O sorriso forçado causado pela contração involuntária dos músculos faciais chama-se ríctus. Nada que não seja familiar, temos visto bastante essa expressão facial cretina. Ela pode aparecer em cadáveres, em doentes de tétano, nas vítimas do gás do riso criado pelo vilão Coringa e em presidentes ilegítimos. Esse riso postiço, que faz as extremidades da boca levantarem-se num arco perverso, é chamado desde a antiguidade de “sorriso sardônico”.

Vale ir à origem da expressão, criada por Homero no século VIII A.C. Ele contava a história de um povoado fenício na ilha da Sardenha cujos habitantes mais velhos, sem condições de se sustentar, eram assassinados com uma poção da planta Oenanthe crocata. (Ainda não era possível emplacar uma reforma da previdência como hoje planeja o governo.) Conhecida por “nabo do diabo”, a erva da Sardenha tem folha semelhante à salsa e é extremamente tóxica – sua natureza exata é uma uma descoberta científica recente, de 2009. Os envenenados por ela apresentam o mesmo sorriso bizarro e irônico no rosto, daí a descrição do poeta grego.

A palavra “sardônico”, para a tristeza dos habitantes da bela ilha italiana, ficou assim associada a sarcasmo, zombaria e malícia. Ao longo da história da arte, a humanidade tentou representar o mesmo sorriso espasmódico em caricaturas grotescas (penso na fase negra de Goya ou em alguns detalhes infernais de Bosch) e, em todo o esplendor de sua ambiguidade, em obras como a “Mona Lisa” e a “Dama com arminho” de Leonardo.

O Brasil é a capital mundial da trollagem

Mas é cerca de 2.800 anos depois da invenção do termo que o riso sardônico ganha sua forma definitiva ao retratar um personagem onipresente: o trollador da internet. Criada pelo artista Carlos Ramirez em 2008, a imagem do trollface virou um hit instantâneo. A estética de MS Paint e seu traço grosseiro e infantil foram no nervo do zeitgeist da zoeira – quando cada um é um assediador moral em potencial projetando seus traços sociopatas via internet, milhões se sentiram representados pelo bonequinho sacana e seu sorriso de desprezo.

Para muitos o Brasil é a capital mundial da trollagem. Somos conhecidos por floodar a internet, destruir o clima de jogos multiplayer online e entupir a timeline do Mark Zukerberg de spam. Nossa indústria de memes é incomparável. Faz certo sentido, pois, que tal movimento seja coroado com a ascensão de um verdadeiro troll à presidência.

Afinal, se antes do impeachment, o autor do verso “embarquei na tua nau” já escrevia cartinha zueira pra Dilma e vazava áudio com seu discurso de posse, depois de ocupar a cadeira o poeta admitiu que o impeachment foi uma encenação, escolheu como líder do governo Romero Estancar Essa Sangria Jucá, agradeceu a jornalistas “por mais uma propaganda e disse que as instituições, que até a empreitada do golpe eram “sólidas”, não são mais. O que fez depois? Riu da sua cara.

Uma quadrilha de cleptocratas limpando o país da corrupção ou um governo ético de esquerda tendo o PMDB como principal aliado?

Ele tem motivos para tal. Temer, ligado a dezenas de escândalos de corrupção e principal articulador do partido-câncer do Brasil desde os anos 90, está zoando com todos, começando por liberais de araque de grupos como o MBL e paneleiros lobotomizados pela Globonews e passando por marxistas de DCE e vermelhinhos mortadela em geral.

No fim das contas, ambos extremos do espectro ideológico unem-se pelo mesmo incondicional talento para a esperança: se uns acreditaram que uma quadrilha de cleptocratas iria limpar o país da corrupção, os outros acreditaram num governo ético de esquerda tendo o PMDB como principal aliado. Evidentemente, nada disso jamais teve o menor risco de dar certo para o país.

A partir das manifestações deste domingo, dia 4 de dezembro, talvez seja a hora de se unirem, paneleiros e mortadelas, contra o troll maior. Ou ficaremos todos a ver seu sorriso sardônico de cadáver ambulante triunfar sobre a vontade do povo.