No último fim de semana, a adolescente Maria Eduarda, de 13 anos, morreu atingida por três “balas perdidas”, mesmo estando dentro da escola, na Zona Norte do Rio. As balas são oriundas de um confronto entre policiais e bandidos na comunidade. Mais uma vez, o debate se fecha na culpabilização dos indivíduos: saber de onde vieram as balas para saber se os responsáveis são traficantes ou policiais. Outra vez, a estrutura perversa que abarca e mantém uma cidade violenta e exposta às (diversas) violências ficam de fora da discussão central, das investigações necessárias, das respostas coerentes.

American civil rights leader Dr Martin Luther King Jr. (1929 - 1968) lying in state in Memphis, Tennessee, as his colleagues pay their respects to him (right to left); Andrew Young, Bernard Lee and Reverend Ralph Abernathy (1926 - 1990).  (Photo by Keystone/Getty Images)

Para King era preciso enfrentar a violência

Foto: Getty Images

No dia 4 de abril completam-se 49 anos da morte do pastor batista Martin Luther King Jr., ele mesmo vítima da violência das armas e das balas que, perdidas ou com endereço certo, ameaçam o direito à vida. De Memphis ao Rio de Janeiro, racismo, violência, criminalização da pobreza, estigma e controle social seguem se misturando (e mantendo ao mesmo tempo cada um o seu lugar) ontem e hoje. Por décadas, essa realidade segue inalterada.

A história da morte de Trayvon Martin, de 17 anos, em 2012 na Flórida, assassinado por um vigilante comunitário por achar que o adolescente era um suspeito que estava rondando a comunidade para roubar, pode muito bem ser equiparada à história do menino Douglas, também de 17 anos, assassinado em 2013, em São Paulo, por um policial militar que chega disparando ao abordar o adolescente. A única coisa que Douglas conseguiu dizer foi a pergunta “Por que o senhor atirou em mim?”.

No primeiro caso, o assassino é absolvido, protegido por uma lei que lhe atribuiu legítima defesa. No segundo caso, o PM é absolvido ao alegar que o tiro foi acidental. Assim é a morte de Tamir Rice, de 12 anos, em Cleveland, ou a de Eduardo de Jesus, de 10, no Complexo do Alemão. Ou suspeitos, ou vítimas “não esperadas”.

Em 1963, King faria aquele que seria seu discurso mais famoso, em Washington, que ficou conhecido como “I Have a Dream”. Ali, a ênfase de King estava no quanto suas históricas marchas haviam avançado e repercutido. Se por um lado, as repressões foram extremamente violentas, por outro, as mobilizações se tornaram um desafio impossível de ser contido pelas autoridades americanas. Às vésperas da grande marcha, o maior temor do presidente Kennedy e seus conselheiros (incluindo o vice, Lyndon Johnson) era que a ela pudesse terminar num confronto incontrolável. Kennedy se antecipou à grande marcha, que seria em agosto, fazendo seu discurso em junho, em cadeia nacional, favorável a promulgação da Lei dos Direitos Civis, usando tal ação como uma forma de tirar a força reivindicatória da marcha, tornando-a mais comemorativa.

“Nenhum cachorro, nenhum canhão de jato d’água iriam fazer a população negra recuar.”

Mas no seu último discurso, em 1968, Martin Luther King Jr. foi bem menos esperançoso ou devoto de um sonho. Entre 63 e 68, King amargou a insistência de uma segregação e um racismo que não estava na Lei, mas estava na cultura da supremacia branca americana. No mesmo ano, King teve de passar  pela morte de Malcolm X, numa assustadora expressão de violência em que fora assassinado com 16 tiros disparados contra eles, e a morte do jovem Jimmie Lee Jackson. A morte de Jackson foi um duro golpe em King e também no seu movimento da não violência.

Era perceptível que a conquista dos direitos a voto não garantia nenhuma tranquilidade à comunidade negra no país. Nenhuma segurança. Nenhum reconhecimento real. A sociedade racista, a sociedade branca ocupantes dos lugares de poder continuava lá. E continuava racista.

Entre a morte de King e a menina Eduarda, seguimos com os mesmos fantasmas.

Se em 63 o sonho de King acreditava que até o Mississippi (um dos estados mais racistas e violentos), que, segundo ele, “transpira com o calor da injustiça e opressão”, iria enfim se transformar “em um oásis de liberdade e justiça”, em 68 King, há apenas dois dias antes de também ser assassinado, ciente de que não tinha mais o que temer porque havia chegado ao topo da montanha, mostrava sua decepção ao dizer que ele havia lido, em algum lugar, que “a grandeza dos Estados Unidos estava no direito de protestar por direitos”. Evidentemente, tantas mortes, repressões e insistência da violência do racismo provava que não. Convicto, King afirmava que “nenhum cachorro, nenhum canhão de jato d’água” iriam fazer a população negra recuar. Era preciso portanto, enfrentar a violência que ameaçava o sonho.

Era nítido também, que para além do seu papel de promulgar e reconhecer leis, o Estado não parecia estar tão empenhado no fim da segregação, e no reconhecimento da dignidade de homens e mulheres negras, e que a cultura de estigma e precarização sobre os territórios de guetos americanos ou a construção da imagem de suspeito em potencial do corpo negro na sociedade americana não passaria de uma geração a outra. As vítimas continuariam.

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Violência continua destruindo sonhos

Foto: reprodução

Entre a morte de King e a menina Eduarda, seguimos com os mesmos fantasmas. No discurso de 63, o pastor aconselhava: “Não se deixe cair no vale do desespero”. Talvez isso continue valendo. Ainda é muito necessário insistir em chamar atenção para o fato de que é preciso levar a sério que o dilema da violência que nos envolve, e das vidas pobres e periféricas e negras que perdemos, vai muito além de apenas saber a origem das balas que sobrevoam as nossas cabeças.