Nas peças de Shakespeare, o vilão costuma quebrar a quarta-parede e dirigir-se ao público, revelando seus reais planos e motivações por trás das mentiras. Por convenção, assumimos duas coisas: esses solilóquios são naturalmente sinceros e jamais são percebidos pelos personagens em cena. Ainda que tudo seja ouvido pela platéia, o que Macbeth fala em “aside” jamais é escutado pelos outros atores, o que sempre parece meio absurdo – e tem o efeito ambíguo de sublinhar a artificialidade da representação ao mesmo tempo em que nos faz mergulhar nela.  

Não é apenas no teatro elisabetano que encontramos apartes do tipo, mas também em seriados como “House of Cards”, óperas de Bellini, autos de Gil Vicente, filmes de Woody Allen, peças de Molière e, claro, quando Ferris Bueller fala com a câmera em “Curtindo a vida adoidado”. Sim, imagino que os leitores já estejam pensando no ilegítimo e suas confissões sobre o golpe registradas em câmera, mas antes de chegar na deplorável caricatura que é Michel Temer, preciso falar sobre… o Lobo Mau.

Qualquer platéia de crianças, ignorando as convenções do aparte teatral, sempre grita alertando Chapeuzinho Vermelho.

A cena é bastante comum aos que já se aventuraram no submundo pantanoso do teatro infantil: qualquer platéia de crianças, ignorando as convenções do aparte teatral, sempre grita alertando Chapeuzinho Vermelho em cena quando o Lobo em roupas de vovozinha revela seus planos para o público. A depender da encenação, ele fará o mesmo com os porquinhos, que também não escutam jamais. É claro: eles estão no mundo da representação e o único a quebrar a quarta parede é o Lobo. Mas as crianças não desistem. Parte da graça – e a justificativa para o extenso uso do recurso no teatro infantil – é essa.

Ultimamente, viver no Brasil é um pouco como ser essa criança que assiste à peça infantil e grita para os personagens.

Ultimamente, viver no Brasil é um pouco como ser essa criança que assiste à peça infantil e grita para os personagens. O problema é que metade do país parece surda para o que a outra metade está escutando. O fato de que as extensas delações da Odebretch sejam lidas e editadas ao bel prazer das simpatias e acordos dos grandes donos da notícia não ajuda. No perfil do facebook do MBL (ou mesmo na boca de algum opinionista da Globonews) a delação parece ser apenas sobre Lula. Em sites de esquerda, vai parecer que é sobre Temer ou Aécio. Nesse ambiente de verdades tão ostensivamente seletivas, talvez a melhor forma de esconder alguma coisa seja deixá-la a vista de todos.

Michel Temer, um canastrão de si mesmo, parece ser um especialista em apartes do gênero.

Ele já confessou duas vezes que o impedimento de Dilma nada teve a ver com pedaladas fiscais– a primeira numa fala em Nova Iorque, descoberta aqui no Intercept, pelo Inacio Vieira, e ignorada com solenidade pelos jornalões brasileiros, a segunda na entrevista para a Bandeirantes dada no último sábado, dia em que se malha o judas. Não é surpreendente que Temer minimize essas falas, e sim que o país e a imprensa o deixem sair ileso.  

O que une alguns desses vilões da ficção, como Iago, João Doria e Ricardo III, não é apenas o hábito de monologar com sinceridade para a platéia, mas o fato de que, ao longo da peça, eles não mudam. Terminam o espetáculo tão inescrupulosos e desgraçados quanto começaram. 

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Há uma entrada no “Diário do Hospício” de Lima Barreto em que ele escreve:

“Um maluco vendo-me passar com um livro debaixo do braço, quando ia para o refeitório, disse: – Isto aqui está virando colégio.”

Antes estivesse.