Um dia de comoção nacional. Quando todos os olhos se voltavam para o trágico acidente de avião da Associação Chapecoense de Futebol, em que 71 vidas foram repentinamente ceifadas, na noite da terça-feira, 29, parlamentares se aproveitaram da fragilidade da população e “fizeram da crise uma oportunidade”.

Enquanto a maioria dos brasileiros ainda estava em choque, profundamente abalada pelo desastre aéreo, fora dos holofotes, na calada da noite, as duas casas do Congresso votaram, cada uma, um projeto polêmico. O que pode ser chamado de, no mínimo, um golpe baixo – já que ambos vão contra a vontade popular.

A Câmara dos deputados aprovou o texto-base do projeto das dez medidas contra a corrupção. O pulo do gato: apesar de desistirem de propor a anistia ao caixa dois, os parlamentares retomaram a proposta que possibilita punir e constranger juízes e procuradores do Ministério Público. Somente PPS, PSOL, Rede e PV se posicionaram contra a emenda.

O texto final, aprovado por volta das 4h da manhã, descaracteriza completamente a proposta original. Nascidas no próprio Ministério Público, com o apoio popular de mais de dois milhões de assinaturas, medidas como a tipificação do crime de enriquecimento ilícito de funcionário público foram derrubadas. “Do jeito que vai, as dez medidas vão virar meia medida”, protestou o relator do texto original, deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS).

Já o Senado aprovou em sua primeira votação a PEC 55, conhecida como “PEC do Teto” ou “PEC do Fim do Mundo”, que congela os gastos do governo por 20 anos. Apresentada como única saída e constantemente cobrada pelo ministro da fazenda Henrique Meirelles, a proposta tem, sim, alternativas, mas elas não interessam ao mercado financeiro.

“É preciso atender a voz das ruas”

Foi o que disse Michel Temer em coletiva convocada no domingo, dia 27. Dois dias depois, no entanto, a hipocrisia se escancara: manifestantes eram massacrados nos jardins do planalto por se posicionarem contra a PEC do Teto enquanto senadores aprovavam a proposta a portas fechadas.

Abaixo, fotos do coletivo Mídia Ninja mostram a transformação dos jardins da Esplanada em campo de guerra.

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Foto: Mídia Ninja/Naiara Pontes

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Foto: Mídia Ninja

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Foto: Mídia Ninja

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Foto: Mídia Ninja