O mais conhecido mercenário dos EUA, Erik Prince, se espreita às sombras do novo governo de Donald Trump. Um ex-oficial sênior do governo dos Estados Unidos que atuou como conselheiro na transição para a presidência de Trump contou ao The Intercept que Prince tem assessorado a equipe de transição na área de inteligência e defesa, inclusive na escolha da equipe dos departamentos de Defesa e de Estado. O oficial pediu para não ser identificado devido a uma política de transição que proíbe a discussão de assuntos confidenciais.

Na noite da eleição, Stacy DeLuke, postou fotos de dentro da sede de campanha de Donald Trump enquanto o candidato e seu vice, Mike Pence, assistiam à divulgação dos resultados, incluindo uma fotografia tirada bem de perto de Pence e Trump com suas famílias. “Conhecemos algumas pessoas que trabalharam bem próximo [a Trump] nesta campanha”, escreveu DeLuke. “Aguardando a entrada dos números ontem à noite”. Valeu muito a pena esperar!!!! #PresidentTrump2016.” A irmã de Prince, Betsy DeVos, foi indicada por Trump para ser secretária da educação, enquanto Prince (e sua mãe) doaram altas quantias de dinheiro para o Comitê de Ação Política (Super PAC) de Trump.

Em julho, Prince disse ao assessor sênior de Trump e supremacista branco Steve Bannon, à época, editor chefe do site Breitbart News, que o governo de Trump deveria criar uma nova versão do Programa Phoenix, grupo assassino da CIA que operou durante a Guerra do Vietnã, para combater o Estado Islâmico. O programa, explicou Prince, poderia assassinar ou capturar “os financiadores do terrorismo islâmico, incluindo até os bilionários radicais islâmicos que financiam [o terrorismo] a partir do Oriente Médio, e de quaisquer outras atividades em que estejam envolvidos”.

Prince também disse que Trump é a melhor força para combater o “fascismo islâmico”. “Quanto ao mundo que aguarda a liderança dos EUA, infelizmente, acho que terão que esperar até janeiro, e espero que Trump seja eleito porque, evidentemente, nossos generais não têm estômago para uma briga”, disse Prince. “Nosso presidente [Obama] não tem estômago para uma briga e os terroristas, os fascistas, estão vencendo”.

Um de seus mais recentes projetos é uma proposta de enviar funcionários particulares para trabalharem com as forças de segurança na Líbia e interromper o fluxo de refugiados rumo à Europa.

Prince fundou a conhecida empresa de segurança privada Blackwater, que perdeu todo seu prestígio em setembro de 2007, após seus agentes assassinarem 17 cidadãos iraquianos, incluindo um menino de nove anos na Praça Nisour, em Bagdá. Whistleblowers também alegam que Prince estimulava um ambiente em que os iraquianos eram assassinados como em um esporte. No auge dos escândalos envolvendo a Blackwater, em 2007, outro importante apoiador de Trump, o Deputado Dana Rohrabacher, elogiou Prince, que havia trabalhado em seu gabinete. “Prince”, disse Rohrabacher, “está a caminho de se tornar um herói americano, como foi Ollie North”.

No final das contas, Prince vendeu a Blackwater e, agora, está a frente de uma empresa baseada em Hong Kong, a Frontier Services Group. The Intercept relatou os esforços de Prince para construir uma força aérea privada para ser alugada ou usada usada por seus contatos na inteligência chinesa. Um de seus mais recentes projetos é uma proposta de enviar funcionários particulares para trabalharem com as forças de segurança na Líbia e interromper o fluxo de refugiados rumo à Europa.

Há muito tempo, Prince acredita ser o herdeiro legítimo do legado de “Wild Bill” Donovan (William J. Donovan) e seu Gabinete de Serviços Estratégicos, precursor da CIA. Depois do 11 de Setembro, Prince trabalhou com a CIA no programa secreto de assassinatos, além de oferecer marinheiros do Navy Seals (força de operações especiais da Marinha dos EUA) e outros agentes especiais aposentados para serem guarda-costas no Departamento de Estado e em outros órgãos.

“Não precisamos concordar com os russos em tudo, não precisamos concordar com eles em muita coisa, mas podemos pelo menos concordar que derrotar o ISIS no Oriente Médio é uma ideia muito boa”

Ao responsabilizar esquerdistas e parlamentares Democratas por destruir o império Blackwater, é evidente que Prince vê uma oportunidade de ouro para chegar ao seu merecido posto de guerreiro privado secreto da segurança nacional do Estado americano, já que Trump manifestou interesse em trazer de volta a tortura, sequestros realizados pela CIA e métodos de interrogação avançados, assim como sua promessa de encher Guantánamo de prisioneiros. Conforme informamos no ano passado, “Prince — que se passa por uma mistura de Indiana Jones, Rambo, Capitão América e Papa Benedito — agora trabalha para o governo chinês através de sua empresa de “segurança privada”. Com Trump na presidência, Prince pode acabar trabalhando para Beijing e para a Casa Branca ao mesmo tempo.

O fundador da Blackwater também endossou algumas das declarações de Trump sobre a Rússia, quando disse: “Pense nisto: se Franklin Delano Roosevelt pode negociar com Stalin para derrotar o fascismo alemão na Segunda Guerra Mundial, os EUA podem trabalhar com Putin para derrotar o fascismo islâmico. Não precisamos concordar com os russos em tudo, não precisamos concordar com eles em muita coisa, mas podemos pelo menos concordar que derrotar o Estado Islâmico no Oriente Médio é uma ideia muito boa”. Prince descreveu os democratas como “anti-católicos e anti-evangélicos”, dizendo que o hackeamento e vazamento de dados do Comitê Nacional do Partido Democrata revelou “o desrespeito, o desdém que têm pelo cidadão e eleitor americano comum”.

Prince tem uma relação próxima com o site Breitbart e Steve Bannon, assessor sênior e estrategista chefe de Trump. Prince tem aparecido com frequência — e quase exclusivamente – no Breitbart Radio. Em agosto, Prince elogiou a candidatura de Trump, dizendo para Milo Yiannopoulos, do site Breitbart: “Gosto até de alguns dos projetos dele que faliram, porque as pessoas que fazem coisas, e constroem coisas, e experimentam coisas, de vez em quando, erram, e esse é o poder do sistema capitalista americano”. Prince acrescentou: “Parece que demos as costas para o fato de que trabalho duro, sacrifício, risco e inovação fizeram dos EUA um grande país. Não foi Washington que fez dos EUA um grande país”.

Em setembro, Prince apoiou a proposta de Trump de controlar a produção de dois milhões de barris de petróleo por dia do Iraque. “Para que o Sr. Trump diga que ‘nós vamos tomar o petróleo deles — claro que não vamos tirar [o petróleo] de lá e levar para outro lugar, mas a produção, e implementação de um sistema de pedágio que reembolse os cidadãos americanos por seus esforços para remover Saddam e estabilizar a área é possível e muito plausível”, disse Prince na Breitbart Radio.

A irmã de Prince, Betsy DeVos, é a indicada de Trump para a secretaria de educação e se comprometeu a embarcar em uma cruzada para implementar uma agenda religiosa e de privatizações na área da educação que se assemelha a abordagem de seu irmão na área militar e na CIA. Prince contribui há muito tempo com a campanha do parceiro e guerreiro cristão Mike Pence, e contribuiu com US$ 100 mil para o Super PAC de Trump chamado “Make America Number 1”. A mãe de Prince, Elsa, contribuiu com US$ 50 mil em outro Super PAC. A organização, gerida por Rebekah Mercer, filha do investidor bilionário Robert Mercer, foi uma das maiores investidoras na campanha de Trump.

De acordo com a colunista do New York Times, Maureen Dowd, em dezembro, Prince compareceu ao baile de fantasias anual “Vilões e Heróis”, organizado por Mercer. Dowd escreveu que o fundador da Palantir, Peter Thiel, mostrou a ela “uma foto em seu telefone dele posando com Erik Prince, fundador da empresa militar privada Blackwater, e com o Sr. Trump — que não estava fantasiado — mas brincou que a foto [não era segura para a internet] ’N.S.F.I.’ (Not Safe for the Internet).”

Nem Trump é descarado o suficiente para oferecer a Prince um cargo público em seu governo. Mas Prince está operando às sombras, onde sempre se sentiu em casa.

Foto principal: Erik Prince durante uma entrevista em Washington, em 31 de janeiro de 2014.