Se você quiser  derrotar o Estado Islâmico, ouça o ex-refém Nicolas Henin. O grupo é “encorajado por qualquer sinal de reação exagerada, divisão, medo, racismo, xenofobia… [e] atraído por qualquer exemplo de podridão em redes sociais”, escreveu o jornalista francês em novembro de 2015, no início dos ataques em Paris. “Um ponto central em sua visão de mundo é a crença de que outras comunidades não podem conviver com muçulmanos, e todos os dias suas antenas estarão ligadas para encontrar evidências de apoio”.

Entenderam? A islamofobia dá vantagem ao ISIS. Consciente ou inconscientemente, intolerantes antimuçulmanos tornaram-se sargentos de recrutamento para um grupo que dizem odiar e querer destruir. Os islamofóbicos, parafraseando Lenin, são os “idiotas úteis” da ISIS.

Consideremos sua reação à atrocidade terrorista mais recente: o atentado suicida após o show de Ariana Grande, em Manchester, Inglaterra, que matou 22 pessoas, incluindo uma menina de 8 anos nessa segunda-feira (22). O ISIS, que assumiu autoria do terrível ataque, poderia esperar uma melhor resposta dos seus idiotas úteis da direita britânica?

A colunista do MailOnline e apresentadora de rádio Katie Hopkins – podemos chamá-la de Ann Coulter do Reino Unido, mas com um QI muito menor – tem um longo histórico de demonização dos muçulmanos e foi ao Twitter horas depois do atentado exigir uma “solução final” (mais tarde ela deletou seu tweet com requintes nazistas, ao ser denunciada à polícia). Hopkins, que já disse que “o Islã é o problema” porque é uma “religião atrasada”, também twittou que “os homens ocidentais” deveriam: “Levantar-se. Erguer-se. Exigir ações”.

Allison Pearson, colunista do jornal britânico mais vendido, The Daily Telegraph, que no passado descreveu os imigrantes muçulmanos como vindos de  “alguma cultura atrasada”, também se juntou às vozes. “Precisamos de um estado de emergência, assim como a França”, ela twittou em resposta ao massacre de Manchester. “Precisamos prender os milhares de suspeitos de terrorismo agora para proteger nossas crianças”. Inocente até que se prove o contrário? Por favor.

Há, também, Tommy Robinson, ex-líder da Liga de Defesa Inglesa, de extrema-direita (pense em um Richard Spencer britânico; contudo, também, com um menor intelecto e um longo histórico de criminalidade e violência). Robinson chegou a Manchester na terça para acusar moradores britânico-muçulmanos da cidade de serem “combatentes inimigos”. Eles querem “matá-lo, mutilá-lo e destruí-lo”, ele disse aos seus seguidores no YouTube, companheiros intolerantes de extrema-direita.

Pode-se quase ouvi-los celebrando em Raqqa. O ISIS quer colocar lenha na fogueira entre as comunidades muçulmanas e a sociedade ocidental como um todo; quer colocar muçulmanos contra não muçulmanos. Isso também não é segredo: os líderes do grupo o admitiram em suas próprias publicações. Mais de dois anos atrás, em fevereiro de 2015, a revista online do ISIS, Dabiq, tornou claro que um dos principais objetivos dos ataques brutais do grupo no Ocidente foi destruir a “zona cinzenta” — de coexistência pacífica entre muçulmanos e não muçulmanos — e provocar uma reação em massa. “Os muçulmanos no Ocidente rapidamente se verão entre duas opções: ou desertam sua religião e adotam a  religião [infiel]… ou eles… [emigram] para o Estado Islâmico e, assim, escapam da perseguição dos governos e cidadãos cruzados”.

Esse grande plano do ISIS sempre precisou do apoio  (talvez inconsciente) de seus idiotas úteis no Ocidente, os islamofóbicos, cujas retóricas e ações duras ajudam a levar muçulmanos marginalizados e alienados aos braços abertos dos jihadistas.

Os incitadores de ódio anti-muçulmano não estão, obviamente, dispostos a admitir o papel central que desempenham no processo de radicalização. “Os terroristas não estão nem aí para o que eu twitto, escrevo ou digo”, insiste Hopkins em sua coluna no MailOnline no dia seguinte ao atentado em Manchester. “Eles não dão a mínima se nos dividimos ou fingimos estar unidos”.

Antes fosse verdade. Esqueçamos Dabiq. Consideremos, em vez disso, o que Arie Kruglanski, professor de psicologia da Universidade de Maryland que estuda radicalização, disse após os ataques a Paris em novembro de 2015. Um crescente clima de islamofobia é o que o ISIS está “aspirando — provocar comunidades para que cometam ações contra os muçulmanos”, disse ao Washington Post. “Então, o ISIS poderá dizer: ‘Eu avisei. Estes são nossos inimigos, inimigos do Islã’”.

Outro professor de psicologia que estuda os extremistas muçulmanos, Jocelyn Bélanger, da Universidade de Quebec em Montreal, concorda. “Quando as pessoas sentem uma perda de significância — quando são humilhadas —, isso as estimula a se unirem a um grupo radical”, declarou ao The Washington Post.

Os islamofóbicos se veem como porta-vozes politicamente incorretos da verdade; como oponentes audaciosos e contundentes dos radicais e dos extremistas. A realidade é que eles são os cúmplices, os agentes não remunerados daqueles mesmos radicais e extremistas. Todo terrorista precisa de uma Katie Hopkins. É uma das grandes ironias dos nossos tempos — aqueles que bradam mais alto sobre a ameaça representada pelo ISIS são, muitas vezes, os maiores propagandistas da ISIS.

Conforme meu colega Murtaza Hussain observou, é “perverso e contraproducente relacionar [os muçulmanos ocidentais] ao ISIS e os culparem pelas ações do grupo”. Fazer tal coisa é “conceder ao Estado Islâmico um golpe de propaganda, endossando implicitamente a narrativa do grupo de que muçulmanos e ocidentais estão em guerra coletiva uns contra os outros”.

Quando o ISIS alega que representa o Islã “verdadeiro”, descreve a religião islâmica como violenta ou sugere que os muçulmanos ocidentais devem sua lealdade a eles e não ao Ocidente, os islamofóbicos se atropelam para endossar cada um desses pontos. Lamentavelmente, estes últimos não dão a mínima atenção, por exemplo, aos motoristas de táxi muçulmanos que transportaram os sobreviventes para casa da Arena de Manchester gratuitamente, ou aos médicos muçulmanos de hospitais que trabalharam madrugada adentro cuidando dos feridos. O fato de que deve ter havido jovens fãs muçulmanos no show de Ariana Grande em Manchester, na noite de segunda-feira, quando a bomba explodiu, também parece estar além de sua compreensão.

O fato é que o ISIS quer semear divisão e discórdia nas sociedades ocidentais, e seus idiotas úteis no Ocidente estão muito felizes em ajudá-los a fazê-lo. “Coesão, tolerância – não é isso que [o ISIS] quer ver”, aponta o ex-refém Henin, em 2015. “O que eles temem”, ele conclui, “é a união”.

Foto no topo da página: Um policial protege a cena perto do Manchester Arena em 23 de maio de 2017 em Manchester, Inglaterra. Uma explosão ocorreu enquanto o público deixava a arena após uma performance de Ariana Grande.

Tradução: Fernando Fico