Depois de passarem meses hibernando durante o governo não-eleito de Michel Temer, os grupos que ajudaram a levá-lo ao poder anunciaram que voltarão às ruas. As manifestações em todo o Brasil estão marcadas para dia 26/03 com uma pauta difusa. O Vem Pra Rua, grupo liderado pelo empresário Rogério Chequer, diz que fará uma defesa da Lava Jato. Ele jura que o movimento é suprapartidário, mas já publicou vídeo ao lado de FHC pedindo voto para Aécio um ultra delatado na operação.

O MBL também sairá em defesa da Lava Jato, mas também por outras bandeiras: fim do Estatuto do Desarmamento, fim do Foro Privilegiado, contra o fim da Polícia Militar, Reformas Trabalhista e Previdenciária e fim das mamatas dos políticos e do judiciário

Ambos os grupos já adiantaram que irão poupar Michel Temer e o governo. Chequer chegou a dizer que “as manifestações não serão para detonar o governo Temer, mas contra a corrupção, a impunidade e em defesa da renovação da política velha”.

Achei sensacional esse protesto a favor. Defender a Lava Jato poupando o governo Temer é como como querer proteger Davi dando tapinha nas costas de Golias. É como denunciar o golpe e a corrupção durante o dia, mas beijar a mão de Aécio Neves em festinha de aniversário à noite. Não faz sentido.

O grupo político que sustenta o governo vem trabalhando sistematicamente para boicotar a Lava Jato. Dentre tantas medidas para estancar a sangria e jogar areia nos olhos da Polícia Federal, destaco as duas tentativas mais importantes que tiveram apoio direto de Temer:

Projeto de Leniência:  no fim do ano passado, André Moura (PSC), homem ligado a Cunha e líder do governo na Câmara à época, foi orientado por Temer para mobilizar a base e aprovar com urgência o projeto  que, na prática, representaria o fim da Lava Jato, segundo os procuradores da operação.

Anistia ao caixa 2: depois de tentar por duas vezes anistiar o caixa 2 no ano passado, a turma da pesada de Temer voltou com tudo essa semana. Segundo apuração da Folha, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), ambos afinadíssimos com Temer, têm se reunido com líderes dos partidos “para discutir a melhor maneira de aprovar não só a anistia ao caixa dois, mas também um pacote mais amplo, incluindo anistia a doações oficiais nos casos em que o dinheiro for considerado de fonte ilícita”.

Portanto, que história é essa de defender a Lava Jato poupando quem está usando e abusando da máquina pública para driblar a operação? Que luta contra a corrupção é essa que poupa os corruptos? Não é um pensamento que tenha sentido lógico, mais parece uma crença, uma fé. É como aquele papo de odiar o pecado, mas amar o pecador.

Sem muito esforço é possível entender a passada de pano do MBL para o pecador, já que suas ligações com Temer e PMDB não são de hoje. Não é possível mais manter o apartidarismo de fachada.

Primeiro, o PMDB ajudou a financiar as manifestações do grupo a favor do impeachment. Depois, um dos principais líderes do MBL entrou para o DEM apadrinhado pelo governista Pauderney (DEM-AM), que já foi condenado por desvios milionários em seu estado e é acusado de receber R$250 mil de empresa investigada na Lava Jato. Mais tarde, Michel Temer pediu ajuda ao movimento para “tornar as reformas mais palatáveis”. Na reunião que o fundador do grupo, Renan Santos (réu em, pelo menos, 16 ações cíveis e mais 45 processos trabalhistas), teve com Moreira Franco ( investigado na Lava Jato) ficou combinado que o MBL ajudaria na comunicação do governo para vender as reformas previdenciária e trabalhista. E eles estão seguindo à risca o pedido do comandante. Vão para as ruas defender essas propostas do governo, como já estão fazendo sistematicamente em suas redes sociais.

Essa ação em defesa da Lava Jato serve apenas para prestar contas para o seu rebanho e tentar manter, pelo menos nas aparências, coerência com o discurso histórico destes grupos. Não se luta contra a corrupção no Brasil hoje, de fato, sem denunciar e apontar o dedo na cara da cúpula governista que trabalha diuturnamente para se safar driblando as investigações. Não há mais aquela intolerância contra a corrupção que havia durante o governo Dilma. Corruptos agora serão poupados para que avancem as reformas rejeitadas pela população nas urnas. É disso que se trata a manifestação convocada para o dia 26. Estamos diante de uma farsa.

Os movimentos não são independentes, não são apartidários e não lutam contra a corrupção. Viraram linhas auxiliares de Temer e prestam serviço de assessoria de comunicação ao governo. Tanto nas redes, quantos nas ruas, esses grupos dizem defender a Lava Jato enquanto trabalham e traçam estratégias junto de políticos envolvidos até o pescoço na operação.

Na última quinta-feira, incomodado por perder espaço, Renan Calheiros disse que Eduardo Cunha comanda o governo de dentro da cadeia. Os fatos comprovam que o senador não está exagerando, conforme explica o roteiro da chantagem descrito pelo Poder 360. Ou seja, temos um senador da República, aliado do presidente, afirmando que um criminoso comanda o governo Temer de dentro da prisão na base da chantagem. Será que isso fará MBL e Vem Pra Rua pedirem o impeachment do seu aliado político? Ou esse modus operandi à la PCC, denunciado por um integrante do próprio governo, não é tão grave quanto as pedaladas fiscais?

Não sabemos ainda se o Pato Inflável da FIESP estará presente na manifestação. É que o seu patrono Paulo Skaf (PMDB) é acusado na Lava Jato por receber propina da Odebrecht, e seus aliados já estão trabalhando para trazer a CPMF de volta. O Pato, que foi às ruas para lutar contra a corrupção e o aumento de impostos, deve estar constrangido. Ao que tudo indica, dali só podemos esperar coerência e vergonha na cara de um boneco inflável.