálogo, à solidariedade, ao diferente, ao contraditório.
Talvez a Terra tenha sido engolida por um worm hole e entramos em outra dimensão sem percebermos. Tá difícil explicar tanto surrealismo. Nem nos filmes de Buñuel.