Era noite de sábado quando começaram a circular as primeiras informações sobre a demissão do jornalista do jornal carioca O Dia Caio Barbosa, que era repórter especial desde 2012. A primeira delas foi dada pelo jornalista e escritor Cid Benjamin, irmão de César Benjamin, secretário de Educação, Esporte e Lazer do prefeito Marcelo Crivella (PRB-RJ).

“Foi pedido do bispo da Universal que ocupa a prefeitura da cidade”, afirmou Benjamin em seu perfil no Facebook, e reiterou: “Pra mim isso não é surpresa”. Segundo ele, o que teria motivado a demissão seria a reportagem “Febre amarela: População critica filas e falta de informações em postos”. Publicada no dia 16 de fevereiro, ela falava sobre o mau atendimento nos postos de saúde, principalmente sobre a falta de informações para quem procurava vacinação contra a febre amarela. Em entrevista a The Intercept Brasil, Cid Benjamin classificou a demissão como um “atentado gravíssimo à democracia e à liberdade de imprensa”.

O texto foi reeditado no mesmo dia, e foi retirada a assinatura do repórter. A  reportagem original pode ser lida aqui e a reeditada, aqui. São matérias completamente diferentes. Uma narra as dificuldades de conseguir a vacina e informações e contém críticas duras ao prefeito. A reeditada parece um release da prefeitura do Rio, com informações sobre postos de saúde e muitas aspas do prefeito. Apenas críticas pontuais foram mantidas.

O depoimento – “Não era essa a gestão que prometeu cuidar das pessoas? Bem, pelo que a gente está vendo até agora, parece mais humilhar as pessoas”, criticou a professora Luiza Souza Gomes – foi um dos que sumiram na nova edição.

Descaradamente, a imagem que ilustra a matéria reeditada é do Sana, que fica na cidade de Macaé, feita pela prefeitura local, e com fila menor e ambiente mais amigável. A matéria original era ilustrada com uma foto feita pela Agência O Dia, de um posto de saúde da Tijuca.

Montagem antes x depois da edição: sem assinatura e com foto de outra cidade, Macaé.

Ontem, o bispo prefeito publicou em sua página no Facebook uma nota negando a acusação de que seria o mandante da demissão de Caio Barbosa. A justificativa dada – que não explica absolutamente nada – foi a de que, “para desmascarar essa descabelada infâmia, lembro que o irmão do deputado Marcelo Freixo, Guilherme Freixo, encontra-se no quadro de funcionários da Prefeitura”.

Minutos depois da publicação da nota, o repórter se manifestou: “A nota oficial do prefeito é uma mentira”. Na noite de domingo (19), o jornal publicou o editorial “O DIA realiza reestruturação em busca de maior eficiência”, em que fala de “ajustes de equipe”. Não há menção direta ao nome de Barbosa. Fontes que preferiram não se identificar por temer demissão e represálias, falaram ao The Intercept Brasil que o momento da demissão foi de comoção para quem estava próximo na hora do comunicado, que foi feito reservadamente.

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Caio Barbosa, jornalista demitido a mando de Marcelo Crivella

Foto: Thiago Dezan/The Intercept Brasil

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro não tem informações oficiais sobre outras demissões no periódico. A entidade publicou em nota que a referida matéria desagradou ao prefeito Marcelo Crivella, “que acionou seus assessores e estes pediram que a reportagem fosse tirada do ar, além de exigirem a publicação de um desmentido”.

Na início da tarde desta segunda (20) houve um ato em frente à redação do Jornal O Dia, no centro do Rio, em apoio a Caio Barbosa. Membros do sindicato estiveram presentes para entregar um ofício à diretoria do jornal pedindo uma reunião para elucidar os fatos sobre a demissão do jornalista. No editorial, O Dia menciona “demissões”, mas o sindicato não foi acionado para intermediar nenhum desligamento, o que é praxe.

Caio Barbosa esteve presente no ato, agradeceu todo o apoio recebido, mas preferiu não se manifestar sobre o ocorrido até que assine os papéis da demissão, o que está marcado para ocorrer ainda esta semana.

O repórter iniciou carreira em 2000 no jornal O Fluminense, onde foi de estagiário a redator e cobriu todas as editorias. Depois trabalhou no Diário Lance!, nos portais Globoesporte.com e SZRD e no jonal Extra até chegar a O Dia, em 2012.

No O Dia ele ganhou o Prêmio Embratel 2015 com uma série especial sobre os 50 anos do Golpe Civil-Militar.