Algumas horas ao sul de Tucson, no Arizona, do outro lado da fronteira, há uma pacata comunidade mexicana, chamada Sásabe. As ruas são desertas, as calçadas, esburacadas em algumas partes, cobertas por uma terra arenosa em outras. Assim como inúmeras outras cidades por toda a fronteira, Sásabe não parece um lugar onde pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham, casam e criam seus filhos. Lembra mais uma cidade por onde as pessoas passam, projetada para uma população de itinerantes e migrantes planejando cruzar a fronteira. Um lugar para descansar. Um lugar para comprar água e comida. Um lugar para pensar na jornada até ali e se preparar para os desafios que estão por vir. Ao meio-dia, o calor é de cegar. Depois do anoitecer, o deserto é frio e impiedoso. Há poucas lojas e restaurantes, mas nenhum centro definido na cidade. Sásabe há muito tempo aceitou a realidade de sua infeliz localização. Tudo parece transitório, as casas parecem estar prontas para fazer as malas e partir se fossem convidadas. Uma imagem: um aglomerado de construções anônimas de cores pálidas ao norte do árido matagal. É claro que o muro interromperia a travessia. A característica mais marcante de Sásabe é a grade na fronteira, ao norte, delimitando o começo e o triste fim da cidade.

Na verdade, a grade na fronteira é a única construção de Sásabe que parece minimamente permanente.

O escritório do Grupo Beta fica na Calle Primera, não muito distante da fronteira. O prédio não tem numeração, o que não é necessário em uma cidade tão pequena. Visitei a cidade em setembro de 2011, alguns dias depois de uma incomum tempestade. O deserto reagiu com tímidas pitadas de cor — um cacto brotando aqui, uma dose de verde ou vermelho ali. Não era muita coisa, não era uma renovação, apenas sugeria uma ideia de novo. Ainda assim, a paisagem e suas cores mortas pareciam de súbito cheias de possibilidade. Digo isso porque quando penso no Grupo Beta, imagino uma cor. Os funcionários — eram três quando cheguei — vestiam macacões laranjas, quase um uniforme espacial, como se sua missão fosse o ensaio de uma viagem a um planeta distante. Não é por acaso, obviamente, há um quê de viagem interestelar no trabalho deles. O Grupo Beta foi fundado pelo governo mexicano nos anos 90 para ajudar imigrantes. Eles oferecem assistência, consultoria e abrigo. Mas, como os funcionários me explicaram naquele dia, sua tarefa principal não era ajudar imigrantes a atravessarem a fronteira. Pelo contrário, eles foram largados no inóspito deserto de Sonora para dissuadi-los. Para dizer a eles: “Não, não vale a pena. Voltem para casa”. Os imigrantes que aceitam a sugestão recebem uma passagem de ônibus sem volta para casa subsidiada pela Grupo Beta.

O objeto central no escritório pouco mobiliado do Grupo Beta era um mapa do deserto de Sonora. Ele mostrava ruas, estradas e cidades à beira da fronteira com o Arizona, mas não servia de guia para os imigrantes. Quando muito, servia de alerta. O mapa tinha diversas cruzes, uma para cada corpo encontrado desde que o escritório tinha sido aberto. Dezenas e mais dezenas de cruzes. Era essa a mensagem do Grupo Beta para os imigrantes.

“Será que funcionou?”, perguntei.

Não exatamente.

Imagine, disseram os funcionários do Grupo Beta: você vem de El Salvador ou de Honduras. Ou de Chiapas. Fugindo de algo, seja da extrema pobreza, dos narcotraficantes, dos maras e sua violência homicida. Corrupção. Um coração partido. Um casamento malsucedido. Ou está em busca de algo: sua família no outro lado do muro e um futuro que parece tão próximo que não precisa de muito esforço da imaginação. A imagem se forma diante de seus olhos: grama verde e casas de veraneio, ou grandes cidades repletas de mulheres, trabalho e dinheiro pronto para ser gasto. Você deixou sua terra natal. Sobreviveu à Besta. Foi roubado, extorquido, espancado ou estuprado, e agora está aqui. Chegou tão longe. Pode ver a linha de chegada.

Ou, pelo menos, sente que está muito perto dela.

Para essas pessoas, disseram os funcionários de uniforme laranja, essas cruzes no mapa do deserto não querem dizer nada. Elas não parecem reais. Como convencer homens e mulheres que arriscaram tudo e não temem a nada de que eles não podem simplesmente continuar andando?

Não dá. Mas, ainda assim, você diz para eles, sabendo que eles vão fazer a travessia ao anoitecer, sabendo que alguns deles vão terminar sendo cruzes no mapa.

Desde 2001, pelo menos 2.600 imigrantes morreram tentando fazer a perigosa travessia entre o México e o Arizona. Cada círculo na imagem interativa abaixo corresponde ao local de uma das mortes registradas.

Fatal Migrations - Josh Begley

Imagem interativa: Visualização das mortes de imigrantes no Arizona, 2001-2016. Os dados são cortesia de Humane Borders e dos Médicos Legistas do Condado de Pima.

Josh Begley

Texto por Daniel Alarcón. Visualização de dados por Josh Begley. Alarcón é autor de At Night We Walk in Circles (À Noite, Andamos em Círculos) e produtor executivo da Radio Ambulante. Professor da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia.