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Já sabemos que o governo Trump pretende desregulamentar o mercado, travar uma guerra sem limites contra o “terrorismo islâmico radical”, destruir a ciência que estuda o aquecimento global e desencadear uma corrida por combustíveis fósseis. Essa é uma abordagem que certamente gerará um tsunami de crises e choques: choques econômicos, com bolhas de mercado estourando; choques de segurança, com efeitos internos da reação ao militarismo externo; choques ambientais, à medida que o meio ambiente é desestabilizado; e choques industriais, com vazamentos em oleodutos e colapsos de plataformas, que tendem a ocorrer, em especial, quando são pouco regulamentados.
Tudo isso é perigoso o suficiente. Mas o mais grave será a forma como o governo Trump certamente explorará esses choques tanto política quanto economicamente.
Naomi Klein explica para Jeremy Scahill como o governo Trump pode tirar proveito das crises que estão por vir. Marcha das Mulheres nos EUA. 21 de janeiro de 2017.
Não é preciso especular. Basta um pouco de conhecimento de história recente. Há dez anos, eu publiquei “A Doutrina do Choque”, um livro sobre como crises foram exploradas sistematicamente nos últimos cinquenta anos para promover uma agenda radical em prol de grandes corporações. O livro começa e termina com a reação ao furacão Katrina, pois ele representa um modelo assustador para o capitalismo baseado em desastres.
Esse fato é relevante por conta do papel central, e pouco lembrado, desempenhado pelo homem que agora ocupa a Vice-Presidência dos EUA, Mike Pence. Quando o Katrina atingiu Nova Orleans, Pence era presidente do Comitê de Estudos Republicanos (RSC), um órgão poderoso e extremamente ideológico. Em 13 de setembro de 2005, apenas 14 dias após os diques romperem, com partes de Nova Orleans ainda submersas, o RSC realizou a fatídica reunião nos escritórios da Heritage Foundation, em Washington, D.C..
Sob a liderança de Pence, o grupo produziu uma lista de “Ideias em favor do mercado livre para responder ao furacão Katrina e à alta do preço do gás”. Ao todo, 32 políticas retiradas direto da cartilha do capitalismo do desastre.
Fila de veículos em um posto da Exxon na estrada interestadual 55, em Jackson, Mississipi. 30 de agosto de 2005. O posto era um dos únicos da cidade com eletricidade e combustível, um dia depois de a região ser atingida pelo furacão Katrina.
Photo: Rick Guy/The Calrion Ledger/AP
Para se ter ideia de como o governo Trump reagirá à sua primeira crise, vale ler a lista completa (e atentar para o nome de Pence bem no final).
O que mais se destaca no pacote de pseudopolíticas de “socorro” é o comprometimento com uma guerra sem limites às normas trabalhistas e à esfera pública — o que é irônico, já que foi justamente o fracasso da infraestrutura pública que transformou o Katrina em uma catástrofe humanitária. Também é impressionante a determinação em usar qualquer oportunidade para fortalecer o setor de petróleo e gás.
Os três primeiros itens da lista do RSC são “suspender automaticamente as leis salariais Davis-Bacon vigentes na área do desastre”, em menção à lei que obrigava empreiteiros federais a pagar o salário mínimo; “fazer de toda a área afetada uma zona de imposto uniforme e livre empreendimento”; e “fazer de toda a região uma zona de competitividade econômica (incentivos fiscais abrangentes e dispensando regulamentações)”.
Outro ponto solicitava que pais recebessem vales para serem usados em escolas autônomas, uma medida em perfeita consonância com a visão adotada pela indicada de Trump para secretária da Educação, Betsy DeVos.
Todas essas medidas foram anunciadas pelo presidente George W. Bush em menos de uma semana. Sob pressão, Bush foi forçado a restabelecer as normas trabalhistas, embora elas tenham sido amplamente ignoradas pelas empreiteiras. Há muitos motivos para se acreditar que esse será o modelo dos investimentos multibilionários em infraestrutura que estão sendo usados por Trump para cortejar os movimentos trabalhistas. Já foi noticiado que a revogação da Lei Davis-Bacon para esses projetos foi discutida na reunião de segunda-feira com líderes e sindicatos do setor de construção.
Em 2005, a reunião do Comitê de Estudos Republicanos produziu outras ideias que também receberam apoio presidencial. Cientistas de clima vincularam o aumento da intensidade de furacões diretamente ao aquecimento dos oceanos. No entanto, essa ligação não impediu que Pence e o RSC exigissem que o Congresso dos EUA revogasse leis ambientais no litoral do Golfo do México, desse permissão para novas refinarias de petróleo nos Estados Unidos e autorizasse a “perfuração do Refúgio Nacional de Vida Silvestre do Ártico”.
O conjunto dessas medidas representa uma forma infalível de aumentar as emissões de gases de efeito estufa, que são a maior contribuição humana para as mudanças climáticas. No entanto, foram defendidas pelo presidente sob o pretexto de remediar uma tempestade devastadora.
A indústria do petróleo não foi a única a lucrar com o furacão Katrina obviamente. Assim como diversos empreiteiros com bons contatos que transformaram o litoral do Golfo do México em um laboratório privado de respostas a desastres.
As empresas que ganharam os maiores contratos faziam parte da conhecida gangue de empresas que participaram da invasão do Iraque: a unidade KBR da Halliburton faturou um contrato de US$ 60 milhões para reconstruir bases militares no litoral. A Blackwater foi contratada para proteger os funcionários da Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA) de saqueadores. A Parsons, conhecida por seu trabalho negligente no Iraque, foi chamada para realizar um projeto de construção de uma grande ponte no Mississipi. Fluor, Shaw, Bechtel, CH2M Hill — todas grandes empreiteiras com atividade no Iraque — foram contratadas pelo governo para prover casas móveis para as vítimas evacuadas da áreas apenas dez dias depois do rompimento dos diques. Esses contratos acabaram por totalizar US$ 3,4 bilhões sem passar por um processo de licitação.
Nenhuma oportunidade de lucro foi deixada de lado. A Kenyon, uma divisão do grande conglomerado dedicado a funerais Service Corporation International (doador da campanha de Bush), foi contratada para resgatar corpos nas casas e nas ruas da cidade. O trabalho foi incrivelmente lento e alguns corpos ficaram expostos ao sol forte por dias. Equipes de emergência e agentes funerários voluntários foram proibidos de ajudar porque o manuseio dos corpos interferia no território comercial da Kenyon.
E, assim como muitas das decisões de Trump até agora, uma especialização relevante parece não ter nada a ver com a forma como os contratos são alocados. Foi noticiado que a AshBritt, uma empresa que recebeu meio bilhão de dólares para remover escombros, não possuía nenhum caminhão de lixo e terceirizou o todo trabalho para outras empreiteiras.
Ainda mais impressionante foi a empresa a que a FEMA pagou US$ 5,2 milhões para executar a importante função de construir um acampamento-base para os funcionários de emergência na paróquia de St Bernard, no subúrbio de Nova Orleans. A construção do acampamento atrasou e nunca foi concluída. Quando a empresa foi investigada, veio à tona que a Lighthouse Disaster Relief era , na verdade, um grupo religioso. “A atividade mais próxima disso que já realizei foi organizar um acampamento de jovens com minha igreja”, confessou o diretor da empresa, Pastor Gary Heldreth.
Após todos os níveis de subempreiteiros levarem sua fatia, não restou quase nada para os funcionários. Por exemplo, o autor Mike Davis descobriu que a FEMA pagou à Shaw US$ 175 por pé quadrado para instalar lonas azuis em telhados danificados, embora as lonas tivessem sido fornecidas pelo governo. Depois de os subempreiteiros embolsarem sua parte, os funcionários que de fato instalaram as lonas receberam apenas US$ 2 por pé quadrado. “Todos os níveis da cadeia alimentar de contratados, em outras palavras, é grotescamente bem-alimentada, exceto a camada inferior”, escreveu Davis, “por quem o trabalho é de fato realizado”.
Em Mississippi, uma ação civil pública forçou diversas empresas a pagar centenas de milhares de dólares em salários devidos a funcionários imigrantes. Alguns deles não receberam nada. Em um canteiro de obras da Halliburton/KBR, funcionários imigrantes sem visto contaram que foram acordados no meio da noite por seu empregador (um sub-subempreiteiro), que supostamente dizia que os agentes da imigração estavam a caminho. A maioria dos funcionários fugiu para evitar a prisão.
Esse nível de corrupção e abuso é especialmente relevante porque o plano de Trump é usar grande parte dos gastos com infraestrutura com empresas privadas no que chama de parceria público-privadas.
Após o Katrina, os ataques a indivíduos vulneráveis, feitos em nome da reconstrução e do socorro, não pararam por aí. Para compensar as dezenas de bilhões de dólares gastos nos pagamentos dos contratos com empresas privadas, em novembro de 2005, o Congresso (controlado pelo Partido Republicano) anunciou que precisava cortar US$ 40 bilhões do orçamento federal. Entre os programas que foram cortados estavam empréstimos a estudantes, o programa de saúde Medicaid e vale-alimentos. Em outras palavras, os americanos mais pobres subsidiaram a bonança dos empreiteiros duas vezes. Primeiro, quando o socorro às vítimas do Katrina se transformou em benesses corporativas, sem criar empregos decentes nem prover serviços públicos. Segundo, quando os poucos programas que ajudavam desempregados e pobres por todo o país foram cortados para pagar as contas superfaturadas.
Esse é o modelo do capitalismo do desastre que se alinha perfeitamente ao histórico de Trump como homem de negócios.
Trump e Pence chegam ao poder no momento em que esse tipo de desastre, como os tornados fatais que acabaram de atingir o sudeste americano, chegam de forma veloz e furiosa. Trump já declarou que os Estados Unidos são uma zona de desastre permanente. E os choques vão continuar a aumentar, graças às políticas imprudentes que foram prometidas em campanha.
O Katrina mostra que esse governo tentará explorar todos os desastres para faturar o máximo possível. Melhor nos prepararmos.
Trechos desse artigo são adaptações do livro: A Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo do Desastre.
Foto principal: Nesta foto de 2005, um homem observa um incêndio em uma casa na Napoleon Street, enquanto helicópteros tentam apagar o fogo. Nova Orleans, após furacão Katrina.
É fato que existem grandes corporações que são verdadeiros abutres transvestidos, que fazem da desgraça social uma fonte insaciável de lucros, porém não são governos que provocam furacões e tufões pelo globo.Como se políticas ambientalmente agressivas pudesse de imediato provocar catástrofes ambientais em um feedback tão rápido! Outra, isso não esta ligado somente ao Governo Trump! Republicano ou Democrata…. todos utilizam-se desse meio espúrio. Não coloque na conta do Trump um débito que todos devem pagar…
Sim è de assustar mas o futuro nunca està escrito no màrmore. O que Miss Klein tem que dizer foi tambem a maravilhosa solidariedade que o povo demostrou.
Trump e o seu staff não escapam à regra que unanimamente rege hoje em dia os executivos : algorythmos !
Ser e permanecer HUMANOS não se aprende senão vivendo. Nenhum livro seja ele o quão interesante for pode prevêr, sò e unicamente avisar.
AVISAR não è planear e nunca haverà certêza. A administração Trump està condenada a uma governação muito limitada no tempo e na realidade um grande numero das decisoes do Donald serão adiadas, recusàdas, e desacreditàdas.
Alem da teoria do càos existe tambem os “feios porcos e màus” que felizmente Ettore SCOLA nos deixou.
As crònicas de Miss Klein são como as previsoes dos ecònomistas que saem sempre ao contràrio…
Portanto povo nascemos para SER e isso obriga nos a VIVER e desenhar um futuro de Esperança Confiança e Partillha…
PS : Miss Klein quere partilhar um pouco da sua riquêza monetária com alguns pobres ? Quer…pois bem então porque espera ? LOL
Essas situações só tendem a piorar quando se passa a tratar a política como essa tal de “gestão”, como se a sociedade fosse um bem administrável. Essas ideias de transferir conceitos de empresas pra vida social é um dos maiores erros. Política não é gestão, é mediação de interesses, e os interesses que estão ganhando são os das grandes corporações, que sabem muito bem diferenciar uma situação da outra e jogam o engano pras pessoas comuns, que aceitam de bom grado. A tendência é piorar!
Aqui no Brasil, esta estratégia se define como “criar dificuldades pra vender facilidades”. Funciona pros corruptos que é uma beleza. O exemplo mais historicamente documentado desta prática por aqui é a exploração da seca nordestina, com maior intensidade nos ano oitenta. Me lembro de como a mídia mostrava a desgraça do povo com tanta comoção e exaltava os eternos projetos e ajudas federais para resolver o “problema da seca nordestina”.
A América com Trump irá se bananalizar – isto mesmo, bananalizar – lançando mão de expedientes bastante ortodoxos para a nossa realidade bananeira. Eu se fosse o orange president, manteria pelo menos um pouco do contingente pachuco em território nacional, pra ter a quem culpar pelos problemas, como se faz aqui em São Paulo em relação aos nordestinos. Se expulsá-los todos, a quem escravizarão? Aos negros? Duvideodó. Se abusarem demais com o negro americano o pau quebra. Tem que ser latino, de preferência, brasileiro. Esta gente já se acha chique de passar forme e dormir na rua, desde que seja em New York. Morrer de frio, naquela neve no Central Park, é a glória prum brazuca. E que graça tem morar nos USA se o presidente não for um Trump? Ele dá um tom na América, um estilo filme dos anos 90… o brazuca pira, se sente coadjuvante de filmão blockbuster. Só a fantasia salva!
Muito boa a reportagem, principalmente sobre a ligação do mundo corporativo e os desastres, que no caso do Karina mereceu abordagem sob a ótica da desigualdade social, no livro “Danos Colaterais”, Bauman. Em que todos os moradores de Nova Orleans até tiveram informação precisa e com boa antecedência para procurarem abrigos seguros contra a tragédia anunciada. Todavia, mesmo que o evento já tenha se repetido outras vezes, apenas as pessoas com algum recurso poderiam sair da cidade. Só a titulo de exemplo, dois terços dos moradores de Nova Orleans eram negros, e mais de um quarto vivia na pobreza. E Trump ? Ele é o representante máximo do levante da extrema direita, e tentará impor sua agenda de negócios contaminada de ideologia nacionalista. Não acredito que chegue ao final do mandato, lembrando aí que Kennedy foi morto por confrontar interesses bem menores.
A era do humanismo está terminando
Achille Mbembe
(excertos)
[ “desigualdades continuarão a crescer. mas, longe de alimentar um ciclo renovado de lutas de classe, os conflitos sociais tomarão a forma de racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia… o apartheid, sob diversas modulações, será restaurado como a nova velha norma. sua restauração abrirá caminho para impulsos separatistas, construção de mais muros, militarização de fronteiras, formas mortais de policiamento, guerras mais assimétricas… inclusive em democracias estabelecidas.
a crescente bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça para a civilização.
apoiado pelo poder tecnológico e militar, o capital financeiro conseguiu sua hegemonia sobre o mundo mediante a anexação do núcleo dos desejos humanos e, no processo, transformando-se ele mesmo na primeira teologia secular global.
a democracia liberal não é compatível com a lógica interna do capitalismo financeiro, neoliberal, (que) deixou em sua esteira uma multidão de sujeitos destruídos, muitos dos quais estão profundamente convencidos de que seu futuro imediato será uma exposição contínua à violência e à ameaça existencial. eles anseiam, genuinamente, por um retorno a certo sentimento de certeza – o sagrado, a hierarquia, a religião e a tradição. eles acreditam que as nações se transformaram em algo como pântanos que necessitam ser drenados e que o mundo tal como é deve ser levado ao fim. …tudo deve ser limpo… eles estão convencidos de que só podem se salvar em uma luta violenta para restaurar sua masculinidade, cuja perda atribuem aos mais fracos dentre eles, aos fracos em que não querem se transformar. neste contexto, os políticos de maior sucesso serão aqueles que falarem de maneira convincente aos perdedores, aos homens e mulheres destruídos pela globalização e pelas suas identidades arruinadas. a política se converterá na luta de rua e a razão não importará. nem os fatos. política voltará a ser assunto de sobrevivência brutal em um ambiente ultracompetitivo.
em um mundo centrado na objetivação de tudo e de todos em nome do lucro, a eliminação da política pelo capital é a ameaça real.
a transformação da política em negócio coloca o risco da eliminação da própria possibilidade da política.
dar lugar a alguma forma de vida política.
este é o problema do século XXI.” ]
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texto integral em
http://www.ihu.unisinos.br/564255-achille-mbembe-a-era-do-humanismo-esta-terminando
É o Brasil dos dias atuais, sem diferenças!!!
Mas os EUA não é um país “limpinho” sem corrupção?!
Há várias maneiras de prever este novo governo Trump. Não sei se ele será tão irresponsável como dizem. Acho que ele vai contrariar muito investidor poderoso que já tinha suas máfias junto ao governo. Mas isso não quer dizer que ele não vá favorecer outros investidores. É esperar para ver.
“JÁ SABEMOS que o governo Trump pretende desregulamentar o mercado, travar uma guerra sem limites contra o “terrorismo islâmico radical”, destruir a ciência que estuda o aquecimento global e desencadear um corrida por combustíveis fósseis. ”
quando um artigo arranca com tanta mentira… vai correr mal!
… desregulamentar, guerra, destruição, combustíveis… é só o que essa gente de ‘bem’ sabe fazer…
Pode apontar qual é a mentira aí?
Sugiro ao amigo acompanhar as matérias deste site mais de perto e com a mente aberta, cada tópico que você mencionou tem no mínimo um artigo minucioso por aqui.