Nossa política entrou num grau de disputa e esquizofrenia tão complexo que o fato de um ministro de Estado pedir demissão de seu cargo por ser pressionado por um superior se transformou num fato heróico. Não tornara-se apenas heróico, ele também se mostrou mais eficiente que a força de tantos protestos e demonstração de insatisfação com o governo. Pensemos nas críticas e protestos sucessivos recebido pelo governo Temer desde sua posse. Pense em quantos “Fora, Temer!” você ouviu. Quantas críticas à maneira como tudo isso se deu. Pense quantas pessoas que engrossaram a quantidade de figuras com camisa da seleção brasileira pedindo a saída da ex-presidenta Dilma nunca mais voltaram às ruas, ou por endosso ao atual governo, ou envergonhadas.
Nada disso parou o governo Temer e sua forma de conduzir a política. Mas eis que um homem forte do governo resolve renunciar, acuado, vendo seu poder e influência sendo incapazes de reverter as evidências de corrupção e abuso de poder e, muito de repente, o próprio presidente Temer pode ficar na berlinda de tal maneira que não ficara em nenhum momento até agora desde que assumiu.
Em grande parte, o que temos mesmo é o resultado do nosso cinismo. Marcelo Calero é mais um daqueles casos em que qualquer migalha de coragem ou aparência de ousadia honesta preenche a carência popular.
Calero estava no time porque compunha o time.
É fato que a decisão de Calero foi determinante para desequilibrar e embaralhar o tabuleiro do jogo político em Brasília. Tudo parece estar absolutamente indefinido. Ao que parece, um poder desequilibrado não se equilibra imediatamente de novo, e as peças do jogo não são repostas no lugar automaticamente. Calero estava no time porque compunha o time. Temer jamais colocaria alguém fora de seu raio de confiança, e Calero cumpriu bem essa missão.
Apoiou todas as decisões de Temer, foi contrário aos movimentos de resistência pela permanência do Ministério da Cultura e agiu com omissão (escondendo uma adesão) quando foram executadas as ações de reintegração de posse nos movimentos de ocupação no Rio de Janeiro e em São Paulo. Marcelo Calero que criticou de maneira veemente a equipe do filme Aquarius, pelas críticas que fizeram ao novo governo e terem se referido ao mesmo como um governo que se valeu de um golpe para chegar ao poder.
Sim, podemos ser gratos a Calero, não tenhamos dúvida. Mas antes do elogio festivo à sua “honestidade”, é importante considerar que sua “honestidade” não foi acionada enquanto Michel Temer montava seu horroroso ministério branco-hetero-machista, com as figuras mais truculentas da política brasileira. A honestidade de Calero nunca o colocou em rota de colisão com a gestão do PMDB no Rio de Janeiro, estando à frente da organização das comemorações dos 450 anos da cidade, sem qualquer desaprovação ou crítica (coerente com quem se diz escandalizado com a maneira como o mundo político funciona) às diversas repressões exercidas na cidade, ao longo de 2014 e 2015, como aquelas contra as manifestações contra o fim de importantes linhas de ônibus, que prejudicou tantos moradores das zonas Norte e Oeste da cidade.
Podemos ser gratos a Calero, mas parece que ele teve muito mais o seu ego ferido do que a consciência afrontada. Se um poder desequilibrado não se equilibra novamente de maneira rápida e imediata, as fissuras e brechas do governo Temer ainda estão muito expostas. Ao mesmo tempo em que o poder tenta se rearticular, após o impeachment, ele vai também criando as suas disputas internas, as demonstrações de forças entre nomeados, indicados, aliados e protegidos. Geddel se achou forte o bastante, influente o bastante, mas não contou com dimensão da ambição de um político tão jovem. Se esperava um Calero submisso e acuado, o que teve foi um Calero ambicioso e ousado o bastante para enfrentá-lo ao se sentir pressionado.
O Calero que sai denunciando Geddel é também o Calero que criou uma ideia “genial” e que, no seu entendimento, urgentemente necessária para o Rio de Janeiro, seu estado: separar o estado do Rio de Janeiro do estado da Guanabara. Empenhado nisso, Calero idealizou “O Rio decide”, uma plataforma que serve para estimular um plesbiscito em que a população do Rio iria escolher se deseja ter o “Rio para os cariocas”. A ambição de Calero pode ter sido fator determinante para que ele enfrentasse Geddel, mais do que seu compromisso com a ética e a não concordância com os trâmites naturalizados na política brasileira.
Parece que o governo Temer só é de fato ameaçado pela sua capacidade de se auto sabotar com o quadro político que tem. Se ganha de um lado, com as velhas articulações em benefício próprio, com a distribuição pesada de cargos, acordos e privilégios, o governo perde diante da forte disputa interna e a fortíssima rejeição ao governo, de outro.
Temer vai ficando cada vez mais desgastado com as trocas sucessivas de ministros, o avanço de fechamento de cerco da Lava-jato e as seqüência de denúncias que constantemente estão esbarrando em nomes do governo.
Se, por um lado, a força das ruas parece ser ignorada com o avanço do governo que resiste em recuar de propostas impopulares e de necessidades duvidosas como a PEC 55 e a reforma do ensino médio, por outro, a sociedade se satisfaz com as ações solitárias de heróis cínicos, que também estão inseridos na disputa, mas que, às vezes, pela força da disputa, eliminam uns aos outros, publicizando suas ações. E a conclusão triste desta história é que, ao que parece, apenas eles são capazes de derrubar a si mesmos.
Parabéns por esta análise lúcida e contundente sobre como é fácil iludir uma população tão mal informada e carente de “heróis” nacionais, quando na realidade os que mais se aproximam de verdadeiros heróis são, por exemplo, as classes trabalhadoras e estudantil, organizadas para contestar, que expõem seus corpos nas ruas à truculência da polícia armada, ou os jornalistas e pensadores que ao emitir suas ideias também se expõem ao abuso de poder da ‘justiça’. Sua análise nos ajuda a “pensar certo”, como dizia nosso ilustre pedagogo Paulo Freire!
Bravo,bravo e bravo Ronilson Pacheco.Uma excelente aula gratuita,para este povo em insiste em glamourisar o lixo que está aos poucos sendo exposto do grande ” chiqueiro ” que anda falta colocar gasolina e queimar todos que fazem do nosso País, seu ” quintal eleitoral.
Talvez ele e Geddel não sejam assim tão diferentes, afinal. Os baianos devem lembrar (e quem mais se interessar pode pesquisar) a respeito da criação do estado do São Francisco, que surgiria da porção oeste dividida da Bahia.
Nunca mais saiu para as ruas? De onde você tiru essa informação? A propósito, dia 4 tem manifestação contra a corrupção, você vai?
Que texto bom de se ler. Faz tempo que não leio matéria tão bem escrita e com uma conjuntura tão bem analisada. Parabéns ao escritor e à Intercept pela qualidade jornalística.
Ronilso, texto excelente!
Marcelo Caléro, candidato a deputado federal em 2010 pelo PSDB, cujo número era 4560 é cínico. Ponto. Ele NÃO É, NUNCA FOI, herói de qualquer cidadão atento, observador e bem informado. Caléro serviu aos governos de Eduardo Paes e Sérgio Cabral, como mostrado na matéria. Caléro se gaba de ser um ‘diplomata de carreira’, mas é como qualquer político que se declara apolítico, como João Dória Jr. e Alexandre Kalil. O falso verniz diplomático só esconde um jovem e ambicioso político, que aceitou fazer parte de um ministério composto por corruptos profissionais; Caléro sempre soube disso e aceitou fazer parte de um governo golpista, uma quadrilha oligárquica da pior política que há nesse País.
Marcelo Caléro aceitou ser secretário de cultura (já que o extinto MINC tinha sido rebaixado para uma desprestigiada secretaria) de um governo em que o ministro da educação recebe em seu gabinete um porno-ator, com sugestões para a educação pública (depois se soube que o porno-ator queria mesmo é se encontrar com michel temer, que transferiu o mico para o desqualificado e corrupto que nomeou para a pasta da edukassão). Como mostrado na crônica-reportagem, Caléro foi omisso em relação à desocupação dos prédios do MINC e fez críticas à equipe do filme Aquarius, que denunciou o golpe de Estado no Brasil, quando o filme foi exibido em Cannes.
Por fim, devemos lembrar que Marcelo Caléro é alinhadíssimo com José Serra, atual ocupante do MRE, acusado de receber R$23 milhões em propina, da Odebrecht, em contas na Suíça. Um sujeito assim só é herói dos mal informados, dois ingênuos, dos incautos ou daqueles cheios e má-fé.
Desculpe, mas não podemos misturar orientação política com crime. Calero tem todo direito de integrar o governo de direita do Temer, que queiramos ou não encontrou legitimidade institucional pelo Supremo. Foi golpe? Claro. Mas institucional. Dentro da lei.
O que Temer e seu governo fizeram agora foi crime constitucional, facilmente tipificavel como tráfico de influência. É razoável que alguém que integre um governo encontre nisso razão para se demitir. Não se pode misturar orientação política com crime; nem é possível misturar o governo do golpe branco com a complacência ou discordância contra um crime.
Francamente, acho que o Intercept poderia estar fazendo um excelente trabalho investigativo e de escrutínio político, mas esta se tornando apenas um Conversa Afiada internacionalizado.
Ótimo texto!
As pessoas, em geral, não perceberam que Calero agiu em causa própria. Não existe um herói. Não existe um “salvador da pátria”.
A denúncia que Calero fez foi em atendimento ao PSDB, tudo parte do script. PSDB pega o poder em eleição indireta e Calero já já se filia ao partido para concorrer ao governo do Estado.
Ronilson, excelente análise! Os arroubos “idealistas” do ex-ministro o isolaram e o expurgaram do time. Sua saída era uma questão de tempo. Seu discurso no fantástico de que por ser diplomata está acostumado às liturgias e protocolos, não condizem com suas condutas “inapropriadas” . Eu diria q sim há esquizofrenia mesmo nessas vaidades.
Excelente matéria com a qual concordo infelizmente face a nossa realidade aterradora.
Ele é um tucano, com artigo recente com o $erra e que errou na data, ou foi apressado pelas circunstâncias. Seu objetivo era favorecer a queda do Temer em 2017 e a eleição indireta de outro tucano ou assemelhado…
Texto perfeito, de uma lucidez cristalina.
Como se Macunaima não fosse a síntese do Brasil e dos brasileiros,,,
Caro Ronilso, sua avaliação de que o governo Temer sofreu um impacto paralisando e está totalmente aturdido nesse momento, me parece correta. Vejo assim também. Que isso foi resultado da ação de Calero, também tenho que concordar inteiramente. Mas não posso assentir com o paralelo com as manifestações do Fora Temer. São coisas distintas. Os gritos de Fora Temer! servem, entre outras coisas, a juntar uma coletividade que se coloca do outro lado do fascismo. Já o ato de Calero é um ato isolado, que no fundo está cercado de interrogações. Não creio que tenha sido tão espontâneo, saído de uma indignação democrática de um crente ingênuo. Calero não é ingênuo nem bobo. Não descobriu de repente que Temer não é ético, e que sua turma é mafiosa. Há muita coisa para se revelar ainda sobre o gesto de Calero. Vamos aguardar o futuro. Abraços.
Excelente Mara!
NA MOSCA!
Realmente triste, o povo está tão cansado, que qualquer faísca já se apegam achando que é a luz do fim do túnel, ñ tem criticidade e discernimento o suficiente, para notar as coisas “exibidas” nas entrelinhas, gostei do texto, o que nos resta é continuar lutando, tendo esperança de que as coisas melhorem, ou partir pra uma guerra civil, retirar todos do poder e fazer tudo novamente, com transparência e tudo o que acontece na política, tudo o que for votado ser mostrado em tempo real, cortar super salários e dar-lhes ajuda de custo necessários ao sustento do seu cargo, nada de luxo afinal eles deveriam governar para o povo e ñ para si mesmos. porém é uma utopia, ainda assim ñ custa nada sonhar!
Caro Ronilso, muito bom seu artigo. E Mara, não entendi a questão colocada pelo articulista como um paralelo e sim como um contraponto. Triste constatar que os jogos do poder dos golpistas influam mais na conjuntura do que as pressões do movimento social.