Em março deste ano, às vésperas do desfecho do impeachment de Dilma Rousseff, um dos procuradores da Lava Jato, Carlos Fernando dos Santos Lima, se mostrou preocupado com a possibilidade de interferência do governo Michel Temer na força-tarefa. O procurador da República chegou a elogiar os governos Lula e Dilma – cujos integrantes são os principais alvos da operação – por não tentarem controlar as investigações, e ainda mandou um recado para o governo não-eleito que tomaria o poder:
“Aqui temos um ponto positivo que os governos investigados do PT têm a seu favor. Boa parte da independência atual do Ministério Público, da capacidade técnica da Polícia Federal decorre de uma não intervenção do poder político, fato que tem que ser reconhecido. Os governos anteriores realmente mantinham o controle das instituições, mas esperamos que isso esteja superado.”
Os governos citados pelo procurador eram compostos pelo mesmo grupo político que acabou de assumir o poder. Era a época de Geraldo Brindeiro, que ficou conhecido como Engavetador Geral da República. Dos 626 inquéritos criminais que recebeu, o Brindeiro engavetou 242 e arquivou outros 217. Por isso, diante desse modus operandi, não era de se estranhar a preocupação de Carlos Lima, que mandou um recado claro quando perguntado sobre a possibilidade de Temer e sua turma assumirem o governo:
“Em um país com instituições sólidas, a troca de governo não significa absolutamente nada. Quero crer que nenhum governo no Brasil signifique alterações de rumo no Ministério Público, no Judiciário, na Polícia Federal. Deveria ser assim. Queremos simplesmente que as instituições continuem livres para continuar a fazer o que a lei exige delas”
Pois é. Apesar do mantra “as instituições estão funcionando normalmente” ser repetido exaustivamente pelo governo e por jornalistas, a realidade tem mostrado que o temor do procurador era pertinente. Na última terça-feira, o líder do governo, deputado André Moura (PSC), protocolou um pedido de urgência para a tramitação do PL 3636/2015 – a chamada Lei de Leniência –, do qual também é relator.
É, meus amigos, agora temos o PL do Apocalipse para fazer companhia para a PEC 241.
Esse projeto de lei simplesmente muda as regras para delação premiada das empresas envolvidas em corrupção, permitindo que o governo acerte acordos de leniência com elas sem envolver o Ministério do Público e sem a fiscalização do TCU. Caso esses acordos sejam acertados, as empresas não poderão mais ser processadas judicialmente. É, meus amigos, agora temos o PL do Apocalipse para fazer companhia para a PEC 241.
E eles estão realmente com pressa. André Moura (PSC), por orientação do Planalto, passou o dia correndo atrás da assinaturas de deputados para aprovar com prioridade o projeto. E conseguiu. O pedido de urgência foi assinado por líderes dos principais partidos da base governista, entre eles PMDB, PSDB, PP, PSB, PSC e PTB. O currículo do líder do governo talvez ajude a entender o motivo de tanta pressa. Aliado muito próximo de Eduardo Cunha, o deputado é um dos alvos da Lava Jato, responde a uma série de inquéritos na Justiça, é réu em três ações no STF, já foi condenado por improbidade administrativa em segunda instância e é acusado de tentativa de assassinato. Este é o homem que Michel Temer escolheu para liderar seu governo na Câmara.
Cunha passa instruções para seu fiel escudeiro, André Moura (PSC) - que hoje é líder do governo Michel Temer na Câmara (Alex Ferreira/Câmara dos Deputados)
No fim do mês passado, o mesmo procurador que havia mandado um recado para o governo em março, questionou:
“O presidente da Câmara (Rodrigo Maia) está falando em colocar em votação a nova Lei de Leniência. E não houve discussão a respeito dela. Será que não querem brecar grandes leniências que estão prestes a acontecer no Brasil e que vão entregar, possivelmente, muitos fatos envolvendo o status quo político?”
A resposta é óbvia e podemos encontrá-la nas conversas vazadas entre Romero Jucá (PMDB) e Sérgio Machado (Transpetro), em que o deputado ressalta a importância do impeachment para abrir espaço para um grande acordo nacional e estancar a sangria da Lava Jato. Vamos reviver alguns trechos que ajudam a entender a atual movimentação do governo para driblar a operação:
Jucá – Você tem que ver com seu advogado como é que a gente pode ajudar. Tem que ser política, advogado não encontra [inaudível]. Se é político, como é a política? Tem que resolver essa porra… Tem que mudar o governo para poder estancar essa sangria.
Machado – Tem que ser uma coisa política e rápida. Eu acho que ele está querendo… o PMDB. Prende, e bota lá embaixo. Imaginou?
Machado – Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel.
Jucá – Só o Renan que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha’. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.
Machado – É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.
Jucá – Com o Supremo, com tudo.
Machado – Com tudo, aí parava tudo.
Jucá – É. Delimitava onde está, pronto.
Machado é filiado ao PMDB e foi ex-senador pelo PSDB, portanto sabia muito bem sobre o que estava falando. Jucá, então, nem se fala. Chega a impressionar como o roteiro revelado em março está se cumprindo nos mais mínimos detalhes. Impossibilitados de controlar diretamente a Lava Jato, a turma capitaneada por Michel Temer claramente busca uma solução política para delimitar a operação e estancar a sangria. A pressa do governo em acelerar o projeto se justifica quando percebemos que as empreiteiras estão caguetando governistas importantes como José Serra (PSDB) e Paulo Skaf (PMDB). Essa semana também ficou comprovado que Michel Temer recebeu em sua conta eleitoral R$ 1 millhão não declarado do presidente Andrade Gutierrez.
Não há mais dúvidas de que o Poder Executivo está trabalhando com afinco para driblar a Lava Jato. Além da nova Lei da Leniência, a Operação Estanca Sangria do governo está empenhada em outras frentes na Câmara para delimitar as investigações, como o projeto que anistia o caixa 2, defendido abertamente pelo ministro Geddel. O grupo político que articulou o impeachment e tomou o poder tenta agora jogar areia nos olhos das investigações indiretamente, através desse tipo de traquinagem na Câmara.
Procuradores da Lava Jato chegaram a convocar entrevista coletiva para criticar essas ações do governo. O procurador Carlos Fernando, o mesmo que se mostrava preocupado com o novo governo pós-impeachment, declarou que o projeto “libera totalmente as pessoas de qualquer responsabilidade criminal” e “prejudica tanto que não teríamos mais uma Operação Lava Jato”.
Apesar das tramóias previstas no script estarem sendo cumpridas à risca, os agentes governistas da Operação Estanca Sangria ainda estão longe de um final feliz. Sem a mesma habilidade política da salamandra escorregadia que ocupava o seu cargo, Rodrigo Maia – que havia dito que a urgência seria votada na quarta-feira no plenário – mudou o rumo da conversa após as críticas ao governo. Ambos os projetos foram engavetados provisoriamente, mas, conhecendo a turma, novas investidas virão. Há um roteiro a se cumprir.
Prezado João Filho, bonito o seu artigo para os inimigos do fortalecimento das empresas brasileiras. Os americanos devem adorar este tipo de conversa.
Nós brasileiros, independente de Temer, Dilma, Lula, temos que zelar pelo fortalecimento da nossa economia. Em primeiro lugar a ECONOMIA. Não podemos destruir a Petrobras nem as nossas empresas de engenharia. É isto que está acontecendo em nome desta Cruzada Contra a Corrupção.
O combate à corrupção não pode ser em detrimento das nossas grandes empresas. Seu artigo interessa aos americanos, ou seja, danem-se as grandes empresas brasileiras contanto que a corrupção seja combatida.
Seu artigo está mais para John Sun do que para João Filho.
Que estranho. Normalmente, tudo o que eu leio no Intercept e que a Lava Jato nao e nada mais do que um esquema para remover o PT do poder. Por que agora o Intercept decide se posicionar em defesa da Lava Jato?
Lilian, o texto não toma nenhum posicionamento em relação à Lava Jato.
Boa reportagem. Mas o jornalista se ilude com as falas pseudo-indignada do boquirroto procurador Carlos Lima. A Fraude a Jato JAMAIS teve ou tem o efetivo propósito de combater a corrupção. Se alguma indignação há por parte dos integrantes da ORCRIM da Fraude a Jato é porque a quadrilha política do PMDB se colocou à frente e tomou o poder, ocupando a chefia do governo; o desejo e propósito claro da Fraude a Jato era e é colocar o PSDB na chefia do governo. Ou o ilustre jornalista não relaciona a colocação de Pedro Parente na presidência da Petrobrás e José Serra no MRE como grande quinhão de poder dado ao tucanato. Mais: quem está por trás da MP-746, de reforma do ensino médio? Com quem ela trabalhou? Esse era ministro da Educação de qual governo? A quadrilha do PMDB tenta salvar a pele, mas quem governa e o projeto ultra-neoliberal é do PSDB. Infelizmente muitos jornalistas e analistas experientes não perceberam isso.
Faz anos que assisti pela primeira vez o vídeo de John Perkins no youtube (comprei também os 2 livros dele), onde ele fala das agências americanas que subornam ou coagem governos do 3º mundo a ceder as estruturas de seus países para essas corporações. Acho que agora é bem pior pois estariam contratando agentes dentro do próprio País, e quanto maior o pedigree do agente interno, maior é o seu suborno, como políticos, por exemplo. E como esses recursos que são usados para pagar esses agentes não deve vir do tesouro americano, maiores ficam as suspeitas de que podem estar vindo de qualquer fonte, inclusive de tráfico de armas e drogas Depois de ler na internet de que a Cia traficava drogas e a confirmação veio com o filme “Kill the Messenger”, ou no Brasil ficou só “O mensageiro”, ou ler que o Afeganistão supre quase a totalidade do ópio mundial, depois que o exercito americano tomou aquele País, maiores fica a convicção de que estariam usando como fonte de recursos para “patrocinarem” o caos pelo Planeta.
O que me impressiona é a cegueira do povo diante disso.
Sem apoio da população isso vai acabar acontecendo. O desgoverno não vai ceder. O MBL não vai bater panela. A esquerda tá tentando se refazer, mas para que ela tenha sucesso é preciso que o povo aprenda a ser crítico, crítico no sentido de analisar, e perceber que o anti-petismo foi uma jogada do PSDB, e PMDB, para fazer o povo acreditar que, o PT é o criador de todos os males do Brasil. Assim enquanto esses dois partidos tiverem o apoio da grande mídia para dizer que a situação está perfeitamente normal, mantendo desinformados da maldade que estão fazendo, o governo age sorrateiramente para aprovar a lei de anistia. Primeiro passo é cortar as asinhas da lava jato, que já foi longe o bastante. Enquanto o pau quebrava nas costas dos petitas tava tudo certo. Agora com essas delações a coisa não vai prestar. E quem era aplaudido ( república de Curitiba) passa de herói a vilão, por isso, o senado tenta aprovar à lei sobre abuso de poder, que já estava engavetada a muito tempo, de fato, é uma boa lei, mas só pode ser usada em caso de emergência, “para salvar à democracia brasileira” do abuso do judiciário, só para eles saberem com quem estão se metendo. Depois disso, é só comemorar, se o judiciário sofrer essa derrota, o povo, num vou nem comentar.
Veja este link de 2006 Temer e o que era pré e o que seria pós coalizão, relato de um embaixador de EUA após conversar com Temer https://wikileaks.org/plusd/cables/06SAOPAULO689_a.html
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