Alunos estrangeiros estudando em grandes universidades norte-americanas tiveram seus futuros colocados em dúvida pelas ordens executivas de Donald Trump sobre a imigração. Advogados da área de imigração aconselharam alunos detentores de vistos e green cards a não deixarem os EUA por conta do risco de serem barrados no retorno ao país. Também vem crescendo o medo de que o governo americano possa começar a tentar deportar alunos que já se encontram nos EUA.

Mesmo antes de o pedido ser assinado na semana passada, já começavam a aparecer relatos de grandes universidades tendo seus vistos de estudante revogados e alunos sendo proibidos de entrar no país ao retornar de viagens do exterior. The Intercept conseguiu entrar em contato e confirmar de forma independente as identidades de diversas pessoas que passaram por esse tipo de experiência. Os indivíduos afetados pediram que suas identidades fossem mantidas em sigilo porque ainda tentam apelar da decisão do governo federal.

Muitos deles vêm entrando em contato com as faculdades e universidades norte-americanas para saber o que as instituições podem fazer para protegê-los de um governo que se mostra cada vez mais predatório.

Mae Eldahshoury, centro, ouve discurso que questiona as políticas e práticas potencialmente discriminatórias do Presidente Trump. Universidade da Georgia, EUA. Sexta-feira, 20 de janeiro de 2017. Eldahshoury, da Aliança de Alunos Muçulmanos, veio ao protesto para apoiar a todos que possam ser afetados pelo posicionamento de Trump quanto à proibição da entrada de muçulmanos. (John Roark/Athens Banner-Herald via AP)

Em protesto, oradores demonstram preocupação sobre as políticas potencialmente discriminatórias do Presidente Trump. Universidade de Georgia, EUA. 20 de janeiro de 2017. Mae Eldahshoury, centro, da Aliança de Alunos Muçulmanos, veio ao protesto para apoiar a todos que possam ser afetados pelo posicionamento de Trump quanto a “retórica de proibição da entrada de muçulmanos”.

Foto: John Roark/Athens Banner-Herald via AP

A Universidade de Michigan emitiu nota dizendo que não cederia voluntariamente informações sobre a situação migratória de seus alunos ao governo federal. Diversas outras grandes universidades com grandes proporções de alunos estrangeiros foram contactadas pelo The Intercept e também confirmaram que adotariam a política de não ceder informações sobre a situação migratória de seus alunos para o governo federal de forma voluntária, se não forem intimadas a fazê-lo.

Vários alunos dizem que as instituições precisam tomar medidas urgentes. “Muitas instituições estão na mesma situação e têm muitas dificuldades em lidar com as novas ordens executivas. Ainda que não esperassem que isso acontecesse, precisam começar a levar isso a sério”, disse Hazami Barada, ativista e estudante da Universidade de Harvard. Para Barada, os secretários da faculdade poderiam ajudar alunos disponibilizando advogados de imigração, distribuindo panfletos informativos sobre os direitos dos alunos, realizando seminários educacionais e divulgando de forma transparente as medidas que estão tomando para auxiliar os alunos em risco.

“O grau de medo e incerteza entre os alunos é extremamente alto”, afirmou. “Isso precisa ser uma prioridade imediata para todas as faculdades”.

California Polytechnic State University students protest President Donald Trump's administration policies with their march through campus coinciding with a talk at the university by the polarizing Breitbart News editor, Milo Yiannopoulos in San Luis Obispo, Calif., Tuesday, Jan. 31, 2017. (Joe Johnston/The Tribune (de San Luis Obispo) via AP)

Alunos da Politécnica da Califórnia marcham pelo campus em protesto contra as políticas do governo Trump. San Luis Obispo, Califórnia, 31 de janeiro de 2017.

Foto: Joe Johnston/The Tribune (of San Luis Obispo) via AP

Ao ser contactado pelo The Intercept, um porta-voz da Associação Americana de Universidades (AAU), órgão que representa 60 grandes instituições, disse “não ter aconselhado as universidades sobre como lidar com o impacto da ordem executiva”, mas acrescentou que estão trabalhando “com as universidades e outras associações para revogar a ordem [executiva]”. A AAU também emitiu uma nota pedindo ao governo Trump que revogasse a ordem executiva assim que possível.

“Uma das coisas que defendemos é que as instituições resistam ao pedido de informações de seus alunos por parte do governo federal”

Enquanto aumenta o impacto das novas restrições à imigração, há sinais de movimentação no governo para pressionar instituições de ensino a fornecer mais informações sobre seus alunos. Na semana passada, senadores republicanos apresentaram uma lei no Senado de Nova York que forçaria estabelecimentos de ensino a gerar relatórios sobre seus alunos estrangeiros, incluindo informações sobre seus países de origem.

Educadores dizem que as instituições de ensino precisam resistir à essa pressão.

“Uma das coisas que defendemos é que as instituições resistam ao pedido de informações de seus alunos por parte do governo federal”, disse Shirin Vossoughi, assistente de professor da Universidade Northwestern. “É possível que, no futuro, o governo Trump tente restringir o orçamento de instituições públicas caso se recusem a compartilhar informações, mas é importante que elas se mantenham irredutíveis quanto à questão”.

O Programa de Alunos e Intercâmbio, SEVP, é mantido pelo Departamento de Segurança Interna para monitorar alunos estrangeiros nos EUA. Ativistas do campo jurídico contaram ao The Intercept que estão trabalhando com diversas instituições de ensino por todo o país para encontrar alternativas legais visando a proteção das informações de alunos do avanço do governo federal. Após a detenção em aeroportos de diversos funcionários da Universidade de Massachusetts na semana passada, o presidente da instituição se juntou à Procuradora Estadual de Massachusetts, Maura Healey, para anunciar um desafio legal à ordem executiva em coletiva de imprensa .

Mesmo que instituições de ensino possam tomar medidas para proteger seus alunos e funcionários estrangeiros, o impacto a longo prazo da ordem executiva no ensino superior será significativo.

Um relatório do Departamento de Estado dos EUA estima que aproximadamente um milhão de alunos estrangeiros estudem nas faculdades e universidades do país. Além de trazerem benefícios nas áreas de pesquisa e educação, a presença desses alunos contribuiu com mais de US$ 30 bilhões à economia norte-americana apenas no ano passado. O caráter abrupto da mais recente ordem executiva de Trump – impedindo o retorno de diversos alunos estrangeiros ao país – mostra que o governo Trump está disposto a fazer alterações drásticas e repentinas às políticas de imigração, sem levar em conta o impacto na vida de alunos estrangeiros e faculdades.

Ainda que os alunos já presentes em território norte-americano possam ser protegidos — o que é extremamente incerto —, é provável que menos candidatos se arrisquem a estudar nos EUA no futuro.

“A longo prazo, isso comprometerá a competitividade das instituições acadêmicas nos EUA”, disse Michael Horn, professor adjunto da Universidade Northwestern. Diversos alunos de Horn foram afetados pelas ordens executivas de Trump, colocando em dúvida a possibilidade de conclusão de seus estudos. Horn disse que o desrespeito pelos estudantes exibido pelo novo governo terá consequências no longo prazo para a capacidade de faculdades norte-americanas atraírem alunos estrangeiros, numerosos nas áreas de ciência e engenharia.

“Se eu fosse aluno de qualquer um dos países que acabe na lista do governo e as ordens executivas pudessem ser emitidas sem aviso, numa sexta-feira qualquer, por que arriscaria vir para os EUA?”, questiona Horn.

Foto principal: Cartaz dá as boas-vindas aos visitantes na Faculdade de Administração Stephen M. Ross da Universidade de Michigan, Ann Arbor, Michigan, 3 de novembro de 2014