Pelo jeito, não são só os republicanos que lançam mão de fatos alternativos. Desde a chocante vitória de Donald Trump, líderes do Partido Democrata têm feito um baita esforço para convencer todos nós (e a si mesmos) de que o triunfo dele teve menos a ver com racismo do que com angústia econômica – e isso apesar de quase todos os dados disponíveis sobre o assunto apontarem na direção contrária.

Veja, por exemplo, o que disse Bernie Sanders, o líder de fato da #Resistência, na sexta-feira da semana passada: “Algumas pessoas acham que quem votou em Trump é racista, sexista, homofóbico, execrável”, afirmou ele, ao lado da senadora progressista Elizabeth Warren durante uma manifestação em Boston. “Eu não concordo com isso”. Três dias após a eleição, em novembro do ano passado, o senador de Vermont escreveu no New York Times que os eleitores de Trump estavam “expressando uma ferrenha oposição ao sistema político e econômico que coloca os interesses dos ricos e das empresas acima dos deles”.

Warren concorda com o colega. “Milhões de pessoas em todo o país votaram [em Trump] não pela sua intolerância, mas apesar dela” – e o fizeram porque o sistema não “está mais funcionando para eles do ponto de vista econômico”, afirmou a senadora de Massachusetts à MSNBC no ano passado.

Sanders e Warren parecem estar empenhados em jogar a culpa mais nas disfunções do Partido Democrata e na economia debilitada do que no racismo dos eleitores republicanos. Essa estratégia alternativa, com direito a afagos aos que abraçaram um candidato abertamente xenófobo, não chega a ser surpreendente. Tudo bem, eu entendo. É difícil mesmo aceitar que milhões de compatriotas nutrem por outros um sentimento que cientistas políticos já identificaram como “ressentimento racial”. É compreensível a relutância em reconhecer que o preconceito (ou a tolerância ao preconceito) é uma coisa tão difundida na sociedade. E do ponto de vista eleitoral, por que líderes democratas iriam correr o risco de perder milhões de eleitores ao classificá-los de racistas?

BOSTON, MA - MARCH 31: Vermont Senator and former Presidential candidate Bernie Sanders (I Ð VT) and Senator Elizabeth Warren (D-MA) speak at the Our Revolution Massachusetts Rally at the Orpheum Theatre on March 31, 2017 in Boston, Massachusetts. (Photo by Scott Eisen/Getty Images)

Os senadores Bernie Sanders e Elizabeth Warren discursam em um evento do movimento “Our Revolution” (Nossa Revolução), no Orpheum Theatre, em Boston, Massachusetts (31/03/2017).

Photo: Scott Eisen/Getty Images

Os fatos, contudo, “são umas coisinhas teimosas”, como disse uma vez um predecessor bem mais ilustre do presidente Trump. Curiosamente, no mesmo dia em que Sanders saiu em defesa dos eleitores de Trump sem nenhum tipo de dado que comprovasse sua linha de argumentação, foi divulgada uma nova pesquisa do American National Election Studies (ANES), o centro de estudos eleitorais americanos.

Philip Klinkner, cientista político do Hamilton College e especialista em questões raciais, analisou em profundidade o material do ANES. Ele me disse que, “sem entrar no mérito do que é ou não boa política, os dados referentes a 2016 mostram claramente que a opinião de Trump sobre negros, imigrantes e muçulmanos foi um elemento-chave no apelo que teve junto aos eleitores”. Por exemplo, “Trump teve resultados piores do que Mitt Romney entre eleitores com ressentimento racial baixo ou moderado, mas foi muito melhor entre os que tinham níveis elevados de ressentimento”.

Os dados do ANES só confirmam o que uma miríade de estudos já tinha mostrado desde o início da campanha: a corrida eleitoral foi mesmo uma questão de cor. No verão passado, o próprio Klinkner esteve nas manchetes por dizer que o melhor jeito de identificar um eleitor de Trump era fazendo “uma simples pergunta: Barack Obama é muçulmano?” De acordo com ele, “se o interlocutor for branco e a resposta for sim, há 89% de chances de ele preferir Trump a Clinton”. E chamam isso de preocupação com a economia? Sério?

Outras pesquisas e enquetes concluíram que havia “uma forte correlação entre atitudes racistas e o apoio a Trump”.  C0nstataram ainda que partidários do candidato republicano estavam “mais propensos a descrever afro-americanos como ‘criminosos’, ‘estúpidos’, ‘preguiçosos’ e ‘violentos’’, e a acreditar que “pessoas de cor estão tirando empregos dos brancos”. Grande parte deles também considera que negros são “menos evoluídos do que brancos”. Desculpa, mas como é que um preconceito desse nível pode ser atribuído ao livre comércio e aos baixos salários?

Para Sanders, Warren e outros representantes da esquerda, o que importa é a economia, e a classe social é a chave de tudo. Mas dados empíricos não confirmam o que dizem. Sim, Trump ganhou a (grande) maioria dos votos de eleitores brancos sem nível superior, mas também levou uma parte enorme dos que fizeram faculdade. Ele teve mais votos entre mulheres e jovens brancos do que Clinton. Resumindo: ele conseguiu atrair eleitores brancos independentemente de idade, gênero, renda ou escolaridade. Em 2016, classe social não foi o X da questão. Em um artigo publicado recentemente no The Nation, os analistas Sean McElwee e Jason McDaniel apontam que “a renda foi decisiva para McCain e Romney, mas não para Trump”. E concluem: “a identidade racial deslocou a classe social do centro do debate político americano”.

Pro-Trump supporters take part in a "Make America Great Again" rally in Salem, Ore., on March 25, 2017. (Photo by Alex Milan Tracy) *** Please Use Credit from Credit Field ***(Sipa via AP Images)Partidários de Trump participam de manifestação “Make America Great Again” (Tornemos a América grande novamente) em Salem, Oregon (25/03/17)

Photo: Alex Milan Tracy/Sipa USA/AP

A análise detalhada que a Gallup fez de uma extensa série de entrevistas com 125 mil americanos reforça o diagnóstico de McElwee e McDaniel. A pesquisa concluiu que partidários de Trump, longe de serem os “excluídos” ou derrotados da globalização, “têm uma renda relativamente alta e não estão mais expostos do que outros ao desemprego e à competição com o livre comércio e a imigração”. Para Jonathan Rothwell, economista-sênior da Gallup, a conclusão é só uma: “não podemos uma relação direta entre a popularidade de Trump e dificuldades econômicas”.

Seguinte, se você ainda acha que o que levou eleitores a escolher Trump foi uma angústia mais econômica do que racial, reflita sobre estas perguntas: por que a maioria dos Americanos que ganham menos de 50 mil dólares por ano votou em Clinton e não em Trump, de acordo com as pesquisas de boca-de-urna? E no chamado “Cinturão da Ferruagem” (formado pelos estados decisivos de Michigan, Wisconsin e Pensilvânia), por que a maior parte dos eleitores que citaram a economia como “a questão mais importante a ser resolvida” preferiu Hillary a Donald? Por que latinos e negros da classe trabalhadora não correram para Trump com o mesmo ímpeto dos operários brancos? Ou a insegurança econômica desse grupo não conta?

Só para ficar claro, ninguém aqui está dizendo que não havia descontentamentos econômicos legítimos por parte do pessoal “Trumpland” ou que a economia não teve nenhum impacto no processo eleitoral. Estamos afirmando apenas que nada disso foi determinante para a maioria dos eleitores de Trump. Bom, pelo menos é o que descobrimos quando nos damos ao trabalho de estudar esses eleitores. A raça trucou a economia.

Os defensores da narrativa econômica também têm na manga uma perguntinha capciosa: como é que o ressentimento racial pode ter sido tão primordial para partidários de Trump se tantos deles votaram em Barack Obama, inclusive no “Cinturão da Ferrugem”, em 2008 e 2012? “Não são racistas”, afirmou, entusiasmado, o cineasta Michael Moore em novembro do ano passado. “Eles votaram duas vezes num cara que tem Hussein no no nome”.

Klinkner não dá muita bola para esse argumento. Primeiramente, “a maioria não votou em Obama. Não houve muita mudança de voto de 2012 a 2016”. Em segundo lugar, “brancos da classe trabalhadora migraram para Trump não tanto por serem da classe trabalhadora, mas por serem brancos”. Klinkner observa que, em 2016, a situação de Clinton era bem diferente da de Obama. Ela enfrentou um candidato republicano que “jogou as cartas da raça e do nativismo de maneira aberta e explícita, coisa que John McCain e Mitt Romney não quiseram ou não conseguiram fazer”.

TAMPA, FL - FEBRUARY 12: People hold signs that read, " Build that Wall", as they wait for the start of a campaign rally for Republican presidential candidate Donald Trump at the University of South Florida Sun Dome on February 12, 2016 in Tampa, Florida. The process to select the next Democratic and Republican Presidential candidate continues.  (Photo by Joe Raedle/Getty Images)“Construa esse muro”: populares mostram cartazes antes de um comício de Donald Trump em Tampa, Florida (12/02/2016).

Photo: Joe Raedle/Getty Images

Se os Democratas quiserem ter alguma chance de voltar à Casa Branca em 2020, eles precisam entender por que perderam em 2016 – e isso com base em fatos e números, por mais inconvenientes ou constrangedores que sejam. A ala do partido composta por Sanders, Warren e Moore acerta ao focar em comércio justo e igualdade de renda. Os apelos por melhores salários e regulamentação trabalhista estão corretos, tanto do ponto de vista moral quanto econômico. Mas nada disso é a bala de prata para resolver o problema do racismo. Como observou Michael Tesler, da Universidade da Califórnia, autor de “Post-Racial or Most-Racial? Race and Politics in the Obama Era” (ainda sem edição em português), “os dados sugerem que o ressentimento racial é o motor da angústia econômica, e não o contrário”.

Lembre-se: primeiro, você tem que identificar a doença, para só então procurar a cura. No caso dos partidários de Donald Trump, já temos o diagnóstico: não é a economia, é o racismo, estúpido.