No último domingo conversei com o jornalista britânico Misha Glenny sobre “O Dono do Morro: Um homem e a batalha pelo Rio”, livro que trata da ascensão e queda do Nem da Rocinha. Era uma mesa do Hay Festival de Cartagena das Índias, numa capela do Convento Santa Clara, uma construção de 1621 transformada em hotel cinco estrelas nos anos 1990. Cartagena é uma espécie de Paraty caribenha, e o paralelo faz ainda mais sentido durante um Hay Festival, encontro de escritores que deu origem à Flip.
Para escrever a biografia de Antônio Francisco Bonfim Lopes e fazer o trabalho de apuração que parecia não interessar a nenhum repórter brasileiro, Misha aprendeu português e viveu alguns meses na Rocinha. Conta que precisava acordar cedo para comprar o único exemplar de O Dia disponível num comércio da Rua 1. Segundo ele, o único exemplar do único jornal. Faz sentido que a Rocinha tente devolver ao Rio o seu desprezo: “se os cariocas do asfalto tão pouco se fodendo pra gente, a gente tá pouco se fodendo pra eles”.
Na cidade idílica de onde García Márquez projetou sua fantasia para o mundo, palco da celebração do acordo de paz entre as Farc e a Colômbia em setembro passado, foi estranho ouvir Glenny discorrer em inglês britânico com absoluta propriedade sobre as quebradas da Rocinha, a escalada da violência no Rio de Janeiro, as relações familiares de Nem e outras também bastante íntimas, entre o Estado e o narcotráfico.
Mais estranho ainda se colocarmos seu livro, publicado em 2015, à luz dos mais recentes acontecimentos.
Até a manhã do dia 8 de novembro de 2011, um quarteto de notáveis dominava a paisagem do Rio de Janeiro. Um deles era o governador do Estado, o segundo era o prefeito, o terceiro o maior empresário do país, comandando seus negócios desde o balneário, e o quarto, presidente e primeiro ministro da maior favela da Zona Sul, responsável por abastecer 60% da demanda de cocaína da cidade e dono da Rocinha durante um atípico longo reinado. Todos os quatro surfavam uma irresistível onda de prosperidade – até que dessem com as fuças na areia de forma espetacular.
Naquela madrugada, o primeiro deles iria cair. Então pareceria impossível que, pouco mais de cinco anos depois, outros dois também estivessem presos. E em Bangu 9 e 8, estabelecimentos bastante menos respeitáveis que a Penitenciária de Segurança Máxima de Campo Grande de Nem.
Além do xilindró, da cabeça raspada e de conexões ainda a descobrir, o que une a trinca é uma sigla: UPP. Nem foi preso – ou combinou sua captura – pela força do projeto das UPPs, já que uma invasão era iminente. Eike Batista, empresário símbolo da nossa falida prosperidade, doou R$ 20 milhões por ano para as UPPs entre 2010 e 2013. Preso essa semana, confessou ter pago propina de U$ 16,5 milhões a Sérgio Cabral, governador capitão do hoje moribundo projeto.
Desafio o leitor a assistir sem vomitar à dupla em ação neste vídeo de 2012 onde, em cerimônia realizada no desastre ambiental que é o “Superporto” de Açu, Cabral elogia a visão “fordiana e stevejobiana” de Eike, agradece o seu dinheiro “produtivo” e tece loas ao seu empreendedorismo, “dando continuação a este grande brasileiro que é o seu pai, assim como a Dilma dando continuação ao grande brasileiro que é o Lula”.
Ali estavam bem representados os próceres do capitalismo de estado à brasileira, modelo marcado por massivos esquemas de corrupção e transferência de dinheiro do governo para empresários via isenção fiscal, crédito barato ou mesmo sociedade. Os últimos fatos só indicam um acirramento disso: o PMDB de Cabral e Temer está igualmente à serviço do grande capital, só que desta vez sem nenhum aceno à sociedade, ao contrário do governo anterior.
O livro de Misha acaba sendo muito mais do que uma precisa crônica do império dos chefes do morro no Rio – ele acaba por expor as contradições do “extraordinário” projeto brasileiro na virada entre as duas primeiras décadas do século, tendo a cidade como ponta de lança. O balanço é trágico: a abundância de dinheiro público financiando os negócios de megapicaretas, a inclusão fajuta pelo consumo, tratando pessoas como consumidores e não cidadãos, uma política de segurança capitaneada pela polícia mais corrupta e letal do planeta e, finalmente, a tal “inédita” união entre Cidade, Estado e Governo Federal, tendo no centro a aliança entre o PT e o PMDB, deixaram um rastro de corrupção, fracasso e morte no Rio de Janeiro.
O ano começa, no entanto, com uma nota de esperança: destes quatro notáveis do Rio, três já rasparam a cabeça no xilindró. Só falta o nervosinho.
Eu acho que delação, sem provas, não deveria ser motivo de colocar NINGUÉM na cadeia. Nem Eike, nem Cabral, nem Garotinho, nem Moro, nem Lula.
Raspar a cabeça de uma pessoa na prisão é uma atitude fascista. Não deveríamos ter nenhum prazer sádico em ver pessoas sendo humilhadas desta forma.
Caro Eduardo, não creio que haveria condições de uma revolução socialista.
O PT para conseguir governar precisou dos acordos com os “vc sabe quem”. As instituições estão totalmente aparelhadas por cleptocratas. Veja a atitude da Dilma ao anunciar que não “sobraria pedra sobre pedra” que não se sujeitaria a acordões. Foi arrancada do cargo a força e com vários patrocínios empresariais e midiáticos. Com todos os erros cometidos pela gestão do PT prefiro o caminho traçado por este, pois nunca antes na história desse país alguém tirou tanta gente da pobreza.
Agora é muita audácia desse partido querer que pobre voe para Miami ao lado da patroa, com o seu próprio esforço de trabalho. É um absurdo.
Eduardo e Tamosai, assino embaixo.
O autor da matéria foi infeliz ao querer amplificar os acordos do PT mais PMDB e o Lula. É claro que para um tanto de governabilidade não teriamos outra condição a não ser fechar os olhos em um primeiro momento e dar continuidade as políticas anti corrupção por outro braço. Não se faz limpeza instântanea se tens que dialogar com uma cleptocracia. Cleptocracia q poderia ter diminuido quando das operações “banestado e satiagraha, mas por motivos mal explicados não foram adiante. Agora estão fazendo a limpeza instântanea e olha o q está ocorrendo. Culpa do PT? Hahahaha
Talvez a infelicidade do autor tenha relação com a contaminação por onde andou nos últimos anos profissionalmente antes de chegar ao The Intercept Brasil.
Eduardo e Tamosai,
Excelentes comentários. Concordo com ambos.
Abraços…
Perfeito. Pra quem sempre entendeu para onde esses quatro estavam levando o RJ é um pequeno alento ver eles pagando pelo que fizeram. Mas o alento é curto, porque já tem ex-querda pedindo Lula2018 e gente sem memória apontando os antigos subordinados desses 4 caciques como solução ou renovação pra política.
Deve ser difícil para você entender que muitos queiram o Lula de volta. É de origem humilde, não teve oportunidade de estudar, não usa mesóclises, não é o protótipo do branquinho colonizado. Para entender melhor a popularidade dele, é preciso conhecer um Brasil que não aparece na televisão. Um Brasil pobre, que pela primeira vez teve um presidente que se comunicava com eles e fez alguma coisa para os menos favorecidos, coisa que os doutores, bacharéis e milicos anteriores não fizeram. Poderia ter feito mais? Sim, mas para quem conhece a nossa terrível plutocracia e nossa mídia venal, talvez tenha feito até demais.
Além do mais, as alternativas, especialmente à direita, não são nada animadoras. Querem o retorno do modelo neoliberal Thatcheriano dos anos 80, num país que não tem nem 10% da rede de seguridade social da Inglaterra. Querem o estado mínimo, quando ele já existe aqui: é mínimo para nós cidadãos comuns e máximo para a plutocracia.
Nao se governa sem alianças. O PT iria fazer maioria na Cmara e no Senado com quem? Com os sonháticos do PSOL, a meia dúzia que nao passa do primeiro tempo? PMDB de hoje é similar ao PMDB de 2003? Será que porque se jogar fora tudo que foi feito nesse país, que chegou a milhoes de brasileiros, mesmo o PT nao tendo maioria no Congresso? Pergunto-me: onde ha capitalismo sem que pessoas tentem e consigam “levar vantagem”? Uns mais outro menos contanto que milhoes fiquem à margem? Ainda bem que o PT não optou por uma revolução socialista…
É fácil criticar a inclusão dos outros pelo consumo, quando as nossas necessidades de consumo há muito estão satisfeitas. Paulo Freire já dizia: saco vazio não para em pé. Esse consumo que aumentou foi de pessoas que virtualmente estavam fora do mercado interno. Com esse aumento do consumo, que não foi de caviar ou champanhe, foram criados empregos, não por bondade dos empresários, mas pelo aumento da demanda. Isso num país em que praticamente só havia consumo da classe média para cima.
Na área da educação posso citar o Pronatec, Prouni e Fies. Também a criação de cotas. Ao que me parece, os neoliberais estão demolindo isso atualmente. A corrupção é endêmica e os moralistas atuais da mídia na época não levantaram a voz nem uma vez contra os corruptos. Para finalizar segue a escalação do time fantástico que nos governa e que depôs uma presidente que cometeu erros, mas não crime de responsabilidade: MT, Índio, Botafogo, Angorá, Mineirinho, Careca, Todo Feio. Paro por aqui para poder vomitar.
É bonito quando vc cita os acenos para o povo que o PT deu, mas esquece que para cada migalha de estado de bem estar social que o PT dava, ele criava um fundamentalismo ali, um propinoduto aqui… e o quanto sobrava para os empresários financiadores de campanha não era pouco não!
Gil,
Não compreendi bem a ideia de “migalhas”. Podemos até concordar que se poderia ter feito mais, mas fazer parecer que não se deu mais que migalhas não parece sustentável. E a coisa do “fundamentalismo” x “propinoduto”, que naturalmente você amplifica para ficar mais ao seu gosto, me parece que está explicado pelo Eduardo (o post antes do Tamosai).
Discordo. Tirar 30 milhões de pessoas da miséria não são migalhas. Tampouco ampliar o acesso à educação e saúde públicas. Especialmente num país em que isso raramente foi feito. A corrupção no Brasil começou desde a chegada das primeiras caravelas. Não foi inventada pela esquerda.
Ler um pouco sobre História do Brasil e Política não lhe faria mal.
Carlos Artur Nuzman?