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Os paralelos entre o referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit), em junho, e o chocante resultado da eleição presidencial dos EUA vencida por Donald Trump são enormes. As elites (fora dos círculos populistas de direita) se uniram fortemente contra os dois movimentos, independentemente de suas posições ideológicas. Os apoiadores do Brexit e de Trump foram chamados de primitivos, estúpidos, racistas, xenofóbicos e irracionais pela narrativa da mídia dominante (seja de forma justificada ou injustificada).
Em ambos os casos, jornalistas que passaram o dia conversando no Twitter e se reunindo com seus grupos sociais em círculos exclusivos nas capitais dos países — reafirmando constantemente sua sabedoria em um interminável círculo vicioso — estavam certos da vitória de Clinton. Depois dos resultados, as elites, que tiveram suas certezas destroçadas, investiram todas as suas energias em responsabilizar tudo e todos que viam pela frente, exceto a si mesmos, ao mesmo tempo em que reafirmavam seu desmedido desprezo por aqueles que os contestaram, recusando-se a analisar as verdadeiras causas do voto de insubordinação.
É fato inquestionável que as principais instituições de autoridade no Ocidente, por décadas, tentaram de forma incansável, e cheios de indiferença, comprometer o bem-estar econômico e a segurança social de dezenas de milhões de pessoas. Enquanto a elite se esbaldava em globalismo, mercados livres, apostas financeiras em Wall Street e guerras sem fim (que enriqueceram seus autores, mas enviaram pobres e setores marginalizados da sociedade para arcar com seus fardos), também ignorava completamente as vítimas de sua ganância, exceto quando as vítimas reclamavam muito — causando tumultos — e, logo, eram chamados de forma pejorativa de trogloditas que mereciam perder no glorioso jogo da meritocracia global.
O recado foi ouvido em alto e bom som. As instituições e os setores elitizados que passaram anos zombando, difamando e saqueando grande parte da população — enquanto acumulavam um histórico de fracassos, corrupção e destruição — estão surpresos por suas ordens e direcionamentos terem sido ignorados. Mas seres humanos naturalmente não obedecem a pessoas que consideram ser os principais responsáveis por seu sofrimento. Fazem exatamente o oposto: os desafiam e tentam impor castigos como forma de retaliação. As ferramentas usadas para a retaliação foram o Brexit e Trump. Esses são seus agentes, enviados em uma missão de destruição. Destruição de um sistema e de uma cultura que consideram, com razão, estarem tomados por corrupção e, acima de tudo, desprezo por eles e por seu bem-estar.
Logo após o referendo que optou pelo Brexit, escrevi um artigo detalhando essa dinâmica e não vou repetir os argumentos aqui, mas espero que os interessados o leiam. O título deixa claro o cerne do artigo: “O Brexit é apenas a mais recente prova da insularidade e do fracasso das instituições ocidentais”. Essa análise foi inspirada por um texto curto, porém perspicaz, sobre o Brexit no Facebook e, agora, mais relevante do que nunca, de Vincent Bevins, do Los Angeles Times, em que diz: “Brexit e o Trumpismo são respostas incorretas para perguntas legítimas que as elites urbanas se recusaram a responder por 30 anos”; em particular, “desde os anos 80, as elites de países ricos exageraram, levando todos os lucros e tapando os ouvidos quando os outros falavam, e agora estão horrorizadas assistindo à revolta dos eleitores”.
Aqueles que se retiraram da câmara de eco de autoafirmação da elite pró-Clinton não tiveram dificuldade em perceber os sinais de alerta enviados pelo Brexit. Esses dois trechos de uma entrevista que dei ao site Slate em julho deste ano — aqui e aqui — resumem esses graves perigos: as elites formadoras de opinião estavam unidas de uma forma extremamente incestuosa e tão distantes da população que decidiria essas eleições, sentiam tanto desprezo por ela, que não foram capazes de observar as tendências em favor de Trump e, além disso, aceleraram essas tendências involuntariamente com seu próprio comportamento.
Como quase todo mundo que viu as pesquisas e modelos dos autointitulados especialistas em dados da mídia, eu acreditava que Clinton venceria, mas não era difícil perceber os motivos pelos quais ela poderia vir a perder. O pisca-alerta piscava em neon há muito tempo, mas em lugares fétidos, cuidadosamente ignorados pelas elites. As poucas pessoas que, acertadamente, visitaram esses lugares, como Chris Arnade, puderam vê-las e escutá-las claramente. Ignorar continuamente esse intenso, mas invisível, sofrimento garante o seu crescimento e fortalecimento. Este foi o último parágrafo de meu artigo, em Julho, sobre as consequências do Brexit:
“Ao invés de reconhecer e corrigir suas falhas fundamentais, [as elites] estão dedicando suas energias para demonizar as vítimas de sua corrupção, a fim de deslegitimar as queixas e, assim, se livrar da responsabilidade de resolvê-las de forma significativa. Essa reação serve apenas para reforçar a percepção de que essas instituições da elite são irremediavelmente egoístas, tóxicas e destrutivas e, portanto, não podem ser reformadas, devem ser destruídas. Isso, por sua vez, só assegura que haverá muitos outros Brexits, e Trumps, em nosso futuro comum.”
Para além da análise do Brexit, há três novos pontos sobre os resultados de ontem que gostaria de enfatizar, já que são exclusivos das eleições dos EUA de 2016 e, principalmente, ilustram as patologias da elite que resultaram nisso:
A lista de seus bodes expiatórios é previsível: Rússia, WikiLeaks, James Comey, Jill Stein, Bernie Bros, veículos de mídia, meios jornalísticos (incluindo, talvez com especial destaque, o The Intercept) que “pecaram” ao publicar artigos negativos sobre sua candidata, Hillary Clinton. Quem achar que o que aconteceu em estados como Ohio, Pensilvânia, Iowa e Michigan pode ser atribuído a um dos itens dessa lista está se afogando em mar de ignorância tão profundo que fica impossível expressar isso em palavras.
Quando um partido político é derrotado, a responsabilidade final pelo ocorrido (conforme defendi após a derrota da esquerda nas eleições municipais no mês passado) é de uma única entidade: o próprio partido. É tarefa do partido e do candidato, e de ninguém mais, persuadir cidadãos a apoiá-los e encontrar meios para fazê-lo. Na noite de ontem, os democratas claramente fracassaram na realização dessa tarefa, e qualquer artigo de pensamento progressista ou comentário pró-Clinton que não comece e termine tratando de seu próprio comportamento, não tem nenhum valor.
Em suma, os democratas decidiram de forma voluntária nomear uma candidata extremamente impopular, vulnerável e envolvida em escândalos de corrupção, que era considerada por muitos como protetora e beneficiária dos piores componentes da corrupção dessa elite. É surpreendente que nós que tentamos reiteradamente alertar os democratas de que a nomeação de Hillary Clinton era uma grande aposta, que toda a evidência empírica mostrava que ela poderia perder para qualquer candidato republicano e que Bernie Sanders seria um candidato muito mais forte, especialmente nesse contexto, estejam agora sendo culpados pelas mesmas pessoas que insistiram em ignorar todos os dados e nomeá-la da mesma forma.
São apenas mecanismos de transferência de culpa e autopreservação. O crucial é o que tudo isso revela sobre a mentalidade do Partido Democrata. Pense no tipo de pessoa que eles escolheram como candidata: alguém que, quando não estava jantando com monarcas sauditas e sendo saudada por tiranos em Davos que lhe deram cheques de milhões de dólares, percorria os corredores dos bancos de Wall Street e de grandes corporações, enchendo os bolsos com honorários de 250 mil dólares por cada discurso secreto de 45 minutos, embora já fosse extremamente rica com a venda de seus livros, e embora seu marido já tivesse ganhado milhões de dólares da mesma forma. Ela fez tudo isso sem a menor preocupação sobre como isso contaminaria a percepção dela e do Partido Democrata, como ferramentas corrompidas, aristocráticas e protetoras do status quo de que se beneficiam os ricos e poderosos: o pior comportamento possível para esta era pós-crise econômica de 2008, globalizada e repleta de fábricas destruídas.
Não é preciso dizer que Trump é um sociopata vigarista, obcecado com seu enriquecimento pessoal: o oposto de um verdadeiro defensor dos oprimidos. Isso é muito óbvio para ser discutido. Mas, como fez Obama com sucesso em 2008, ele pôde se apresentar como um plausível inimigo do sistema de Washington e Wall Street, que prejudicou tantas pessoas, enquanto Hillary posa de leal guardiã e beneficiária máxima desse sistema.
Trump jurou destruir o sistema que as elites tanto amam (por um bom motivo) e as massas odeiam (por motivos igualmente justificáveis), enquanto Clinton prometeu administrá-lo de maneira mais eficiente. Essa, como o indispensável artigo de Matt Stoller para The Atlantic documentou três semanas atrás, foi a escolha conivente que o Partido Democrata fez décadas atrás: abandonar seu apelo popular e se tornar o partido dos tecnocratas proficientes, dos gerentes do poder da elite pouco benevolentes. Essas são as sementes de cinismo e interesse próprio que foram plantadas, e agora essa plantação está sendo colhida.
É claro que há diferenças fundamentais entre a versão de “mudança” de Obama e a de Trump. Mas em termos gerais – exatamente como essas mensagens são geralmente assimiladas – os dois eram percebidos como forças externas em uma missão para derrubar as estruturas da elite corrupta, enquanto Clinton era vista como devota do fortalecimento delas. Essa foi a escolha dos democratas – satisfeitos com as autoridades do status quo, acreditando em sua bondade –, e qualquer tentativa honesta de encontrar o principal responsável pela derrota de ontem deve começar através de um grande espelho.
Não foi a toa que todos os presidentes americanos até 2008 foram brancos e que todos os 45 presidentes eleitos sejam homens. Não há dúvida de que essa patologia teve um papel fundamental no resultado de ontem. Mas este fato responde a muito poucas questões, e levanta outras cruciais.
Para começar, deve-se encarar o fato de que Barack Obama foi eleito duas vezes e está prestes a deixar o cargo como um presidente extremamente popular: com uma avaliação mais positiva que a de Reagan. Os EUA não eram menos racistas e xenófobos em 2008 e 2012 do que são agora. Mesmo democratas irredutíveis que gostam de classificar seus oponentes como fanáticos agora reconhecem que uma análise mais complexa se faz necessária para entender o resultado dessa eleição. Como disse Nate Cohn, do New York Times: “Clinton sofreu suas maiores derrotas em lugares onde Obama era mais forte entre eleitores brancos. Não é simplesmente uma história de racismo”. Matt Yglesias reconheceu que a alta aprovação de Obama é inconsistente com a caracterização dos EUA como se fosse um “país envenenado pelo racismo”.
As pessoas frequentemente falam sobre “racismo/sexismo/xenofobia” versus “sofrimento econômico” como se fossem totalmente distintos. É claro que há elementos substanciais de ambas as coisas na base eleitoral de Trump, mas as duas categorias estão intimamente ligadas: quanto mais sofrimento econômico as pessoas enfrentam, mais irritadas ficam, e se torna mais fácil direcionar sua insatisfação para bodes expiatórios.
O sofrimento econômico muitas vezes alimenta o fanatismo. É verdade que muitos dos eleitores de Trump são relativamente mais ricos e que muitos dos mais pobres da nação votaram em Clinton, mas, como Michael Moore advertiu, essas partes do país que foram mais afetadas pelo livre comércio e pelo globalismo – Pensilvânia, Ohio, Michigan, Iowa – estavam repletas de raiva e “veem Trump como um possível coquetel molotov humano que eles gostariam de lançar no sistema para explodi-lo”. Esses estados foram decisivos para a vitória de Trump.
Como disse Tim Cartey, do Washington Examiner: “Eleitores brancos de baixa renda do interior da Pensilvânia votaram em Obama em 2008 e em Trump em 2016, e sua explicação é a supremacia branca? Interessante”.
Low-income rural white voters in Pa. voted for Obama in 2008 and then Trump in 2016, and your explanation is white supremacy? Interesting.
— Tim Carney (@TPCarney) November 9, 2016
Acabar com estas desigualdades estruturais é, há muito tempo e ainda hoje, um desafio central para os EUA. Mas uma maneira de garantir que essa dinâmica de bodes expiatórios perdure, em vez de sucumbir, é continuar a abraçar um sistema que exclui e ignora uma grande parte da população. Hillary Clinton foi vista, com razão, como devota fiel, agente reverenciada e grande beneficiária desse sistema, e, portanto, não poderia ser vista como uma protagonista da luta contra ele.
Como resultado, o presidente dos EUA comanda um vasto arsenal nuclear que poderia destruir o planeta inteiro mais de uma vez; o mais letal e mais caro exército já desenvolvido na história da humanidade; autoridades legais que lhe permitem executar inúmeras guerras secretas ao mesmo tempo, prender pessoas sem o devido processo legal, e selecionar pessoas (inclusive cidadãos americanos) para serem assassinadas sem supervisão alguma; agências domésticas de aplicação da lei, construídas para parecer e agir como um exército paramilitar; um Estado penal crescente, que permite prisões com mais facilidade do que a maioria dos países ocidentais; e um sistema de vigilância eletrônica propositadamente projetado para ser onipresente e ilimitado, inclusive no território dos EUA.
As pessoas que vêm alertando sobre os sérios perigos que esses poderes representam têm sido desprezadas com base no argumento de que esses líderes que controlam o sistema são benevolentes e bem-intencionados. Portanto, recorreram à tática de incentivar as pessoas a imaginarem o que aconteceria se um presidente que consideram pouco benevolente chegasse ao poder. Esse dia chegou. Espera-se que essas circunstâncias, no mínimo, criem o ímpeto de que as linhas partidárias e ideológicas se unam para finalmente impor limites a esses poderes que nunca deveriam ter sido outorgados. Esse empenho tem de começar já.
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Por muitos anos, os EUA — assim como o Reino Unido e outros países do ocidente — embarcaram em um rumo que praticamente garantiu o colapso da autoridade da elite e uma implosão interna. A invasão do Iraque, a crise financeira de 2008, a situação do sistema prisional e as guerras sem fim, os benefícios obtidos pela sociedade foram dirigidos quase que exclusivamente às instituições de elite, principais responsáveis pelo fracasso e às custas de todo o resto.
Era apenas uma questão de tempo para que tudo isso resultasse em instabilidade, reações e rupturas. Tanto o Brexit quando a eleição de Trump são sinais inequívocos desse resultado. A única questão é se estes dois eventos serão o ápice deste processo ou apenas seu começo. E isso, por sua vez, será determinado pelo aprendizado – e internalização – dessas importantes lições, ou se serão ignoradas em favor de campanhas que lavam suas mãos de culpa e a direcionam para outros.
Excelente artigo. De uma lucidez rara no jornalismo nacional. Aproveito para sugerir que vejam o documentário Requien For The American Dream, com Noam Chosmky, iluminado intelectual, discorrendo notadamente sobre o que o Greenwald nos fala: `É fato inquestionável que as principais instituições de autoridade no Ocidente, por décadas, tentaram de forma incansável, e cheios de indiferença, comprometer o bem-estar econômico e a segurança social de dezenas de milhões de pessoas. Enquanto a elite…` Não percam! Uma lição para compreendermos o que o mundo passa hoje e, em especial, o alvo principal dessa elite destruidora: o nosso Brasil (existe video do próprio Greenwald com esse tema). Obrigado, Glenn, por optar em viver (n)o Brasil!
Excelente análise!!
mas as pessoas medianamente inteligentes entendem bastante bem..somente jornalistas que tem dificuldades.
Ótimo artigo Glenn,
agora é ficarmos com os olhos bem arregalados pois as cartas foram lançadas com a vitória de Trump. Qual é o próximo passo dessa dessa guerra de Massas x Elites?!
Poderiam ter louvado Sanders e não Trump. Para mim teria sido uma resposta muito mais coerente às elites.
Na parte: “Era apenas uma questão de tempo para que tudo isso resultasse em instabilidade, reações e rupturas. Tanto o Brexit quando a eleição de Trump são sinais inequívocos desse resultado”. depois da palavra Brexit, é quanto e não quando.
Concordo em grande medida com os argumentos apresentados, mas creio que Greenwald subestima a probabilidade de Trump ser cooptado e passar a jogar o jogo dessa mesma elite. Os impropérios ditos durante a eleição teriam sido, nesse caso, apenas estratégia eleitoral rasteira, com a “traição” das aspirações dos eleitores vindo logo em seguida. Sinais de contemporização por parte da elite já eram vistos antes mesmo do término da eleição, a medida que a vitória do “republicano” se delineava.
Não sei a que ponto ele seria mais danoso para o povo trabalhador norte americano ou, para humanidade……
Sensacional!! Parabéns pela excelente análise dos fatos.
Caro Glenn.
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Os motivos da derrota dos Democratas está ficando cada vez mais escancarado e só não o enxerga quem não quer ver, pretextos serão dados por muitos principalmente criticando o que se convencionava chamar a décadas a “maioria silenciosa”.
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Porém acho que o que está falhando na descrição deste fenômeno é o método operativo e praticamente natural de como foi realizada esta vitória.
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Acompanhei durante a campanha as pesquisas eleitorais e a opinião do mainstream político da imprensa e do grande capital, excetuando raríssimas exceções durante toda a campanha a eleição de Clinton eram favas contadas. A certeza com que manipulavam as pesquisas junto com as opiniões pessoais contra Trump fez com que esta campanha fosse as das mais assimétricas da história norte-americana, Clinton era uma certeza de vitória, apesar da maioria citar as fragilidades desta candidatura e por outro lado Trump era a expressão do mal configurada pela palavra POPULISMO.
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Se colocou um dilema ao povo norte-americano, confiam em Clinton e ela os levará lentamente ao inferno do desemprego da guerra e da perda da qualidade de vida, porém tudo isto, dentro das expectativas do mercado! A outra opção era simplesmente aderir a uma proposta que era dita “POPULISTA”, pois não se encaixavam nas regras do “MERCADO”, e com ela o povo seria levado ao inferno.
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A opção do eleitor norte-americano me pareceu aquela que o falecido Millor Fernandes no seu humor caustico disse uma vez:
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– O Brasil sempre está na beira do precipício, talvez a solução seja o precipício!
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Pois bem, o eleitor norte-americano escolheu o precipício.
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Porém estou enrrolando e não chegando ao ponto principal que é o objetivo do comentário.
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Como que contrariando a toda a grande e até a pequena imprensa, contrariando economistas, professores e demais membros “cultos” da inteligência norte-americana o eleitor contrariou a vontade desta e procurou o precipício como solução?
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Talvez esteja aí a maior incógnita, entretanto tenho uma opinião baseada mais em algo empírico do que científico que mostra o caminho e a orientação a esta solução que para a inteligência era e é arriscada.
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Atribuo a vitória de Trump assim como outras vitórias estranhas que estão ocorrendo a um fator que está se deixando passar ao largo, a influência da imagem junto a mensagem.
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Como sou bem mais idoso e fui influenciado por profetas da nova comunicação, como Marshall McLuhan que mesmo falecido a quase 40 anos moldou algumas frases e posições célebres que as novas gerações parecem não compreender apesar de estarem imersas nela.
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O determinismo tecnológico que induz a imagem junto a palavra leva ao homem moderno mais confiança na mensagem do que por outras formas. Textos longos e descritivos são extremamente importantes para uma pequena fração de pessoas, que por hábito profissional ou mesmo por vontade, se permitem lê-los e refletir sobre os mesmos, porém o homem médio normal foi treinado a ficar até duas horas concentrado assistindo um filme ou até um documentário sobre a vida dos suricatos! Porém, não foi treinado, exceto durante o seu período escolar (que na maior parte das vezes faz tudo para esquecer) em ficar mais de quinze minutos lendo um texto longo ou assistindo os massantes programas políticos onde cada jornalista pretende mais mostrar o seu conhecimento do que informar ao público.
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Desta forma, entra com facilidade no lar do homem comum norte-americano, brasileiro ou mesmo o europeu, os famosos vídeos do YouTube ou de outros aplicativos. Estes vídeos, que até o momento são tratados como uma espécie de SUBCULTURA pelas pessoas do mainstream, são dominado geralmente por personalidades narcisistas e até certo ponto agressivas que se deleitam a repassar impropriedades a todos colocando antes de tudo a sua imagem a público.
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Esta SUBCULTURA que progride em Vlogs e congêneres, não servem somente para coisas fúteis como arrumar uma válvula de descarga, mas sim servem para influenciar a política e dar coragem ao homem comum a testar o precipício como solução.
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Estou me alongado demais, porém poderia ir bem mais adiante nesta hipótese que faço sobre a formulação da nova política e a sua interrelação com o meio que a divulga, porém isto fica para outro comentário, se achares relevante.
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Um abraço.
Caro Glenn,
Parece que é mais do que hora de esquecer a ideologia que floresceu após a queda do muro de Berlim, segundo a qual não mais existem diferenças entre a direita e a esquerda. Foi justamente essa aproximação da esquerda às políticas da direita que permitiu a eleição de partidos et de projetos políticos de direita – e que um golpe tenha sido possível, como no Brasil.
Os eleitores das classes mais empobrecidas, muitas vezes chamados de despolitizados porque votam à direita, conservam o poder de reagir ao sofrimento que lhes são impostos por governos que se apresentam como de esquerda, mas que defendem uma agenda de direita ou de centro, centro-esquerda, mas raramente claramente de esquerda.
Seria interessante comparar esses movimentos recentes de eleições de candidatos e projetos que parecem absurdos (Brexit, Trump, Crevella, golpe de Temer, mas também a amplitude de movimentos de direita, no Brasil, nos Eua, na Europa inteira) com as eleições recentes na Islândia. Aconteceu nesse país um processo político inspirador para pensar e fazer política. Com um trabalho próximo da população, e com uma capacidade de discutir política depois da crise de 2008, a Islândia não buscou uma saída desesperada em candidatos de direita e em projetos incoerentes.
Esperando que a França possa aprender com essas lições antes das próximas eleições, em 2017,
Saudações!
Ou bem vocês assumem a “compracracia”, ou bem vocês assumem a Democracia pelo voto direto. Em 2000, vocês enfrentaram por semanas a dúvida de quem fora eleito (se Al Gore, se W. Bush) graças a esse intrincado sistema eleitoral. Ok, “olha a diferentona brasileira falando!”, porém se mais de 54 milhões de eleitores votam em um dos dois nomes propostos e 54 é maior que 48, só sendo um mimizento moleque mauricinho derrotado nas eleições para contestar a verdade numérica.
Um grande abraço!
Há anos eu tento entender o sistema eleitoral dos EUA sem conseguir. Sempre atribuí isso à ignorância minha, afinal, a maior e mais bambambam das democracias modernas deveria saber o que fazia. Agora, com uma candidata com mais votos diretos perdendo para o outro, vencedor num colégio eleitoral, percebi que eu estava entendendo sim, só não acreditava que fosse possível. Para além e mais na superfície do que as análises corretas deste artigo, está uma constatação bem singela: lá, como cá, vive-se uma crise de representatividade.
Ótimo artigo; muita lucidez!
Abraço
enriquecedor !!!!!
Fico feliz em poder ler uma tão boa analise.
Aliás, previ com meus alunos em sala a vitoria do Trump a cerca de 20 dias, não pensei na questão do status quo que Hillary representava; mas, no que seu adversário representava – acreditava eu – um olhar para dentro de seu próprio país como oposição a globalização da economia, mais especificamente, com relação aos empregos.
Excelente análise! Parabéns!
Foi uma das melhores avaliações até agora, principalmente no tocante ao ponto três, quando ambos os partidos democrata e republicano se uniram para fomentar um sistema de poder que somente tem como objetivo roubar as riquezas de países que não se submetem a sua cartilha colonialista e terrorista.
Seu artigo foi um dos melhores que eu já li até agora sobre a nefasta vitória de Trump. No entanto também considero que tanto os democratas como os republicanos são belicistas, invasores e não respeitam a soberania dos países, principalmente aqueles que têm riquezas energéticas importantes para que a grande elite se aproprie semeando golpes, o que está acontecendo recentemente no meu país. E quem paga o pato? Os países invadidos e os pobres cidadãos americanos.
Querido Glenn.
Em primeiro lugar quero o parabenizar por nós prestigiar com seus excelentes artigos e pelas suas análises brilhantes e perspicazes.
Muitos brasileiros (ou cidadãos do mundo) acham que O POVO AMERICANO elegeu o Trump, mas a verdade e que a Hillary ganhou no voto direto. Ou seja: o POVO americano votou na Hillary, que ganhou por margem estreitíssima no voto direto. O que decidiu mesmo foi o colégio eleitoral. O colégio eleitoral é quem elegeu o Trump.
Michael Moore fez questão de enfatizar hoje esse fato no seu Facebook.
Minha pergunta é:
John F. Kennedy também foi eleito com margem estreitíssima de votos, ganhou -acho- com 0,01% de diferença no voto direto, mas no colégio eleitoral ganhou por uma diferença de 84 votos. Porque não se repetiu o mesmo resultado em relação ao colégio eleitoral ?
Michael Moore está correto ao afirmar que foi o colégio eleitoral quem elegeu Trump e não o povo americano ?
O artigo de Michael Moore para a Huffington Post foi perfeito na análise de estratégia que Trump usaria nos debates, ele puxou a questão do NAFTA diversas vezes pq foi um tratado que afetou diretamente a indústria dos estados dos grandes lagos (conhecidos como Rusty Belt), estados nos quais ele precisava atrair votantes.
E como o Gleen disse essa baixa empatia do partido democrata com setores importantes dos eleitores além da escolha de Hillary como candidata do partido só afastaram ainda a população.
Grande parte dos que votaram na Hillary fizeram mais por obrigação de tentar barrar o Trump e não por que acreditavam nela, principalmente os eleitores de Bernie Sanders, que Moore no seu artigo chama de “Eleitores deprimidos de Sanders”. Enquanto do outro lado Trump tinha eleitores dedicados que estavam afim de simplesmente acabar com a política atual dos democratas que eles viam (com razão) personificada em Hillary Clinton.
Os democratas foram completamente egocêntricos e displicentes em perceber essa movimentação do eleitorado e todos os sinais negativos que iam se convergindo em volta de Trump.
A subordinação do partido à Wall street e seu afastamento da classe média industrial lhes custaram essas eleições.
Amigo não estou me referindo a este artigo do Michael Moore na qual ele prévia a vitória de Trump, escrito em Julho no Huffington Post. Me referi ao “5 coisas para se fazer hoje, não a tempo para lamentar” que ele escreveu no Facebook…
Neste Moore diz que quem elegeu Trump não foi o povo americano, mas o colégio eleitoral (Moore diz outras coisas tambem) Porque Hillary ganhou por pequena margem no voto direto.
Sim, Wellington, o Moore está corretíssimo, e não só ele, né? Mas o que se vê como aberração (eleger-se um presidente que perdeu nos votos diretos) tem um motivo de ser fundamental: o Colégio Eleitoral deles garantiu uma estabilidade institucional por dois séculos impedindo justamente o surgimento de uma terceira ou quarta força partidária, à esquerda ou à direita, que rivalize com esse establishment político de sempre.
Ou seja, democratas e republicas, apenas eles, continuarão a se revezar no poder, e vez ou outra trocando as bolas (“conteúdos programáticos”) sem maiores danos, hum, ideológicos.
Porque pensa bem: desde quando republicanos são considerados protecionistas? Ah, mas foi exatamente por causa do cinturão industrial que os democratas (protecionistas por tradição) perderam, né?
E, acho eu, os “independentes” acabam sendo irrelevâncias eleitorais contra o funcionamento desse sistema indireto. Que o Trump seria mais uma balela dessas se… se ele não conseguisse sair como candidato pelo partido republicano.
Aliás, mesmo como presidente, apesar de todo o temor generalizado desse estilo perigoso do Trump, ele não passará de uma marionete do partido, que além das maiorias do Congresso e no Senado, agora ganhou o Executivo.
Resumo da ópera, Wellington: a função do Colégio Eleitoral é, no país da livre concorrência econômica, obstruir a formação, o crescimento e a concorrência partidária-eleitoral, simples assim.
Muito bom ter um site de jornalismo imparcial com notícias nacionais e internacionais, leio – o diariamente. Amei a análise. Hillary é lobo em pele de cordeiro e Trump não esconde ser um lobo, penso que foi isso que o favoreceu.
Análise impressionante. Com os textos do TheIntercept é possível ver um estilo bom de escrever que ajuda até para outras áreas.
Acho que a parte mais impressionante do texto é o ponto 3. Deixam claras as possibilidades do futuro.
É um privilégio ter análises suas na nossa língua, Glenn.
Excelente artigo!!! Ao acompanhar alguns dos noticiários americanos notei exatamente isso uma auto análise por parte do partido democrata, e me pergunto se o candidato tivesse sido Bernie, haveria chance real de vitória ?
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