Em 2010, Shaker Masri, 26 anos, cidadão americano natural do Alabama, foi preso sob a acusação de terrorismo por ter  planejado, junto com um agente infiltrado do governo, deixar o país e aderir ao grupo militante Shabab, da Somália. Masri passou meses conversando com o informante sobre o desejo de viajar para o exterior e lutar. Depois de Masri expressar a vontade de partir para a Somália, os dois começaram a juntar recursos. Masri foi preso logo no início dos preparativos para a viagem.

Após a prisão, os promotores do caso descreveram Masri como defensor de “uma ideologia extremista e violenta”. A literatura jihadista encontrada no computador dele e o entusiasmo com que falava em lutar e morrer no exterior foram considerados como provas de sua periculosidade.

Acusado de tentar dar suporte material a uma organização terrorista, Masri se declarou culpado em 2012.

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Uma foto de Shaker Masri em 2006, aos 22 anos.

Foto: Arquivo pessoal

Ele foi condenado a quase 10 anos de prisão. Ao anunciar a sentença, o juiz argumentou que circunstâncias atenuantes, como a morte recente da mãe de Masri e sua relativa pouca idade, tinham contribuído para reduzir a pena. Hoje, ele cumpre o que resta de sua sentença numa prisão federal no estado de Minnesota.

Masri conta que estava comprometido com a ideologia jihadista no momento da prisão. Mas, depois de mais de cinco anos de encarceramento, diz que suas opiniões mudaram. Antes um fanático por grupos extremistas, ele agora diz que quer ajudar outros jovens a manterem distância do caminho que tomou e explicar para os americanos o que leva tanta gente a apoiar essas organizações.

A entrevista com Masri foi feita por telefone e e-mail. Da prisão, ele comenta seu caso, expõe suas opiniões sobre radicalização e fala do que acredita que precisa ser feito para minar o apoio a grupos terroristas. Para fins de clareza, a entrevista foi editada.

Fale um pouco das suas origens e da sua criação.

Meus pais são originalmente da Síria, mas se mudaram para a Nigéria nos anos 1970 para escapar do serviço militar obrigatório. No início dos anos 80, meu pai passou para o programa de Engenharia de uma escola do Alabama. Eu nasci nessa época, mas passei a maior parte da minha infância na Nigéria. Tive uma criação muito tranquila. Meus pais me proporcionaram uma qualidade de vida muito boa, mesmo para os padrões ocidentais. Na nossa casa em Jos (cidade na região central da Nigéria), tive um computador com acesso à Internet desde pequeno. Meu pai também me dava dinheiro para comprar e cuidar de vários animais de estimação. Morei na Nigéria até os 18 anos, quando voltei para os Estados Unidos para fazer faculdade.

Quais eram suas convicções religiosas quando jovem?

Eu odiava figuras de autoridade em geral, mas odiava especialmente as pessoas religiosas que frequentavam a mesquita. Na Nigéria, quase todas as crianças com quem eu convivia eram expatriadas sírias como eu. E me sentia traído cada vez que uma das meninas entrava na puberdade e começava a usar o hijab, porque sabia que isso significava uma separação entre nós dali em diante. Meus pais me mandavam para um curso sobre o Islã nos fins de semana. Eu tinha horror dessas aulas que exigiam de nós uma certa disciplina e nos faziam desperdiçar tempo decorando coisas que não compreendíamos. Ensinavam para nós que qualquer insubordinação seria considerada um pecado, era tudo muito opressivo. Tentei, muitas vezes e sem sucesso, ser um muçulmano devoto. Depois de um tempo, simplesmente desisti. Eu ainda acreditava em Deus e queria ter esse abrigo da fé, que eu via em outras pessoas, mas tudo isso exigia um grau de comprometimento para o qual não estava pronto.

Como você começou a formar sua visão política de mundo?

Eu sou do mundo árabe, e lá todo mundo se interessa por questões globais. É uma região muito afetada por acontecimentos do mundo todo. Tivemos televisão por satélite em casa durante toda minha infância e adolescência. Muitos canais mostravam notícias de pessoas da minha etnia ou da minha religião sendo perseguidas mundo afora. Lembro de assistir a um documentário sobre a guerra civil no Líbano, o assunto era o massacre em Sabra e Chatila. Fiquei traumatizado nesse dia. Depois do programa, fui até a casa dos vizinhos palestinos e perguntei para as crianças, que eram minhas amigas, se já tinham ouvido falar do massacre. Quando me disseram que não, fiquei furioso com eles. Para mim, ignorar aquilo era trair a memória das vítimas.

A história da minha família na Síria e os medos inerentes à vida de lá também influenciaram muito minhas opiniões. Nas férias de verão, costumávamos voltar da Nigéria para a Síria para visitar o resto da família. Antes de embarcar, meu pai pedia que minha mãe fizesse o necessário para garantir que, quando o avião pousasse em Damasco, meu irmão e eu não perguntássemos nada sobre política, nem fizéssemos comentários sobre os milhares de retratos de Hafiz al-Assad espalhados por todo canto. Quando alguém começava a falar sobre política nos jantares de família, lembro que as vozes iam baixando, ficava só uma tensão silenciosa no ar. Nas conversas, a impressão era que as pessoas estavam sempre pisando em ovos. Para mim, meu pai era sinônimo de segurança. Nessas viagens à Síria, no entanto, lembro de olhar para ele e ter medo de que me separassem dele sem motivo nenhum. Sentia uma pressão no peito que só desaparecia quando voltávamos para a Nigéria.

Como o início da guerra ao terror influenciou suas convicções?

No 11 de Setembro, eu estava nos Estados Unidos, fazia faculdade em Illinois. Como a maioria dos muçulmanos, achava que o que tinha acontecido era errado. Mas também não me parecia certo me desculpar por algo que não tinha nada a ver comigo. Quando Osama bin Laden divulgou aquelas fitas, até entendi as críticas dele aos ditadores árabes e à situação palestina, mas achava o modo de atuação errado. Na mesquita, o imam só ficava dizendo que o Islã significava paz e que o Islã era contra o que tinha acontecido. Conheci alguns estudantes muçulmanos que tinham passado a vida toda nos Estados Unidos. Eu observava as discussões que eles tinham com outros estudantes sobre esses assuntos. Aprendi as linhas gerais dos argumentos deles, mas, depois disso, aprendi praticamente sozinho tudo o que precisava saber sobre religião e política.

Se você quer combater o jihadismo, precisa enxergar nessas pessoas seres humanos movidos por estímulos humanos e normais.

Depois da invasão americana no Iraque, passei a acessar sites islâmicos e a acompanhar as notícias sobre os insurgentes que lutavam contra os Estados Unidos. Na época, eu acreditava em toda aquela propaganda, achava que era tudo verdade, e os apoiava porque estavam combatendo o opressor. Mas eu continuava não sendo religioso, pelo menos não praticante. Quando eu era estudante, apoiei o Partido Verde porque eles também eram contra a guerra, sentia que estavam bem mais alinhados com os meus valores.

Como se desenvolveu seu interesse pela ideologia jihadista?

Em 2007, procurando fóruns de discussão online, achei uns grupos religiosos. No início, fiquei impressionado pelo conhecimento que tinham da religião. Mas quando começavam a falar de política, diziam basicamente que todos os regimes árabes tinham que ser obedecidos e que era contra a religião se revoltar contra eles. Fiquei chocado quando disseram isso, porque todo mundo sabe como esses regimes são brutais e corruptos. Comecei a pesquisar mais informação na Internet para poder contestar esses argumentos. Daí, passei a entrar em chats que defendiam a criação de um estado islâmico – o que me parecia uma boa solução.

Em última instância, o que me levou à ideologia jihadista foi a péssima situação do Oriente Médio e do mundo islâmico de maneira geral. Para mim, um estado islâmico significava a libertação dos povos e a destituição de regimes corruptos. Eu nem me importava tanto com a parte da Charia; para mim, o Islã era sinônimo de justiça e independência, era isso que eu queria. Eu comecei a ler literatura jihadista na Internet, em especial o que foi produzido nos anos 80, 90 e no início dos anos 2000. Comecei a ficar entendido desses assuntos e participava de debates online com gente que partilhava da mesma ideologia. Eram pessoas muito abertas ao debate e à troca de ideias. Isso me atraiu muito. Elas davam abertura para serem questionadas; eram muito ligadas nas notícias e tomavam o tempo que fosse necessário para explicar seus pontos de vista. Não tinham nada a ver com os jihadistas de hoje em dia, que parecem ser muito intolerantes em relação a opiniões divergentes.

Você disse que só queria justiça e independência. Mas, ao longo da investigação do FBI, você também disse para um informante do governo que queria morrer como um mártir.

Eu sabia que estava indo para um lugar perigoso, a Somália. E também acreditava que não havia sucesso sem sacrifício. Para mim, era uma luta do tipo Davi contra Golias, e sacrifícios tinham de ser feitos. Além disso, como eu estava difundindo argumentos jihadistas pela Internet, me dei conta de que seria hipócrita não seguir o que eu mesmo estava pregando. Eu sempre pensei muito em como os movimentos nacionalistas árabes acabaram criando estados totalitários no Oriente Médio. Eu era a favor da igualdade e acreditava que um estado islâmico poderia proporcionar isso. Também achava que os defensores de um estado nesses moldes seriam muçulmanos honestos e sinceros. Naquela época, eu era um idealista, não levava em conta as motivações e os fatores humanos.

O que fez você mudar de opinião na prisão? 

Durante os primeiros anos na prisão, estudei bastante o Islã. Quanto mais eu estudava, mais eu me dava conta de que são textos abertos a múltiplas interpretações dentro de um espectro bem amplo, e que os jihadistas sempre os interpretavam de maneira oportunista para promover seus próprios interesses. Foi aí que me dei conta: quem começa a achar que fala por Deus se torna muito fatalista, como um robô sem remorso e sem empatia. Subordinam a própria consciência à interpretação que fazem do texto. Eu sou contra um estado governado por teólogos porque eles justificariam qualquer ação – inclusive matar pessoas – como uma ordem vinda de Deus. Hoje eu só quero um lugar onde todo mundo possa praticar sua religião e ter liberdade de expressão e de associação, sem que ninguém seja perseguido.

Ironicamente, um grupo se legitima quando uma superpotência mundial reconhece sua existência ao declarar guerra contra ele.
A experiência da prisão também me impactou muito. Conheci muita gente, estou rodeado de pessoas o tempo inteiro. Eu sou um curioso da psicologia humana. Quanto mais eu observo as pessoas à minha volta, mais me dou conta de que algumas delas são capazes de coisas terríveis – e depois fazem todo um trabalho de se convencer de que, na verdade, estão fazendo algo bom. Eu participei de um programa organizado pelos funcionários daqui que consistia em discutir temas entre nós. Eu sempre levantava questões sociais ou políticas e sentia que grande parte da equipe me desprezava por conta disso, eles achavam que eu estava sendo anti-americano ao culpar “o sistema”. Mas nunca tentaram me calar ou me tirar do programa. Respeitavam muito o fato de que, neste país, todos têm o direito de se expressar, especialmente os mais fracos e vulneráveis. Acho que eu fui ficando mais maduro. Aquela história de criança, de não confiar em autoridades, acabou saindo pela culatra.

Você estava disposto a morrer por um grupo militante estrangeiro. O que você acha que torna alguns jovens suscetíveis a esse desejo?

Quando jovens muçulmanos ligam a TV em qualquer lugar do mundo e vêem gente do Oriente Médio e da comunidade muçulmana sofrendo e morrendo, eles não consideram essas pessoas como “o outro”. São pessoas que se parecem com seus irmãos, suas irmãs, mães, avós. Poderiam ser eles. Não é nada incomum cidadãos de uma nação quererem tomar parte em um conflito em outro país. A História está cheia de exemplos. Esses jovens não são só um monte de solitários que sentem que não pertencem à comunidade em que vivem. Se você quer combater o jihadismo, precisa enxergar nessas pessoas seres humanos movidos por estímulos humanos e normais. Temos que tomar muito cuidado para não enxergar apenas o lado patológico do problema ou tratá-lo como algo totalmente fora da normalidade.

A maioria dos que aderem a essas causas é de jovens inexperientes com um desejo muito grande de fazer parte de algo maior. Os jihadistas conseguem convencer jovens ingênuos de que é só seguir o programa deles que todos os problemas que afligem o mundo muçulmano vão desaparecer e todos viverão felizes para sempre. É assim que atuam pessoas como Anwar al-Awlaki, que traduziu a ideologia jihadista para línguas ocidentais.

Você acha que é possível afastar as pessoas do extremismo apenas com argumentação?

Sim, mas para isso é importante que possamos conversar sobre religião e política num ambiente livre e franco. Os jihadistas não percebem que a maioria dos muçulmanos não os rejeita por medo da autoridade e da coerção, ou por falta de devoção religiosa, mas sim porque deplora a ideologia e a estratégia que usam. Os jovens vulneráveis ao extremismo têm que entender os reais motivos pelos quais estão sendo repudiados. Eles também precisam ouvir gente falando de maneira realista sobre os problemas que existem no nosso mundo. Mas para isso é necessário tratá-los como humanos abertos ao diálogo, e não simplesmente como monstros. Isso também significa que comunidades muçulmanas devem ser tratadas pelos governos como parceiras, e não como inimigas. Só assim os jovens vão conseguir conversar sobre política sem medo de estarem sendo espionados ou vigiados. Um aspirante a jihadista começa a rever suas convicções quando vê que outros jovens rechaçam o extremismo como solução sem banir a questão política da conversa.

Você acha que a estratégia do atual governo tem sido eficaz?

A estratégia atual de combate ao extremismo não está nem um pouco preocupada em ser eficaz. O governo coloca milhares de informantes e espiões nas comunidades muçulmanas e, ao mesmo tempo, pede que essas comunidades sejam parceiras na luta contra o terrorismo. Isso acaba com qualquer possibilidade de diálogo franco e aberto, que é a única maneira de lidar com o problema da ideologia jihadista. Além disso, o governo tem feito muitos jovens muçulmanos se sentirem como o inimigo. Promotores e agentes da lei estão muito mais interessados em prender gente e se promover do que vencer essa batalha por corações e mentes. Punições devem ser ferramentas para desestimular o crime, e não para saciar o desejo de vingança das pessoas, principalmente nos casos em que não há vítimas. Na minha opinião, em vez de deter, essa estratégia cria mais terroristas.

O que o levou a falar sobre suas experiências?

Quando o ISIS ganhou poder em 2014, acabaram-se as últimas ilusões que eu tinha em relação ao jihadistas. Eles têm todos os sintomas de psicopatia: são manipuladores, não sentem remorso nem empatia, são incapazes de aprender com os próprios erros. Eles fazem questão de matar as pessoas da maneira mais espetacular possível. Oprimem populações locais até se voltarem contra eles. Não são guerreiros, são gângsters. O movimento jihadista atual está controlado por grupos como esse, com uma visão apocalíptica de mundo. O intuito não é ajudar a população síria ou qualquer outra população em dificuldade. Para eles, esses conflitos são só oportunidades para conseguir recursos e voluntários. Alegam que defendem uma causa quando, na verdade, são defensores apenas de si mesmos. O jihadismo é a própria causa.

Espero que minha experiência e minhas observações possam servir para desestimular jovens a aderir a grupos como o ISIS e a se tornar jihadistas. Estou convencido de que a luta contra o jihadismo não será vencida nos campos de batalha. Desde o começo da guerra ao terror, trilhões de dólares foram gastos e centenas de leis foram aprovadas com o objetivo de combater o terrorismo, mas não estamos nem perto de uma resolução para o conflito. Na verdade, a situação piorou. Enquanto uma nova estratégia não for montada, vai continuar havendo “loucos” dos dois lados que vão continuar se matando em nome de crenças religiosas, cultos de personalidade, nacionalismo e orgulho racial.

Tradução: Carla Camargo Fanha