As últimas semanas não foram animadoras para milhões de mulheres americanas. No dia 4 de maio, a Câmara dos Deputados dos EUA aprovou uma reforma do sistema de saúde do país que, se entrar em vigor, retira os direitos conquistados pelas mulheres com a promulgação do Affordable Care Act (ACA), conhecido popularmente como “Obamacare”. A nova reforma também pretende cortar o financiamento público da ONG Planned Parenthood, colocando em risco a saúde de mais de 1 milhão de mulheres que dependem dos programas públicos de saúde.

Embora a reforma ainda esteja longe de entrar em vigor, Donald Trump atacou imediatamente a obrigatoriedade da cobertura de contraceptivos estabelecida pelo ACA, que permitiu que cerca de 55 milhões de mulheres tivessem acesso gratuito a métodos anticoncepcionais.

Como se não bastasse, Trump nomeou dois notórios inimigos do aborto e dos contraceptivos para altos cargos no Departamento de Saúde e Serviços Humanos. Uma delas, Teresa Manning, será a nova diretora de um programa federal que fornece anticoncepcionais a mulheres de baixa renda.

As manobras do governo para restringir os direitos reprodutivos são capitaneadas por ativistas antiaborto como Marjorie Dannenfelser, da organização Susan B. Anthony List, cujo grande objetivo é a proibição da prática.

Com tantos inimigos da liberdade reprodutiva em posições de destaque, poderíamos pensar que o apoio ao aborto legal tem diminuído. Porém, segundo pesquisas, a opinião pública continua defendendo o direito à interrupção da gravidez: 57% dos americanos acham que o aborto deveria ser permitido “em todos ou quase todos os casos”.

Existe, portanto, uma percepção equivocada da questão, reforçada pela influência exagerada de grupos como o de Dannenfelser na elaboração de políticas públicas relativas aos direitos reprodutivos nos últimos anos.

Mas também há outra questão em jogo, levantada por Carol Sanger, professora de Direito da Universidade de Columbia, em seu novo livro: a resistência das mulheres a falar abertamente sobre sua vida reprodutiva – particularmente quando se trata de aborto.

Em About Abortion: Terminating Pregnancy in Twenty-First-Century America (“O aborto: interrupção da gravidez nos EUA do século XXI”, em tradução livre), Sanger argumenta que uma questão íntima – abortar ou não – ficou tão politizada e estigmatizada que as mulheres passaram a sentir a necessidade de mantê-la em segredo para evitar a humilhação pública. Isso permite que pessoas como Dannenfelser assumam o controle da narrativa sobre o aborto, acabando por influenciar a formulação de políticas públicas.

Visto que o número de abortos praticados nos EUA anualmente chega a quase 1 milhão – uma taxa de 15 para cada mil mulheres em idade fértil -, podemos concluir que milhões de mulheres poderiam estar lutando por uma política de saúde reprodutiva mais racional se não se sentissem tão inseguras para falar do assunto.

Com a atual conjuntura política – marcada pelas preocupantes declarações de Donald Trump sobre os direitos das mulheres –, talvez seja mais importante do que nunca despir o aborto da condição de tabu e dar voz às mulheres que o procuram.

No mês passado, entrevistei Sanger sobre seu livro, as relações entre política e o aumento das restrições ao aborto e a questão da privacidade e do segredo no contexto da liberdade reprodutiva.

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Carol Sanger, professora de Direito da Universidade de Columbia

Foto: Alan S. Orling

The Intercept: Uma das coisas fascinantes no seu livro é um argumento exposto com uma franqueza que eu nunca tinha visto: a oposição entre privacidade e segredo. Abortar deveria ser um assunto de saúde privado, como qualquer outra questão íntima, mas essa privacidade acabou possibilitando que os antiabortistas controlassem a narrativa sobre o aborto, confinando-o ao silêncio. Acho que foi esse processo que acabou permitindo a aprovação de sucessivas restrições ao aborto nos EUA.

Carol Sanger: Uma coisa importante é que consideramos o aborto como uma questão privada por diversas razões. É algo que diz respeito ao nosso corpo, ao sexo, à reprodução; é um tratamento médico. As pessoas não gostam de falar publicamente sobre essas coisas. Se eu faço sexo ou passo por uma intervenção médica – mesmo que seja cosmética –, o que os outros têm a ver com isso?

Porém, como eu digo no livro, há uma grande diferença entre não falar sobre isso porque você está no controle da sua própria vida e decidiu que essa era a melhor opção e manter tudo em segredo por medo de ser prejudicada. Essa diferença de motivação me parece fundamental. Se uma mulher decide não falar para respeitar a sua privacidade, tudo bem. Mas quando ela é obrigada a ficar em silêncio para não ser publicamente humilhada por todas essas leis que tentam dissuadi-la, dizendo que abortar é errado, então a situação é outra.

Há duas formas de não exposição. A primeira é a privacidade, que é positiva. Porém, quando você mantém algo em segredo, não porque quer, mas para não ser estigmatizado e perder o emprego, o relacionamento ou o amor dos pais, então é diferente. Não podemos confundir as duas coisas.

TI: Como essa dicotomia entre privacidade e segredo influenciou o diálogo sobre o aborto?

CS: Ela acaba com qualquer diálogo. O silêncio faz parte do segredo. Muita gente pensa que não conhece ninguém que tenha abortado, mas sabemos que cerca de um terço das mulheres vai fazer um aborto até o fim da idade reprodutiva, porque estamos falando de um período muito longo.

Entre 1973 a 2016, milhões de mulheres – inclusive as que hoje já são avós – devem ter abortado alguma vez. E isso sem levar em conta os abortos ilegais. O que é preocupante é ouvir o vice-presidente Mike Pence dizer que vai “jogar o caso ‘Roe x Wade’ nas cinzas da história, que é o lugar dele”. Não posso acreditar que vamos voltar atrás, pois as cinzas da história estão cheias de mulheres que morreram ou ficaram estéreis por culpa dos abortos ilegais.

TI: Você fala sobre a “normalização” do aborto no livro. Parece que a dicotomia privacidade/segredo acaba sendo instrumentalizada pelas poucas mulheres que falam sobre suas experiências.

“About Abortion: Terminating Pregnancy in Twenty-First-Century America”, de Carol Sanger

No Texas, por exemplo, fui a diversas audiências públicas sobre o tema, e havia sempre o mesmo grupo de mulheres falando sobre a experiência terrível que tiveram com o aborto. Não estou dizendo que não tenho pena delas, mas não é bom para o debate ter sempre as mesmas pessoas falando as mesmas coisas. Fica parecendo que a questão tem apenas um lado, o que facilita a aprovação de medidas restritivas. Minha pergunta é: o que significa “normalizar” o aborto?

CS: Ótima pergunta, porque a normalização assume muitas formas. Uma jornalista chamada Lindy West criou o movimento Shout Your Abortion (“grite o seu aborto”, em tradução livre). Ela disse que sabia tudo sobre as amigas; conhecia seus namorados, pais e tudo o mais. Mas ela nunca tinha ouvido falar de um aborto sequer. Então ela começou a incentivar as mulheres a romperem o silêncio.

Mas eu não sou do tipo que grita – sou mais de falar baixinho. Então a minha sugestão é que as pessoas comecem a falar sobre aborto no momento certo, com seus familiares. Durante muito tempo, as mulheres não falavam sobre abortos espontâneos por vergonha. Quem não levasse a gravidez até o fim não era uma mulher de verdade. Havia todo um estigma social. As mulheres se sentiam extremamente isoladas, mas, com o tempo, começaram a falar sobre o assunto e a descobrir que não estavam sozinhas. Era um grande consolo saber que você não era a única que havia perdido o bebê no seu trabalho. Acho que esse é um bom exemplo. O tema foi surgindo aos poucos, e para isso foi preciso coragem.

Também acho que, às vezes, é preciso correr o risco de conversar com alguém que amamos. Eu espero que – e não acho que isso seja nada de exagerado –, se você descobrir que a sua mãe fez um aborto… Será que você vai deixar de amar a própria mãe? Você cortaria os laços com a sua mãe? Acredito que não.

Fui professora na Inglaterra durante muito tempo. Um dia, durante uma aula sobre aborto, os estudantes não entendiam o porquê de tanta controvérsia nos EUA. Uma aluna levantou a mão e disse: “Duas semanas atrás, fui a um hospital público para fazer um aborto, e meus amigos foram comigo para me dar apoio”. Eu pensei: “Nossa, ela disse isso em plena sala de aula!” Mas ninguém na sala pareceu chocado. Esse momento foi muito importante para mim.

Você disse que, no Texas, eram sempre as mesmas mulheres que apareciam nas audiências. Em Dakota do Sul, os deputados criaram uma comissão para tratar do assunto. Foi feito um estudo com 2 mil mulheres, e 99% delas afirmaram que o aborto tinha sido o pior acontecimento de suas vidas e que devia ser proibido. Não duvido da sinceridade dessas 2 mil mulheres, mas deve haver outras mulheres em Dakota do Sul que se sentiram aliviadas por não terem tido que se casar com um canalha, ou por terem tido quatro em vez de cinco filhos. Ou simplesmente porque não era o momento certo de engravidar e elas puderam assumir o controle dessa parte das suas vidas. Ou seja, não é que eu duvide das mulheres que você viu no Texas ou dessas 2 mil de Dakota do Sul. Mas elas são apenas parte da história.

Esse tema pode ser discutido. Você não é obrigado a discuti-lo, mas ele devia ser tratado como qualquer outro assunto íntimo que você gostaria de compartilhar com alguém.

Não se trata de expor ninguém, mas acho que devíamos mudar a forma de falar sobre isso. É por isso que escrevi um capítulo sobre o pai e o feto. Será que dá para deixar de lado a questão de gênero durante 15 páginas? Não podemos tratar isso como uma decisão familiar em vez de um assassinato? Podemos parar de apontar o dedo e chamar de egoístas as mulheres que abortam? Por que não aprendemos alguma coisa?

TI: Gostaria que você explicasse isso um pouco mais, porque eu acho fascinante essa ideia de deixar de lado a questão de gênero. Quem trabalha nessa área sempre ouve coisas como “se os homens engravidassem, isso nem estaria em debate”.

CS: Eu queria saber o que os homens fariam se fossem responsáveis por um feto ou embrião. O mais próximo que cheguei de uma resposta foi no caso dos embriões congelados. Nesses casos, casais usam técnicas de reprodução assistida para engravidar e criar embriões. Infelizmente, depois de alguns anos eles acabam se separando. De certa forma, os embriões congelados que não foram usados também são um bem do casal, e é preciso decidir o que fazer com eles depois do divórcio. Essa questão já foi parar no tribunal diversas vezes.

O caso “Roe x Wade” influenciou algumas causas nesse sentido. Na sentença de 1973, decidiu-se que nenhuma mulher podia ser obrigada a ser mãe contra a vontade. Pela mesma lógica, nenhum homem pode virar pai contra a vontade, então o embrião não pode ser implantado sem o consentimento do homem.

Os casos que estudei se inserem nesse contexto. Descobri que os homens não tinham a menor hesitação na hora de justificar a destruição dos embriões, o que é interessante. Eles diziam coisas como: “Não quero manter nenhuma relação com aquela mulher”. Ou então: “Sou jovem e quero me divertir um pouco antes de ter que sustentar uma família”. Você jamais ouviria uma mulher dizer isso. Uma mulher nunca ia dizer: “Quero abortar para poder curtir a vida”. É algo totalmente inaceitável.

Descobri que os motivos dos homens para destruir os embriões são parecidos com as justificativas das mulheres para abortar. A diferença é que os homens abrem o jogo – e não são chamados de egoístas por isso. “Você vai destruir seus embriões em vez de implantá-los em uma desconhecida ou na sua esposa? Vamos protestar contra esse absurdo!” Não, isso não acontece.

Eu queria descobrir se as pessoas são capazes de compreender por que uma mulher decide interromper a gravidez; se a impressão causada por um homem dizendo “vou mandar descongelar esses embriões porque já tenho quatro filhos e não sei se posso dar conta de cinco” seria tão ruim quanto a de uma mulher justificando um aborto. E parece que não. Um homem que diz isso soa até mais responsável.

Esta entrevista foi editada por uma questão de concisão e clareza.

Tradução: Bernardo Tonasse

Foto no topo da página: médico da ONG Planned Parenthood confirma a gravidez de uma paciente em 6 de fevereiro de 2017. Austin, Texas (Estados Unidos).