Na primeira audiência pública feita no Congresso para debater a reforma do ensino médio, na terça-feira, dia 1º, as ocupações foram um dos temas abordados. Contudo, as falas de alguns parlamentares são o desenho perfeito da falta de compreensão das demandas feitas pelos estudantes.
“Eu não consigo entender as motivações contra a reforma do ensino médio.” Deputado Thiago Peixoto (PSD-GO)Talvez, se eles tivessem mais voz nesse debate, não fosse tão difícil compreendê-los.
Em oposição à total surdez para com os estudantes, os parlamentares são todos ouvidos para outro grupo: os representantes de bilionários presidentes de fundações educacionais. Para as audiências públicas que estão por vir foram convidados sete representantes de fundações e institutos empresariais.
Mas, qual o problema em se ter bilionários na mesa de debate? A princípio, nenhum. Na prática, além do fato de que não existe almoço grátis, é necessário observar o tipo de educação que esses grupos vislumbram como o “padrão de qualidade” – lembrando que a própria existência de um “padrão de qualidade”, quando se fala sobre educação, já é algo bastante questionável.
Fundações costumam se colocar como apartidárias, porém, ao participarem ativamente da criação e execução de políticas públicas — como está sendo o caso no debate sobre a reforma do ensino médio — comportam-se, elas mesmas, como partidos.
É no mínimo curioso que as propostas de reforma do ensino médio tenham ganhado força logo quando a tutela do MEC passa para as mãos de jovens empreendedores e ex-Lemann fellows (o apelido dado aqueles que receberam bolsa da Fundação Lemann). O Diário Oficial da União do dia 2 de setembro avisou sobre a nomeação de Teresa Pontual, ex-bolsista da fundação, para a Diretoria de Currículos e Educação Integral do MEC. Menos de um mês depois, a MP foi assinada.
Outro exemplo é o caso de Maria Helena Guimarães de Castro, uma das sócias-fundadoras do Todos Pela Educação e membro da comissão técnica do movimento, hoje secretária-executiva do MEC à frente da reforma.
Os interesses que ficam por trás destes “partidos” nem sempre são facilmente notáveis. A filantropia pode ser usada para vários fins: o honesto desejo por um mundo melhor, a “lavagem de consciência”, o tráfico de influência, e até a lavagem de dinheiro. Além das óbvias isenções fiscais e imunidades tributárias concedidas às fundações por todas as suas benesses, há um ponto a mais quando se fala da ligação entre fundações educacionais e grandes empresas: a formação dos funcionários.A média brasileira de gastos com treinamentos é de R$ 518 por funcionário. Seria ótimo se os donos de grandes empresas pudessem economizar esse dinheiro, que significa aproximadamente R$ 1,38 milhão anuais por empresa escoando das companhias com mais de 500 funcionários. Já para a Ambev, de Jorge Paulo Lemann — que também está à frente da Fundação Lemann — significaria uma economia de aproximadamente R$ 20 milhões ao ano, afinal são mais de 40 mil empregados. Se, ao menos, no ensino técnico ou médio já fossem ministrados alguns dos treinamentos necessários aos futuros empregados, empresários como Lemann não precisariam gastar tanto com RH.
Depois de estudantes e professores se manifestarem pedindo um lugar à mesa de debate, o espaço para profissionais de educação foi ampliado. Continuam sendo apenas 2 representantes dos alunos, mas subiu de 3 para 9 o total de professores entre os 57 convidados para audiências públicas na comissão especial. Os lugares de honra, no entanto, permanecem reservados às fundações e institutos empresariais.
A próxima audiência pública, por exemplo, está marcada para a próxima terça, 8 de novembro, e contará com representantes do Instituto Inspirare, Fundação Lemann e Instituto Unibanco. Muitos dos representantes destes organismos receberam até mais de um convite, todos feitos pelos 24 parlamentares integrantes da comissão, para ir ao púlpito. Serão necessárias outras audiências, no entanto. Afinal, são muitos os representantes de fundações e institutos empresariais.
A fundação de Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil e 19º entre os mais ricos do mundo. Espécie de “Midas”, todos seus investimentos são certeiros e ajudam a engordar ainda mais a fortuna de R$ 103,59 bilhões do “rei da cerveja”. Não por coincidência, uma de suas mais recentes apostas é a Escola Eleva, que tem foco no ensino médio e atua em período integral.
O Instituto Unibanco é presidido por Pedro Moreira Salles, o 9º colocado da lista dos bilionários brasileiros, com R$ 12,96 bilhões. Empatados na mesma posição estão seus irmãos Walter Jr, João e Fernando. O principal projeto do IU, Jovem de Futuro, está comemorando uma década. Criado a partir de uma parceria com o MEC e com as secretarias estaduais, o instituto oferece consultorias e treinamentos aos gestores de escolas públicas de ensino médio. Para colocar as metodologias em prática, porém, é necessário que a escola adote a plataforma tecnológica criada pelo instituto, que passou a constar no Guia de Tecnologias do MEC.
A Fundação Itaú é presidida por Alfredo Egydio Setubal. Pedro Moreira Salles faz parte do conselho curador. Os dois são membros do conselho administrativo do banco Itaú Unibanco, que controla tanto a Fundação Itaú quanto o Instituto Unibanco.
O trabalho da Fundação é, em parcerias com secretarias municipais e estaduais, oferecer consultorias para treinamento de gestão aos secretários de educação e aos diretores de escolas.
Sobre seus interesses políticos, o secretário de Educação da Paraíba, Aléssio Trindade, que, inclusive, também consta na lista de convidados pela comissão especial, resume: “o Itaú-BBA lidera uma ação do Consed junto ao MEC, que é a reforma do Ensino Médio, com a inserção da educação profissional”.
O Instituto Inspirare é presidido por Bernardo Gradin, o 47º colocado na lista dos 70 maiores bilionários do Brasil. A origem da fortuna de R$ 4,16 bilhões são empresas de construção e petroquímica. Ex-presidente da Braskem, empresa petroquímica, e ex-acionista da Odebrecht, Gradin foi mencionado por outro “ex” em delação premiada na Lava Jato: Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras disse ter tratado de “pagamentos de vantagens ilícitas” a ele.
Seu instituto está envolvido na proposta de “educação integral na prática”; plataforma que “disponibiliza recursos organizados em eixos temáticos para apoiar gestores e equipes técnicas na elaboração, implementação e avaliação de programas de educação integral”. Outra iniciativa é a “Escola Digital”, uma plataforma virtual que oferece ferramentas pedagógicas como vídeos, jogos, mapas e livros digitalizados.
O presidente do Conselho de Governança do T.P.E. é Jorge Gerdau Johannpeter, que já figurou na Forbes como 48º colocado na lista dos bilionários, em 2012. Hoje seu nome ainda aparece na famosa lista, mas com menos destaque, já que seus módicos R$ 1,56 bilhão mal fazem sombra aos demais concorrentes.
Como prêmio de consolação, entrou para uma nova lista, a dos brasileiros nomeados nos “Panama Papers”, maior vazamento de documentos da história. Na lista, figuram 22 empresários nacionais que possuem ligação a companhias abertas em paraísos fiscais. A de Gerdau consta como aberta em 2005, para captar recursos no exterior, e desativada em agosto de 2009.
O T.P.E. já se consagrou como influência nas políticas públicas de educação. Fundado em 2006 como um movimento social, um ano depois, deu nome a um decreto que estabelecia as diretrizes do compromisso com o plano de metas.
Antônio Luiz Seabra, fundador da Natura é dono de uma fortuna que totaliza R$ 4,12 bilhões. O Instituto Natura é o principal parceiro do ICE em seus trabalhos de consultorias dadas a secretarias estaduais de educação para implantação do ensino médio integral. Para entender seu papel, é preciso, então, chegar ao último convidado VIP.
Engenheiro aposentado, Marcos Magalhães não desfruta de fortuna como os demais listados. Seu tesouro é outro: a amizade com o atual ministro da educação, Mendonça Filho.
Em entrevista realizada em 2012, Magalhães explicou o funcionamento de seu trabalho: “Houve uma parceria em que nós trabalhamos, uma parceria público privada (PPP) entre a secretaria e parceiros. Esses parceiros compreendem ONGs e grupos empresariais locais do estado. Os grupos aportam o recurso financeiro, e o ICE faz a consultoria.”
As consultorias são para implantação de ensino médio integral. Partem de uma experiência considerada exitosa, em Pernambuco, estado do ministro. Já foram registrados casos de parcerias e contratos com secretarias de educação apontados como irregulares. Nada que tivesse despertado a atenção da grande mídia ou de órgãos investigadores.
Na mesma entrevista de 2012, Magalhães deixou bem claro o que já pensava sobre os profissionais de educação: “A gente fala que pedagogo tem visão um pouco, digamos, estreita do que é modelo educacional.” [ênfase adicionado]
Roberto Setubal (esquerda), do banco Itaú, e Pedro Moreira Salles, do Unibanco na coletiva de imprensa que anunciou a união entre os dois bancos.
Foto: AFP/Getty Images
Nos artigos publicados por especialistas do Itaú sobre educação, o tom não é exatamente de caridade. Em “Educação, produtividade e crescimento”, de janeiro deste ano, pode-se ler:
“Em 1992 os brasileiros estudavam 4,8 anos, em média.
Em 2014, o número subiu para 8 anos.
Com esses resultados, a produtividade da mão de obra no Brasil deveria estar aumentando, contribuindo para o crescimento do PIB potencial do país. No entanto, as estimativas de evolução da produtividade calculadas a partir das contas nacionais e dos números do mercado de trabalho sugerem que, na melhor das hipóteses, a produtividade ficou constante. Por que isso acontece?”
Fica bem claro que a mentalidade do investimento em educação é aumentar a produtividade da massa trabalhadora. Inclusive, essa é a ideia por trás da reforma do ensino médio: formar a massa trabalhadora, e não indivíduos pensantes. É o que critica a professora de educação física Viviane Coelho:
“As crianças e os adolescentes, eles têm que passar por essa experimentação. Até porque quando eles se formam no ensino médio eles não têm uma exata noção do que eles querem fazer, estão numa fase de transição. Então todas as matérias são importantes. Mesmo que não seja a aptidão, mas que se forme, que tenha a informação, então o aluno se forma de uma maneira mais global.”
Essa mentalidade de formação de massa trabalhadora fica desenhada no sumário executivo sobre a reforma, publicado pelo Senado:
Ainda sobre o artigo publicado pelo Itaú, o próprio texto responde à pergunta final (“por que a produtividade não aumenta, apesar dos investimentos em educação?”) com três possíveis motivos:
1 – “As condições socioeconômicas para dar às crianças boas condições de desenvolvimento no Brasil ainda estão longe dos padrões internacionais”
2 – “Houve avanço na quantidade de pessoas na escola e de tempo de permanência, mas não há sinais de que houve melhora na qualidade do ensino”
3 – “O país ainda não parece ter encontrado a melhor forma de gerar incentivos, via legislação, na direção de aumentos de produtividade”
Caso o número três não tenha ficado claro, o economista Caio Megale, que assina o artigo, explica: “Desta forma, o impulso gerado pela educação, em países com legislações mais flexíveis, pode estar amortecido no Brasil”. Ou seja, apesar das melhorias na educação, pode ser que nossa lei trabalhista esteja no caminho de um aumento de produtividade.
O estudo “Ensino Médio no Brasil e a privatização do público”, de Maria Raquel Caetano, Doutora em Educação pela UFRGS, explica como essa influência de ideologia liberal se dá na prática educacional: “Não são simplesmente os serviços de educação e de ensino que estão sujeitos a formas de privatização: a própria política de educação – por meio de assessorias, consultorias, pesquisas, avaliações e redes de influências”.
Usando uma ideia de falta de produtividade da escola, o desempenho em avaliações nacionais é usado para justificar a necessidade de apoio do setor privado. Usando a melhoria da gestão como argumento, aceita-se a contratação de serviços de formação de professores e gestores, consultorias educacionais e serviços de avaliação. Ideia que, inclusive, vem sendo apresentada como justificativa para a MP da reforma do ensino médio.
Que partido esse pessoal quer tirar da escola?
Parabéns pelo raro jornalismo descente
Ainda continuo sem entender porque tanta gente contra a reforma. É melhor deixar como está?
Mudar é importante, porque ainda estamos longe de termos um acesso universal e de qualidade neste país de tantas desigualdades. Porém, essa proposta do governo e esse apoio de representantes dos interesses privados apontam para uma reforma que vai restringir o acesso à educação pública e gratuita, diminuindo a chance de termos um país em que todas as pessoas tenham o direito à educação de qualidade – em todos os níveis. E, pior, não há perspectivas de termos uma economia forte o suficiente para que o alardeado liberalismo econômico (atrelado a um absurdo conservadorismo) consiga trazer os benefícios que promete para grande parte da população. É importante olhar para os graves problemas sociais brasileiros, para além de indicadores da bolsa de valores. Ainda estamos longe de podermos desejar um estado mínimo, que não provenha, especialmente na educação e na saúde por exemplo, sob o risco de empurrarmos para a miséria não só boa parte da população mas, também, o próprio futuro do país.
This is SCARY.
To know more about Lemann I suggest reading Alex Cuadros’ Brazillionaires, chapter 8, “Profit Motive.”
Isso é muito grave. A penetração desses ideais empresariais no ensino já é ruim quando se trata da mercantilização da educação em escolas privadas. Pra mim o sensino deveria ser público, contemplar a todos sem distinção e de qualidade.
E agora, não satisfeitos, querem implementar a lógica da ideologia neoliberal no próprio ensino.
Que fase estamos vivendo.
descabido o tom viesado e deliberadamente negativo como comenta a “motivacao” do investimento e interesse em educacao por parte desse empresariado. Os projetos dessas fundacoes sao tambem oportunidade para que jovens carentes tenham sua ascensao social, podendo estudar nas melhores escolas do mundo, trabalhar em boas empresas … o Estado se tornou incompetente na prestacao desse servico … enquanto o Brasil continuar a achar que o “patrao eh o vilao” e nao esse Estado fetido que aprisiona os recursos justamente dos mais pobres para retro-alimentar a maquina, nao teremos a menor chance. Seguiremos sendo vendedores de pedra e compradores de ipod…
Por que ao inves de criticar essas iniciativas nao cobramos da classe politica a execucao de casos de sucesso de desenvolvimento educacional que temos no mundo? Ou de que politicos sejam obrigados a usar a educacao publica (de base e universitaria) como medida de maior alinhamento com o contribuinte? Por que nao pressionamos o legislativo para acabar com as exorbitantes verbas de gabinete e repassar esses recursos integralmente para a educacao?
Repetindo o que disse a matéria: não existe almoço grátis…
Filho, ô filho, você já teve sua carteira assinada uma vez na vida? Sabe o que é patrão? Desde aquela da pequena empresa até aquele da multinacional? Sabe não né? No dia em que um patrão for filantrópico o suficiente ele deixa de ser patrão e vai ser investidor, como o conehcido Bill.
Acorda Felipe!
Não gostei…achei a matéria até bem feita, bem elaborada, mas o viés vira-latista ta muito alto. Resumindo, se são milionários, amigos de ministros ou ex-bolsistas de alguma fundação mantida por Milionários, são automaticamente suspeitos, é isso?
Enquanto em outros países a prática de grandes empresas e pessoas com dinheiro apoiar a educação (via bolsas, museus, bibliotécas, fundações) é comum e admirado, aqui é suspeito. (?????). E o pior a única razão seria a motivação em baixar os custos em formação de suas equipes de colaboradores! Achei essa abordagem infeliz e gostaria de saber que alternativas e apoiadores a autora sugere ( MST, FARC, CNBB)?
Não vejo nada de errado em convidar representantes de empresas de sucesso para participar do debate. Não acho que o homem mais rico do Brasil tenha interesse em economizar alguns milhões com treinamento de seus funcionários e muito menos acredito que esse seja o seu interesse. Tenho certeza que se convidarmos apenas profissionais de educação e alunos, não chegaremos a lugar nenhum.
Entre um empresário e um educador pra falar de educação, eu fico com o educador.
Quando o assunto for business, eu chamo o empresário pra debater business
Parabéns pela matéria, excelente, esclarecedora.
Senti falta apenas, no Todos Pela Educação, do papel do Gerdau na fundação do think tank Instituto Millenium e no fomento que deu, junto com outros poderosos, aos movimentos do Kim Kataguiri, Roberto Chequer, etc., e que ele é ligado ao Atlas Network, especializada em fomentar a criação de organizações de direita, que tem os irmãos Koch entre os financiadores (matéria da Agencia Publica, “A Nova Roupa da Direita”).
Desde que a “escola” é “escola” persiste o confronto entre os ideais educacionais e as funções educacionais. De forma demagógica as diversas pedagogias existentes auxiliam na falsa propaganda sobre uma possível escolarização crítica e cidadã embora o resultado realista seja sempre óbvio, a escolarização serve aos meios de produção, à sociedade, seja em forma de Estado ou em forma de classe dominante.
A briga entre o que “deve ser” ser a educação e o “que é” sempre vai usar idealismos para disfarçar o mero adestramento funcional. O que ocorre agora no país é mais um ajustamento dos ideais às funcionalidades operacionais possíveis.
Ainda é um ajuste míope porque mantém as estruturas básicas de formação de professores numa contínua desvalorização da carreira de magistério.
Fossem menos obtusos, resultados da mesma precarização da educação que tentam combater em nome do lucro e da produtividade, esses “proto-administradores” da pedagogia nacional iriam mais longe, valorizariam o ambiente escolar a partir do investimento sério em sua logística, sua ambientação tecnológica e, claro, elitizariam ao máximo a carreira do magistério a partir do Ensino Fundamental.
Teriam até mais lucros com a federalização dos estabelecimentos de ensino atualmente públicos, fechando redes de serviços diretamente com o govenro federal em vez de dissipar poder de fogo entre milhares de prefeituras e dezenas de governos estaduais, atuais administradores da falência escolar do Ensino Fundamental e do Ensino Médio.
É preciso criar uma cultura de colaboração nas escolas. Todos devem colaborar com todos para que cada um viva as experiências que deseja viver. Quais são as escolas que fazem isto? Elas existem? Quais são os valores que estas escolas passam? Por que as pessoas escondem estas escolas? Estes institutos todos tem CASES REAIS de melhoria da educação. A impressão que se tem é que os alunos saem das escolas sem um mínimo de auto confiança. Saem da escola sem nem saber pesquisar o google. Só estudam facínoras. No estudo de história, por exemplo, eles estudam as histórias de regimes totalitários. Nunca estudam a história de pessoas que fizeram feitos extraordinários para o avanço da humanidade.
Essa pedra vem sendo cantada há muito tempo. Desde que Collor quebrou Alagoas para promover-se a Presidente e quebrar um grande pedaço do Brasil, deixando a FHC a chance de quebrar o resto. A tal da “meritocracia” é o maior câncer criado pela Reforma Protestante, principalmente pelo calvinismo. Como atribuir “mérito” a uma pessoa que não teve como mostrar seu potencial?
Texto bem escrito e bem intencionado. Mas discordo de alguns pontos.
Não entendi o problema de aumentar a produtividade (atualmente baixíssima) da mão de obra brasileira.
Não entendi o problema de colocar algumas das pessoas mais talentosas do Brasil para tocar a educação (atualmente sucateada) do país.
Não entendi o problema de eles serem bilionários.
A hipótese de que isso tem como objetivo a redução de investimento em RH e equivocada.
O treinamento das empresas mencionadas, assim como a da maioria das grandes empresas, são focados em aspectos específicos das empresas (processos, sistemas, etc.), algo que não se aprende na escola de qualquer maneira. Alem disso, R$20M não me parece uma soma grande o suficiente para a AMBEV a ponto de justificar o tempo dispensado nessas iniciativas.
Sou formado no IME, em 2011, e fui bolsista da Fundação Estudar, iniciada por Lemann.
Exprimo aqui minha opinião. Não tenho mais nenhum vinculo com a fundação a não ser a gratidão pela ajuda que recebi quando precisava.
Para quem não conhece o trabalho da fundação, podem encontrar tudo no site http://www.estudar.org.br
Sou testemunha de que nunca sofremos nenhuma influência politica em nenhuma das interações. Pessoas foram aprovadas junto comigo num ano de eleições (2010) apoiando abertamente tanto o PT quanto o PSDB durante as entrevistas. Visões de todo o espectro politico foram mencionadas sem qualquer consequência.
Hoje muito dos meus amigos da FE, a maioria de origem pobre, está estudando nas melhores universidades do Brasil e do mundo. Um amigo do IME, também bolsista de 2010, vindo do interior de Minas e com uma infância muito pobre, hoje está estudando sistemas de computação voltados para a cura do câncer em Oxford e já ganhou diversos prêmios de reconhecimento cientifico, gracas ao apoio da Fundação.
Concordo que seria maravilhoso ter cursos de Filosofia no ensino médio. Eu mesmo gostaria de ter estudado.
Mas num país com uma educação num patamar como o nosso, precisamos corrigir o básico antes de brincarmos de Finlândia.
Qual o problema de termos pessoas extremamente capazes tomando conta da nossa educação?
Seria tudo uma conspiração de capitalistas malvados querendo dominar o mundo?
Ou seria a oportunidade de ter gente que comprovadamente capacitada cuidando de um dos principais calcanhares de Aquiles do Brasil?
Enfim, essa e só a minha opinião.
Abs!
Filipe eu é que não entendi a tua afirmação quando diz “Não entendi o problema de colocar algumas das pessoas mais talentosas do Brasil para tocar a educação (atualmente sucateada) do país.” Gostaria de saber pq refere-se a esses megaempresários como pessoas talentosas para discutir os rumos da educação quando os segmentos que a compõe está fora do debate! Não sejamos inocentes com o uso de argumentos rasteiros. Quer defender o golpe tudo bem! Mas não tire as pessoas para ignorantes em relação a tudo o que está acontecendo em nosso país.
Isso dá muita raiva!!
Excelente texto. Uma reflexão sobre quais os interesses dos milionários em investir em educação no país é muito necessária. A maior parte das pessoas que conhecem o envolvimento do Lemann com a educação simplesmente o admira por tirar tantos milhões de sua fortuna e doar (as pessoas não veem como um investimento com interesses) para iniciativas educacionais. Recentemente em um evento da Fundação Estudar, ouvi abertamente de um dos diretores que o objetivo da Fundação Lemann e do Grupo Eleva era criar um modelo de escola barato e eficiente (?) com um custo menor (R$400/mês) do que o que o governo atualmente tem por aluno. E então implementar no Brasil a ideia das Charter Schools, privatizando a educação pública. Percebo que o que está por trás dessa iniciativa não são apenas os interesses econômicos, mas também ideológicos que moldar a educação dos jovens do país.
Acho válido falar também sobre a iniciativa Vetor Brasil, criada por Lemann Fellowns e apoiada por algumas fundações educacionais mencionadas no texto. Esse programa tem como objetivo colocar “jovens qualificados para transformar o setor público do país”. Ao invés de ingressarem por concursos públicos para trabalharem nas secretarias municipais e estaduais, esse programa seleciona jovens da elite (muitos com ligações com as fundações educacionais) para atuarem como CCs. No primeiro ano do programa (2015) alguns dos jovens que estavam alocados na secretaria de educação do estado de SP encabeçaram a ideia do fechamento das escolas em SP.
Parabéns pela materia Helena.. materia de complexada. Tire da sua cabeça essa mentalidade de que as pessoas estão sempre tentando se aproveitar dos mais oprimidos. entre escutar voce teorica e empresarios que lideram empresas complexas e no dia a dia entendem o que é competir e o que precisamos pra evoluir.. fico com a segunda opção. trabalho de ficar escrevendo abobrinha com visao de complexada nao vai nos ajudar em nada..
abraço
Excelente matéria. Agora é com a gente, precisamos espalhar.
“Os bons não podem se calar”
ESSE CARA MORA NA SUIÇA .. DEVE FAZER UNS 30 ANOS QUE NÃO PISA AQUI .. ELE QUER PALPITAR O QUE NA NOSSA EDUCAÇÃO
Compartilho, a quem quiser, o mu blog no qual há um artigo refletindo sobre a reforma. Sou professor da rede pública do estado de sp. O blog é professorkassiano@webnode.com.br
Vão ensinar a meritocracia deles, por exemplo:
1. Nasça rico e estude nas escolas mais caras;
2. Trabalhe para monopolizar um setor, como o de bebidas (como demonstram as conversas de CEOs com investidores banqueiros internacionais);
3. Trabalhe muito próximo ao governo de modo que em uma reforma tributária você seja o mais favorecido do setor;
4. Trabalhe para conquistar uma concessão pública importante, como um setor de transporte ou mineração, e sugue, sugue tudo o que puder, não se preocupe com manutenção da estrutura fornecida pelo governo;
…
Essa é sua visão do apoio de Milionários e empresas à educação? Que pena que vc não conhece o exemplo de outros países como França, Suissa, Dinamarca, EUA, Vietnam, Coréia (do Sul é claro).
Mas eles devem estar errados…bom é um estado grande, que cuida de td.
Meu caro, releia a matéria, as intenções dos “santos” empresários ( na sua ótica) estão claros.
Não estão pensando em mais educação, mais formação intelectual para a população, estão pensando em mais funcionários para a suas fábricas.
Esse é o modelo que você acha ideial? Vamos falar sério.
Nossa cara, como você é burro, tudo o que você está dizendo é burrice.
Excelente reportagem. Não conhecia todas as fundações, só a Lemman. Essa discussão mostra uma polarização sem diálogo de ambas as partes. Pois para aqueles que advogam a “Educação Ideal ” esquecem que na verdade existe diversas formas de educação, e o outro é apenas o inimigo a ser derrotado. Sendo o outro nós mesmos.
No entanto, na real política, não existe educação certa ou errada, estatal ou privada, mas só o lobbyistas mais forte e influente. Assim, creio que aos que não são ouvidos se façam ser, seja nas manifestações, ocupações, associações e partidos políticos e conseguir a tão almejada fatia no bolo do orçamento e sua ideologia nas leis e normas. Bem vindos a democracia, a eterna crise.
Excelente materia. Sem palavras para agradecer por este projeto brasileiro do The Intercept.
Para as pessoas melhorarem seu padrão de vida é necessário, mas não suficiente, que o PIB do país cresça, independente do modelo econômico(socialismo ou capitalismo). Para que o país cresça é fundamental uma mão de obra qualificada.
Parabéns, Helena Borges, pela pesquisa primorosa sobre esses estranhos institutos e fundações, ligados aos rentistas-educadores, que deveriam estar ajudando de fato a formar brasileiros de alta qualidade, conscientes de seu papel social, e não apenas investindo para implantar a produção em série de “chupetões” para um sistema perverso e cheio de iniquidades. Excelente matéria!
Crase: apelido dado Àqueles que…
Ah sim, parabéns pela matéria, Helena!!
Faltou no relatório do Itaú que, devido aos juros mais altos do mundo, o empreendedorismo no Brasil é praticamente inviável, principalmente para os que saem da Universidade com uma ideia empreendedora.
Mais uma matéria excelente da Helena Borges. Parabéns pelo trabalho! [2]
Seus escritos têm a diversidade da Amazônia com a força sergipana do Xingó. Como uma economista, você deu uma excelente entrevista sobre a PEC 241 porque você pediu perguntas precisas e recebeu alternativas específicas. Como uma feminista, seu artigo/vídeo sobre mulheres latinas captura o espírito latinos perfeitamente com estatísticas. Como uma detetive, descobrindo uma morte misteriosa, você mostrou horário em que aconteceu o afogamento do ator global. E agora, como uma educadora, você desmascarou os interesses ocultos e conflitos de interesses com as fundações educacionais, especialmente um Whopper Educação ~ uma educação de grande mentira.
O tipo de comida que servem em Burger King têm um ultra-alto nível de açúcar, sal e gordura saturada que traz desastres, como câncer, obesidade, diabetes e doenças cardíacas. Há também os danos ambientais graves de metano extra e a destruição das florestas tropicais no sudeste asiático, óleo de palma. Estas são as consequências do Burger King de Jorge Paulo Lemann. Um Brasil mais gordo. Um Brasil mais feio. Um Brasil mais doente. E um mundo pior.
Eu admito que eu bebo sua Cerveja Original, mas eu não como sua comida de plástico.
Sim, profundamente precisamos de reforma da educação. Reforma da educação que lhes mostrará os venenos que ingerem em restaurantes como Burger King. Reforma da educação que leva-os fisicamente para a Amazônia para eles verem que eles vivem em uma nação que tem a floresta mais preciosa deste planeta. Reforma da educação que explica-lhes a diferença entre um sistema presidencial e um sistema parlamentar. Reforma da educação que lhes ensina a fato de que não existe almoço grátis, especialmente no Burger King.
Nate Allen, não beba Original não, procure dar preferência para as microcervejarias artesanais…rs
Muito bom o seu comentário!
P.H. Andrade
Tem razão. Uma cultura brasileira artesanal!
Nate Allen: boa.
o mínimo, mas muito mínimo, com que esses e outros fornecedores de insalubridade deveriam OBRIGATORIAMENTE arcar, é com custos extras, mediante TAXAÇÃO ADICIONAL destinada a prover recursos para a SAÚDE PÚBLICA, onerada pelos serviços médicos prestados à clientela dessas organizações produtoras de, em última instância, lucros privados às expensas de ônus público.
Insistimos em “inovar” em buscar soluções “alternativas” em áreas básicas. Ao fim e ao cabo, criamos um caro com “roda quadrada” e nos queixamos depois que o carro não é confortável, pula de mais, etc, etc, etc.
Educação pública de qualidade, reforçar a formação e a valorização profissional dos professores, adoção do tempo integral no ensino fundamental, envolver e conscientizar os pais e toda a comunidade que transita em torno da escola da importância e valorização desse espaço público, que é mais ou menos o que faz a maioria dos países desenvolvidos.
Por favor, vamos ao atacado, depois podemos discutir o varejo (a miríade infernal de discussões a respeito do tipo de educação, se tradicional, construtivista, pós-construtivistas e todo o blá-blá-blá que consiste na cereja do bolo. E por favor tirar os mercadores da discussão que estes vão ajudar muito pouco, se não mesmo atrapalhar no encaminhamento de soluções.
Prezada Helena, sua indignação com a participação dos bilionários na comissão para a reforma do ensino médio entra em contradição com a realidade que os jovens alunos enfrentam ao concluir o ensino médio.
Somente uma pequena minoria dos alunos da rede pública tem a universidade em perspectiva e se por um lado as grandes empresas têm interesse econômico na qualificação dos jovens e na absorção de sua mão de obra, por outro lado a maioria desses jovens também têm interesse (mais que) econômico nas vagas de trabalho e na perspectiva que esses negócios bilionários possam ter a lhes oferecer.
Muitos jovens estudantes do ensino médio têm urgência de vender o trabalho que já sabem fazer, ou de aprender a fazer algo bem logo e descobrir ou construir vocações e habilidades profissionais para ganhar grana o quanto antes. Nesse processo (remunerado e produtivo) de amadurecimento podem resolver fazer um bacharelado ou uma licenciatura (ou não), fazer uma graduação tecnológica (ou não), juntar grana para empreender (ou não), ou para estudar, viajar, ou ajudar a segurar as pontas em casa, que às vezes é o que dá para fazer.
O problema é que hoje o pobre do jovem sai da pior escola do país apto a fazer sabe o quê? NADA! Ele sabe tudo o que um terço de vida lhe ensinou na prática sobre gente, arte, design, conectividade, sociedade, política, comunicação, negociação e sabe-se lá o que mais, mas não tem condição de desenvolver um game, um app, uma ong, uma barbearia, um boteco que seja!, nada!, porque ele não conquistou em 10 anos de educação pública os requisitos mínimos para aprender a fazer o que quer e poderia fazer se tivesse sido melhor instruído. Daí na melhor das hipóteses o pobre vai virar massa na obra, trabalhar na roça, tirar pó e repor prateleira de supermercado, atravessar a madrugada no posto de gasolina, vai ser trocador de ônibus (se der conta da tabuada), se esconder numa linha de produção e na pior, menos incomum do que a gente gostaria, vai roubar, vender droga, se prostituir…
Perceba que a realidade de grande parte deles é dura e não há política de assistência social que dê conta de uma demanda desse tamanho entende? Mesmo porque não é uma demanda fisiológica que tem um preço, mas uma demanda de realização. E ee o setor privado (que também tem responsabilidade sobre o estado de bem estar social) não entrar no jogo para acomodar os jovens que mostrem interesse na sua proposta, quem vai abraçar a todos? O estado? Eu? Você? Ou a intelectualidade acadêmica, que supostamente deveria compor o conselho em vez dos empresários e que protesta indignada com suposto (e infundado) fim das licenciaturas, mas do ensino médio como o diabo foge da cruz (e escarnece do colega que encaram o desafio de enfrentar uma sala de aula no ensino médio público) porque paga mal, porque só tem selvagem, porque a gestão é incompetente e daí por diante?
Mesmo falando palavrões capitalistas como eficiência, produtividade, lucratividade, trabalho, profissionalismo, qualificação de mão de obra e por aí vai, quem sabe os “bilionários” que seu texto demoniza podem ter algo a contribuir com a formação dos jovens e sua realização pessoal? Tenho certeza que esses cabeções do setor privado têm maior disponibilidade para ouvir aos cabeções da educação do que estes últimos se dão a ouvir seja quem quer que seja, porque a despeito do discurso, ninguém sabe de nada nesse mundo como um acadêmico acha que sabe, principalmente se for marxista, kkkkkk!
Falta aos profissionais da educação a disposição de ouvir o que o setor privado tem a dizer sobre educação e sobre a falta dela. Não tem nada demais. Não precisa concordar, mas ouvir não fará mal a quem pretende ser democrático.
Ótima matéria, apesar de nada animadora. Mostrar quem é quem neste processo é essencial para conseguimos observar onde querem chegar, eles entenderam mais uma vez que a educação e a chave pra disseminar o tipo de pensamento técnico e burocrático, essencial para seus negócios.
Matéria magnífica. Pesquiso esse tema no doutorado e foi de grande contribuição pra mim. Parabéns a autora pela excelente pesquisa.
Excelente matéria.. peço licença para divulgar essa ideia: A Revolução que todos queremos: https://setimarepublica.wordpress.com/2016/11/04/a-revolucao-que-todos-queremos/
Conheço várias dessas pessoas, que têm históricos que vão muito alem do que está aqui escrito. Sugiro aprofundar a pesquisa.
Mais uma matéria excelente da Helena Borges. Parabéns pelo trabalho!
Bilionários querem que as escolas formem operários, trabalhadores e mão de obra barata! O resto é utopia…
Excelente mapeamento dos agentes defensores desse tipo de reforma no sistema educacional.
parabéns
Rômulo Castro – Prof. Sociologia CEFET-RJ