Cinco anos atrás, eu fiz um aplicativo simples para iPhone. Ele enviaria uma notificação cada vez que um ataque de drones dos EUA fosse noticiado.

A Apple rejeitou o aplicativo três vezes, chamando de “conteudo excessivamente censurável ou grosseiro”.

Ao longo dos anos, eu tentei algumas vezes enviar o aplicativo novamente, mudando o nome de Drones+ para Metadata+ (metadados). Eu estava curioso para ver se a Apple mudaria de ideia. O aplicativo não incluía imagens ou videos de qualquer tipo – ele simplesmente agregava notícias sobre guerras secretas.

No centro de tudo havia uma questão: queremos estar tão conectados à nossa política externa quanto estamos aos nossos smartphones? Minha hipótese era que “não”. Norte-americanos não se importam com a guerra de drones, porque, na maioria das vezes, ela é escondida.

Em 2014, após cinco rejeições, a Apple aceitou o aplicativo. Ele ficou na App Store por quase um ano. De acordo com os dados internos da Apple, o Metadata+ foi baixado por mais de 50.000 pessoas.

Mas, no mês de setembro, a Apple decidiu deletar completamente o aplicativo. Eles alegaram que o conteudo, mais uma vez, era “excessivamente censurável ou grosseiro”.

Bom, a posição da Apple evoluiu. Hoje, após 12 tentativas, o Metadata está de volta à App Store.

Taliban chief Mansour 'likely killed' in US drone strike

Destroços de um veículo em que Mullah Mansour estaria viajando, após ser atingido por um drone dos EUA em 22 de maio de 2016, em Balochistan, Paquistão.

Foto: Barkat Tareen/Getty Images

Como um artista que trabalha com dados, penso que a história desse aplicativo seja sobre algo mais do que um conflito mesquinho com a Apple. É sobre o que pode ser visto – ou escondido – sobre a geografia de nossas guerras secretas.

Nos últimos 15 anos, jornalistas em atividade no Iêmen, no Paquistão e na Somália têm trabalhado duro para revelar os contornos dos ataques de drones dos EUA – em alguns casos, em situação de perigo para eles mesmos. Cineastas, acadêmicos e advogados fizeram um trabalho importante documentando os resultados horríveis desses ataques. Sites como The Intercept publicaram denúncias de testemunhas sobre como o programa secreto de drones funciona.

Mas, enterrada entre os detalhes, há uma verdade difícil: ninguém realmente sabe quem a maioria desses mísseis está matando.

Como os detalhes sobre a guerra de drones são escassos, nós só temos “metadados” sobre a maioria desses ataques – talvez uma data, o nome de uma província, talvez uma contagem de corpos. Na ausência de evidências documentais ou de testemunhas oculares, não há muita narrativa para se contar.

O nome “Metadata” tem um duplo significado: o aplicativo contém metadados sobre notícias em língua inglesa e, ao mesmo tempo, o nome se refere à base em que a maioria dos ataques é feita. (Como o General Michael Hayden disse, “matamos pessoas baseados em metadados”.)

Os smartphones nos conectaram mais intimamente a todos os tipos de dados. Como Amitava Kumar colocou recentemente, “a Internet entrega fragmentos feios de notícias e rumores ao longo do dia, e, com eles, um senso de intimidade quase constante com a violência”. Ainda assim, informações sobre ataques de drones – no universo da Apple – haviam, de alguma forma, sido relegados para além do horror.

O que significaria estar mais conectado a nossas guerras? Poderiam nossos celulares nos permitir ligar os pontos?

Com um presidente que planeja suspender ainda mais os constrangimentos da era Obama a ataques de drones, declarando partes do Iêmen e da Somália como “áreas de hostilidade ativas”, eu fico feliz de que a Apple tenha decidido parar de bloquear um aplicativo de notícias.

Se alguma coisa sobre o aplicativo é “excessivamente censurável ou grosseira”, talvez sejam os próprios ataques aéreos.

Tradução: Beatriz Felix