Tenha pena dos holandeses, se puder. O partido liderado por um populista de extrema-direita, anti-Islã e anti-imigrantes, chamado Geert Wilders está prestes a receber a maioria dos votos nas eleições parlamentares holandesas que serão realizadas na semana que vem. Mas os jornalistas que apelidaram Wilders de “Trump holandês” e “Donald Trump dos Países Baixos” devem  desculpas ao presidente dos EUA.

É verdade, Wilders está concorrendo como um desconhecido que quer “fazer da Holanda um grande país novamente” e insulta seus adversários no Twitter. É verdade, ele foi elogiado por diversos conservadores americanos de extrema direita, desde os legisladores republicanos Michele Bachmann e Steve King até os ativistas “anti-jihad” Frank Gaffney e David Horowitz. E, é verdade, ele usa um penteado bufante oxigenado.

Contudo, quando se trata do Islã e de muçulmanos, o espalhafatoso líder do Partido pela Liberdade faz o presidente dos Estados Unidos parecer moderado. Enquanto Trump tenta proibir a entrada de imigrantes de seis países de maioria muçulmana; Wilders quer proibir a imigração de todos os muçulmanos. Enquanto Trump planeja vigiar mesquitas; Wilders quer proibi-las. Trump afirma que vai erradicar o “terrorismo islâmico radical” da “face da terra”; Wilders quer erradicar o Islã, e ponto.

Acha que estou exagerando? Wilders defende que o Islã “não é uma religião, é uma ideologia (…) a ideologia de uma cultura atrasada”, uma ideologia “totalitária”. “O Islã é o cavalo de Troia da Europa”, declarou. “Se não impedirmos a islamificação agora, a [criação] da Eurábia e da Holandarábia serão apenas uma questão de tempo. Na opinião do político holandês, “não existe ‘Islã moderado’”.

Veja também esse tweet do ano passado: “#2017em3palavras: Islã nunca mais”.

Islã nunca mais? Como se livrar de uma religião sem se livrar de seus 1,6 bilhão de adeptos? Essa é pura e simplesmente a linguagem do genocídio. Wilders sempre alegou odiar o Islã, e não os muçulmanos, mas seus ataques explícitos a instituições e imigrantes muçulmanos sugerem o contrário.

Trump pode ter se cercado de ideólogos anti-Islã, mas Wilders é o próprio ideólogo anti-Islã e, de acordo com seu irmão mais velho Paul (com quem não mantém contato), é assim há muito tempo. Wilders visitou um kibutz em Israel no fim de sua adolescência, e as mais de quarenta visitas subsequentes ao Estado judaico ajudaram a convencê-lo de que o Islã pretende “dominar” a civilização ocidental.

Há também outra diferença fundamental e muito importante entre Wilders e Trump. Perguntei à ex-deputada holandesa Fadime Orgu, que conheceu Wilders quando ambos eram membros do Partido Popular pela Liberdade e Democracia (VVD), partido de centro-direita, entre 1998 e 2004, sobre as constantes comparações entre Wilders e Trump na mídia. “Ele não é como Trump”, riu Orgu, uma das primeiras muçulmanas eleitas para o parlamento holandês. Wilders, diz ela, é um “político de verdade” — o terceiro mais antigo no parlamento holandês —, além de ser “esperto”.

De fato. Ao contrário de outros incitadores de extrema-direita, Wilders disfarça sua intolerância anti-muçulmanos por meio da linguagem do liberalismo e do Iluminismo. O demagogo holandês conquistou eleitores de esquerda defendendo que as posições tolerantes na Holanda com relação às questões sociais, como casamentos homoafetivos, estariam ameaçadas devido a uma “invasão islâmica”.

Mas sua ligação com o liberalismo é superficial e oportunista. Como é possível apoiar a liberdade de expressão e defender a proibição do Alcorão ao mesmo tempo? Como é possível apoiar a liberdade religiosa e, ao mesmo tempo, prometer fechar todas as mesquitas? Como é possível alegar estar combatendo o extremismo islâmico em nome dos direitos de homossexuais e ser aliado de Marine Le Pen na França e Matteo Salvini na Itália, ambos contrários aos direitos de homossexuais?

E como é possível alegar não ser racista ou xenófobo ao mesmo tempo que difama e ameaça imigrantes do Marrocos e seus filhos nascidos na Holanda? Wilders lançou sua candidatura em fevereiro acusando a “escória marroquina” de tornar as “ruas inseguras”. Pouco antes disso, em dezembro, um tribunal de Amsterdã o julgou culpado por insultos públicos e incitação da discriminação em declarações realizadas em um comício em março de 2014. Winston Ross do site Newsweek descreveu a ocasião em um perfil de Wilders:

Protegido por dois guarda-costas, [Wilders] se dirigiu a um pequeno pódio com “Eye of the Tiger” tocando em um equipamento de som barato, acompanhado de aplausos escassos. “Pergunto a todos vocês”, disse apontando para a plateia, “vocês querem mais ou menos marroquinos nesta cidade e na Holanda?” A plateia respondeu em coro animado, “menos, menos, menos!”. Wilders sorriu e disse “então, que isso seja providenciado”.

De novo, essa não é a linguagem do genocídio?

Wilders insiste que não estava defendendo a violência. No entanto, palavras geram consequências, e o discurso de ódio pode levar a crimes de ódio. Veja Anders Breivik, o autodenominado fascista que assassinou 77 pessoas na Noruega em 2011 como parte de sua “guerra civil” contra a “islamização contínua da Europa”. Breivik mencionou Wilders em tom de aprovação 30 vezes em seu manifesto on-line e parece ter comparecido a um comício de Wilders. Wilders pode ter chegado a criticar o crime de Breivik, mas também o reconheceu como um companheiro ideológico implicitamente quando o criticou por ter distorcido “de forma violenta” os “ideais libertários anti-islamização”.

Assim como nos EUA, no Reino Unido e (ao que tudo indica) na França, a “anti-islamização” é uma plataforma eleitoral eficaz na Holanda. Surpreendentemente, o partido de Wilders está empatado nas pesquisas com o Partido pela Liberdade e Democracia do primeiro ministro Mark Rutte. Será que o “Capitão Oxigenado” pode infringir um dos maiores abalos políticos à Europa desde a Segunda Guerra Mundial e conquistar o governo holandês? Por enquanto, todos os grande partidos políticos holandeses se comprometeram a não formar um governo de coalizão com o partido de Wilders. Cas Mudde, professor da Universidade da Geórgia e especialista em populismo, disse que, dessa forma, é “improvável” que Wilders se torne primeiro ministro na próxima quarta-feira , mas admite que “tudo é possível”.

Mesmo que não se torne primeiro ministro, Wilders já foi bem-sucedido em forçar a Holanda – e por associação, a União Europeia como um todo – à extrema-direita em pontos como Islã e imigração. “Por muito tempo, Wilders pôde definir a agenda política holandesa”, observou Mudde. Em Janeiro, por exemplo, em uma tentativa explícita de impressionar eleitores de Wilders, o primeiro ministro Rutte publicou uma propaganda ocupando uma página inteira nos jornais pedindo que as pessoas que “se recusam a se adaptar e que criticam nosso valores” a “ se comportarem de forma normal ou irem embora”. Por todo o continente, assim como do outro lado do Atlântico, políticos de todo o espectro político começaram a seguir seus passos e se apropriar de sua cartilha.

Por consequência, é difícil discordar das avaliações do próprio Wilders sobre o futuro. “Mesmo se eu perder essas eleições,” disse no mês passado, “o gênio não vai voltar para a lâmpada.”