A criação do The Intercept, e, subsequentemente, do The Intercept Brasil, foi motivada por um objetivo central: fazer um tipo de jornalismo que, por alguma razão, não estivesse sendo oferecido à sociedade de forma satisfatória. Portanto, estamos extremamente felizes em poder anunciar a chegada de Ana Maria Gonçalves, nossa nova colunista, já que seu trabalho contribui enormemente para esse fim.

Por conta da publicação em 2006 de “Um Defeito de Cor”, romance de 952 páginas sobre uma escrava trazida para o Brasil que compra sua alforria e vai em busca de seu filho perdido, Gonçalves se tornou uma das vozes mais importantes do mundo em assuntos raciais e culturais. O livro, que abrange oito décadas, conecta o Brasil moderno com seu passado escravocrata e, assim como a personagem principal, enfrenta as mais complexas e persistentes interações entre política, raça, cultura e poder. O livro está sendo adaptado para uma minissérie a ser exibida no ano que vem.

O jornalismo feito por Gonçalves tem um valor especial para o The Intercept porque discute como a questão racial se manifesta no âmbito político e cultural, ao mesmo tempo que elucida sobre os mais importantes debates sobre o assunto nos EUA. Por esse motivo, vamos publicar suas colunas em português e inglês. Gonçalves foi escritora-residente e deu aulas em Tulane, Stanford e Middlebury, e se especializou no papel exercido pela questão racial na política e cultura dos dois países.

É fascinante o papel exercido pela questão racial no Brasil, tanto por ser único quanto por ser universal. O país foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão (em 1888), e, assim como nos EUA, esse pecado histórico continua a moldar instituições e identidades de uma forma que a sociedade em geral prefere ignorar.

A elite brasileira é um tanto obcecada por negar que o país enfrenta um problema de racismo, mesmo quando as evidências são inquestionáveis e onipresentes. O chefe do departamento de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, optou por registrar essa posição em um livro chamado “Não somos racistas”, que foi largamente aplaudido pela mídia oligárquica brasileira, como era de se esperar. Tal negação é de uma ironia particular vinda dessa elite, dada a escandalosa escassez de diversidade existente nesses mesmos veículos de comunicação.

Gonçalves se tornou uma voz de liderança ao criticar essa mentalidade de forma geral e, mais especificamente, Ali Kamel. Um dos maiores perigos em um país ter apenas cinco famílias controlando todos os grandes meios de comunicação (a Globo em particular com uma hegemonia indescritível) é a dificuldade em se manter uma carreira em jornalismo ao criticar esses veículos e seus executivos de alto escalão.

Um dos principais objetivos do The Intercept Brasil é servir de plataforma para que posições críticas, como as de Gonçalves, possam atuar e escrever sobre as instituições mais poderosas do país sem temer represália. Estamos ansiosos por ver mais do seu trabalho e temos certeza de que será estimulante e elucidativo tanto para quem nos lê em português quanto inglês. Fomos criados para produzir precisamente esse tipo de jornalismo.