Vistas isoladamente, as somas pagas em propina pela Odebrecht já impressionam. Só nos inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal, executivos e diretores da empresa relataram pagamentos de mais de R$ 220 milhões em propinas atreladas a percentuais de obras públicas. E nessa conta nem entram as mais de 200 petições encaminhadas pelo ministro Edson Fachin para outras instâncias da Justiça, por envolverem autoridades sem foro privilegiado no STF.

Foi um investimento lucrativo. Para a maior parte da população, esses valores são incompreensíveis – no Brasil, a renda mensal média de um trabalhador é de pouco mais de R$ 1 mil, de acordo com o IBGE. Mesmo assim, os montantes desviados para agradar políticos parecem mero troco diante do custo de obras e contratos contaminados pela relação corrupta entre a maior empreiteira do Brasil e os principais políticos do país.

The Intercept Brasil examinou os inquéritos e petições encaminhados pela Procuradoria-Geral da República a partir das delações da Odebrecht e criou um mapa com as principais obras comprometidas com acertos de propina para agentes públicos, acompanhado de detalhes sobre cada uma delas. O custo total chega a R$ 77 bilhões. Em todos esses casos, os envolvidos estão agora sob investigação pela suposta prática de crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

O senador e presidente do PSDB, Aécio Neves (MG), é um deles. Quando governador de Minas Gerais, recebeu, segundo delatores, R$ 5,2 milhões em um acordo para fraudar a licitação da Cidade Administrativa, em Belo Horizonte. O alto escalão do PT também está sob investigação formal. Conforme os relatos, a Odebrecht mantinha ao menos três contas com dinheiro ilícito à disposição – uma delas, supostamente destinada ao ex-presidente Lula, com saldo de R$ 35 milhões. O PMDB, agora no comando da República, teria acordado propina de US$ 40 milhões em reunião que teve participação do presidente Michel Temer – e isso referente a apenas um contrato na Petrobras.

A Cidade Administrativa de Minas Gerais é estimada em R$ 1,2 bilhão – e não é, nem de longe, a obra mais cara entre as supostamente maculadas. Em Porto Velho, Rondônia, no Rio Madeira, foram construídas duas hidrelétricas: as usinas de Santo Antônio e de Jirau, ambas envolvidas em polêmicas ambientais. De acordo com os delatores, ao menos R$ 55 milhões foram pagos para peemedebistas de alto escalão nesses empreendimentos. O valor das obras somadas? Cerca de R$ 36 bilhões.

A Odebrecht, muitas vezes em conjunto com outras grandes empreiteiras (que ainda negociam delações premiadas), atuou também para obter vantagens ilícitas em obras que vão desde grandes investimentos para a Copa do Mundo de 2014, os Jogos Olímpicos de 2016, até concessões menores, em cidades do interior.

Essas obras menores estão citadas mesmo nos inquéritos abertos no STF. Um exemplo sintomático é Blumenau, cidade que recebeu, ainda no século 19, o patriarca dos Odebrecht, Emil. Mais de 160 anos depois de sua chegada, a cidade agora aparece envolvida na suspeita de que o prefeito Napoleão Bernardes (PSDB) recebeu R$ 500 mil da Odebrecht, via caixa 2, para que a Odebrecht Ambiental, responsável pelo sistema de esgoto do município, fosse beneficiada.

 

Foto em destaque: Itaquerão, em São Paulo, que custou R$ 1 bilhão e foi uma das citadas pelos delatores.