Nos Estados Unidos, não existe registro oficial do número de pessoas mortas pela polícia. Para preencher essa lacuna, meios de comunicação e organizações não governamentais têm recolhido dados sobre esses incidentes.

O novo projeto do artista de dados Josh Begley, “Policial envolvido”, usa bancos de dados sobre violência policial compilados pelo The Guardian para apresentar o problema sob um novo ângulo. O projeto de Begley (assim como outros projetos de sua autoria) é uma intervenção que traz à tona a violência inerente ao nosso modo de vida. “Policial envolvido” revela a ausência de inocência no mundo à nossa volta e, sem sensacionalismo nem sentimentalismo, nos desafia a repensar as profundas injustiças que muitos de nós aceitam como normais.

Fila após fila, vemos fotografias de esquinas, ruas, subúrbios, cidades, todos os cenários à luz do dia, praticamente sem qualquer presença humana. Todas essas imagens, apesar da misteriosa beleza poética evidente em algumas delas, foram capturadas indiscriminadamente pelo olho onisciente do Google em vista aérea ou no nível da rua. Depois, elas foram selecionadas e dispostas num conjunto por Begley. De certa forma, em nada diferem das outras fotos obtidas pelo Google Maps. Todavia, quando observamos estas fotos em particular, estamos também compartilhando a última visão de outro ser humano. Trata-se de uma imersão no ambiente em que alguém viveu seus últimos momentos de vida.

Se for verdade, conforme suspeitavam nossos antepassados, que os mortos continuam a exercer alguma influência nos lugares onde viveram e morreram, então o projeto fotográfico de Begley é uma manifestação dessa perspectiva.

É incrível a tranquilidade dessas cenas, filtradas por uma luz viva e claridade brilhante. Parecem lugares insignificantes, mas todos eles estão carregados de significado aos olhos de quem neles perdeu seus entes queridos. São todos locais de morte prematura, lugares onde alguém foi assassinado e, em sua maioria, constituem registro de um crime sem castigo nem restituição.

A paisagem americana está repleta de incidentes desse tipo. Os assassinatos extrajudiciais sempre foram trivializados, mas agora o próprio ato de reportá-los também está se tornando trivial. Esse é o valor do projeto de Begley: nos reposicionar em um espaço sóbrio, um espaço de contemplação. É importante termos acesso aos números, mas uma intervenção afetiva como esta é vital para compreendermos o quão difícil é suportar a impunidade atual e as cicatrizes que deixa em nós, nas ruas que percorremos e nos lugares que habitamos.

— Teju Cole, autor de “Cidade Aberta” e crítico de arte fotográfica da New York Times Magazine