São três anos de Lava Jato. Três anos de uma panela de pressão em fogo alto, provocando frequentes disenterias verbais e reiteradas desmoralizações da autoridade pública. É tensão demais para uma pátria só. Contam-se nos dedos os políticos que podem dormir sem medo de que algum policial, de tornozeleira ou não, lhes venha acordar com a notícia de que os próximos cafés da manhã serão em Curitiba.

Aí, não dá mais. Há um limite pra tudo nessa vida. Por isso não são poucas as vozes de Brasília que sussurram alternativas a essa história desagradável de investigar propinas, caixas dois e outros busílis que sempre fizeram parte da política nacional. Há até quem veja uma espécie de operação abafa, sendo moldada numa estratégia de motoboy na hora do rush: onde houver brecha, ele se enfia.

Claro que, no heterogêneo caldeirão de Brasília, há sempre um ou outro espírito mais ingênuo e menos dado a sutilezas, daquele tipo que liga pro aniversariante pra perguntar o que levar na festa surpresa. Ou, no caso, que afirma, numa entrevista à Folha de S.Paulo, não ver nenhum problema em simplesmente absolver a politicada toda e tocar a bola pra frente.

O leitor desavisado poderá supor que essa largada precoce tenha sido obra daquele assessor que sugeriu ao Conde Temer discursar sobre o importante papel feminino na escolha do supermercado. Mas, não. A célebre pensata partiu do deputado petista Vicente Cândido que é, vejam só, o relator da reforma política na Câmara.

“Temos de ter pensamento estratégico. O que é melhor para a sociedade nesse momento?”

Para ele, a proposta é uma forma de “distensionar o país”. “Temos de ter pensamento estratégico. O que é melhor para a sociedade nesse momento? Até aprovar uma anistia, seja criminal, financeira, tudo é possível”, afirmou o brilhante congressista.

A despeito dos arroubos, contudo, a coisa costuma ser mais discreta e surge de onde não se espera. Foi assim, por exemplo, com a súbita polemização dos vazamentos à imprensa. A barafunda começou no domingo (19), quando a Ombudsman da Folha de S.Paulo, Paula Cesarino Costa, revelou uma nova e inusitada prática jornalística: a coletiva em off. Para quem não sabe, off é uma informação fornecida por uma fonte que não quer se identificar, em geral a um jornalista de confiança. Nesse caso, contudo, o processo foi ligeiramente diverso.

Tudo indica que a Procuradoria Geral da República reuniu representantes de um punhado de veículos de comunicação para uma espécie de suruba jornalística. No bacanal, foram vazados 16 nomes da famigerada segunda lista de Janot, que tinha 83 pedidos de abertura de inquérito. Os coleguinhas, felizes pela informação semi-exclusiva, publicaram todos juntos praticamente a mesma reportagem, sem se perguntarem por quê.

A man wears a t-shirt with the image of American comic hero Superman with the face of Brazilian Federal Judge Sergio Moro, who conducts the Lava Jato (Car wash) operation, the biggest corruption investigation in Brazil's history, during a nation-wide protest against corruption at Copacabana beach in Rio de Janeiro, Brazil, on December 4, 2016. / AFP / YASUYOSHI CHIBA        (Photo credit should read YASUYOSHI CHIBA/AFP/Getty Images)

Homem usa camisa com montagem durante manifestação em Copacabana em Dezembro de 2016.)

AFP/Getty Images

A vida seguiu, mas os vazamentos voltaram à tona na terça-feira (21) quando, em mais um episódio clássico da série “seria cômico se não fosse trágico”, o todo poderoso juiz Sérgio Moro mandou prender um blogueiro. O objetivo seria  investigar a ligação do profissional com o responsável por vazar informações sobre a condução coercitiva do ex-presidente Lula. A estranha ação  foi perpetrada pela PF, com direito a autoritarismos como o tradicional horário impróprio (no caso seis da matina), confisco de equipamentos e interrogatórios sem advogado de defesa.

Qual um trailer de 1968, abriu um precedente perigoso. Primeiro porque quebrou na marra o direito do sigilo da fonte, algo que deveria ser sagrado em qualquer democracia. Segundo porque foi um ato aparentemente voltado a um setor específico da imprensa.

Os vazamentos fazem parte da Lava Jato. Eu vazo, tu vazas ele vaza. Até Moro vaza.

Afinal, se tirássemos os vazamentos, gotejamentos e infiltrações das reuniões de pauta de Veja, o resultado seria uma versão reacionária da revista Boa Forma: “Bela, recatada e sarada – a dieta de Marcela”. Os vazamentos fazem parte da Lava Jato. Eu vazo, tu vazas ele vaza. Até Moro vaza. Vazou publicamente ao divulgar, fora do prazo permitido, conversas telefônicas entre Lula e a então presidente Dilma Rousseff, jogando lenha no Impeachment e lançando o pobre Bessias à fama instantânea.

O estrelato repentino, aliás, foi um dos efeitos colaterais da prisão do blogueiro. De uma hora pra outra, ficamos sabendo da existência de Eduardo Guimarães e do Blog da Cidadania. Dizem as más línguas, inclusive, que há um número considerável de jornalistas independentes procurando uma informaçãozinha para vazar. Não está fácil pra ninguém e nada como uma manhã na PF para turbinar o número de visitantes únicos.

Outro efeito colateral, claro, foi respingar na Lava Jato. Afinal, sempre que o ilibado juiz de Curitiba mete os pés pelas mãos, algo que não é assim tão raro, a operação como um todo sai arranhada.

Mas, de todas as pancadas que a famigerada operação levou ao longo da semana, a mais forte certamente veio do Excelentíssimo Ministro do Supremo Gilmar Mendes. O magistrado, um dos mais ágeis motoboys do abafa Lava Jato, viu a brecha aberta com a história dos vazamentos e entrou chutando espelhinhos retrovisores. Disse que a divulgação das informações sigilosas eram uma “desmoralização da autoridade pública” e sugeriu que todo “material vazado” fosse desconsiderado pela Justiça.

É ou não é muita tensão pra pouca verba de gabinete?

Diante da suprema psicodelia do magistrado, o procurador geral da República, Rodrigo Janot, que teima em querer processar Deus e o mundo e parece não entender a necessidade de um respiro aos engravatados da pátria, resolveu atacar.  Respeitando a liturgia do cargo e tomando o cuidado de não citar o nobre colega, sugeriu que o ministro sofria de “disenteria verbal”.

Então diga, caro leitor, é ou não é muita tensão pra pouca verba de gabinete? Mas tenhamos calma que as coisas hão de mudar. Tanto que tem até gente pensando no que fazer para que esse pessoal enlameado pela Lava Jato, mas quiçá nunca condenado, possa continuar a representar a sociedade no Congresso Nacional. Ao menos foi mais ou menos isso que muita gente viu na ideia de voto em lista fechada, uma das estrelas da proposta de reforma política.

Nela, em vez de escolher uma pessoa de carne e osso, os eleitores dão seus votos a um partido, que os distribui de acordo com uma lista previamente determinada. O sistema, ao menos na visão de certas mentes mais pessimistas,  permitirá que figuras como Angorá, Índio, Boca Mole, Todo Feio, Mineirinho e companhia possam se esconder atrás das siglas partidárias e continuem sendo eleitos por outros 500 anos.

Por outro lado, a proposta vai na direção daquele tão desejado relaxamento nacional. Nas redes sócias por exemplo: quando a coisa encrencar e os gastos congelados agravarem ainda mais a miséria do povão, o eleitor engajado vai poder postar selfie de camiseta da seleção com a frase do momento: “A culpa não é minha, eu não sei em quem votei”.

*Atenção alérgicos: contém sarcasmo e ironia.