Quando Chelsea Manning protagonizou um dos mais importantes vazamentos de dados da História, ficou claro que se tratava de um ato de heroísmo. Foi um caso clássico de peso na consciência: aos 20 anos de idade, ela foi ao Iraque lutar em uma guerra que considerava nobre, apenas para descobrir a tenebrosa realidade, não apenas do conflito, mas da atuação dos Estados Unidos no mundo – crimes de guerra, matanças indiscriminadas, cumplicidade com altos funcionários corruptos e uma sistemática manipulação dos fatos.

Diante dessas descobertas, ela arriscou a própria liberdade para revelar documentos e contar a verdade ao mundo – sem receber nada por isso. Passei anos alardeando a nobreza dos atos de Manning, defendendo que o material vazado era de natureza vital e que o público tinha o direito de conhecer o seu conteúdo.

É difícil negar a importância daquelas revelações. Além de ter divulgado um dos vídeos mais chocantes das últimas décadas – mostrando a matança indiscriminada de civis pelas forças americanas –, o vazamento de Manning é visto como um dos catalisadores da Primavera Árabe até por críticos do WikiLeaks como Bill Keller, editor-executivo do “New York Times”. Mais importante ainda, a revelação da execução de civis iraquianos por militares americanos – que chegaram a pedir um bombardeio aéreo para disfarçar o crime – impediu que o governo iraquiano concedesse imunidade às tropas dos EUA, que o então presidente Obama tentava obter para poder continuar a guerra no país.

“Massacre gravado: exército americano confirma a autenticidade de vídeo arrepiante que mostra a morte de jornalistas”

Embora o caso de Manning tenha sido influenciado pela evolução da percepção pública do WikiLeaks ao longo dos anos, o fato é que ela entrou em contato primeiramente com veículos tradicionais da imprensa como “New York Times”, “Washington Post” e “Politico”, mas foi ignorada. Em uma troca de mensagens online da soldado com um indivíduo que posteriormente se tornaria informante do governo e a delataria, ela disse que tinha feito o vazamento para “provocar discussão, debates e reformas no mundo inteiro”, e acrescentou: “Quero que as pessoas saibam a verdade, não importa quem elas sejam, porque elas precisam estar informadas para tomar decisões.”

Após as revelações, o governo dos EUA – como costuma fazer – afirmou que os vazamentos colocavam vidas em risco, e que a pessoa responsável tinha “as mãos manchadas de sangue”. Porém, segundo avaliações posteriores das agências Associated Press e McClatchy, essas afirmações não têm nenhum fundamento. Até o secretário de defesa Robert Gates ridicularizou a histeria das declarações do governo sobre o suposto perigo dos vazamentos, classificando-as de “bastante exageradas”.

Embora a militar tenha sido menosprezada e ignorada por boa parte dos círculos mais importantes de Washington, ela fez tudo o que se espera de um denunciante. Manning quis provocar o debate e revelar ao público casos de corrupção e crimes que nunca deveriam ser ocultos. E ela fez isso sabendo que poderia ser presa, mas preferiu se deixar guiar pela consciência em vez do próprio bem-estar.

 

No entanto, o heroísmo de Manning é multifacetado e vai muito além da denúncia inicial, por mais corajosa que ela tenha sido. Consequentemente, ela virou fonte de inspiração para diversas pessoas no mundo todo. Atualmente, quase podemos dizer que os vazamentos de 2010 passaram para o segundo plano, e que o impacto de Manning como ser humano tem sido muito mais profundo. Sua bravura e convicção não se resumiram àquele episódio; sua trajetória nesses sete anos de encarceramento está repleta de determinação, dignidade e inspiração.

A prisão de Manning foi notoriamente dura. Em 2010, nos primeiros meses de detenção em uma prisão militar em Quantico, no estado da Virginia, surgiram os primeiros relatos de visitantes sobre as condições abusivas a que ela havia sido submetida: longos períodos confinada na cela sem nenhum contato humano, uma vigilância onipresente e exagerada e outras medidas ainda mais degradantes. Liguei para a prisão para investigar essas afirmações, que, para minha surpresa, foram confirmadas do outro lado da linha, no tom mais natural do mundo.

Assim, escrevi pela primeira vez que Manning estava sendo detida “em condições cruéis e desumanas, que em certos países poderiam até ser consideradas como tortura”. Esse artigo gerou muita controvérsia, que culminou com o pedido de demissão do porta-voz do Departamento de Estado, P.J. Crowley, que descreveu o tratamento reservado a Manning como “ridículo, contraproducente e estúpido da parte do Departamento de Defesa”.

Mas a história de abusos estava apenas começando. Meses depois da publicação do artigo, o “New York Times” revelou que Manning estava sendo sujeita a humilhações como ser obrigada a “ficar nua na cela por sete horas”, inclusive durante inspeções de rotina. Foi nessa época – em 2011 – que apareceu o primeiro relato dizendo que Manning pensava em se suicidar. A Anistia Internacional denunciou suas condições de detenção como “uma violação dos padrões e tratados internacionais por parte dos EUA” e convocou protestos para pedir o fim dos abusos.

Porém, não era nada fácil conquistar o apoio da opinião pública e da imprensa. Boa parte da direita via os autores de vazamentos como traidores e se deleitava com a desgraça da soldado, enquanto muitos liberais leais a Obama chegaram a ridicularizar o sofrimento de Manning. Mas finalmente um relator especial da ONU sobre tortura investigou o caso e concluiu, em 2012, que “o exército americano é culpado, no mínimo, de tratamento cruel e desumano”, e que “impor condições tão severas a um indivíduo que sequer foi julgado é uma violação do direito à integridade física e psicológica, bem como da presunção de inocência”.

Manchete de 12 de março de 2012 do jornal The Guardian: “‘Manning recebeu tratamento cruel e desumano’, afirma relator da ONU”

A polêmica gerada pelo relatório levou o governo de Obama a transferi-la de Quantico para uma base militar em Fort Leavenworth, no Kansas, onde ela aguardaria julgamento. Lá, embora seu tratamento fosse mais profissional e humanizado, o heroísmo de Manning alcançou proporções ainda maiores.

Em julho de 2013, ela foi condenada por “espionagem”, embora tenha sido absolvida da acusação mais grave, equivalente a traição, de “colaborar com o inimigo”. No dia 21 de agosto, ela foi condenada a 35 anos de prisão. No dia seguinte à promulgação da sentença, ela fez uma declaração se identificando como Chelsea Manning, uma mulher transexual, e exigiu das autoridades militares acesso a um tratamento hormonal para completar a mudança de sexo:

“É assim que me sinto desde a infância, e quero fazer uma terapia hormonal o mais rápido possível. Espero que apoiem minha decisão. Também solicito, a partir de hoje, ser tratada pelo meu novo nome e pelo pronome pessoal feminino, exceto nas correspondências oficiais endereçadas ao centro de detenção.”

É difícil imaginar quanta coragem e determinação são necessárias para fazer isso. Menos de 24 horas depois de ser informada de que passaria os próximos 35 anos em uma prisão militar, ela se identificou publicamente como uma mulher transexual e exigiu acesso ao tratamento hormonal ao qual tinha legal e moralmente direito.

Para nos darmos conta da valentia que aquilo exigia, temos que entender a situação dela à época. Em 2015, visitei Manning em Fort Leavenworth. Para chegar até lá, é preciso pegar um avião até Kansas City e depois seguir viagem de carro através dos bosques do Kansas – literalmente no meio do nada. Ao chegar, deparei-me com a grande base militar de Fort Leavenworth, e não foi nada fácil conseguir entrar. Uma vez lá dentro, é preciso seguir de 15 a 20 minutos de carro até o centro de detenção, que por sua vez é um labirinto de grades e medidas de segurança que deve ser atravessado para só então se chegar até Manning, nas entranhas da prisão.

Em outras palavras, era impossível estar mais isolado da sociedade do que Chelsea Manning. Sair do armário como transexual e encarar o processo de mudança de sexo é extremamente difícil, mesmo nas melhores condições. Os transexuais ainda enfrentam muitos problemas na sociedade – inclusive uma epidemia de violência –, mesmo nas cidades mais liberais e com o apoio de pessoas próximas. Agora imaginem o que deve enfrentar uma mulher trans em uma prisão militar no meio do Kansas, onde seu dia-a-dia depende exclusivamente dos carcereiros. É extremamente difícil – e exige extrema coragem.

As dificuldades de Manning na prisão, inclusive as tentativas de suicídio – pelas quais recebeu um castigo absurdo e cruel – foram divulgadas publicamente. Embora a prisão tenha fornecido uma parte da terapia hormonal pedida pela soldado, ela também impôs novas e mesquinhas restrições. Manning não pôde deixar o cabelo crescer e não recebeu todo o apoio que era necessário.

Como eu estava na lista de visitantes admitidos, pude ter longas conversas com ela por telefone ao longo dos anos. A experiência dela com a prisão e a mudança de sexo foi marcada por dificuldades gratuitas causadas por autoridades maldosas ou ignorantes.

Mas o que mais impressiona em Chelsea Manning é a sua perseverança. Em um tom humilde porém determinado, ela insiste em trilhar o que considera ser o caminho certo, mesmo correndo o risco de ser prejudicada. E foi com essa atitude que ela se tornou uma heroína para o movimento LGBT e muitas outras pessoas no mundo, não só por causa dos vazamentos, mas por lutar pelo direito de ser o que é e viver como um ser humano livre, mesmo nas condições mais opressoras.

 

Este artigo não pretende ser imparcial. Para mim, Chelsea Manning é uma boa amiga e uma das grandes heroínas dessa geração. Sua libertação não deixa de ter um sabor amargo. Como esquecer a injustiça que é passar boa parte da juventude sofrendo abusos na cadeia por um ato que na verdade merece a nossa gratidão? Mas é uma grande felicidade saber que ela poderá finalmente viver como uma mulher livre. Estou ansioso para ver tudo o que ela ainda pode realizar agora que finalmente conquistou a liberdade.

“Os primeiros passos em liberdade!”, postou Chelsea Manning em sua conta no Twitter.

No fim das contas, o que faz de Chelsea Manning uma pessoa especial não é tanto seu ato de heroísmo político, e sim a sua maneira de encarar a vida depois dele. Como eu disse em uma carta de apoio ao seu pedido de clemência, ela é um dos indivíduos de maior empatia e compaixão que já conheci. Quando eu falava com Manning, era difícil conter a raiva contra a injustiça que ela sofrera e continuava a sofrer. Mas ela nunca demonstrou o mesmo sentimento, e às vezes até defendia aqueles que a maltratavam, colocando-se na pele deles.

É claro que a transição de volta à vida normal não será fácil. Manning ficou presa dos 22 aos 29 anos de idade. Ela tem consciência de que é uma figura controversa e não sabe o que a vida fora de Fort Leavenworth lhe reserva. Ela terá que se readaptar em vários sentidos.

Mas Manning é uma das pessoas mais inteligentes, contagiantes e inspiradoras que já conheci. Ela tem o apoio e a admiração de pessoas no mundo inteiro, como prova o sucesso da campanha de arrecadação de fundos para ajudá-la a se adaptar à vida fora da prisão. Em todos os lugares por onde passei, a simples menção do nome “Manning” bastava para que as pessoas a aplaudissem de pé. Ela poderá buscar forças em todo o amor e gratidão que recebeu ao redor do mundo para realizar o que quiser.

É raro encontrar inspiração em histórias políticas, principalmente nos últimos tempos. Mas a última década da vida de Chelsea Manning e o potencial dela para o futuro é um desses casos. Não podemos idealizar o que aconteceu com ela; sua história é repleta de injustiças, mágoas e ultrajes. Porém, ela não só serviu de inspiração para muitas pessoas como agora está finalmente livre, e isso é motivo de festa. É um lembrete de que o ser humano, com valores e determinação, é capaz de, sozinho, mudar o mundo para melhor.

Foto do alto da página: um cartaz com a imagem de Chelsea Manning na Parada do Orgulho Gay em San Francisco, em 29 de junho de 2014.

Tradução: Bernardo Tonasse