Há uma ideia corrente nas redes sociais de direita que defende a existência de uma hegemonia do pensamento de esquerda na mídia internacional. Este delírio antes se restringia às sombras da extrema direita, mas, ultimamente, vem se tornando popular e ganhando força nas redes sociais.
Não é exatamente surpreendente que seja identificada como de esquerda qualquer abordagem mais progressista.Os telejornais, os telejornais policiais e programas que misturam entretenimento com jornalismo ainda são grandes fontes de informação para grande parte dos brasileiros. Segundo pesquisa Ibope divulgada pela Secom, 63% da população se informa sobre o que acontece no Brasil por meio de noticiários televisivos, e 77% afirma ver TV todos os dias da semana. Os programas policiais são um fenômeno de audiência e, invariavelmente, abraçam causas reacionárias. Apresentadores enfurecidos berram condenando suspeitos, discutem com entrevistados, aplaudem violência policial desmedida e repetem a máxima “bandido bom é bandido morto”. A fórmula sangrenta que fere todos os princípios jornalísticos é conhecida. Para quem está acostumado a isso, qualquer artigo no Guardian pode soar como um novo manifesto comunista. Há até quem considere a Folha de São Paulo um jornal esquerdista.
Essa semana, o Balanço Geral DF, da Record, um programa regional que mistura jornalismo com entretenimento e possui réplicas em todos os estados, protagonizou uma cena chocante de racismo. O jornalista e âncora do programa Marcos Paulo Ribeiro de Moraes, também conhecido como “Marcão Chumbo Grosso”, se sentiu à vontade para dizer que a cantora Ludmilla era uma “pobre macaca” antes da fama. Foi assim que ele ilustrou sua indignação com a possibilidade de a cantora não ter tratado fãs com a humildade que ele gostaria. Um caso evidente de racismo, mas a direção do programa tentou justificar no Twitter:
Impressiona a capacidade do programa da Record de subestimar seus telespectadores – não que já não faça isso diariamente. A direção do programa se reuniu e chegou à conclusão que contar essa mentira seria uma saída razoável. É grave demais para um programa que se pretende jornalístico.
Marcão Chumbo Grosso, aconselhado por seu advogado, apresentou outra justificativa para uso do termo “macaca” e recorreu aos “dicionários informais da internet” para provar que não foi racista:
“Nos dicionários informais, que facilmente pode ser visto através da rede mundial de computadores, a expressão “pé de macaco”, é usada como sendo: ‘Diz-se de algo pobre ou desprovido de vantagens ou de acessórios, que varia entre o ruim e o mais ou menos’, inclusive esta expressão de linguagem, é usada também em uma linda canção do Eduardo Costa.”
A pontuação do jornalista e seu advogado chocam menos que a cara de pau. Marcão não é um jovem inexperiente. É macaco velho. Já foi vereador eleito pelo PR (Partido da República) no interior do Tocantins, onde foi acusado de falsidade ideológica.
Após onda de indignação que se levantou nas redes, a empresa do Bispo Macedo não teve outra saída a não ser demiti-lo, e o programa teve o seu perfil deletado do Twitter. Chumbo Grosso deve ter ficado chateado, já que, quando foi contratado, declarou amar a empresa “porque é uma emissora que preza pela família brasileira”.
Este não é um caso isolado. Humilhar minorias na televisão é uma prática recorrente. No último dia 8, a repórter Fabélia Oliveira, do programa Sucesso no Campo, da Record Goiás, criticou o samba enredo da Imperatriz Leopoldinense, que aborda o conflito entre agronegócio e índios do Xingu. Na ânsia em defender o agronegócio, a repórter foi buscar inspiração no período colonial para tratar índios como se fossem pedras no sapato da civilização:
“Eles querem a mata para preservar a cultura deles? Pois então eles vão viver da cultura deles. Sou a favor dessa preservação se o índio for original. Agora, deixar a mata reservada para comer de geladeira…isso não é cultura indígena, não! Eu sinto muito. Se ele quer preservar a cultura ele não pode ter acesso à tecnologia que nós temos. Ele não pode comer de geladeira, tomar banho de chuveiro e tomar remédios químicos. Porque há um controle populacional natural. Ele vai ter que morrer de malária, de tétano, do parto. É… a natureza. Vai tratar da medicina do pajé, do cacique, que eles tinham antigamente. Aí justifica.”
A eloquência com que esse ataque à cultura indígena foi proferido lembra bastante a garra com que o jornalista da Globo Alexandre Garcia costuma defender a ditadura militar, que massacrou povos indígenas. Ex-porta voz do ditador general Figueiredo e atual comentarista político do programa Bom Dia Brasil, da TV Globo, o prestigiado jornalista voltou na última semana mais uma vez à trincheira em defesa do regime do qual fez parte:
E tinha greve.E todo mundo no carro com o plástico”Brasil, ame-o ou deixe-o ” E crescendo a 12 por cento do PIB ao ano. Pergunte ao seu tio. https://t.co/KDnATZV7He
— Alexandre Garcia (@alexandregarcia) 17 de janeiro de 2017
Não é a primeira vez que o jornalista desfruta da liberdade de expressão para vangloriar o regime assassino e torturador. Ele exalta o crescimento do PIB no período, conquistado graças a empréstimos estrangeiros que quadruplicaram a dívida externa, mas finge ignorar o aumento da desigualdade social e da miséria. Chama de “terrorista” quem ousou lutar contra a ditadura, mas omite as práticas terroristas perpetradas por ela durante os anos de chumbo.
As Organizações Globo pediram desculpas por terem apoiado – com muito gosto diga-se de passagem – a ditadura militar, mas não veem problema em manter em seus quadros um jornalista declaradamente entusiasta dela. É um perdão curioso, já que a empresa permite que um funcionário saia por aí exaltando o golpe de 64 e criminalizando quem o combateu.
Os três episódios aconteceram apenas neste mês e ajudam a mostrar a tendência reacionária da imprensa corporativa brasileira. Enquanto jornalistas mais identificados com causas progressistas ficam de canto, quem vai pro centro da ribalta para brilhar são datenas, sheherazades, alexandres garcias e outros chumbos-grossos prestigiados pelos barões da mídia.
Quem e Ludmila? Ela e uma canora como Elizeee Cardoso ou Angela Maria?
Desculpa a ignorancia, mas nunca tive TV e parei de escutar radio tambem. Sobrou tempo para aprender 6 idiomas, tocar flauta e escrever poesis.
Me pergunto qual é o nível intelectual de quem assiste a esse tipo de programa – parabéns, ótimo artigo.
O da minha família classe média. Toda ela.
E depois essa mídia reacionária ainda quer que eu pague para acessar o conteúdo misógino, homofóbico e racista que produz! Não acesso, não assino nem leio esses pasquins medievais tão populares em Pindorama. Ler opiniões contrárias às nossas é saudável, porém não quando se limitam a xingamentos, mantras fascistas, apologia à escravidão, limpeza étnica e fundamentalismo religioso.
Fazes o bem ao agir assim.
Liberdade de expressão não é um direito absoluto. Fazer apologia ao crime, elogiar torturadores, cometer injúria racial ou incitar violência contra minorias, como bem disse o João, é crime. Simples assim. O problema é que justamente esta mídia irresponsável e pouco ética apenas reverbera o preconceito e o autoritarismo de grande parte do povo brasileiro.
É um dilema de tostines: reverbera o preconceito e autoritarismo do povo brasileiro ou, como diria Pulitzer, um imprensa vil, corrupta e mesquinha em pouco tempo forma um público como ela? Penso que a segunda alternativa é mais real.
Hahahaha… Esse comentários tá cheio de gente tolerante e agradável… A liberdade de expressão tem suas restrições, tá na forma da lei. Se tivesse conhecimento da lei ou do respeito não estariam por aí falando ou escrevendo merdas.
Bom dia.
Em Porto Alegre, em pleno 20 de novembro de 2016, dia da Consciência Negra o apresentador “Xicão Tofani” do programa “Atualidades Pampa”, emissora local fez ataques contra a negritude exaltando o fato de seus antepassados não terem vindo para o Brasil “de navio” e “Escravo”.
Veja e ouça a fala desse individuo:
https://www.facebook.com/julia.pereira.56/videos/1361626513847471/?autoplay_reason=user_settings&video_container_type=1&video_creator_product_type=2&app_id=350685531728&live_video_guests=0
Bom dia.
Moro em Porto Alegre e fico envergonhado de uma pessoa como esta. Mas num programa daquele, que é formado por “intelectuais orgânicos” , não poderia ter saído coisa boa. É uma lástima tal ocorrência.Perdão pela parte que me toca (de morar numa cidade que permite um tipo profissional deste sobreviver como jornalista)… E depois os gauchos não sabem porquê o Estado está na situação que está…
Uma triste realidade! Pessoas e emissoras estão usando a liberdade de expressão para manifestar ódio e cometer crimes. Preocupante!
Gostei muito seu texto. Quando se trata de racismo, homfobia e machismo, usa-se o argumento de que foi brincadeira, é cultural, sempre se fez isso… Sim, é cultural porque somos um cultura descendente do patriarcado, racista, cristã e moralista. Contudo a cultura não é algo estático, ela se modifica constantemente e não haveria como ser de outra forma.
O discurso de ameaça esquerdista e comunista que a direita usa para se fortalecer não é delírio, é uma estratégia! É possível perceber esse tipo de pensamento em todo discurso da nova direita brasileira.
-A bancada esquerdista no Senado e no Congresso é quase inexistente. Uma minoria massacrada mas nos textos da imprensa brasileira fica parecendo que existe uma força manipulativa de esquerda no país… de repente… na votação do impeachment saltou aos olhos da nação que o Congresso é totalmente dominado por homens brancos religiosos… mas os textos, pelo jeito, não foram corrigidos… ainda existe uma ameaça comunista no congresso, não se sabe onde…
-Minoria esquerdista barulhenta! Geralmente se saem com essa… mas essa minoria é barulhenta mesmo ou é a mídia que fica colocando uma lente de aumento em tudo que eles fazem??? Geralmente eu vejo discursos da Jandira sendo pinçado, ridicularizados e descontextualizados por grupos de direita como se esse tipo de discurso fosse representativo do Congresso. A bancada pentecostal, bancada da bala, bancada ruralista e outros lobbystas fazem a festa enquanto os direitistas atacam Jean Wilis ou outro alvo fácil da esquerda.
-Direitos humanos defendendo os estupradores! Essa lenda urbana merecia investigação… pelo que dizem, deve existir uma classe de pessoas que ficam investigando quem são os estupradores das cadeias e vão lá dar um tratamento privilegiado para eles. É engraçado que um preso aqui é tratado como um animal… os Direitos Humanos no Brasil e no mundo deixam a desejar e atuam em casos extremos(quando atuam)… mas no Brasil pelo jeito existe uma equipe 24 horas especializada a proteger os bandidos! Claro… eles habitam o imaginário de quem só conhece o Brasil via Globo!
Pra mim a tática é clara:
QUEREM TRANSFORMAR O BRASIL EM UM BI-PARTIDARISMO DE DIREITA… IMITANDO O PATÉTICO MODELO AMERICANO.
A direita brasileira percebeu que, em um país colonial, saindo de ditadura, escravagista, racista… seria muito difícil de se ganhar um debate defendendo uma aristocracia ridícula. Com isso, dominaram toda a imprensa e o noticiário mas nem assim conseguiram vencer o debate… então o jeito é eliminar a esquerda! Neo-liberalismo atrasado e execrado até pelo FMI não consegue concorrer de igual para igual com o modelo escandinavo das sociedades do bem estar… então, tudo que for de esquerda tem que virar Comunismo! Aí sim eles conseguem debater… para eles é liberalismo ou comunismo… não existe outra opção. É a favor de programa assistencialista? Vai pra Cuba!
Para a sorte do Brasil… assim como a lambada e o yo-yo… essa modinha de direita pelo jeito vai passar! Com Trump assumindo, a esquerda volta a ser moda nos USA… e como nosso rebanho aqui segue a direção do rebanho de lá… em breve esses mesmos fás de Bolsonaro estarão usando camiseta de Chê.
Patético Modelo Americano x Modelo Brasileiro:
IDH USA 0,973
IDH Brasil 0,730
TAXA DE HOMICÍDIOS:
Brasil 32,4 por grupo de 100.000
USA 5,4 por grupo de 100.000
Salário Mínimo:
USA: aproximadamente 3700 reais
Brasil: 937
O brasileiro precisa parar de ficar culpando os Estados Unidos e começar a assumir a responsabilidade pela situação em que este país se encontra. Somos simum país de merda e a culpa é exclusivamente nossa e de mais ninguém.
Sério…Essa eterno embate dramático se tal mídia é de esquerda ou direita, fascista o marxista é totalmente desnecessário! Todos estão reféns do politicamente correto! Quer saber de algo meu caro João filho!?
Ou se tem total liberdade de expressão ou vivemos numa grande hipocrisia… numa redoma de censura, deveríamos ser livres para defendermos todo e qualquer ponto de vista!! Até dos mais fanáticos e extremistas aos mais conservadores, progressistas e etc… Apenas não sejamos covardes. Vivemos em uma geração inteira de afetados enrrustidos que não se pode falar nada..
Você não pode usar a liberdade de expressão para cometer injúria racial, por exemplo. Não tem nada a ver com “afetação” ou “covardia”. É apenas o cumprimento da lei.
enrustidos
Pra tentar fugir da bolha, tento ler tudo que aparece na minha TM do fb, e aí ontem li um artigo do Constantino, que chega a ser risível, mas preocupante que ainda circule de boa . . .me de artigo delirante Constantino acusa a Globo, a Isto É, a Folha de serem contaminados pelo ideologia de esquerda em seus editoriais contra o Trump, oi??!! Isso pra mim foi o cúmulo do cúmulo assim dizendo, ou será que tem algo que vai ser pior ou mais surpreendente que isto??? Sei que muitos vão dizer, e vc ainda perde tempo lendo isso? É masoquista eu sei, mas tenho que conhecer o outro lado, mesmo seus extremistas delirantes . . .não sei se posso colar o link, então pra quem quiser ver esse delirio google Constantino, imprensa progressista o mal do Brasil e se espantam como poder ser a extrema direita . .
Graças a Deus não vejo, não ouço e nem leio nada que esses crápulas dessa imprensa golpista fala.
A idéia de que qualquer pessoa que fale algo de ruim sobre os gays, negros, imigrantes ou as mulheres é homofóbico, racista, xenofóbico e machista, ao mesmo tempo em que críticas contra homens brancos e héteros são aplaudidas frequentemente. O aumento de divórcios, o sexo casual se tornando cada vez mais comum, práticas sexuais cada vez mais fora do papai-e-mamãe sendo enaltecidas abertamente, e o crescimento do feminismo. Tudo isso demonstra um raciocínio marxista e viés esquerdista da mídia internacional. E você é mais um que claramente apoia isso.
Você claramente precisa relaxar um pouco, André.
Exatamente, João Filho.
Esse ai vive num mundo paralelo.
Ah, sim, as práticas sexuais fora do papai-e-mamãe são coisa do demônio. E o demônio, como sabemos, é vermelho.
Mas tem alguém falando mal dos “homens brancos e héteros” por serem brancos? Por serem héteros? Mostre-nos alguns links, André, por favor.
Então olha o comentario do Alexandre Garcia na Radio Itatiaia do dia 16 de janeiro. Segundo ele a ditadura jornalista tinha liberdade. http://www.itatiaia.com.br/central-de-audio/comentarios
http://www.itatiaia.com.br/uploads/audios/file_2/40/058/38800/10_-_ALEXANDRE_GARCIA_-_16_01_17.mp3
Só queria dizer que os EUA e a Europa desenvolveram-se da mesma forma que o regime militar tentou desenvolver o Brasil: por meio de investimentos movidos a débito. Foram só o Japão e a Coreia do Sul que, até agora, conseguiram enriquecer por outro meio, o do financiamento por exportações.
A grande questão é que lá nos Eua e na Europa isso deu certo e aqui não…
Na fase pré-impeachment eu observava que o comportamento da imprensa era o de amplificar ao máximo qualquer fato que ofendesse membros do governo e assim contribuir fatalmente para levar a uma ruptura. Ouvi vários “âncoras”, principalmente de rádio, sem qualquer entendimento técnico ou acadêmico dos fatos, serem copiosamente corrigidos pelos entrevistados: Camila Tulinski da Rádio Estadão; Paulo Galvão e colegas da Rádio Bandeirantes. Curiosamente nos instantes finais do processo, ocorreram muitas trocas de cadeiras, inclusive com reformulações gerais das programações e até mesmo demissões de alguns medalhões.
Assim que ocorreu o impeachment, o discurso mudou completamente. As opiniões passaram ser de críticas ausentes ou muito leves a quem assumiu o poder, inferindo e transmitindo ao público que tudo seria resolvido em curto tempo. Como as coisas não começaram bem, com muitos fatos piores do que era antes, percebe-se que ficaram perdidos, tanto na política editorial quanto no comportamento dos que falam ou escrevem. E as mudanças parecem continuar.
Um exemplo de jornalista ‘valentão’ é o Claudio Humberto que faz parte do programa Bastidores do Poder da Rádio Bandeirantes. Creio que todos conhecem o currículo do homem. É um Alexandre Garcia que não deu certo (não chegou à Globo!), mas ouvir as ofensas que ele dispara contra algumas figuras políticas é difícil de aguentar.
Seu artigo, reforçou meu entendimento sobre a questão (enigma!) da mídia brasileira nos últimos tempos.
Parabéns pelo texto.
Parabens pelo texto, Calopes.
Depois que ouvi uma pessoa dizendo que o Estadão é de esquerda não duvido de mais nada.
Isto tudo deriva da capitalização do conceito de liberdade de expressão e do jornalismo como espetáculo para distração e isolamento das masas,essa incapaz de reagir e ver através do véu de Maia.
Excelente artigo. Curto, mas bem articulado. Obrigado por usar seu cérebro sem parcimônia. Abraços.
Parabéns pelo artigo.